CORAES EM SILNCIO

Nicholas Sparks



     Confrontado com situaes de extremo perigo, Taylor McAden, bombeiro voluntrio, expe-se at ao limite do risco. Denise  uma jovem me solteira, cujo filho
de cinco anos sofre de um inexplicvel atraso de desenvolvimento e a quem ela devota a sua vida numa tentativa de o ajudar. Mas o acaso vai aproximar estes seres.
Numa noite de tremendo temporal, Denise sofre um acidente de automvel e  Taylor que vem socorr-la. Embora muito ferida, a jovem depressa toma conscincia de que 
o filho j  no se encontra na sua cadeirinha, no banco de trs. Taylor ir at ao fim de uma angustiante noite de buscas para encontr-lo. Foram tecidas as primeiras 
malhas que os vo ligar - o pequeno Kyle desabrocha ao calor da ternura daquele homem, Denise abandona-se  alegria de um amor nascente. Mas Taylor tem em si cicatrizes 
antigas, que o no deixam manter compromissos de longa durao.
PRLOGO
     Anos depois viria a ser considerada uma das mais violentas tempestades da histria da Carolina do Norte. Porque teve lugar em 1999, alguns dos cidados mais 
supersticiosos achavam-na um mau agouro, o primeiro passo em direo ao fim do mundo. Outros, pura e simplesmente, abanavam a cabea e afirmavam saber que, mais 
tarde ou mais cedo, algo do gnero aconteceria. No seu conjunto, nove tornados, previamente detectados, aproximar-se-iam nessa noite do leste do estado, destruindo 
quase trinta lares  sua passagem. As linhas telefnicas cobriam as estradas, os transformadores eltricos incendiavam-se sem que ningum o pudesse evitar. Milhares 
de rvores haviam sido derrubadas, inundaes desastrosas varriam as margens de trs rios principais e a vida das pessoas alterava-se para sempre com esta investida 
da Me Natureza.Tudo comeara de repente. Num minuto o cu estava carregado de nuvens negras, o que no era invulgar, e no seguinte, relmpagos, ventos ciclnicos 
e chuvas torrenciais desabavam daquele firmamento de principio de Vero. A tempestade desencadeara-se a partir do noroeste e atravessava o estado  velocidade de 
duzentos e quarenta quilmetros por hora. Todas as estaes de rdio, em simultneo, desataram a emitir avisos de emergncia, salientando a violncia da tempestade. 
As pessoas que puderam abrigaram-se dentro de casa, mas outras como Denise Holton, na auto-estrada, no tinham qualquer lugar para onde ir. Agora que ela se encontrava 
precisamente no meio da tormenta, pouco podia fazer. A chuva caia to intensamente que, em alguns stios, o trnsito reduzira a velocidade para oito quilmetros 
horrios, e Denise segurava o volante com tanta fora que os ns dos dedos ficaram brancos, no seu rosto transparecia uma mscara de concentrao. Por vezes era 
at impossvel conseguir ver atravs do pra-brisa, todavia parar podia significar um acidente pela certa, dado o volume de trfego que circulava atrs de si. Os 
condutores no teriam oportunidade de ver o carro dela a tempo de travarem. Libertando o ombro direito, passou a correia do cinto de segurana por cima da cabea 
e inclinou-se sobre o volante, tentando vislumbrar o tracejado da estrada que apenas via de relance de vez em quando. Houve extensos percursos ao longo dos quais 
sentia que conduzia somente por instinto, pois a visibilidade era nula. Como uma onda ocenica, a chuva desabava sobre o pra-brisa semelhante a uma cortina que 
nada deixava ver. Os faris dianteiros pareciam absolutamente inteis, e ela queria parar, mas onde? Onde  que estaria em segurana? Na berma da auto-estrada?  
Pela estrada fora, os outros guinavam para a esquerda e para a direita, to cegos quanto ela. De sbito tomou uma deciso: por qualquer motivo, parecia mais seguro 
continuar a marcha. Os seus olhos saltavam da estrada para os farolins  sua frente e para o retrovisor; tinha esperana que os outros condutores fizessem a mesma 
coisa. Que procurassem um meio que os mantivesse em segurana. Fosse qual fosse esse meio. Ento, to bruscamente como comeara, a tempestade enfraqueceu e foi possvel 
voltar a vislumbrar a estrada.  Suspeitava que tivesse alcanado a seo dianteira do ciclone; aparentemente, todas as outras pessoas pareciam pensar o mesmo. Apesar 
das condies escorregadias do piso, os automveis comearam a aumentar de velocidade, tentando ultrapassar a frente da tempestade. Denise tambm acelerou permanecendo 
junto dos outros. Dez minutos mais tarde a chuva ainda caia, mas tinha amainado, olhou para o indicador da gasolina e sentiu um n no estmago. Sabia que em breve 
teria de parar. No tinha gasolina que chegasse para regressar a casa. Os minutos iam passando. O fluxo do trnsito mantinha-a alerta. Devido  Lua nova, no havia 
muita claridade no cu. Voltou a verificar o painel de instrumentos. A agulha do mostrador da gasolina estava quase no limite da reserva, na zona vermelha. No obstante 
os seus receios em manter-se  frente do temporal, abrandou a velocidade para poupar a gasolina que ainda restava, esperando que fosse suficiente. Tentando continuar 
 frente da tempestade. Os outros carros comearam a ultrapass-la e as surriadas contra os seus limpadores de pra-brisa punham-no a funcionar como doidos. Acelerou 
de novo. Mais dez minutos decorreu antes que ela suspirasse de alivio. De acordo com o letreiro, poderia colocar gasolina a menos de um quilmetro e meio. Ligou 
o pisca-pisca, mudou de mo, apanhou a faixa da direita e deixou a estrada. Parou na primeira estao de servio aberta. Tinha conseguido, mas sabia que a tempestade 
ainda a perseguia. Atingiria esta zona nos quinze minutos subseqentes, se no antes. Dispunha de algum tempo, mas no muito. To rapidamente quanto pde, Denise 
atestou o depsito e ajudou Kyle a saltar do assento do carro. Kyle dava-lhe a mo enquanto se dirigiam  caixa para efetuar o pagamento; tinha insistido em que 
ele a acompanhasse devido ao elevado nmero de veculos na estao de servio. Kyle tinha uma altura abaixo da maaneta da porta e, quando entraram, ela verificou 
que havia uma enorme multido. At parecia que toda a gente que circulava na auto-estrada tinha tido a mesma idia: colocar gasolina enquanto era tempo. Denise tirou 
uma lata de Coca-Cola Diet, a terceira do dia, e depois procurou os refrigerantes na prateleira da parede de trs. Estava a fazer-se tarde, e Kyle adorava beber 
leite antes de adormecer.  Podia ser que, se ela continuasse  frente do temporal, ele dormisse durante todo o caminho de regresso. Na altura em que foi pagar, havia 
cinco pessoas na fila.  Pareciam impacientes e cansadas, como se no conseguissem perceber por que razo havia tanta gente quela hora. De certa forma, dava a impresso 
de que se tinham esquecido da tempestade. Todavia, pelo seu olhar, ela sentia que tal no tinha acontecido. Todas as pessoas dentro da loja estavam nervosas. Despachem-se, 
mostravam as suas expresses, precisamos sair daqui. Denise suspirou. Sentia a tenso no pescoo e rodou os ombros. No ajudou muito. Fechou os olhos, esfregou-os 
e abriu-os de novo. Num dos corredores, atrs de si, ouviu uma me ralhar com o filho mais novo. Denise deu uma mirada por cima do ombro. O rapazinho parecia ter, 
aproximadamente, a idade de Kyle, quatro anos e meio, pouco mais ou menos. A me aparentava estar to ansiosa quanto Denise. A mulher agarrava o brao do filho o 
mais firmemente que podia. A criana batia o p.
     - Mas eu quero os bolos! - choramingava ele.
     A me no se comoveu.
     - J  disse que no. J  comeste porcarias que cheguem por hoje.
     - Mas tu ests a comprar para ti.
     Aps uns momentos, Denise voltou-se para frente. A fila no tinha avanado um passo. O que  que estaria a empatar? Deu uma espreitadela aos que se encontravam 
 sua frente tentando perceber o que se estaria a passar. A empregada da caixa registradora estava completamente baralhada com aquela afluncia de clientes e, ainda 
por cima, parecia que toda a gente  sua frente queria pagar com cartes de crdito. Mais um minuto se arrastou, e a fila encolheu com uma pessoa que efetuara o 
pagamento. Por esta altura a me e a criana puseram-se na fila mesmo atrs de Denise, a discusso ainda continuava. Denise ps a mo no ombro de Kyle. Este, sossegadinho 
ao lado dela, sorvia o leite por uma palhinha. Ela no podia deixar de ouvir aqueles dois atrs de si.
     - Oh me, despacha-te!
     - Se no te calas, ainda apanhas. No h  tempo para isso.
     - Mas tenho fome.
     - Ento devias ter comido o cachorro.
     - No quero cachorros.
     E assim por diante. Os trs clientes  frente de Denise deixaram finalmente a caixa, ela abriu a carteira e pagou em dinheiro. Trazia sempre um carto de crdito 
consigo para as emergncias, mas raramente, seno nunca, o utilizava. Parecia que a empregada ainda tinha mais dificuldade em fazer um troco do que em usar os cartes 
de crdito. Olhava fixamente para os dgitos da registradora, tentando o seu melhor. A discusso entre me e filho continuava sem parar. Finalmente, Denise recebeu 
o troco, o colocou na carteira e guardou-a, depois dirigiu-se para a porta. Sabendo o quo penosa aquela noite estava a ser para toda a gente, sorriu para a me 
atrs de si, como que a dizer: s vezes as crianas so umas pestes, no so?
     Em resposta a mulher arregalou os olhos.
     - Tem sorte, comentou ela.
     Denise olhou-a com curiosidade. - Como disse?
     - Disse que tinha sorte. Apontava-lhe o filho com a cabea.
     - Este aqui nunca se cala.
     Denise olhou para o cho, acenou com os lbios apertados, em seguida voltou-se e saiu da loja. No obstante a tenso provocada pela tempestade, no obstante 
o dia passado ao volante e que parecia no ter fim e do tempo passado no centro de diagnstico, ela s conseguia pensar em Kyle. Ao encaminhar-se para o carro, Denise 
sentiu, de repente, uma necessidade tremenda de chorar.
     - No - sussurrou ela para si prpria - tu  que tens sorte.
CAPTULO I
     Por que motivo  que isto tinha acontecido? Por que motivo, entre tantas crianas, que Kyle era assim? De regresso ao carro, Aps a parada para colocar gasolina, 
Denise entrou na auto-estrada outra vez, mantendo-se na dianteira do temporal. Durante os vinte minutos seguintes a chuva manteve-se constante, mas no ameaadora, 
e ela observava os limpadores de pra-brisa, de um lado para o outro, afastando gua enquanto fazia o percurso de regresso a Edenton, na Carolina do Norte. A Coca-Cola 
Diet estava pousada entre o travo de mo e o assento do condutor, e embora ela soubesse que no era bom para a sade, bebeu o que restava e desejou, imediatamente, 
ter comprado outra. Esperava que a cafena a mantivesse alerta e concentrada na conduo em vez de pensar em Kyle. No entanto, Kyle estava sempre presente. Kyle. 
O que poderia ela dizer? Tinha feito parte dela, tinha ouvido o seu corao bater s doze semanas, tinha sentido os seus movimentos dentro de si durante os ltimos 
cinco meses da gravidez. A seguir o parto, ainda na sala de parto, olhou para ele e no conseguia acreditar que houvesse algo mais belo no mundo. Esse sentimento 
no se alterou, embora ela no fosse, de modo algum, uma me perfeita. Nos tempos que corriam, fazia apenas aquilo que lhe era possvel, aceitando o bom com o mau, 
procurando tirar prazer nas pequenas coisas. Com Kyle, era por vezes difcil encontr-las. Tinha feito o seu melhor para ser paciente com ele ao longo destes quatro 
anos, mas nem sempre fora fcil. Uma vez, quando ele comeava a dar os primeiros passos, ela tapara-lhe, momentaneamente, a boca com a mo para o calar, mas ele 
continuou a chorar por mais de cinco horas depois de ter ficado acordado a noite inteira. Todos os pais cansados, em qualquer lado, podero considerar perdovel 
uma atitude como esta. Depois deste episdio, contudo, fez o melhor que lhe foi possvel para controlar as suas emoes. Cada vez que sentia as suas frustraes 
virem de cima, contava devagarzinho at dez antes de agir; quando este subterfgio no resultava, saia da sala para recuperar o autodomnio. Normalmente isto funcionava, 
mas no deixava de ser, ao mesmo tempo, uma beno e uma maldio. Era uma beno porque reconhecia que a pacincia era necessria para ajud-lo; era uma maldio 
porque a fazia questionar-se sobre as suas capacidades de me. Kyle tinha nascido no dia em que se cumpriam quatro anos sobre a morte da me que morrera com um aneurisma 
cerebral e, embora no fosse dada a acreditar em pressgios, Denise dificilmente podia considerar que se tratasse de uma coincidncia. Kyle, tinha a certeza, era 
uma ddiva de Deus. Kyle, ela sabia, tinha sido enviado para substituir a sua famlia. Se no fosse ele, estaria sozinha no mundo. O pai havia falecido quando ela 
tinha quatro anos, ficara sem parentes, os avs de ambos os lados tinham morrido. Kyle tornara-se de imediato o nico objeto do seu amor. No entanto, o destino  
estranho, o destino  imprevisvel. Apesar de cumular Kyle de atenes, dava a impresso de que no tinha sido o suficiente. Presentemente, levava uma vida com que 
no contara, uma vida em que os progressos dirios de Kyle eram cuidadosamente registrados num dirio. Atualmente, levava uma vida de completa dedicao ao filho. 
Claro que Kyle no se queixava das atividades que realizavam todos os dias. Kyle, ao contrrio das outras crianas, nunca se queixava de nada. Ela olhou pelo espelho 
retrovisor.  Em que  que est a pensar, meu querido? Kyle observava a chuva  medida que batia nas janelas com a cabea voltada para o lado. Trazia um cobertor 
no colo. No dissera uma palavra desde que tinham entrado no carro e voltou-se ao ouvir a voz da me. Esperou pela resposta dele. No houve nenhuma. Denise Holton 
vivia numa casa que pertencera, em tempos, aos avs. Aps a morte deles, ficara para a me e, posteriormente, para si. No era grande coisa: um edifcio em runas 
construdo em trs acres de terreno nos anos vinte. Os dois quartos e a sala de estar no estavam em muito mau estado, mas a cozinha estava precisando urgentemente 
de obras de restauro e o banheiro no tinha chuveiro. Quer na frente quer nas traseiras da casa, os alpendres haviam cedido, e sem a ventoinha porttil que ela fazia 
circular pelas vrias divises sentia, por vezes, que iria morrer assada. Todavia, como ali morava sem ter de pagar renda, era exatamente o que lhe convinha. Era 
a sua casa h  trs meses.   Ficar em Atlanta, a cidade onde crescera, teria sido impossvel. Depois que Kyle nascera, tinha gasto o dinheiro que a me lhe deixara 
para ficar em casa com o filho. Na altura pensara que se trataria de uma licena sem vencimento temporria. Quando ele fosse um pouco mais crescido, planejava voltar 
ao ensino. O dinheiro acabaria por se gastar mais cedo ou mais tarde e ela iria precisar ganhar a vida. Para alm de tudo o mais, ensinar era algo que ela adorava. 
Sentira saudades dos alunos e dos colegas logo na primeira semana de afastamento. Agora, anos depois, continuava em casa com o filho, e o mundo do ensino e da escola 
no passava de uma lembrana vaga e distante, uma coisa mais prxima do sonho do que da realidade. No conseguia lembrar-se de um nico planejamento de aulas nem 
dos nomes dos alunos que ensinara.  Se no fosse verdade, teria jurado que nunca fora professora. A juventude oferece promessas de felicidade, por seu lado a vida 
apresenta a realidade das desgraas. O pai, a me, os avs: todos desaparecidos antes que fizesse os vinte e um anos. Nessa altura da sua vida tinha entrado em cinco 
casas funerrias diferentes apesar de, legalmente, no poder entrar num bar para lavar os desgostos com uma bebida. Havia sofrido mais que o quinho justo de provaes, 
mas parecia que mesmo assim Deus no se detinha.  semelhana das lutas de Job, as suas tambm continuavam.  "Estilo de vida da classe mdia?" J  no. "Amigos com 
quem crescemos?" Temos de nos afastar deles. "Um emprego que d prazer?"  pedir de mais. E Kyle, o rapazinho doce e maravilhoso por quem tudo isto tinha sido feito, 
continuava a ser, em muitos aspectos, um mistrio para ela. Em vez de ensinar, trabalhava no turno da noite de um restaurante chamado Eights, um local muito freqentado 
nos arredores de Edenton. O proprietrio, Ray Toler, era um negro com sessenta e tal anos que geria o estabelecimento h trinta. Ele e a mulher educaram seis filhos, 
tendo todos acabado a faculdade. As cpias dos seus diplomas estavam penduradas na parede do fundo e todos os clientes sabiam a sua histria. Ray esforava-se para 
que assim sucedesse. Tambm gostava de falar sobre Denise. Fora a nica que lhe entregara um currculo quando a entrevistou para o emprego. Ray era um homem que 
entendia a pobreza, que entendia a bondade, que entendia as dificuldades que uma me solteira enfrentava. "Nas traseiras do restaurante h  um quarto pequeno," tinha-lhe 
ele dito quando a contratou. "Pode trazer o seu filho consigo se ele no atrapalhar." As lgrimas vieram-lhe aos olhos quando o homem lhe mostrou o quarto. Havia 
dois beros e uma luz de presena, um lugar onde Kyle podia ficar em segurana. Na noite seguinte, deitou Kyle naquele quartinho quando o seu turno comeou; horas 
depois levou-o ao colo para o carro e regressaram a casa. Desde esse dia que a sua rotina no se alterara. Trabalhava quatro noites por semana, cinco horas em cada 
turno, ganhando apenas o suficiente para sobreviver. H dois anos trocara o seu Honda por um Datsun velho, mas seguro, embolsando o excedente. Este dinheiro, como 
todo o que herdara da me, j h  muito que se gastara. Tinha-se tornado perita em fazer oramentos, tinha-se tornado perita em economizar. Desde o penltimo Natal 
que no comprava roupas novas para si; conquanto a moblia estivesse em bom estado, eram vestgios de uma outra vida. No assinava revistas, no tinha TV cabo, a 
aparelhagem de som era uma velha caixa com antena do tempo da faculdade. O ltimo filme que vira fora A Lista de Schindler. Raramente fazia telefonemas interurbanos 
para os seus amigos.  Tinha duzentos e trinta e oito dlares no banco. O carro tinha dezenove anos com quilmetros suficientes para ter dado a volta ao mundo cinco 
vezes. Todavia, nada disto interessava. Apenas Kyle era importante. E, no entanto, nem uma nica vez ele lhe dissera que a amava. Nas noites em que no trabalhava 
no restaurante, Denise costumava sentar-se na cadeira de balano no alpendre das traseiras com um livro sobre os joelhos. Gostava de ler l  fora onde o incio e 
o fim do cricrilar dos grilos era, de algum modo, um calmante na sua monotonia. A casa estava rodeada de carvalhos, ciprestes e nogueiras, todas as   rvores cobertas 
de barbas-de-velho. Por vezes, quando o luar as atravessava de certa forma, espalhava, sobre o caminho de cascalho, sombras que pareciam animais exticos. Em Atlanta 
ela costumava ler por prazer. Os seus gostos variavam de Steinbeck e Hemingway a Grisham e King. Apesar de este tipo de livros se encontrar disponvel na biblioteca 
local, ela nunca mais os procurou. Em vez disso, sentava-se a um computador, perto da sala de leitura, com acesso gratuito  internet. Investigava os estudos clnicos 
apoiados por importantes universidades, fotocopiando os documentos sempre que se deparava com algum que considerava relevante. Os arquivos que ia guardando tinham 
aumentado quase sete centmetros e meio de altura. No cho, junto  cadeira onde se sentava, havia tambm uma grande variedade de livros sobre psicologia. Foram 
caros e tinham causado srios danos no seu oramento. No entanto, no tinha perdido a esperana e, depois de os encomendar, esperava ansiosamente que chegassem. 
Desta maneira, gostava ela de pensar, podia ser que encontrasse algo que a ajudasse. Quando os recebia, sentava-se horas a fio, digerindo as informaes neles contidas. 
 luz de um candeeiro com boa iluminao, atrs de si, examinava o seu contedo, coisas que ela, por norma, j tinha lido. Ainda assim, no os punha de lado desinteressada. 
Ocasionalmente, tirava notas, outras vezes dobrava simplesmente a pgina e sublinhava algumas frases. Talvez uma ou duas horas houvesse de passar antes que ela fechasse 
o livro e desse por terminada a pesquisa dessa noite. Punha-se em p sacudindo a rigidez das articulaes.     Depois de transportar os livros para a pequena secretria 
da sala de estar, ia ver como estava Kyle e em seguida voltava l para fora. O caminho de gravilha conduzia a uma vereda por entre as  rvores at a uma vedao 
em runas que delimitava a sua propriedade. Ela e o filho costumavam vaguear ao longo dessa passagem durante o dia,  noite percorria-a sozinha. Rudos estranhos 
filtravam-se por todo o lado: de cima, chegava o grito de uma coruja; mais adiante, o farfalhar da vegetao rasteira; dos lados, o roar de uma ave pelos ramos. 
As brisas costeiras agitavam as folhas, um som semelhante ao do oceano; o luar escondia-se para logo surgir de novo. Porm, o caminho era a direito, ela conhecia-o 
bem. Para alm da vedao, a floresta  sua volta agigantava-se. Cresciam os rudos, diminua a luminosidade, mas isso no a impedia de avanar. A escurido tornava-se, 
de algum modo, quase asfixiante. Nesse momento conseguia ouvir gua  correr; o rio Chowan ficava perto. Mais um bosque, uma viragem  direita e, de repente, era 
como se o mundo se abrisse perante os seus olhos. O rio, vasto e lento, tornava-se finalmente visvel.     Poderoso, eterno, to lgubre quanto o tempo. Cruzava 
os braos e fixava-o, contemplava-o deixando que a calma que inspirava lhe lavasse a alma. Apenas por alguns minutos, raramente se demorava uma vez que Kyle estava 
em casa sozinho. Depois suspirava e abandonava o rio sabendo que eram horas de regressar.
CAPTULO 2
     No carro, ainda  frente da tempestade, Denise recordava a visita ao mdico, nesse mesmo dia, sentada no seu gabinete enquanto ele lia o relatrio sobre Kyle. 
Criana do sexo masculino, com quatro anos e oito meses de idade  data dos exames mdicos. Kyle  uma criana bonita sem deficincias fsicas visveis na cabea 
e na zona do rosto. No h registros de traumatismos cranianos...gravidez descrita pela me como normal.     O mdico continuou a ler ao longo dos minutos seguintes, 
descrevendo os resultados especficos dos vrios testes, at que, finalmente, acabou. Apesar de o Q.I. se encontrar dentro dos padres normais, a criana est  profundamente 
atrasada quer ao nvel da linguagem receptiva quer ao nvel da linguagem expressiva, provavelmente, uma pertubao do processo auditivo central, se bem que a causa 
no possa ser determinada... Capacidade lingstica avaliada relativa a uma criana de vinte e quatro meses... Eventuais capacidades lingsticas e de aprendizagem 
desconhecidas a esta data. Mais ou menos como as de uma criana que acaba de comear a andar, no podia ela deixar de pensar. Quando o mdico terminou a leitura, 
ps o relatrio de lado e olhou para Denise com simpatia.
- Por outras palavras, afirmou ele, falando devagar como se ela no tivesse compreendido o que acabara de ler, o Kyle tem problemas de linguagem. Por qualquer razo, 
no sabemos qual, no  capaz de falar nos padres adequados ao seu nvel etrio, conquanto o seu Q.I. seja normal. Nem  capaz de perceber a linguagem equivalente 
s outras crianas de quatro anos.
- Eu sei.
     A convico da sua resposta apanhou-o desprevenido. Parecia a Denise que ele teria esperado uma discusso, uma desculpa ou uma previsvel srie de perguntas. 
Quando se deu conta de que ela no ia dizer mais nada, clareou a garganta.
    - Esta nota aqui se refere a j lhe terem sido feitos testes noutro centro.  Denise acenou com a cabea. 
     -  verdade.
     O mdico vasculhou nos papis.
     - Esses relatrios no se encontram no arquivo dele. No lhes entreguei.
     Ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
     - Por qu?
     Ela pegou na carteira e a colocou no colo enquanto pensava. - Posso ser franca?
     Ele estudou-a uns momentos antes de se reclinar na cadeira.
     - Faa o favor.
     Ela relanceou os olhos pelo filho antes de encarar o mdico outra vez.
     - O problema do Kyle tem sido mal diagnosticado ao longo destes dois ltimos anos. Tudo, desde surdez a autismo, a disfuno de desenvolvimento difuso, a descoordenao 
deficitria da ateno. Com o tempo, nenhuma destas coisas parece ser exata. Compreende o quo difcil  para uma me ouvir semelhantes coisas sobre o filho, acreditar 
nelas meses a fio, investig-las a fundo e acabar por aceit-las antes de lhe dizerem que estavam erradas?
     O mdico no respondeu. Denise olhou-o nos olhos e fixou-os antes de continuar.
     - Sei que o Kyle tem dificuldades de linguagem e, acredite, li tudo sobre problemas do processo auditivo. Com toda a honestidade, provavelmente li tanto quanto 
o senhor sobre este assunto. No obstante, quis que as suas capacidades de linguagem fossem testadas por uma fonte independente para eu poder saber exatamente como 
ajud-lo. No mundo real ele tem de comunicar com mais pessoas para alm de mim.
     - Ento... Nada disto  novidade para si.
     Denise acenou com a cabea.
     - No, no .
     - Esta em algum programa de reabilitao?
     - Trabalho com ele em casa.
     Ele fez uma pausa.
     - Vai a consultas com algum especialista da fala ou de comportamento, algum que j tenha trabalhado com crianas como ele?
     - No. Fez terapia trs vezes por semana durante um ano, mas parece no ter surtido efeito. Ele continuava a estar atrasado, portanto tirei-o em Outubro passado. 
Agora sou s eu.
     - Compreendo.
     Era bvio, pela forma como falou, que no concordava com a deciso dela.
     Ela semicerrou os olhos.
     - Tem de entender: embora este exame mostre que o Kyle se encontra ao nvel dos dois anos, houve uma melhoria relativamente ao seu estado anterior. Antes de 
trabalhar s comigo nunca tinha havido progressos nenhuns.
     Ao conduzir pela auto-estrada, trs horas mais tarde, Denise pensou em Brett Cosgrove, o pai de Kyle. Era o tipo de homem que chamava a ateno, o tipo de homem 
que sempre chamaria a ateno dela: alto e magro com olhos escuros e cabelo cor de bano. Tinha-o encontrado numa festa, rodeado por muita gente, obviamente usada 
para torn-lo o centro das atenes. Ela tinha ento vinte e trs anos, solteira, e no seu segundo ano de ensino. Perguntou  sua amiga Susan quem era ele: foi-lhe 
dito que Brett ia ficar na cidade apenas algumas semanas, viera em servio de uma firma de investimentos bancrios cujo nome Denise h muito esquecera.
     No interessava que fosse de fora. Olhou na sua direo e ele olhou-a tambm, e os olhos de ambos no se desviaram durante os quarenta minutos seguintes at 
que finalmente ele veio ter com ela e cumprimentou-a.
     Quem pode explicar o que se passou a seguir? Hormnios? Solido? A disposio do momento? Fosse como fosse, deixaram a festa um pouco depois das onze, tomaram 
umas bebidas no bar do hotel enquanto se entretinham a contar histrias divertidas, namoriscavam com o pensamento no que podia acontecer em seguida e acabaram na 
cama. Foi a primeira e a ltima vez que ela o viu. Ele regressou a Nova Iorque para a sua rotina diria. Voltando, suspeitava ela nessa altura, para uma namorada 
que se esquecera de referir. E ela retomou a sua vida quotidiana.
     Naquela altura parecia ter sido uma ligao sem grande significado; um ms mais tarde, numa tera-feira de manh, sentada no cho do banheiro, abraada ao vaso 
sanitrio, assumiu um significado muito maior. Dirigiu-se ao mdico que lhe confirmou o que j suspeitava.
     Estava grvida.
     Telefonou a Brett, foi a secretria eletrnica que respondeu e deixou uma mensagem para que ele lhe telefonasse, o que aconteceu, finalmente, trs dias depois. 
Ele escutou-a e a seguir suspirou com um tom de desespero. Ofereceu-se para pagar um aborto. Dado que era catlica, a moa recusou.
     Furioso, perguntou-lhe como  que aquilo tinha acontecido.
"Acho que j sabes a resposta", retorquiu. Perguntou-lhe se tinha a certeza de o beb ser seu. Ela fechou os olhos tentando acalmar-se, no mordendo a isca.     
Sim, era dele.
     Ofereceu-se mais uma vez para lhe pagar o aborto. E, mais uma vez, ela recusou. "O que  que ela queria que ele fizesse?", havia-lhe perguntado. Respondeu que 
no queria nada, s achara que ele devia saber. Se fosse exigir uma penso para a criana, que se desenganasse: ele iria opor-se. Ela afianou-lhe que no esperava 
que o fizesse, porm precisava  saber se estava disposto a acompanhar o desenvolvimento da criana. Conseguia ouvir o som da respirao dele do outro lado da linha. 
No, havia ele decidido por fim. Estava comprometido com outra pessoa.
     No voltou a falar com ele.
     Na verdade, era mais fcil proteger Kyle de um mdico do que dela prpria. Estava, de fato, mais preocupada do que deixava transparecer. No obstante o seu 
filho ter melhorado, a capacidade de falar como uma criana de dois anos no era motivo de regozijo. Kyle faria cinco anos em Outubro.
     Ainda assim, ela recusava-se a desistir, conquanto trabalhar com o filho fosse a coisa mais difcil que jamais fizera. No s desempenhava as tarefas normais 
(fazer a comida, lev-lo ao parque, brincar com ele na sala de estar, mostrar-lhe lugares novos), mas tambm o treinava nos mecanismos da fala durante quatro horas 
por dia, seis dias por semana. Os seus progressos, embora inegveis desde que comeara a trabalhar com ele, dificilmente se consideravam sem espinhos.
     Alguns dias, o menino repetia tudo quanto ela lhe pedia, outros, nem dizia palavra. Alturas havia em que ele compreendia coisas novas com muita facilidade, 
outras em que parecia mais atrasado do que nunca. A maior parte das vezes era capaz de responder a perguntas comeadas por "o qu" e "onde"; mas as perguntas "como" 
e "por que" continuavam incompreensveis. Em termos de dilogo, a corrente de pensamento entre dois indivduos, no passava seno de uma mera hiptese cientifica, 
muito para alm das suas capacidades.
     No dia anterior tinham passado a tarde nas margens do rio Chowan. Ele gostou de observar os barcos cortando gua a caminho da baia Batchelor, e isto permitiu 
uma mudana na sua rotina habitual. Por norma, quando trabalhavam, ele costumava ficar preso a uma cadeira na sala de estar. A cadeira ajudava-o a concentrar-se.
     Ela escolhera um lugar bonito. As nogueiras alinhavam-se ao longo das margens, os fetos eram mais numerosos que os mosquitos. Estavam sentados, s os dois, 
sobre a terra coberta de trevos. Kyle olhava fixamente gua. Denise registrou cuidadosamente no dirio os progressos do filho e terminou rabiscando umas ltimas 
anotaes. Sem levantar os olhos perguntou:
     - Vs alguns barcos, meu amor?
     Kyle no respondeu. Em vez disso, ergueu no ar um pequeno jato, fingindo faz-lo voar. Tinha um olho fechado e o outro fixo no brinquedo que tinha na mo.
     - Kyle, querido, Vs alguns barcos?
     O rapazinho fez um pequeno rudo de acelerao com a garganta, o som da simulao de um motor aumentando a potncia. No estava a prestar ateno  me.
     Ela dirigiu o olhar para gua. No se viam quaisquer barcos. Inclinou-se e tocou-lhe na mo certificando-se de que obtinha a sua ateno.
     - Kyle? Repita: "No vejo barcos nenhuns".
     - Avio. (Vio)
     - Sim,  um avio. Repete: "No vejo barcos nenhuns.
     Ele levantou o brinquedo um pouco mais no ar com um olho ainda posto nele. Aps uns momentos voltou a falar.
     - Avio a jato. (Vio jato)
     - Sim, ests a segurar num avio.
     - Avio a jato. (Vio jato)
     Ela suspirou.
     - Sim, um avio a jato. 
     Ela olhou para o seu rosto to perfeito, to bonito, parecendo to normal. Com um dedo voltou-lhe o rosto na sua direo.
     - Mesmo estando c fora ainda precisamos trabalhar, esta bem?... Tens de repetir o que eu te digo ou voltamos para a sala de estar, para a tua cadeira. No 
 isso que queres, pois no?
     Kyle no gostava da cadeira. Quando estava amarrado, no podia escapar-se, e nenhuma criana, incluindo Kyle, gostava de semelhante coisa. Todavia, o menino 
deslocava o avio para frente e para trs com uma concentrao calculada, mantendo-o alinhado com uma linha do horizonte imaginria.
     Denise voltou a tentar.
     - Diz: "No vejo barcos nenhuns". "Nada".
     Do bolso do casaco tirou um rebuado.
     Kyle viu-o e quis apanh-lo. Ela manteve-o fora do seu alcance.
     - Kyle, diz: "No vejo barcos nenhuns".
     Foi a saca-rolhas, mas as palavras surgiram finalmente. O rapazinho murmurou:
     - No vejo barcos nenhuns. (Num vejo bacos neuns)
     Denise inclinou-se e beijou-o, depois deu-lhe o rebuado.
     -  assim mesmo, querido. Disseste bem! Falas to bem!
     Kyle aceitou o elogio enquanto comia o rebuado, em seguida concentrou-se de novo no brinquedo.
     Denise rabiscou as palavras no seu bloco de notas e continuou a lio. Olhou para cima pensando em algo que ele ainda no tivesse dito naquele dia.
     - Kyle, repete: "O cu  azul".
     Aps uns momentos:
     - Vio.
     De novo no carro, a uns vinte minutos de casa. Percebeu a agitao de Kyle l  atrs, na sua cadeirinha e olhou pelo retrovisor. Os sons em breve se acalmaram, 
e ela teve o cuidado de no fazer barulho enquanto no teve a certeza que ele tinha adormecido outra vez.
     Kyle.
     O dia anterior fora um dia caracterstico da sua rotina com o filho. Um passo em frente, um passo atrs, dois passos para o lado, uma luta constante. Estava 
melhor do que alguma vez tinha estado, contudo ainda continuava muito atrasado.
     Seria capaz de se recuperar algum dia?
     L  fora as nuvens negras cobriam o cu, a chuva caia sem parar. No assento de trs, Kyle estava a sonhar e pestanejava.
     Perguntou-se como seriam os sonhos dele. Seriam isentos de som, como um filme mudo passando na sua cabea, nada mais que imagens de contratorpedeiros e avies 
a jato brilhando no cu? Ou sonharia utilizando as poucas palavras que conhecia?
Ela no sabia. s vezes, sentada na beira da cama enquanto ele dormia, gostava de imaginar que, nos seus sonhos, ele vivia num mundo em que todos o entendiam, em 
que a lngua era uma realidade; no necessariamente o ingls, mas algo que tivesse sentido para ele. Esperava que sonhasse que brincava com outras crianas, crianas 
que lhe respondessem, crianas que no se afastassem porque ele no conseguia falar. Esperava que, nos seus sonhos, fosse feliz. Deus podia ao menos realizar este 
milagre, no podia?
     Agora, conduzindo por uma estrada mais calma, encontrava-se sozinha. Mesmo com Kyle no banco de trs, continuava sozinha. No tinha escolhido este tipo de vida; 
era a nica vida que lhe fora oferecida. Claro que podia ter sido pior, e ela fazia todos os esforos para manter este otimismo. Todavia, a maior parte das vezes, 
no era fcil.
     Estes problemas teriam acontecido se Kyle tivesse tido o pai por perto? No fundo do seu intimo ficava sem certezas, porm no era isso que queria pensar.   
     Uma vez tinha feito essa pergunta a um dos mdicos de Kyle e ele respondera que no sabia. Uma resposta honesta, tal como ela esperava, contudo, isso no impediu 
que tivesse tido insnias durante toda a semana seguinte. Porque o mdico no havia, pura e simplesmente, desfeito a dvida, esta ganhou razes no seu pensamento. 
Teria sido ela, de alguma forma, a responsvel por todos os problemas do filho? Ao fazer este tipo de juzo de valor, outras interrogaes foram surgindo. Se no 
fora a falta do pai, teria sido alguma coisa que fizera durante a gravidez? Teria ingerido uma comida inadequada, descansara o suficiente? Deveria ter tomado mais 
vitaminas? Ou menos vitaminas? Ter-lhe-ia lido histrias suficientes quando era mais novinho? T-lo-ia ignorado quando ele mais precisara dela? As eventuais respostas 
a estas perguntas provocavam uma ponderao dolorosa e s com uma desmedida fora de vontade conseguia afast-las do pensamento. No entanto, algumas vezes durante 
a noite, estas dvidas assaltavam-na de novo. Tal como o kudzu que se espalha pela floresta, tornava-se impossvel ficar-lhes imune.
     Teria ela, de algum modo, alguma culpa em toda esta situao?
     Em momentos como estes, ela costumava esgueirar-se para o vestbulo e dirigir-se ao quarto do filho para o observar enquanto dormia. Dormia com um cobertor 
branco enrolado  cabea e agarrado a alguns brinquedos. Fitava-o e sentia o sofrimento invadir-lhe o corao, no entanto sentia tambm um pouco de felicidade. Uma 
vez, quando ainda vivia em Atlanta, algum lhe havia perguntado se teria dado  luz aquele beb se soubesse o que a ambos estava reservado. "Claro," respondera ela 
rapidamente, tal como seria de esperar. E, l no fundo, tinha essa certeza. Apesar dos seus problemas, ela olhava o filho como uma beno. Ao pensar em funo dos 
prs e dos contras, a lista de vantagens era no s mais comprida como tambm mais significativa.
     Porm, devido aos seus problemas, ela no s o amava como sentia, simultaneamente, a necessidade de o proteger. Alturas havia, a cada dia, em que queria correr 
em seu auxlio, desculp-lo, fazer com que os outros compreendessem que, se bem que ele parecesse normal, existia uma disfuno no seu crebro. A maior parte das 
vezes, contudo, no o fazia.
     Decidiu deixar que os outros fizessem os seus prprios juzos de valor sobre Kyle. Se no conseguissem entender, se no lhe dessem uma oportunidade, ento quem 
perdia eram eles. No obstante todas as suas dificuldades, Kyle era uma criana encantadora. No magoava as outras crianas; nunca lhes batia ou gritava, nem as 
beliscava, nunca lhes tirava os brinquedos, partilhava os seus mesmo quando no era da sua vontade. Era uma criana meiga, a mais meiga que ela jamais conhecera, 
e quando ele sorria... oh Deus, era to bonito. Ela sorria-lhe tambm, e ele continuava a sorrir e, por uma frao de segundo, pensava que tudo estava bem. Dizia-lhe 
que o amava e o sorriso rasgava-se mais, porm, como no conseguia falar de forma perceptvel, ela tinha a sensao que s ela por vezes reparava o quo maravilhoso 
ele era de fato. Por seu turno, Kyle sentava-se sozinho na areia a brincar com os seus caminhes, completamente ignorado pelas outras crianas.
     Ela estava sempre preocupada com ele e, embora as outras mes se preocupassem com os filhos, sabia que no era o mesmo tipo de preocupao. Por vezes desejava 
conhecer algum que tivesse um filho como Kyle. Pelo menos assim, algum poderia compreend-la. Pelo menos, teria algum com quem conversar, com quem pudesse fazer 
comparaes, que lhe oferecesse um ombro quando precisasse de chorar. Ser que as outras mes acordavam de manh a pensar se os seus filhos alguma vez teriam amigos? 
Um amigo qualquer? Algum dia? Ser  que as outras mes pensavam se os seus filhos freqentariam escolas normais ou praticariam desportos ou iriam ao baile de finalistas? 
Ser que as outras mes notariam os seus filhos ostracizados, no apenas por outras crianas, mas tambm pelos respectivos pais? Teriam elas preocupaes em todos 
os minutos de cada dia, aparentemente sem um fim  vista?
     Os seus pensamentos voltavam-se para estes aspectos familiares enquanto ela conduzia o velho Datsun por estradas agora conhecidas. Estava a dez minutos de casa. 
Depois da curva seguinte, atravessaria a ponte em direo a Edenton e voltaria  esquerda para a Estrada Charity. Mais cerca de quilmetro e meio, e chegaria a casa. 
A chuva continuava a cair e o asfalto estava escuro e brilhante. Os faris cintilavam na distncia, refletindo a chuva, como diamantes caindo do cu noturno. Conduzia 
atravs de um pntano sem nome, um de entre as dzias que existiam nas terras mais baixas e alimentados pelas guas do estreito Albemarle. Poucas eram as pessoas 
que ali viviam, e essas raramente se viam. 
    No havia mais carros na estrada. Ao fazer a curva a cerca de noventa quilmetros horrios, viu-a no meio da estrada a menos de trezentos e sessenta metros. 
Uma cora adulta, em frente aos faris que se aproximavam. Gelou pela incerteza.
     Ia demasiado depressa para parar, todavia o instinto prevaleceu e Denise travou a fundo. Ouviu os pneus chiarem, sentiu-os perderem a aderncia na superfcie 
escorregadia da estrada, sentiu a fora da inrcia arrastando o carro para  frente. Porm, a cora no se mexeu. Denise conseguiu ver-lhe os olhos, dois berlindes 
amarelos cintilando na escurido. Ia chocar com ela. Denise deu-se conta de que gritava ao guinar violentamente o volante, os pneus da frente deslizavam conquanto 
reagissem um pouco. O carro comeou a escorregar em diagonal pela estrada e no bateu no animal por uma unha negra. Tambm j no importava. A cora saiu do transe 
e deitou-se a correr a salvo, sem olhar para trs.
     Todavia, a guinada do volante tinha sido de mais para o carro. Sentiu as rodas sarem do asfalto, sentiu o estrpito enquanto o carro batia no solo de novo. 
Os velhos amortecedores gemeram violentamente com a pancada, como um trampolim estragado. Os ciprestes estavam alinhados a menos de um metro da estrada.
     Impetuosamente, Denise voltou a girar o volante, contudo o carro projetou-se para a frente como se ela nada tivesse feito. Arregalou os olhos e respirou fundo. 
Era como se tudo se movesse em cmara lenta, depois a toda a velocidade e de novo em cmara lenta. As conseqncias, apercebeu-se ela de repente, tinham passado, 
embora esta percepo durasse apenas uma frao de segundo. Nesse momento chocou com uma rvore; ouviu a chapa amachucar-se e os vidros estilhaarem-se enquanto 
a parte da frente do carro rebentava em direo a ela. Como trazia o cinto de segurana atravessado no colo e no por cima do ombro, a sua cabea foi arremessada 
para  frente de encontro ao volante. Uma dor aguda e brutal atingiu-lhe a testa...
     Em seguida, desapareceu tudo.
CAPTULO 3
     - Ei, minha senhora, est bem?
     Com o som da voz do estranho, o mundo regressou lenta, vagamente, como se nadasse em direo  superfcie de um lago lodoso. Denise no sentia dores, mas a 
boca tinha o sabor acre e salgado do sangue. Ainda no tomara conscincia do que acontecera e dirigiu, distrada, a mo  testa enquanto lutava para se obrigar a 
abrir os olhos.
     - No se mexa... Vou chamar uma ambulncia...
     Mal prestou ateno s palavras; nada significavam para ela. Estava tudo embaado, aparecendo e desaparecendo, inclusive os rudos. Muito devagar, instintivamente, 
voltou a cabea para a figura esbatida que surgia pelo canto dos olhos.
     Um homem... de cabelo escuro... de gabardina amarela... afastando-se...
     O vidro da janela estava estilhaado, e ela deu-se conta da chuva empurrada pelo vento para dentro do carro. Da escurido da noite ouvia-se um silvo, o fumo 
escapava-se do radiador. Lentamente recuperava a viso, as imagens mais prximas. No seu colo, em cima das calas, encontravam-se estilhaos de vidro...  sua frente, 
no volante, havia sangue...
     Tanto sangue...
     Nada fazia sentido. Pela sua mente perpassavam imagens estranhas, umas a seguir s outras...
     Fechou os olhos e, pela primeira vez, sentiu dores... abriu-os. Tentava concentrar-se. O volante... o carro... estava no carro... l  fora estava escuro...
     - Oh meu Deus!
     De repente, tudo lhe veio  memria. A curva... a cora... a manobra que no conseguiu controlar. Voltou-se no assento. Olhando de esguelha, com o sangue nos 
olhos, concentrou-se no banco traseiro: Kyle no estava no carro. A sua cadeirinha tinha os fechos desapertados e a porta de trs, do lado em que era transportado, 
estava aberta.
     - Kyle?
     Pela janela gritou para o vulto que a tinha despertado... se  que tinha existido algum vulto. No tinha a certeza de ter sido uma mera alucinao.
     Mas l estava ele, e voltou-se. Denise pestanejou... ele dirigia-se para ela. Um gemido escapou-se dos seus lbios.
     Muito depois lembrava-se que no se tinha assustado logo, no como achava que devia ter-se assustado. Sabia que Kyle estava bem; nem sequer lhe passou pela 
cabea que assim no fosse. As alas da cadeira tinham sido apertadas, tinha a certeza, e no havia estragos no banco de trs. A porta traseira j estava aberta... 
mesmo naquele estado de aturdimento, tinha a certeza de que a pessoa, fosse ela quem fosse, tinha ajudado Kyle a sair do carro. Neste momento o vulto tinha chegado 
 janela.
     - Oua, no tente falar.Esta bastante ferida. Chamo-me Taylor McAden e sou bombeiro. Tenho um rdio no meu carro. Vou ajud-la.
     Ela rodou a cabea, tentando fix-lo com um olhar indistinto. Fazia o melhor que podia para se concentrar, para se exprimir o mais claramente possvel.
     - O meu filho est consigo, no est?
     Sabia qual ia ser a resposta, a que tinha de ser.
     Contudo, estranhamente, no houve resposta. Por seu turno, o homem parecia precisar de mais tempo para interiorizar as palavras, tal como era necessrio para 
Kyle. A sua boca contorceu-se ligeiramente, quase preguiosamente, e depois abanou a cabea.
     - Mesmo agora cheguei aqui... O seu filho?
     Foi nesse preciso momento, ao fixar os olhos dele e imaginando o pior, que o primeiro choque de pnico a percorreu. Como uma onda que comeava a agigantar-se, 
ela sentiu afundar-se nela, tal como acontecera quando tivera conhecimento da morte da me.
     Os  relmpagos rasgaram o cu de novo e, logo de seguida, ouviram-se os troves. A chuva era intensa e o homem limpou a testa com as costas da mo.
     - O meu filho vinha l atrs! No o viu? As palavras eram pronunciadas com clareza, suficientemente vigorosas para sobressaltar o homem, para despertar nela 
os seus ltimos sentidos adormecidos.
     - No sei. Com a sbita btega, ele no tinha percebido o que ela tentava dizer-lhe.
     Denise esforava-se por sair do carro, porm o cinto de segurana em volta do colo mantinha-a presa. Desapertou-o rapidamente, ignorando as dores do pulso e 
do cotovelo.
     Involuntariamente, o homem recuou um passo enquanto Denise empurrava a porta com o ombro, dado que ficara machucada com o choque. Os seus joelhos estavam inchados 
pelo embate no painel da frente e quase perdeu o equilbrio quando se ps em p.
     - No acho que deva fazer movimentos...
     Segurando-se ao carro para se apoiar, ignorou o homem enquanto contornava o carro em direo ao lado oposto, onde a porta de Kyle estava aberta.
     - Kyle!
     Sem acreditar no que via, inclinou-se para dentro do carro  procura dele. Os seus olhos perscrutaram o cho, de novo o assento, como se ele pudesse, por um 
passe de mgica, aparecer outra vez. O sangue escorreu-lhe pela cabea, acompanhando uma dor excruciante que ela ignorou.
     - Onde  que ests? Kyle...
     - Minha senhora... O bombeiro seguiu-a  volta do carro, aparentemente na dvida sobre o que fazer, ou o que se estava a passar, ou o motivo por que esta senhora, 
coberta de sangue, ficara subitamente to agitada.
     Ela interceptou-o puxando-lhe o brao, fixando-lhe diretamente os olhos.
     - No o viu? Um menino... de cabelo castanho? As palavras transmitiam um pnico genuno. Estava no carro comigo!
     - No, eu...
     - Tem de me ajudar a encontr-lo! S tem quatro anos!
     Rodava sobre si mesma, quase perdendo o equilbrio com a velocidade com que o fazia. Apoiou-se de novo no carro. A capacidade de viso desvanecia-se, e tudo 
ficava escuro enquanto ela lutava para se libertar da vertigem. O grito saiu apesar do redemoinho que era a sua mente.
     -Kyle!
     Agora estava aterrorizada.
     Tentava concentrar-se... fechava um olho para obter uma imagem mais ntida... conseguindo, mais uma vez, melhor visibilidade. A tempestade tinha alcanado o 
auge da impetuosidade. No se conseguia ver as rvores, a menos de seis metros, devido  intensidade da chuva. Nessa direo a escurido era total... apenas se divisava 
o caminho para a estrada.
     - Oh meu Deus!  A estrada...
     Sentia os ps escorregarem na relva ensopada e cheia de lama, sentia a respirao entrecortada, com arquejos rpidos,  medida que cambaleava em direo  estrada. 
Caiu uma vez, levantou-se e continuou a caminhar. O homem, quando finalmente compreendeu, correu atrs dela, agarrando-a antes que chegasse  estrada. Com os olhos 
vasculhou toda a zona  sua volta.
     - No o vejo...
     - Kyle! gritou ela a plenos pulmes, ao mesmo tempo que rezava em silncio. No obstante encontrar-se encharcada at aos ossos pelo temporal, o grito precipitou 
Taylor a empregar outras medidas.
     Afastaram-se em direes opostas, ambos gritando pelo nome do menino, ambos parando ocasionalmente para ver se escutavam algum rudo. A chuva, no entanto, era 
ensurdecedora.
     Aps alguns minutos, Taylor retrocedeu at seu carro e telefonou para o quartel dos bombeiros.
     As duas vozes, a de Denise e a de Taylor, eram os nicos sons humanos naquele pntano. A chuva impossibilitava-os de se ouvirem um ao outro, quanto mais a uma 
criana, todavia, fosse como fosse, continuaram. A voz de Denise cortava pungente a noite, era o grito desesperado de uma me. Taylor afastou-se a passos largos, 
berrando o nome de Kyle vezes sem conta, correndo noventa metros para cima e para baixo ao longo da estrada, tomado pelo mesmo medo de Denise. Finalmente, chegaram 
mais outros dois bombeiros com lanternas de mo. Ao olharem para Denise com os cabelos emaranhados e cobertos com cogulos de sangue e com a blusa manchada de vermelho, 
o mais velho recuou por uns instantes antes de tentar, sem sucesso, acalm-la.
     - Tem de me ajudar a encontrar o meu filhinho! soluou Denise.
     Foi enviado mais um pedido de ajuda e mais algumas pessoas chegaram passados uns minutos. Eram seis as pessoas agora envolvidas nas buscas.
     O temporal rugia furiosamente.  relmpagos, troves... fortes rajadas de vento, suficientes para dobrarem os exploradores em dois.
     Foi Taylor quem encontrou o cobertor de Kyle, estava no pntano a cerca de quarenta e cinco metros do lugar onde Denise colidira com a rvore, e rasgado pela 
vegetao rasteira que cobria a zona.
     - Isto  dele? perguntou ele.
     Denise desatou a chorar mal ele lhe entregou.
     Porm, ao cabo de meia hora de buscas, ainda no havia sinais de Kyle.
CAPTULO 4
     Para Denise, nada fazia sentido. Num minuto, o filho dormia profundamente no banco de trs do carro e, no minuto seguinte, tinha desaparecido. Sem mais nem 
menos. Sem qualquer aviso, apenas numa deciso de uma frao de segundo, de guinar rapidamente o volante, e nada seria o mesmo outra vez.
     Era a isto que a vida se reduzia?
     Sentada na traseira da ambulncia, com as portas abertas, enquanto as luzes azuis intermitentes do carro dos bombeiros iluminavam a estrada em movimentos regulares 
e circulares, Denise esperava com o pensamento voltado para estes aspectos. Meia dzia de outros veculos estavam estacionados ao acaso, enquanto um grupo de homens 
com gabardinas amarelas discutia a forma de agir. Embora fosse bvio que trabalhavam em conjunto, ela no conseguia distinguir quem comandava as operaes. Nem to 
pouco sabia o que estavam a dizer; as palavras perdiam-se no troar ensurdecedor do temporal. A chuva caia em pesadas btegas, imitando o som de um comboio de mercadorias.
     Ela tinha frio e ainda estava com tonturas, incapaz de se concentrar por mais de alguns segundos de cada vez. Perdera o equilbrio, havia cado trs vezes enquanto 
procurava Kyle, tinha as roupas encharcadas e enlameadas, coladas ao corpo.
     Quando a ambulncia chegou, obrigaram-na a interromper as buscas. Embrulharam-na num cobertor e deram-lhe uma chvena de caf que estava pousada a seu lado. 
No conseguia beb-lo, no conseguia fazer praticamente nada. Tremia como varas verdes e a viso continuava turva. Os seus membros enregelados pareciam pertencer 
a outra pessoa.
     O paramdico da ambulncia, conquanto no fosse um mdico, suspeitava de um traumatismo e queria lev-la dali de imediato. Ela recusou peremptoriamente. No 
sairia dali enquanto Kyle no fosse encontrado. O paramdico afirmou que  poderiam esperar mais uns dez minutos, mas que depois no havia alternativa. O golpe na 
cabea era profundo e continuava a sangrar apesar da ligadura. Alertou toda a gente que ela podia perder a conscincia se esperassem mais.
     - No saio daqui, repetia ela.
     Entretanto, tinha chegado mais ajuda. Uma ambulncia, um militar que tinha estado no controle do rdio, mais trs voluntrios do quartel dos bombeiros, um motorista 
de caminho que, ao ver o aparato, tambm parou, chegaram todos com poucos minutos de intervalo. Estavam em p, formando uma espcie de crculo, no meio dos carros 
e dos caminhes que mantinham os faris acesos.
     O homem que a encontrara (Taylor?) estava de costas para ela.
     Suspeitava de que estava a inform-los do que sabia, o que no era muito, para alm da localizao do cobertor. Pouco depois, voltou-se e olhou-a com o rosto 
sombrio. O militar, um homem atarracado, meio calvo, acenou com a cabea na direo dela.
     Depois de gesticularem para os outros pedindo-lhes que no sassem do grupo, Taylor e ele encaminharam-se para a ambulncia. O uniforme (que no passado sempre 
parecera inspirar confiana) nada podia fazer agora por ela. Eram homens, apenas homens, nada mais. Ela reprimiu a vontade de vomitar.
     Conservava no colo o cobertor de Kyle manchado de lama e ia-o afagando com as mos, ora enrolando-o como uma bola, ora desenrolando-o. Embora a ambulncia a 
resguardasse da chuva, o vento soprava forte e ela continuava a tremer. No parara de tremer desde que a tinham embrulhado num cobertor. Estava tanto frio...
     E Kyle perdido algures sem um casaco sequer.
     - Oh, Kyle.
     Levou o cobertor de Kyle ao rosto e fechou os olhos.
     - Onde  que ests. meu querido. Por que  que saste do carro? Por que  que no ficaste com a mame?
     Taylor e o militar entraram na ambulncia e trocaram olhares antes de Taylor pousar, gentilmente, a mo no ombro dela.
     - Sei que  difcil, mas temos de lhe fazer algumas perguntas antes de comearmos. No demora nada.
     Ela mordeu os lbios antes de fazer um ligeiro aceno de cabea em sinal de aquiescncia, em seguida respirou fundo.
     Abriu os olhos.
     O militar parecia mais novo ali ao p do que  distncia, porm os seus olhos eram meigos. Acocorou-se  frente dela.
     - Sou o sargento CarI Huddle do Departamento Militar apresentou-se ele com a voz cantante do Sul. Sei que est preocupada, e ns tambm estamos. A maior parte 
de ns somos pais, com filhos pequenos. Queremos tanto encontrar o seu filho quanto a senhora, mas precisamos de algumas informaes de carter geral, as necessrias 
para sabermos quem procuramos.
     Denise mal tomara conscincia do que lhe havia sido dito.
     - So capazes de o encontrar com este temporal... quero dizer, antes de...?
     Os olhos de Denise vagueavam de um homem para o outro, apresentando dificuldade em focar qualquer deles. Quando o sargento Huddle no deu resposta imediata, 
Taylor McAden assentiu com a cabea, com uma determinao visvel.
     - Havemos de encontr-lo, prometo.
     Huddle relanceou Taylor com um olhar de dvida, antes de, finalmente, anuir tambm. Mudou de posio pondo um joelho no cho, visivelmente desconfortvel.
     Suspirando profundamente, Denise soergueu-se um pouco, esforando-se ao mximo por manter uma certa compostura. O seu rosto, limpo pelo paramdico da ambulncia, 
estava branco como uma toalha de mesa. A ligadura enrolada em volta da cabea tinha uma enorme mancha vermelha, mesmo por cima do olho direito. As faces apresentavam-se 
inchadas e feridas.
     Quando ela se achou em condies, os homens passaram s questes essenciais para o relatrio: nomes, moradas, nmeros de telefone, emprego, residncia anterior, 
quando se havia mudado para Edenton, que motivo a levara a conduzir naquela altura, a parada na estao de servio para colocar gasolina continuando  frente do 
temporal, a cora no meio da estrada, a perda de controle do carro, o acidente propriamente dito. O sargento Huddle tomou nota de tudo num bloco de apontamentos.
     Quando terminou, olhou para ela quase esperanadamente.
     -  parente de J. B. Anderson?
     John Brian Anderson fora o seu av materno, e ela assentiu.
     O sargento Huddle clareou a garganta; como toda a gente em Edenton, tinha conhecido os Anderson. Olhou para o bloco outra vez.
     - O Taylor disse que Kyle tem quatro anos? Denise acenou afirmativamente.
     - Faz cinco em Outubro.
     - Pode fazer-me a descrio dele, algo que eu possa comunicar pelo rdio?
     - Pelo rdio?
     O sargento Huddle respondeu pacientemente.
     - Sim, vou transmitir  rede de emergncias da polcia para que outros departamentos obtenham as informaes. No caso de algum o encontrar, leva-o consigo 
e telefona  polcia. Ou, se por qualquer acaso, ele rondar a casa de algum, essa pessoa possa telefonar para a polcia. Coisas do gnero.
     Denise desviou o rosto, tentando ordenar os pensamentos.
     - Hum... demorou alguns segundos antes de falar. Quem  que pode descrever os filhos com toda a preciso, como se fossem nmeros? No sei... um metro e dez, 
mais ou menos vinte quilos. Cabelo castanho, olhos verdes... como um menino da idade dele. Nem muito grande nem muito pequeno.
     - Alguns traos caractersticos? Um sinal de nascena, coisas deste gnero?
     Ela repetia a pergunta a si mesma, Porm tudo parecia to incoerente, to irreal, to completamente insondvel. Para que precisavam eles disto tudo? Um garotinho 
perdido no pntano... quantos poderiam existir numa noite como aquela?
     - Deviam andar  procura dele em vez de estarem  aqui a falar comigo.
     - A pergunta... qual era a pergunta? Ah, sim, traos especficos... Concentrou-se o melhor que podia na esperana de que acabasse com aquilo o mais depressa 
possvel.
     - Tem dois sinais no rosto, um maior do que o outro, referiu ela finalmente. No tem outros sinais de nascena.
     O sargento Huddle tomou nota desta indicao fixando os olhos no bloco.
     - E ele seria capaz de sair da cadeirinha do carro e abrir a porta?
     - Sim. J faz isso h uns meses a esta parte.
     O militar assentiu. A sua filha de cinco anos, Campbell, tambm sabia fazer a mesma coisa.
     - Lembra-se do que  que ele trazia vestido?
     Ela fechou os olhos, pensava.
     - Uma camisa vermelha com um grande rato Mickey  frente.
O Mickey est a piscar um olho e uma das mos faz um sinal com o polegar para cima. E jeans, com elstico na cintura, sem cinto.
     Houve uma troca de olhares entre os dois homens. Roupas escuras.
     - De mangas compridas?
     - No.
     - Sapatos?
     - Acho que sim. No lhes descalcei, portanto presumo que ainda os tenha calados. Sapatos brancos, no me lembro da marca. Qualquer coisa Wal-Mart.
     - E casaco?
     - No. No lhe trouxe nenhum. Hoje o dia estava quente, pelo menos quando comeamos a viagem.
      medida que o interrogatrio prosseguia, os relmpagos, trs de seguida, explodiram no cu escuro da noite. Parecia que a chuva ainda era mais intensa, se 
tal fosse possvel.
     O sargento Huddle elevou a voz de modo a fazer-se ouvir sobre a chuva torrencial.
     - Ainda tem famlia nesta zona? Pais? Irmos?
     - No. No tenho irmos. Os meus pais j faleceram.
     - E o seu marido?
     Denise abanou a cabea.
     - Nunca fui casada.
     - O seu filho j tinha se perdido antes?
     Denise esfregou as tmporas, tentando afastar as tonturas.
     - Algumas vezes. Uma vez, no centro comercial e outra, perto de casa. Mas ele tem medo de relmpagos. Acho que pode ter sido por isso que ele abandonou o carro. 
Sempre que h  relmpagos, mete-se na minha cama comigo.
     - E em relao ao pntano? Acha que teria medo de ir para l no escuro? Ou acha que ficaria perto do carro?
     Abriu-se um buraco no estmago. O medo clarificou-lhe a mente por alguns momentos.
     - O Kyle no tem medo de estar aqui fora, mesmo  noite.
Adora vaguear pelos bosques junto  nossa casa. No acho que saiba o suficiente para ter medo.
     - Portanto, ele podia muito bem...
     - No sei... talvez, interrompeu ela desesperada.
     O sargento Huddle fez uma pequena pausa, no querendo obrig-la a esforar-se demasiado. Por fim, inquiriu:
     - Lembra-se que horas eram quando viu a cora?
     Denise encolheu os ombros sentindo-se impotente e fraca.
     - Tambm no sei... talvez umas nove e um quarto. No olhei para o relgio.
     Instintivamente, os dois homens deram uma vista de olhos aos seus. Taylor tinha encontrado o carro s 9:31 horas.
     Tinha dado o alarme menos de cinco minutos depois. Eram ento 10:22 horas. Mais de uma hora, pelo menos, tinha passado desde que se dera o acidente. Quer o 
sargento Huddle quer Taylor sabiam que deviam arranjar uma estratgia coordenada e comear as buscas de imediato. Apesar da temperatura relativamente amena, umas 
horas debaixo daquela chuva sem roupas apropriadas, podiam conduzir a uma hipotermia.
     O que nenhum deles referiu a Denise foi o perigo do prprio pntano. No era lugar para ningum, sobretudo com um temporal daqueles, quanto mais para uma criana. 
Uma pessoa podia, na verdadeira acepo da palavra, desaparecer para sempre.
     O sargento Huddle fechou o bloco de apontamentos com um estalido. Todos os minutos eram preciosos.
     - Continuamos a conversar mais tarde, se no se importar, Miss Holton. Precisamos de mais elementos para o relatrio, mas dar incio s buscas,  neste momento, 
o mais importante.
     Denise anuiu.
     - H mais alguma coisa que devamos saber? Talvez um diminutivo? Algo a que ele responda?
     - No, s Kyle. Mas...
     Foi nesse preciso momento que se fez luz no seu esprito... o bvio. O pior tipo de esclarecimento, algo que o militar nunca teria pensado perguntar.
     - Oh Deus...
     - Fez-lhe um n na garganta.  Oh, no... Oh, no...
     Por que  que ela no se referiu a isso antes? Por que  que no lhe disse logo quando saiu do carro? Quando Kyle ainda podia estar por perto... quando o podiam 
ter encontrado antes de se afastar para longe? Ele podia estar mesmo ali ao lado...
     - Miss Holton?
     De repente parecia que tudo tinha desabado sobre ela: o choque, o medo, a raiva, a rejeio...
     - Ele no  capaz de lhes responder!
     Ela enterrou a cara nas mos.
     - Ele no  capaz de responder!
     - Miss Holton? Ouviu repetir. 
     - Oh Deus, Por qu?
     Aps o que pareceu uma eternidade, limpou as lgrimas, incapaz de os olhar nos olhos. Devia t-los avisado h mais tempo.
     - Kyle no responde se o chamarem apenas pelo nome. Tm de encontr-lo, tm mesmo de o ver.
     Os dois homens arregalaram, curiosos, os olhos na sua direo, sem perceberem.
     - Mas se lhe dissermos que temos andado  procura dele, que a me est raladissima?
     Ela abanou a cabea, uma onda de nusea percorrendo-a.
     - Ele no responde.
     Quantas vezes j repetira ela as mesmas palavras? Quantas vezes  que aquilo tinha sido uma simples explicao? Quantas vezes  que aquilo no significava nada 
de fato, comparado com uma situao como esta?
     Nenhum dos homens abriu a boca. Respirando fundo irregularmente, Denise continuou:
     - Kyle no fala muito bem, apenas algumas palavras aqui e ali. Ele... ele no consegue perceber o que dizemos, seja l por que razo... foi por isso que hoje 
fomos a Duke.
     Ela olhava de um homem para o outro, certificando-se de que a tinham entendido.
     - Tm de encontr-lo. No adianta nada gritar pelo nome dele. Ele no vai compreender o que lhe esto a dizer. Ele no vai responder... no  capaz. Tm de 
encontr-lo...
     - Porqu ele? Entre tantas crianas, por que motivo tinha isto de acontecer com ele?
     Incapaz de acrescentar o que quer que fosse, Denise comeou a soluar.
     Neste momento, Taylor ps a mo no ombro dela como j tinha feito antes.
     - Havemos de encontr-lo, Miss Holton, afirmou ele com convico. Havemos de encontr-lo.
     Cinco minutos depois, enquanto Taylor e os outros planejavam minuciosamente o tipo de busca, chegaram mais quatro homens para ajud-los. Eram todos quantos 
Edenton podia dispensar. Os relmpagos tinham dado incio a trs fogos enormes, tinha havido quatro acidentes de viao nos ltimos vinte minutos, dois deles com 
feridos graves, e as linhas eltricas derrubadas ainda constituam um perigo. As chamadas telefnicas inundavam a polcia e o quartel dos bombeiros a um ritmo alucinante, 
todas elas eram anotadas pela ordem de chegada, e, a menos que houvesse vidas humanas em risco, informavam-se as pessoas de que nada se podia fazer de imediato.
     Uma criana perdida tinha prioridade sobre quase tudo o resto.
     A primeira coisa a fazer era estacionar os carros e os caminhes to prximo quanto possvel da orla do pntano. Eram deixados com os motores a trabalhar, os 
faris nos mximos a cerca de quinze metros. No s forneciam a iluminao extra necessria s buscas mais prximas, como tambm serviam de sinal no caso de um dos 
exploradores se perder.
     Lanternas e walkie-talkies eram distribudos, em conjunto com pilhas de reserva. Onze homens (incluindo o caminhoneiro que tambm quis ajudar) estariam envolvidos 
nas buscas que teriam como ponto de partida o local onde Taylor encontrara o cobertor. A partir dali, espalhar-se-iam em trs direes:  sul, este e oeste. A este 
e a oeste andariam paralelamente  estrada, o sul era a ltima direo que Kyle parecia ter tomado. Decidiu-se que um dos homens ficaria junto da estrada e dos veculos 
para a eventualidade de Kyle ver os faris e conseguir regressar sozinho. Este homem lanaria um foguete de sinalizao de hora a hora para que todos soubessem exatamente 
a sua localizao.
     Depois de o sargento Huddle ter feito uma breve descrio do menino e das roupas que usava, foi a vez de Taylor falar.
Ele, em conjunto com dois outros homens, j antes haviam feito uma busca no pntano, e exps o que tinham de enfrentar.
     Ali, na orla exterior do pntano perto da estrada, os batedores ficaram a saber que o terreno estava sempre molhado mas habitualmente emerso. S depois de percorridos 
cerca de setecentos e cinqenta metros para dentro do pntano  que a gua formava lagos pouco profundos. Todavia, a lama constitua um perigo real; cercava os ps 
e as pernas, prendendo-os, por vezes como tornos, dificultando a libertao de um adulto, quanto mais a de uma criana. Naquela noite, gua j tinha quase dois centmetros 
de altura junto  estrada e s podia piorar se o temporal se mantivesse. Os bolsos cheios de lama e gua a subir de nvel eram uma combinao fatal. Os homens concordaram 
sombriamente. Agiriam com cautela.
     - Um aspecto positivo, se  que havia algum,  que nenhum deles acreditava que Kyle pudesse ter ido longe. As rvores e as vinhas tornavam difcil o percurso, 
limitando, esperavam eles, a distncia que o rapazinho pudesse ter andado. Talvez um quilmetro e meio, mas decididamente menos de trs quilmetros. Ele ainda estaria 
por perto e quanto mais depressa comeassem, maiores seriam as hipteses de o encontrarem.
     - Porm continuou Taylor, segundo a me, acontece que o mais certo  o menino no responder se o chamarmos. Procurem sinais fsicos dele; no querem passar-lhe 
ao lado, pois no?
     - Ela tornou bem claro que no devemos contar com resposta da parte dele.
     - Ele no responde? espantou-se um homem, completamente desconcertado.
     - Foi o que disse a me.
     - Por que  que ele no fala?
     - Ela no deu explicaes.
     -  deficiente? indagou um outro.
     Taylor sentiu retesarem-se-lhe as costas com aquela pergunta.  
     - Que diabo  que isso importa? Trata-se de um garotinho perdido no pntano que no consegue falar.  tudo o que sabemos de momento.
     Taylor fixou o homem at que este desviou, finalmente, a cara. S se ouvia o som da chuva a cair  sua volta at que, por fim, o sargento Huddle suspirou profundamente.
     - Ento temos de ir andando. Taylor acendeu a sua lanterna.
     - Vamos a isso.
CAPTULO 5
     Denise podia imaginar-se no pntano com os outros, afastando os ramos do rosto, os ps afundando-se na terra ensopada, procurando desesperadamente o filho. 
Todavia, a verdade  que jazia numa maca na traseira da ambulncia, a caminho do hospital de Elizabeth City, uma cidade a quarenta e cinco quilmetros para nordeste, 
o servio de urgncia mais prximo.
     Denise fixava o teto da ambulncia, ainda a tremer e atordoada. Queria ter ficado, tinha implorado para ficar, mas haviam-lhe dito que seria melhor para Kyle 
se ela se fosse embora. Ela s ia atrapalhar, argumentaram. Asseverou que no se importava e, teimosamente, saiu da ambulncia para o meio do temporal, insistindo 
que o filho precisava dela. Como se estivesse na posse de todas as suas faculdades, pediu uma gabardina e uma lanterna. Deu dois passos e tudo  sua volta comeou 
a rodopiar. Precipitou-se para frente, sem se agentar nas pernas, e caiu no cho. Dois minutos depois as sirenes da ambulncia cortavam a noite e era transportada 
para o hospital.
     Para alm dos tremores, ainda no se tinha mexido desde que a deitaram na maca. As mos e os braos estavam completa e estranhamente imveis. A respirao era 
acelerada e fraca, como a de um pequeno animal. Tinha o rosto plido, doentio, e a ltima queda reabriu-lhe o golpe da cabea.
     - Tenha esperana, Miss Holton. Acalmou-a o paramdico.
     Tinha acabado de medir-lhe a tenso arterial e suspeitava de que ela se encontrava em estado de choque.
     - Sabe, conheo estes tipos. J antes muitos meninos se perderam por aqui, e eles encontraram-nos sempre.
     Denise no deu resposta.
     - E a senhora tambm vai ficar boa, continuou o paramdico.  Dentro de alguns dias j vai estar a p.
     Por um minuto fez-se silncio. Denise continuava a fixar o teto. O paramdico tomou-lhe o pulso.
     - H algum a quem queira que telefone quando chegarmos ao hospital?
     - No, murmurou ela. No h  ningum.
     Taylor e os outros alcanaram o local onde o cobertor tinha sido achado e comearam a dispersar-se. Taylor, em conjunto com mais dois homens, dirigiram-se para 
Sul, cada vez mais para o interior do pntano, enquanto os outros elementos da equipe de buscas rumavam para Este e Oeste. A tempestade ainda no amainara nem um 
pouco e a visibilidade no pntano, mesmo com as lanternas, no ia alm de alguns metros. Passados uns minutos, Taylor no conseguia ver nem ouvir ningum e um estado 
de desalento abateu-se sobre ele. De algum modo perdida nas vagas de adrenalina anteriores  busca, onde tudo parecia possvel, encontrava-se a realidade da atual 
situao.
     J antes Taylor havia procurado gente perdida e, de repente, compreendeu que os homens eram poucos. O pntano de noite, o temporal, uma criana que no respondia 
aos chamados... Cinqenta pessoas no seriam suficientes.  Talvez nem mesmo cem.
     O processo mais eficaz de procurar algum naqueles bosques era manter-se no raio de viso da pessoa,  direita e  esquerda, movimentando-se todos em unssono, 
quase como uma banda a marchar.
     Mantendo-se prximos, os batedores podiam explorar uma  rea rpida e minuciosamente, como uma rede, sem se esperar que alguma coisa pudesse escapar. Com dez 
homens era, pura e simplesmente, impossvel. Alguns momentos aps a sua partida, todos os envolvidos nas buscas estavam por sua conta e risco, completamente isolados 
uns dos outros. Limitavam-se a perambular na direo indicada, apontando as lanternas para aqui e para ali, para todos os lados, na proverbial procura de uma agulha 
num palheiro. Encontrar Kyle era sobretudo uma questo de sorte, no de percia.
     Tendo em mente no perder a esperana, Taylor prosseguia obstinadamente  volta das  rvores em cima de uma terra cada vez mais mole. Embora no tivesse filhos, 
era padrinho dos do seu melhor amigo, Mitch Johnson, e Taylor atarefava-se como se procurasse um deles. Mitch tambm era bombeiro voluntrio e Taylor desejou ardentemente 
que ele estivesse presente naquela busca. Contudo, Mitch tinha ido para fora por uns dias. Taylor esperava que isso no fosse um mau pressgio.
      medida que se distanciava da estrada, o pntano tornava-se cada vez mais denso, mais escuro, mais longnquo e mais desconhecido. Passo a passo. As  rvores 
mais altas cresciam muito perto umas das outras, as rvores em decomposio espalhavam-se pelo terreno. As vinhas e os ramos lanavam-se contra ele  medida que 
caminhava, e tinha de utilizar a mo livre para afast-los da cara. Apontava a lanterna a todos os tufos de rvores, a todos os troncos, para trs de todos os arbustos, 
movendo-se sem parar, procurando qualquer sinal de Kyle. Decorreram alguns minutos, depois dez.
     Depois vinte.
     Depois trinta.
     Agora, mais embrenhado no pntano, gua subira acima dos tornozelos tornando os movimentos ainda mais penosos.
     Taylor olhou para o relgio: 10:56 horas. Kyle tinha desaparecido h hora e meia, talvez h mais tempo. O tempo, inicialmente um aliado, rapidamente se tinha 
tornado um inimigo. Quanto tempo levaria at o garoto enregelar? Ou...
     Abanou a cabea, tentando pr de lado aqueles pensamentos.
     Os relmpagos e os troves eram, agora, freqentes, a chuva intensa e aflitiva. Parecia vir de todos os lados.
     Taylor limpava o rosto repetidamente para ver com mais nitidez. Apesar de a me insistir que ele no responderia, Taylor continuava, entretanto, a cham-lo. 
Por algum motivo fazia-o sentir que estava fazendo mais do que realmente estava.
     - Raios!
     No houvera uma tempestade como aquela em qu, seis anos?  Sete? Por que naquela noite? Por que agora, que um menino se tinha perdido? No podiam utilizar os 
ces de Jimmie Hicks numa noite como aquela, e eram os melhores da regio. O temporal impossibilitava-os de seguir qualquer pista. E vaguear ali s cegas no ia 
ser o suficiente.
     Aonde  que um menino iria? Um garoto com medo de temporais, mas sem receio dos bosques? Um menino que tenha visto a me, ferida e inconsciente, a seguir ao 
acidente.
     - Pensa!
     Taylor conhecia o pntano to bem, se no melhor, que qualquer outra pessoa sua conhecida. Fora ali que atirara sobre o seu primeiro veado aos doze anos de 
idade; da mesma forma, em cada Outono aventurava-se mais para o interior para caar patos. Tinha uma capacidade inata para perseguir quase tudo, raramente voltando 
de uma caada sem uma pea. A populao de Edenton brincava muitas vezes dizendo que ele tinha um nariz de lobo. Possua, na verdade, um talento invulgar; at ele 
prprio admitia isso. Claro que ele conhecia aquilo que todos os caadores conhecem (pegadas, excrementos, ramos partidos que indicavam o rasto que um veado podia 
ter seguido), mas estas coisas no explicavam inteiramente o seu sucesso. Quando lhe pediam para divulgar o segredo da sua percia, replicava que tentava pensar 
como um veado. As pessoas riam-se disso, mas Taylor afirmava-o sempre com uma cara to sria que depressa percebiam que ele no estava tentando ser engraado. Pensar 
como um veado? Mas que diabo  que isso significava?
     Abanavam as cabeas. Talvez s Taylor o soubesse.
     E agora estava tentando fazer o mesmo, s que desta vez com riscos muito mais elevados.
     Fechou os olhos. Onde  que iria um menino de quatro anos?  Que rumo tomaria?
     Abriu os olhos de repente com a exploso do foguete de sinalizao no cu noturno, assinalando a passagem da hora.
     Onze horas.
     Pensa!
     A sala de urgncias do hospital em Elizabeth City estava apinhada. No s havia gente com ferimentos graves, mas tambm pessoas que, simplesmente, no  estavam 
se sentindo muito bem.
     Com toda a certeza que poderiam esperar para o dia seguinte, mas tal como a lua cheia, as tempestades pareciam despertar uma emoo irracional nas pessoas. 
Quanto mais brutal fosse o temporal, tanto maior era a irracionalidade das pessoas. Numa noite destas, uma azia transformava-se no principio de um ataque cardaco; 
uma febre que tivesse aparecido de manh tornava-se, de repente, demasiado grave para ser ignorada; uma cibra numa perna podia ser uma trombose. Os mdicos e as 
enfermeiras j sabiam; noites como esta eram to previsveis como o nascer do Sol. A espera era de, pelo menos, duas horas.
     Dada a natureza do seu ferimento, Denise Holton foi, todavia, imediatamente levada para dentro. Ainda estava consciente, embora apenas parcialmente. Tinha os 
olhos fechados, mas desfiava uma algaravia, repetindo continuamente a mesma palavra. Foi transportada para o Raio X. Com base na radiografia, o mdico decidiria 
se era preciso fazer uma TAC.
     A palavra que no parava de repetir era "Kyle".
     Passou mais meia hora, e Taylor McAden tinha-se encaminhado para os recantos mais profundos do pntano.
     Estava, agora, incrivelmente escuro, era como vasculhar numa caverna. Mesmo com uma lanterna, comeou a sentir claustrofobia. As  rvores e as vinhas cresciam 
ainda mais perto umas das outras, e era impossvel andar em linha reta.
     Era fcil vaguear em crculos, e ele no conseguia imaginar como seria com Kyle.
     Nem a chuva nem o vento tinham, de forma alguma, amainado. No entanto, os relmpagos eram menos freqentes. gua chegava-lhe agora at s canelas e no tinha 
visto nada.
     Tinha feito um contato pelo walkie-talkie uns minutos antes; todos lhe diziam a mesma coisa.
     Nada. Nem um sinal da criana em parte nenhuma.
     Kyle j tinha desaparecido h duas horas e meia.
     - Pensa!
     Ser que tinha conseguido chegar to longe? Ser  que algum do tamanho dele seria capaz de avanar com gua to profunda?
     - No, considerou ele. Kyle no teria chegado to longe, no de T-shirt e jeans.
     E se tivesse conseguido, eles provavelmente no o encontrariam vivo.
     Taylor McAden tirou a bssola do bolso e apontou-lhe a lanterna, calculando a sua posio. Decidiu retroceder ao stio onde inicialmente tinham encontrado o 
cobertor, exatamente quele local. Kyle tinha estado ali... era tudo quanto sabiam.
     Mas que direo tomara ele?
     O vento soprava forte, e as  rvores vergavam-se por cima dele. A chuva batia-lhe na cara enquanto os relmpagos brilhavam, a leste, no cu. A fria da tempestade 
estava finalmente a passar.
     Kyle era pequeno e com medo dos relmpagos... Chuva de aguilhoar...
     Taylor fixou o cu, concentrando-se, e teve a impresso de ver uma forma... algo no mais recndito da sua mente comeou a surgir. Uma idia? No, no to forte 
assim... Mas uma possibilidade?
     Rajadas de vento... Chuva de aguilhoar... Medo dos  relmpagos...
     Estas coisas todas haviam de ter importncia para Kyle, no  verdade?
     Taylor pegou no walkie-talkie e comeou a falar, pedindo que todos se dirigissem  estrada o mais rapidamente possvel.  Encontrar-se-iam todos ali.
     - Tem de ser, exclamou para ningum em especial.
     Tal como muitas das mulheres dos bombeiros voluntrios que telefonaram para o quartel nessa noite, preocupadas com os maridos numa noite to perigosa, Judy 
McAden no resistiu a fazer o mesmo. Apesar de Taylor ser chamado ao quartel apenas duas ou trs vezes por ms, como me, ficava preocupada sempre que ele saia. 
Ela no queria que fosse bombeiro e tinha-lho dito, embora finalmente acabasse por deixar de protestar quando percebeu que ele jamais mudaria de idia. Era to teimoso 
como o pai havia sido.
     Todavia, instintivamente sentira, durante toda a noite, que alguma coisa se tinha passado. Nada de dramtico, e, a principio, tentara pr de lado essa impresso, 
mas a suspeita persistente mantinha-se, aumentando  medida que o tempo passava. Por fim, relutantemente, acabara por telefonar, quase esperando o pior; em contrapartida, 
porm, ficou a saber que o garotinho, "o bisneto de J. B. Anderson", estava perdido no pntano e que Taylor, haviam-lhe dito, fazia parte do grupo de buscas embora 
a me fosse a caminho do hospital de Elizabeth City.
     Depois de desligar o telefone, Judy reclinou-se na cadeira, aliviada por saber que Taylor se encontrava bem, mas subitamente preocupada com o garoto. Tal como 
toda a gente em Edenton, tambm conhecera os Anderson. Mais do que isso, Judy conhecera tambm a me de Denise quando ambas eram novas, antes de esta se ter mudado 
e casado com Charles Holton. Tinha sido h tanto tempo, h quarenta anos, pelo menos, e nunca mais se lembrara dela. Contudo, agora, as recordaes da juventude 
regressavam inopinadamente numa sucesso de imagens:  A irem ambas para a escola; os dias de cio  beira do rio a falarem de rapazes; a recortarem fotografias de 
revistas de moda... Tambm lhe veio  memria a tristeza que sentira quando soube da sua morte. No fazia idia que a filha da amiga tinha vindo viver para Edenton.
     E agora o filho andava perdido.
     Que infeliz regresso.
     Judy no se ps com muitas consideraes, adiar as coisas no estava no seu feitio. Sempre tinha sido de natureza mais decidida e, aos sessenta e trs anos, 
no tinha mudado nada.
    Muitos anos antes, aps a morte do marido, Judy aceitara um emprego na biblioteca e criara Taylor sozinha, jurando a si mesma que assim seria. No s se deparou 
com as obrigaes financeiras da famlia, como tambm conseguiu fazer aquilo que fazem os dois pais. Foi como voluntria para a escola do filho onde, todos os anos, 
ajudava como auxiliar, sem se esquecer de levar Taylor aos desafios de futebol e de o acompanhar nos acampamentos de escoteiros. Ensinara-o a cozinhar e a limpar, 
ensinara-o a fazer lanamentos ao cesto no basquetebol e a bater as bolas no basebol. Embora estes dias estivessem j distantes, encontrava-se agora mais ocupada 
que nunca. Durante os ltimos doze anos, a sua ateno desviara-se mais da educao de Taylor e concentrara-se na ajuda  cidade de Edenton, participando em todos 
os aspectos da vida da comunidade. Escrevia com regularidade ao senador do seu distrito e aos legisladores do seu estado e andou de porta em porta a recolher assinaturas 
para vrias peties quando percebia que no lhe davam ouvidos. Era membro da Sociedade Histrica de Edenton, que angariava fundos para a preservao das casas antigas 
da cidade; ia a todas as Reunies de Assemblia da Cmara onde transmitia a sua opinio sobre o que se devia fazer. Ensinava catequese na igreja episcopal, cozinhava 
para todas as quermesses e ainda trabalhava na biblioteca trinta horas por semana. O seu horrio no lhe permitia perder muito tempo e, uma vez tomada uma deciso, 
seguia-a  risca e sem olhar para trs. Principalmente, se sentia que tinha razo.
     Apesar de no conhecer Denise, ela tambm era me e entendia o medo quando se tratava de crianas. Taylor tinha-se encontrado em muitas situaes de perigo 
toda a sua vida; na realidade, parecia que as atraa, mesmo em tenra idade. Judy sabia que o pequeno devia estar completamente aterrorizado; e a me... Bem, essa 
estava provavelmente destroada. Deus sabe que eu estaria. Pegou na gabardina, com a certeza absoluta de que a me precisava de todo o apoio possvel.
     A perspectiva de conduzir debaixo do temporal no a assustava; nem este pensamento lhe passou pela cabea. Havia uma me e um filho em apuros.
     Mesmo que Denise no a quisesse ver, ou no pudesse devido aos ferimentos, Judy sabia que no ia conseguir dormir se no lhe dissesse que as pessoas da cidade 
estavam preocupadas com o que tinha acontecido.
CAPTULO 6
      meia-noite o foguete de sinalizao explodiu no cu escuro da noite como o repicar de um sino.
     Kyle j desaparecera h quase trs horas.
     Entretanto, Taylor aproximava-se da estrada e ficou surpreendido com a luminosidade que parecia haver, comparada com os recantos sombrios de que tinha sado. 
Tambm ouviu vozes pela primeira vez desde que se tinham separado... Imensas vozes, pessoas que se chamavam umas s outras.
     Apressando o passo, Taylor transps a ltima das  rvores e viu mais de uma dzia de carros que tinham chegado; os faris acesos como os anteriores. E tambm 
havia mais gente.
     No s os outros batedores haviam voltado, como se encontravam agora rodeados pelos que tinham ouvido falar das buscas pelos rumores que se espalhavam pela 
cidade e que tinham vindo ajudar. Mesmo quela distncia, Taylor reconheceu a maior parte deles. Craig Sanborn, Rhett Little, Skip Hudson, Mike Cook, Bart Arthur, 
Mark Shelton... E tambm outros seis ou sete. Pessoas que desafiaram a tempestade, pessoas que tinham de ir trabalhar no dia seguinte. Pessoas que Denise nunca vira 
antes.
     Boa gente, no pde ele deixar de pensar.
     A disposio geral, todavia, era de abatimento. Os que tinham andado nas buscas estavam encharcados at aos ossos, cobertos de lama e escoriaes, exaustos 
e desanimados. Tal como Taylor, tinham visto quo escuro e impenetrvel o pntano se tornava.  medida que Taylor se aproximava, aquietaram-se.
     O mesmo aconteceu com os recm chegados.
     O sargento Huddle voltou-se, o rosto iluminado pelas lanternas. Tinha um arranho fundo e recente, parcialmente coberto por salpicos de lama.
     - Ento, quais so as novidades? Encontraste alguma coisa? Taylor abanou a cabea.
     - No, mas acho que tenho uma idia do rumo que ele tomou.
     - Como sabes?
     - No tenho a certeza.  apenas um palpite, mas acho que ele se dirigiu para sudeste.
     Como todos os demais, o sargento Huddle conhecia a reputao de Taylor relativamente ao seu faro para seguir pistas, conheciam-se desde crianas. - Por qu?
     - Bom, por um lado, foi onde encontramos o cobertor, e se ele continuou nessa direo, o vento estaria a seu favor. No penso que um menino tentasse lutar contra 
o vento; acho que ele caminharia com essa orientao. A chuva iria mago-lo muito.
     - Tambm julgo que quereria manter-se de costas voltada para os  relmpagos. A me disse que ele tinha medo de relmpagos.
     O sargento Huddle olhou-o cepticamente.
     - No  muito.
     - No, admitiu Taylor, no . Mas acho que  a nossa melhor hiptese.
     - No consideras que devamos continuar as buscas como antes? Em todas as direes?
     Taylor abanou a cabea.
     - Mesmo assim, estaramos a cobrir uma  rea pequena. No ia adiantar nada. J viram como  que  andar por ai.
     Limpou o rosto com as costas da mo, organizando os pensamentos. Desejava que Mitch estivesse com ele para ajud-lo na deciso; Mitch era bom nestas coisas.
     - Ouam - continuou ele -, sei que  apenas um palpite, mas aposto em como estou certo. O que  que temos? Mais de vinte pessoas agora? Podamos espalhar-nos 
e bater a zona nessa direo.
     Huddle semicerrou os olhos na dvida.
     - Mas e se ele no foi nessa direo? E se ests enganado?
Est to escuro... Tanto quanto sabemos, pode andar em crculos. Pode ter-se abrigado num stio qualquer. S porque tem medo de relmpagos, no quer dizer que se 
tenha afastado deles. S tem quatro anos. Para, alm disso, temos agora gente suficiente para procurarmos em diferentes direes.
     Taylor no respondeu pensando nestas consideraes. O que Huddle dissera fazia sentido, perfeitamente. No entanto, Taylor tinha-se habituado a confiar nos seus 
instintos. A sua expresso era decidida.
     O sargento Huddle franziu as sobrancelhas com as mos enterradas nos bolsos da gabardina encharcada.
     Finalmente, Taylor concluiu:
     - Confia em mim, Carl.
     - No  fcil.  a vida de uma criana que est em jogo.
     - Eu sei.
     Face a esta determinao, o sargento Huddle suspirou e afastou-se. Em ltima anlise, a deciso era sua. Era ele que oficialmente coordenava as buscas. Era 
ele que faria o relatrio, era o seu dever... E, no fim, era ele que tinha de responder pelos resultados.
     - Est bem - concordou por fim. - Faremos o que dizes. S peo a Deus que tenhas razo.
     J era meia-noite e meia.
     Ao chegar ao hospital, Judy McAden dirigiu-se ao servio de informaes. Familiarizada com as formalidades do hospital, pediu para ver Denise Holton, sua sobrinha. 
A empregada no duvidou das suas afirmaes (a sala de espera ainda estava cheia de gente) e rapidamente consultou os ficheiros. Explicou que Denise Holton tinha 
sido transferida para uma sala do piso superior, mas que as horas de visita tinham acabado. Se ela pudesse voltar no dia seguinte de manh...
     - Pode, ao menos, dizer-me como  que ela est? - interrompeu-a Judy.
     A empregada encolheu os ombros fatigada.
     - Diz aqui que foi levada para o Raio X, mas  tudo quanto sei. Tenho a certeza de que haver mais informaes quando as coisas acalmarem.  
     - A que horas comeam as visitas?
     - s oito horas.
     A empregada j estava a procurar outro ficheiro.
     - Compreendo, - anuiu Judy, mostrando-se abatida.
     Por cima do ombro da empregada, Judy reparou que as coisas pareciam ainda mais caticas do que na sala de espera.
     As enfermeiras andavam de sala em sala, com ar aflito e acabrunhado.
     - Tenho de passar por aqui antes de l ir acima? Isto , amanh?
     - No. Pode ir pela entrada principal, depois de contornar ali a esquina. Amanh de manh, dirija-se ao quarto 217 e previna as enfermeiras de servio quando 
l chegar. Elas indicar-lhe-o o quarto.
     - Obrigada.
     Judy afastou-se do balco, e a pessoa na fila a seguir a ela aproximou-se. Era um homem de meia-idade que tresandava a vinho. Tinha o brao enrolado com uma 
ligadura improvisada.
     - Por que esta demora? O meu brao est a dar cabo de mim.
     A empregada suspirou com impacincia.
     - Lamento, mas como pode verificar, hoje estamos com muito trabalho. O mdico vai observ-lo o mais rapidamente...
     Judy certificou-se de que a ateno da empregada ainda se concentrava no homem. Saiu da zona da sala de espera atravs de duas portas de vaivm que conduziam 
diretamente ao setor principal do hospital. De visitas anteriores sabia que os elevadores se achavam ao fundo do corredor.
     Numa questo de minutos passou apressadamente por um gabinete vazio das enfermeiras, rumo ao quarto 217.
     Ao mesmo tempo que Judy se dirigia ao quarto de Denise, os homens recomeavam as buscas. Vinte e quatro homens ao todo, com uma distncia entre si que lhes 
permitisse verem as lanternas vizinhas, espalharam-se numa largura de quase setecentos e cinqenta metros. Lentamente, comearam a deslocarem-se para sudeste, as 
luzes brilhando por toda a parte, esquecidos da tempestade. Em poucos minutos, as luzes provenientes dos carros parados na estrada tornaram-se, mais uma vez, invisveis. 
Para os que acabavam de chegar, a escurido repentina foi um choque e perguntavam-se por quanto tempo um garoto poderia sobreviver naquele stio.
     Outros, contudo, comeavam a duvidar se, ao menos, encontrariam o corpo.
     Denise ainda estava acordada, pois o sono era, pura e simplesmente, uma hiptese remota. Havia um relgio na parede junto  sua cama, e ela fixava-o, vendo 
os minutos passarem com uma regularidade assustadora.
     Neste momento Kyle j desaparecera h quase quatro horas.
     - Quatro horas!
     Queria fazer algo, fosse o que fosse, em vez de jazer ali to desesperada, intil ao filho e aos batedores. Queria estar l fora  procura dele, e o fato de 
assim no acontecer tornava-se mais doloroso do que as dores dos ferimentos. Tinha de saber o que estava a passar-se. Queria ser ela a comandar as operaes. Mas 
ali no podia fazer nada.
     O seu corpo a traa. Na ltima hora as tonturas tinham diminudo apenas ligeiramente. Continuava a no conseguir equilibrar-se de modo a poder descer  entrada, 
quanto mais a participar nas buscas. O brilho das luzes incomodara-a e quando o mdico lhe fez umas quantas perguntas, tinha visto trs imagens do seu rosto. Agora, 
sozinha no quarto, detestava-se pela sua precariedade fsica. Que espcie de me era ela?
     Nem sequer era capaz de ir  procura do seu prprio filho!
      meia-noite, quando se apercebeu de que no poderia sair do hospital, tinha soobrado; Kyle j havia  trs horas que desaparecera. Comeara a gritar, repetidamente, 
o nome do filho assim que a radiografaram. Tratava-se de uma estranha forma de alivio gritar assim o nome dele a plenos pulmes. Na sua mente, ele conseguia ouvi-la, 
e ela desejava que ele ouvisse a sua voz. - Volta. Kyle.  - Volta para onde a mame estava.
     - Tu consegues ouvir-me. No consegues? No importava que duas enfermeiras a aconselhassem a ficar sossegada, a acalmar-se, enquanto ela se debatia com violncia 
contra a resistncia que elas ofereciam. Descontraia-se, haviam-lhe dito, tudo vai ficar bem.
     Todavia, ela no era capaz de parar. Continuava a gritar o nome dele lutando contra elas at que, finalmente, a trouxeram para ali. Nessa altura, j estava 
completamente esgotada, e os gritos tinham-se transformado em soluos. Uma das enfermeiras ficara com ela para se certificar de que estava bem, depois teve de sair 
para atender uma urgncia noutro quarto. Desde ento, Denise ficara sozinha.
     Fixava o ponteiro dos segundos do relgio.
     Tique-taque.
     Ningum sabia o que se estava a passar. Antes de ir embora, Denise pedira  enfermeira para telefonar  polcia para saber se havia noticias. Tinha-lhe implorado, 
mas a enfermeira recusou gentilmente. Disse-lhe, por seu turno, que se soubesse de alguma coisa, a informaria. At l, a melhor coisa que podia fazer era acalmar-se, 
descontrair-se.
     Descontrair-se.
     Estavam todos doidos?
     Ele ainda andava perdido, mas Denise sabia que ele estava vivo. Tinha de estar. Se Kyle tivesse morrido, ela saberia.
     Ela senti-lo-ia no mais fundo do seu ser, e esse sentimento seria tangvel, como se tivesse sido atingida no estmago por um murro. Talvez entre eles houvesse 
uma ligao especial, talvez todas as mes a partilhassem com os filhos. Talvez fosse por Kyle no ser capaz de falar, e ela tivesse de confiar no seu prprio instinto 
quando cuidava dele. No tinha bem a certeza. Mas o seu corao acreditava que saberia, e o seu corao continuava em silncio.
     Kyle ainda estava vivo.
     Oh, por favor, Deus, faz com que assim seja.
     Tique-taque.
     Judy McAden no bateu  porta. Entreabriu-a ligeiramente, verificando que a luz da cabeceira estava apagada. Um pequeno candeeiro dava uma iluminao fraca 
num canto do quarto quando Judy entrou. No sabia se Denise estava ou no a dormir, mas no queria acord-la se assim fosse. No momento em que Judy fechava a porta, 
Denise voltou a cabea hesitante, observando-a.
     Mesmo naquela semi-escurido, quando Judy se voltou e viu Denise na cama, ficou petrificada. Foi uma das poucas vezes na sua vida em que no soube o que dizer.
     Conhecia Denise Holton.
     De imediato, apesar da ligadura em volta da cabea, apesar das escoriaes no rosto, apesar de tudo, Judy identificou Denise como a jovem mulher que costumava 
usar os computadores da biblioteca. Aquela que levava o garotinho engraado que gostava de livros sobre avies...
     Oh, no... O garotinho engraado...
     Denise, por seu lado, no fez a associao enquanto mirava, com os olhos semicerrados, a senhora que estava em p  sua frente. As suas idias ainda estavam 
nebulosas. Uma enfermeira? No, no estava vestida a preceito. A polcia?
     No, demasiado idosa. Fosse como fosse, aquela cara era-lhe familiar...
     - Conheo-a? - conseguiu finalmente articular.
     Judy, caindo por fim em si, encaminhou-se para a cama.  Falou suavemente:
     - Mais ou menos. Tenho-a visto na biblioteca. Trabalho l.
     Os olhos de Denise estavam semi-abertos. A biblioteca? O quarto comeou a rodopiar outra vez.
     - O que  que est a fazer aqui? - As palavras saiam-lhe indistintas, os sons misturando-se.
     De fato, o que estava ela ali a fazer? No pde Judy deixar de pensar.
     Ajustou a ala da carteira com nervosismo.
     - Ouvi dizer que o seu filho se tinha perdido. O meu filho  um dos que anda  procura dele neste preciso momento.
     Enquanto falava, pelos olhos de Denise passou um misto de esperana e de medo, e a sua expresso pareceu iluminar-se.
Interrompeu-a com uma pergunta, mas desta vez as palavras saram-lhe mais ntidas do que antes.
     - Sabe de alguma coisa?
     A pergunta era imprevista, todavia Judy percebeu que j devia estar  espera de uma pergunta daquelas. Que outro motivo a levaria a ter ido v-la?
     Judy abanou a cabea.
     - No, nada. Lamento muito.
     Denise apertou os lbios, permanecendo em silncio.
Parecia estar a avaliar a resposta antes de, finalmente, se voltar.
     - Gostaria de ficar sozinha - replicou Denise.
     Ainda sem saber o que fazer (Por que diabo  que eu vim at aqui? Ela nem sequer me conhece).
     Judy disse-lhe a nica coisa que ela teria querido ouvir, a nica coisa em que podia pensar em dizer.
     - Eles vo encontr-lo, Denise.
     A principio, Judy no achou que ela a tivesse ouvido, mas depois viu-lhe o queixo tremer e no momento seguinte as lgrimas transbordavam dos seus olhos. Denise 
no fazia qualquer rudo. Parecia reprimir as suas emoes como se no quisesse que ningum a visse naquele estado, o que era pior.
     Embora no soubesse como Denise iria reagir, Judy, num impulso maternal, aproximou-se fazendo uma breve pausa ao p da cama antes de se sentar.    Parecia que 
Denise no tinha reparado.  Judy olhava-a em silncio.
     Em que  que eu estava a pensar? Que podia ajudar? Que diabo posso eu fazer? Talvez no devesse ter vindo... Ela no precisa de mim aqui. Se voltar a me pedir, 
vou-me embora...
     Os seus pensamentos foram interrompidos por um sussurro quase inaudvel.
     - Mas, e se no conseguirem?
     Judy pegou-lhe na mo e apertou-lhe.
     - Vo conseguir.
     Denise deu um suspiro longo e irregular, como se tentasse reunir foras de qualquer origem insuspeita. Voltou lentamente a cabea e encarou Judy com os olhos 
vermelhos e inchados.
     - Nem sequer sei se ainda andam a procura dele...
     Assim to perto, Judy deu-se conta das parecenas entre ela e a me, ou melhor, da aparncia da me. Podiam ter sido irms, e perguntou-se por que no fizera 
a associao na biblioteca. No entanto, este pensamento foi rapidamente substitudo  medida que as palavras de Denise iam saindo. Sem ter a certeza de que ouvira 
corretamente, franziu as sobrancelhas.
     - O qu? Quer dizer que no a informaram do que se est a passar?
     Se bem que Denise estivesse a olhar para ela, parecia-lhe que estava muito longe, perdida numa espcie de aturdimento aptico.
     - No soube mais nada desde que me enfiaram na ambulncia.
     - Nada? - exclamou ela finalmente, chocada pela negligncia de no a manterem informada.
     Denise abanou a cabea.
     Num abrir e fechar de olhos, Judy tentou vislumbrar um telefone e ps-se em p, ganhando de novo a autoconfiana ao reconhecer que havia alguma coisa que ela 
podia fazer. Devia ter sido por isto que ela sentira uma necessidade imperiosa de vir. No dizer nada  me? Completamente inaceitvel No s isso, como tambm... 
cruel distrao, seguramente, mas no deixava de ser cruel.
     Judy sentou-se na cadeira perto da mesinha ao canto do quarto e pegou no auscultador. Depois de discar rapidamente um nmero, entrou em contato com o departamento 
da polcia de Edenton. Os olhos de Denise arregalaram-se quando percebeu o que Judy estava a fazer.
     - Daqui fala Judy McAden e estou com Denise Holton no hospital. Estou a telefonar para saber como esto a correr as buscas... No... No... Sei que esto muito 
atarefados, mas preciso falar com Mike Harris... Bom, diga-lhe que atenda.
Diga-lhe que  a Judy que est ao telefone.  muito importante.
     Ps a mo no bocal e dirigiu-se a Denise.
     - Conheo o Mike h  anos,  o comandante. Talvez ele saiba de alguma coisa.
     Houve um dique na linha, e ela ouviu-o atender do outro lado.
     - Ol, Mike... No, estou bem, mas no  por isso que estou a falar. Estou aqui com Denise Holton, aquela cujo filho est perdido no pntano. Estou no hospital, 
e parece que ningum a informou do que se est a passar... Sei que  uma barafunda, mas ela tem de saber o que se passa... Compreendo... hum-hum... Oh, est bem, 
obrigada.
     Depois de desligar, abanou a cabea e confidenciou a Denise, enquanto marcava outro nmero de telefone:
     - No sabe de nada, e depois no so os homens dele que comandam as buscas porque j  fora dos limites do distrito.  Vou tentar falar para o quartel dos bombeiros.
     Passou pelos mesmos preliminares antes de conseguir falar com algum responsvel. Em seguida, Aps pouco mais ou menos um minuto, o seu tom tornou-se como o 
sermo de uma me:
     - Compreendo... Bom, podes contatar com algum que l esteja... Pelo rdio? Tenho aqui uma me que tem todo o direito de saber o que se est a passar e nem 
quero acreditar que no a tenham mantido informada. O que  que fazias se a Linda aqui estivesse e fosse o Tommy a estar perdido?... No me interessa que haja muita 
confuso. No h desculpa. Nem posso acreditar que tenham descuidado uma coisa destas... No, prefiro no voltar a telefonar. Por que no os contatas enquanto eu 
espero... Joe, ela precisa de saber agora. No sabe de nada h horas... Esta bem, ento...
     Olhou para Denise:
     - Estou  espera.  Est a falar para l pelo rdio. Dentro de minutos, ficamos a saber. Como  que se esta a agentar?
     Denise sorriu pela primeira vez desde h horas.
     - Obrigada - respondeu ela fraca.
     Passou-se um minuto, depois outro, antes que Judy voltasse a falar.
     - Sim, ainda aqui estou...
     Judy ficou em silncio enquanto ouvia o relato, no entanto e apesar de tudo, Denise sentiu renascer em si a esperana. Talvez... Por favor... Observava Judy 
 procura de sinais exteriores dos seus sentimentos.  medida que o silncio se prolongava, a boca de Judy transformou-se numa linha reta. Falou finalmente para 
o bocal:
     - Oh, compreendo... Obrigada, Joe. Telefona para aqui se souberes de alguma coisa, seja o que for... Sim, o hospital  em Elizabeth City. E ns voltamos a ligar 
dentro em breve.
     Enquanto a observava, Denise sentiu um n subir-lhe  garganta e de novo voltarem as nuseas.
     Kyle ainda estava perdido.
     Judy desligou o telefone e regressou  cama.
     - Ainda no o encontraram, mas continuam  procura. Uma enorme quantidade de gente da cidade apareceu por l, portanto h mais pessoas do que havia antes. O 
tempo melhorou um pouco e pensam que Kyle se dirigiu para sudeste. Foram nessa direo h cerca de uma hora.
     Denise mal a ouvia.
     Era quase 1:30 da manh.
     A temperatura, inicialmente  volta dos dezoito graus centgrados, rondava agora os doze graus e eles tinham caminhado em grupo por mais de uma hora. Um vento 
norte frio fazia baixar rapidamente a temperatura, e os batedores comearam a aperceber-se de que se esperavam encontrar o garotinho com vida, era necessrio faz-lo 
nas duas horas seguintes.
     Tinham alcanado uma zona do pntano um pouco menos densa onde as  rvores cresciam mais isoladas umas das outras e as vinhas e os arbustos no os esfolavam 
a cada passo. Aqui havia a possibilidade de procurar mais rapidamente, e Taylor conseguia ver trs homens, ou melhor, as suas lanternas, nas respectivas direes. 
Nada era descuidado.
     Taylor j havia caado neste recanto do pntano.  Porque o terreno se elevava ligeiramente, o solo estava habitualmente seco e os veados afluam a esta   rea. 
Mais ou menos a cerca de setecentos e cinqenta metros, a elevao descia outra vez para ficar ao nvel dos lenis de gua e chegariam a uma zona do pntano conhecida 
como Duck Shot.
     Durante a poca da caa podiam ver-se os homens nas dzias de chamarizes de patos que se espalhavam naquela rea. gua era pouco profunda ao longo do ano inteiro 
e as caadas eram sempre boas.
     Era, simultaneamente, o lugar mais longnquo at onde Kyle se poderia ter deslocado. Naturalmente, se fossem na direo certa.
CAPITULO 7
     Eram j 2:26 da madrugada. Kyle andava perdido h quase cinco horas e meia.
     Judy umedeceu uma toalha, trouxe-a para junto de Denise e limpou-lhe suavemente o rosto. Denise pouco falara, e Judy no a pressionou. Denise parecia em estado 
de choque: plida e exausta, os olhos vermelhos e vtreos. Judy tinha telefonado de novo e informaram-na de que ainda no havia novidades.
     Desta vez parecia que Denise j esperava esta resposta e praticamente no  reagira.
     - Quer que lhe v buscar um copo de gua? Quis saber Judy.
     Como Denise no se manifestasse, Judy levantou-se da cama e foi, em todo o caso, buscar-lhe. Quando voltou, Denise tentava sentar-se para beber um gole, contudo 
o acidente tinha comeado a apresentar os seus efeitos no resto do corpo. Uma dor lancinante percorreu-lhe o brao, do pulso ao ombro, como uma onda eltrica. O 
estmago e o peito doam-lhe como se lhe tivessem colocado um peso em cima durante muito tempo e agora lhe tivessem retirado, voltando lentamente a senti-los, como 
um balo que se enchesse penosamente. O pescoo estava rgido como se uma vara de ao tivesse sido colocada na espinha e a impedisse de mexer a cabea para frente 
e para trs.
     - V, deixe-me ajud-la, ofereceu-se Judy.
     Judy ps o copo em cima da mesa e ajudou Denise a sentar-se. Denise estremeceu e susteve a respirao comprimindo os lbios  medida que as dores a percorriam 
como ondas e depois relaxou quando finalmente comearam a desaparecer. Judy passou-lhe gua.
     Enquanto Denise bebia um gole, olhou de relance para o relgio mais uma vez. E mais uma vez os ponteiros avanavam inexoravelmente.  Quando  que eles o encontro?
     Examinando a expresso de Denise, Judy perguntou-lhe:
     - Quer que chame uma enfermeira?
     Denise no respondeu.
     Judy fechou a sua mo na dela.
     - Quer que me v embora para poder descansar?
     Denise voltou o rosto do relgio para Judy e continuou a ver uma cara estranha... Mas uma desconhecida simptica, algum que se preocupava. Algum com olhos 
bondosos, fazendo-lhe lembrar a sua vizinha mais idosa de Atlanta.  S quero o Kyle...
     - Acho que no consigo dormir - confessou ela por fim.
     Denise acabou gua, e Judy tirou-lhe o copo.
     -Qual  o seu nome? - indagou Denise. A pronncia indistinta tinha-se atenuado, mas a exausto fazia-a falar debilmente.
     - Ouvi-o quando fez os telefonemas, mas no consigo me lembrar. - Judy colocou o copo na mesa e em seguida auxiliou Denise a assumir uma posio mais confortvel.
     - Chamo-me Judy McAden. Acho que me esqueci de me apresentar quando cheguei.
     - E trabalha na biblioteca?
     Ela assentiu.
     - Tenho-a visto com o seu filho vrias vezes.
     - Foi por isso que...? - quis saber Denise, emudecendo.
     - No, na realidade, vim porque conheci a sua me quando era nova. Ela e eu ramos amigas. Quando ouvi dizer que  estava em apuros... Bem, no quis que pensasse 
que estava sozinha nesta situao.
     Denise semicerrou os olhos, tentando concentrar-se em Judy como se fosse a primeira vez que a via.
     - A minha me?
     Judy acenou com a cabea.
     - Ela vivia a pouca distncia da minha casa. Crescemos juntas. Denise tentou recordar-se se a me lhe tinha falado dela, todavia a capacidade de concentrao 
no passado era como tentar decifrar uma imagem distorcida numa televiso avariada.
     Fosse como fosse, no conseguia lembrar-se. Enquanto tentava, o telefone tocou. Sobressaltaram-se ambas e voltaram-se para o aparelho, o som era estridente 
e simultaneamente sinistro.
     Alguns minutos antes, Taylor e os outros tinham chegado a Duck Shot. Aqui, a dois quilmetros e pouco do local onde se dera o acidente, a gua pantanosa comeava 
a ser mais funda.  Kyle no podia ter ido mais alm, contudo no tinham encontrado nada.
     Um a um, depois de alcanarem Duck Shot, o grupo comeou a reunir-se e quando os walkie-talkies se faziam ouvir, havia mais do que algumas vozes desapontadas.
     Taylor, no entanto, no entrou em contato. Continuava  procura, tentando colocar-se na pele de Kyle, repetindo as mesmas perguntas que antes se fizera. Kyle 
teria vindo nesta direo? Uma vez e outra chegava  mesma concluso. S com o vento ele se teria encaminhado para ali. No havia de ter querido andar contra o vento 
e, ao seguir nesta direo, deixava os relmpagos atrs de si.
     Raios! Ele tinha que ter vindo nesta direo. S podia ser.
     Mas onde estava ele?
     No lhes podia ter escapado, podia? Antes de terem comeado, Taylor tinha-lhes recordado que verificassem todos os lugares possveis e imaginrios ao longo 
do percurso,   rvores, arbustos, cepos, troncos cados, qualquer lugar onde uma criana se pudesse esconder da tempestade... e tinha a certeza de que o tinham feito. 
Todos se preocupavam como ele.
     Ento onde estava ele?
     Subitamente, desejou ter uns culos de infravermelhos, algo que tivesse tornado a escurido menos incapacitante e lhes permitisse localizar o garoto atravs 
do calor do corpo.
     Ainda que esse equipamento estivesse disponvel comercialmente, no conhecia ningum que tivesse esse tipo de acessrios. Subentendendo-se que o quartel dos 
bombeiros no tinha nada disso; nem sequer se podiam dar ao luxo de ter uma corporao permanente, quanto mais uma coisa de to alta tecnologia. Todavia, os oramentos 
apertados era uma caracterstica comum na vida duma cidade pequena.
     Mas a Guarda Nacional...
     Taylor tinha a certeza que eles tinham o equipamento necessrio, mas no eram agora uma opo. Levaria demasiado tempo a reunir uma unidade para ali. E pedir 
emprestado um conjunto desses aparelhos  Guarda Nacional no era realista; o empregado do armazm de fornecimento precisaria da autorizao do seu superior, que, 
por sua vez, precisaria da de outrem, que exigiria o preenchimento de formulrios, bl, bl, bl. E, se por milagre, o pedido fosse concedido, o depsito mais prximo 
ficava a duas horas de caminho. Que diabo! No tardaria a amanhecer.
     - Pensa!
     Os relmpagos brilharam outra vez, sobressaltando-o. A ltima srie de relmpagos tinha ocorrido h algum tempo atrs, e para alm da chuva, ele pensava que 
o pior j tinha passado.
     Todavia, no momento em que o cu se iluminou, ele viu-a a distncia... Retangular, de madeira e coberto de folhagem.  Uma das muitas armadilhas para os patos.
     A sua mente comeou a raciocinar a toda a velocidade... Chamarizes de patos... Pareciam mesmo uma casa de brincar para crianas, com espao suficiente para 
abrig-las da chuva. Kyle teria visto um?
     No, demasiado fcil... No podia ser... Mas...
     Apesar do que pensava, a adrenalina comeou a percorrer-lhe o corpo. Fez o possvel para se manter calmo.
     Talvez... Era apenas isso. Apenas um grande "talvez".
     No entanto, agora o "talvez" era tudo quanto lhe r estava e correu para a primeira armadilha que viu. As suas botas afundavam-se na lama, fazendo um rudo de 
suco  medida que ele se debatia na abundante terra amolecida. Uns segundos depois alcanava a armadilha; no tinha sido utilizada desde o ltimo Outono e  estava 
coberta de vinhas e de moitas que entretanto tinham crescido. Abriu caminho por entre as vinhas e meteu a cabea l dentro. Movendo a lanterna pelo interior da armadilha, 
quase esperou ver um garotinho escondido da tempestade.
     Mas tudo o que viu foi madeira apodrecida.
     Enquanto recuava, mais uma srie de relmpagos iluminou o cu, e Taylor vislumbrou mais outra armadilha, no a mais de quarenta e cinco metros. No estava to 
escondida como a que ele acabara de esquadrinhar. Taylor afastou-se, correndo, acreditando...
     Se eu fosse um garoto e tivesse vindo para to longe e visse o que se parecia com uma casinha pequena...
     Alcanou a segunda armadilha, examinou-a rapidamente e no encontrou nada. Soltou uma imprecao, com um sentimento mais agudo de pressa. Afastou-se outra vez, 
dirigindo-se ao chamariz mais prximo sem saber exatamente onde o podia encontrar. Sabia, por experincia, que no estaria a mais de noventa metros de distncia, 
perto da linha de gua.
     E tinha razo.
     Ofegante, debateu-se contra a chuva, o vento e, principalmente, contra a lama, pressentindo no mais ntimo do seu ser que tinha de estar certo em relao s 
armadilhas. Se Kyle no estivesse nesta, chamaria os outros atravs dos walkie-talkies e f-los-ia procurar em todas as armadilhas da zona.
     Desta vez, ao aproximar-se do chamariz, pisou com fora a vegetao. Ao deslocar-se para um lado, encheu-se de coragem para enfrentar o fato de nada encontrar. 
Apontando a lanterna para o interior, quase perdeu o flego.
     Um garotinho, sentado num canto, enlameado, arranhado e sujo... Mas, de contrrio, parecendo estar bem.
     Taylor pestanejou, pensando tratar-se de uma miragem, todavia, quando abriu os olhos de novo, o garotinho ainda l  estava, a camisa com o rato Mickey e tudo.
     Taylor ficou demasiado estupefato para falar. Apesar de todas as horas ali passadas, o desfecho pareceu surgir rapidamente.
     Em silncio, alguns segundos no mximo, Kyle olhou para cima, para ele, para o homem grande com uma comprida gabardina amarela, com uma expresso de surpresa 
no rosto, como se tivesse sido apanhado a fazer alguma malandrice.
     - Oi - exclamou Kyle exuberante, e Taylor riu-se alto.
     Largos sorrisos espalharam-se de imediato em ambas as faces. Taylor ajoelhou-se, e o garotinho trepou para os ps dele e em seguida para os braos.  Estava 
com frio e molhado, a tremer, e quando Taylor sentiu aqueles bracinhos  volta do pescoo, vieram-lhe as lgrimas aos olhos.
     - Ora viva, meu rapaz. Acho que deves ser o Kyle.
CAPTULO 8
     - Ele est bem, malta... Repito, ele est bem. Tenho o Kyle comigo neste momento.
     Com estas palavras ditas atravs do walkie-talkie, um brado de excitao cresceu entre os batedores que passaram palavra ao quartel, de onde Joe telefonou para 
o hospital.
     Eram 2:31 da madrugada.
     Judy retirou o telefone de cima da mesa e depois sentou-se na cama para que Denise pudesse atender. Mal respirava quando pegou no auscultador. Logo de seguida, 
levou a mo  boca para abafar um grito. O seu sorriso, to sincero e emotivo, era contagioso e Judy teve de se controlar para no se pr aos pulos.
     As perguntas que Denise fazia eram sintomticas.
     - Ele est mesmo bem?... Onde  que o encontraram?... Tem a certeza de que no est ferido?... Quando  que o posso ver?... Por que tanto tempo?... Ah, sim 
compreendo. Mas tem a certeza?... Obrigada. Muito obrigada a todos... Nem acredito!
     Quando desligou o telefone, Denise sentou-se, desta vez sem ajuda, e instintivamente abraou Judy enquanto lhe contava os pormenores.
     - Vo traz-lo para o hospital... Est com frio e molhado e querem que venha apenas por precauo, para terem a certeza de que est tudo bem. Deve chegar dentro 
de uma hora mais ou menos... Nem acredito!
     A excitao trouxe-lhe tonturas, todavia desta vez Denise pouco se importou com isso.
     Kyle  estava a salvo. Era isso o que mais importava agora.
     De regresso ao pntano, Taylor tinha despido a gabardina e embrulhara Kyle com ela para mant-lo quente. Em seguida, afastando-se da armadilha, encontrou-se 
com os outros e, em Duck Shot, esperaram o tempo suficiente para se certificarem de que todos os homens estavam presentes. Uma vez reunidos, voltaram em grupo, desta 
vez numa formao nica.
     s cinco horas de buscas tinham desgastado Taylor e transportar Kyle foi um sacrificio. O garoto pesava, pelo menos, vinte quilos, e aquele peso fazia-lhe doer 
o brao, bem como o enterrava mais na lama. Quando chegaram  estrada, ele  estava morto de cansao. Como as mulheres conseguiam andar com os filhos ao colo enquanto 
faziam as compras no centro comercial, estava para alm do seu entendimento.
     Uma ambulncia aguardava-os. A principio, Kyle no queria largar Taylor, mas este falou-lhe com meiguice e conseguiu persuadi-lo a ir para o cho a fim de ser 
observado pelo paramdico. Sentado na ambulncia, Taylor no queria mais que uma boa ducha quente, mas como Kyle parecia  beira do pnico cada vez que Taylor se 
afastava, decidiu acompanh-lo ao hospital. O sargento Huddle seguia  frente no seu carro patrulha, e os outros batedores tomaram o rumo de casa.
     Aquela longa noite tinha, por fim, terminado.
     Chegaram ao hospital um pouco depois das 03:30 da madrugada. Por essa altura, a sala de urgncias estava mais calma e quase todos os pacientes haviam sido observados. 
Os mdicos tinham sido informados da chegada iminente de Kyle e  estavam  sua espera. Tambm Denise e Judy o esperavam.
     A enfermeira de servio ficara perplexa quando Judy, no meio da noite, se tinha encaminhado para o seu gabinete a fim de lhe pedir uma cadeira de rodas para 
transportar Denise Holton.
     - O que  que est aqui a fazer? No sabe que horas so?  A hora das visitas j acabou...
     Judy ignorou, pura e simplesmente, as perguntas e repetiu o pedido. Era preciso um pouquinho de lisonja, mas no muito.
     - Encontraram o filho dela e vo traz-lo para c. Ela quer v-lo quando chegar.
     A enfermeira decidiu-se e satisfez-lhe o pedido.
     A ambulncia chegou uns minutos antes da hora prevista e a porta de trs escancarou-se. Kyle foi transportado numa cadeira de rodas enquanto Denise se esforava 
por se pr em p. Uma vez no interior do hospital, o mdico e as enfermeiras recuaram um pouco para que Kyle pudesse ver a me.
     Na ambulncia haviam-no despido e embrulhado em cobertores quentes para recuperar a temperatura do corpo.
     Embora a temperatura tivesse descido ao longo das ltimas horas, ele no tinha corrido um risco real de hipotermia, e os cobertores tinham servido os objetivos. 
Kyle tinha o rosto rosado e mexia-se com facilidade. Em todos os aspectos, apresentava-se muito melhor que a me.
     Denise alcanou a maca, inclinando-se para que Kyle a pudesse ver, e ele ps-se de p num salto. Trepou para os seus braos e abraaram-se com fora.
     - Ol, mame - disse ele finalmente.
     Denise riu-se e o mesmo fez o mdico e as enfermeiras.
     - Ol, doura - cumprimentou ela, sussurrando aos ouvidos dele com os olhos bem fechados. - Estas bem?
     Kyle no respondeu, todavia isso foi o que menos interessou a Denise desta vez.
     Denise acompanhou Kyle, dando-lhe a mo enquanto a maca era conduzida para o gabinete mdico. Judy manteve-se afastada durante o exame, vendo-os  trabalhar, 
sem querer interromper.
     Quando se foram embora, suspirou, dando-se conta, de repente, de quo cansada estava. H anos que no estava acordada at to tarde.  No entanto, tinha valido 
a pena; no havia nada como uma emoo forte para pr a funcionar a velha bomba. Mais umas noites como esta e estava pronta para a maratona.
     Saiu da sala de urgncias na altura em que a ambulncia se afastava e comeou a procurar as chaves no bolso. Ao levantar os olhos, viu Taylor a conversar com 
CarI Huddle junto do carro patrulha e deu um suspiro de alivio. Taylor viu-a tambm ao mesmo tempo, certo de que os olhos lhe pregavam uma partida. Observou-a com 
curiosidade e encaminhou-se na sua direo.
     - Me, o que  que est a fazer aqui? - Espantou-se, incrdulo.
     - S vim passar a noite com a Denise Holtou. Sabes, a me da criana? Achei que podia precisar de apoio.
     - E sem mais nem menos, decidiu vir at c? Sem mesmo a conhecer?
     Abraaram-se os dois. Naturalmente.
     Taylor sentiu uma onda de orgulho. A me era uma mulher e peras. Judy afastou-se, por fim, dando-lhe uma vista de olhos.
     - Ests com um aspecto horrvel, filho.
     Taylor riu-se.
     - Obrigado pelo voto de confiana. Contudo, sinto-me bastante bem.
     - Aposto que sim. E deves. Esta noite levou a cabo uma faanha maravilhosa.
     Fez um sorriso breve antes de ficar srio outra vez.
     - Ento como  que ela estava? - quis ele saber. - Quero dizer, antes de o encontrarmos.
     Judy encolheu os ombros.
     - Perturbada, perdida, aterrorizada... Escolhe tu o adjetivo.  Passou um mau bocado esta noite.
     Olhou-a matreiro.
     - Ouvi dizer que deste um raspanete ao Joe.
     - E voltava a faz-lo. O que  que vocs pensam?
     Taylor levantou os braos como se se defendesse.
     - Ei, no me culpe. No sou o chefe e para, alm disso, ele  estava to preocupado quanto ns. Acredite em mim.
     Ela ps-se na ponta dos ps e afastou o cabelo dos olhos de Taylor.
     - Aposto que ests exausto.
     - Um bocado. Nada que umas horas de sono no possam remediar. Posso acompanh-la ao carro?
     Judy deu o brao ao filho e encaminharam-se para o parque de estacionamento. Aps alguns passos olhou-o de soslaio.
     - s um rapaz to simptico. Como  que ainda no te casaste?
     - A sogra preocupa-me.
     - H?
     - No a minha sogra, me. A da minha mulher.
     Judy tirou, brincalhona, o seu brao do filho.
     - Retiro tudo o que acabei de dizer.
     Taylor riu  socapa enquanto a alcanava de novo.
     - Estava a brincar. Sabe que a adoro.
     -  melhor para ti!
     Quando chegaram ao carro, Taylor pegou nas chaves e abriu a porta. J atrs do volante, ele inclinou-se para ficar  mesma altura da janela aberta.
     - Tem a certeza de que no est demasiado cansada para conduzir? - perguntou.
     - No, estou bem. Tambm no  assim to longe. A propsito, onde est o teu carro?
     - Ficou l na estrada. Vim com o Kyle na ambulncia. O Cari vai l pr-me.
     Judy assentiu enquanto girava a chave na ignio, ouvindo-se o motor a trabalhar de imediato.
     - Tenho muito orgulho em ti, Taylor.
     - Obrigado, me. Tambm eu me orgulho de si.
CAPTULO 9
     O dia seguinte amanheceu com nuvens e com alguns aguaceiros, embora a tempestade j tivesse sido arrastada para o mar. Os jornais traziam a cobertura dos acontecimentos 
da noite anterior com os cabealhos concentrando-se num tornado perto de Maysvilie, que tinha destrudo parte de um parque de caravanas, matando quatro pessoas e 
deixando sete feridos.
     Nenhuma noticia sobre as buscas bem sucedidas a Kyle Holton. O fato de ter estado perdido era do completo desconhecimento dos reprteres at ao dia seguinte, 
muitas horas depois de ter sido encontrado. Este sucesso fora, nas suas palavras, um no-acontecimento, principalmente em comparao com as ondas sucessivas de noticias 
que chegavam do Leste do estado.
     Denise e Kyle ainda estavam hospitalizados e tinham recebido autorizao para dormirem no mesmo quarto. Era obrigatrio, para ambos, que ali passassem a noite 
(ou melhor, o que dela restava), e embora Kyle pudesse ter tido alta na tarde do dia seguinte, os mdicos no deixaram Denise sair a fim de ficar em observao mais 
um dia.
     O barulho no hospital  no permitia dormir at tarde e, aps mais um exame a ambos pelo mdico de servio, Denise e Kyle passaram a manh a ver desenhos animados. 
Estavam os dois na cama, encostados s almofadas, vestindo a roupa do hospital. Kyle estava a ver o Scooby-Doo, os seus desenhos animados preferidos. Tambm tinham 
sido os favoritos de Denise em criana. S lhes faltavam as pipocas, mas este simples pensamento deu a volta ao estmago dela. Apesar de as tonturas se terem atenuado, 
as luzes intensas ainda lhe feriam os olhos e tinha dificuldade em reter a comida no estmago.
     - Est a correr - afirmou Kyle apontando para o ecr e vendo as pernas do Scooby transformarem-se em crculos. (T corr.)
     - Sim, est a fugir do fantasma. s capaz de repetir?
     - A fugir do fantasma, repetiu ele. (Fugi o fatama.)
     Ela tinha o brao em redor dele e deu-lhe umas palmadinhas no ombro.
     - Ontem  noite tambm fugiste?
     Kyle assentiu, os olhos fixos no ecr.
     - Sim, fugiu.
     Ela olhou-o com ternura.
     - Tiveste medo ontem  noite?
     - Sim, ele teve medo. (Sim, ele medo.)
     Apesar de o seu tom se ter alterado ligeiramente, Denise no sabia se ele  estava a falar de si prprio ou do Scooby-Doo. Kyle no compreendia a diferena entre 
os pronomes (eu, tu, me, ele, ela e por ai fora) nem utilizava os tempos verbais corretamente. Correndo, correu, corre... tudo tinha o mesmo significado, pelo menos 
tanto quanto ela se podia aperceber. O conceito de tempo (ontem, amanh, a noite passada) tambm estava para alm da sua compreenso.
     No era a primeira vez que ela tentava falar com ele sobre aquela experincia. J antes tinha tentado conversar com ele acerca disso, mas no fora muito longe. 
"Por que  que fugiste? Em que  que  estavas a pensar? O que  que viste?  Onde  que foste encontrado?" Kyle no respondera a nenhuma das suas perguntas, nem ela 
estava  espera disso, fosse como fosse, quis experimentar. Talvez um dia lhe pudesse contar. Um dia, quando pudesse falar, talvez fosse capaz de se lembrar do passado 
e explicar-lhe o que acontecera. "Sim, mame, lembro-me..." at l, todavia, tudo seria um mistrio. At l.
     Parecia uma eternidade.
     Com um pequeno empurro, a porta rangeu ao abrir-se.
     - Truz, truz.
     Denise voltou-se para a porta, e Judy McAden espreitou.
     - Espero no vir em m  altura. Telefonei para c e disseram-me que ambos estavam acordados.
     Denise endireitou-se, tentando esticar os vincos do fato do hospital.
     - No, claro que no. Estamos a ver televiso. Entre.
     - Tem a certeza?
     - Faa o favor. S consigo assistir a tantas horas de desenhos animados se fizer um intervalo.
     Com o comando  distncia baixou um pouco o volume do som.
     Judy encaminhou-se para a cama.
     - Bem, s quis passar por c para conhecer o seu filho.  o tema de conversa na cidade. Recebi cerca de vinte telefonemas hoje de manh.
     Denise ps a cabea de lado, olhando orgulhosa para o filho.
     - Aqui est ele, o pequeno terrorista. Kyle, diga ol  Miss Judy.
     - Ol, Miss Judy - sussurrou ele. (O  Miss jui.) No tirara os olhos do ecr.
     Judy puxou uma cadeira e sentou-se junto  cama. Deu-lhe umas palmadinhas na perna.
     - Ol, Kyle. Como ests? Ouvi dizer que tiveste uma grande aventura ontem  noite. A tua me estava deveras preocupada. Aps um momento de silncio, Denise 
encorajou o filho.
     - Kyle, diga: "Sim,  verdade".
     - Sim,  verdade. (Sim,  veda)
     Judy olhou para Denise.
     - Parece-se mesmo consigo.
     - Foi por isso que o comprei - afirmou ela rapidamente e Judy riu-se.
     Judy voltou a centrar a sua ateno em Kyle.
     - A tua me  bem-humorada, hein?
     Kyle no respondeu.
     - O Kyle ainda no fala bem - esclareceu Denise calmamente. - Est atrasado na fala.
     Judy acenou com a cabea, depois se inclinou um pouco para frente, como se dissesse um segredo a Kyle.
     - Oh, no faz mal, pois no Kyle? Seja como for, no sou to divertida como ver os desenhos animados. O que  que ests a ver?
     Mais uma vez, no obteve resposta, e Denise bateu-lhe no ombro.
     - Kyle, o que  que est a dar na televiso?
     Sem a olhar, murmurou:
     - O Scooby-Doo. (Coody-Doo.)
     O rosto de Judy iluminou-se.
     - Oh, Taylor costumava ver isso quando era pequeno. - Depois articulando as palavras mais devagar: -  divertido?
     Kyle assentiu com exuberncia.
     - Sim,  divertido. (Sim,  divetido.)
     Denise arregalou os olhos quando ele respondeu, depois se enterneceu outra vez. Deus seja louvado pelas pequenas graas...
     Judy voltou-se para Denise.
     - Nem acredito que ainda passem isto.
     - Scooby? Passam-no duas vezes por dia - informou Denise.
     - Temos de o ver de manh e  tarde.
     - Sorte a sua.
     - Sim, sorte a minha.
     Denise revirou os olhos e Judy riu-se  socapa.
     - Ento, como  que os dois  esto a se agentar?
     Denise endireitou-se um pouco mais na cama.
     - Bem, aqui o Kyle est perfeitamente. Pelo aspecto dele at parece que no aconteceu nada ontem  noite. Quanto a mim... Bom, digamos que podia estar melhor.
     - Vai ter alta em breve?
     - Amanh, espero. Assim o corpo ajude, claro.
     - Se tiver de ficar, quem  que vai tomar conta do Kyle?
     - Oh, fica aqui comigo. O hospital tem sido muito compreensivo nesse aspecto.
     - Bom, se precisar de algum para tomar conta dele, avise-me.
     - Obrigada pela oferta - agradeceu ela, os olhos postos em Kyle de novo. - Mas acho que ambos ficaremos bem, no ficamos, Kyle? A mame j esteve separada dele 
mais do que o suficiente por uns tempos.
     Nos desenhos animados, o tmulo de uma mmia abriu-se subitamente, e Shaggy e Scooby desataram a correr outra vez com Velma no seu encalo. Kyle riu-se, no 
parecia ter ouvido a me.
     - Alm do mais, j fez mais do que devia - continuou Denise. - Desculpe no ter tido a oportunidade de lhe agradecer ontem  noite, mas... Bem...
     Judy levantou as mos como se lhe recomendasse que no falasse.
     - Oh, no se preocupe com isso. Fiquei contente por as coisas se terem resolvido da melhor maneira. O Carl j passou por c?
     - O Carl?
     -  um militar. O de ontem  noite.
     - No, ainda no. Vai passar por c?
     Judy assentiu.
     - Foi o que ouvi dizer. Esta manh o Taylor disse-me que ele ainda tinha de acabar umas quantas coisas.
     - Taylor?  o seu filho, no ?
     - O meu nico filho.
     Denise esforava-se por se recordar da noite anterior.
     - Foi ele quem me encontrou, no  verdade?
     Judy assentiu.
     - Andava tentando ver que linhas eltricas estavam derrubadas quando deparou com o seu carro.
     - Acho que lhe devia agradecer, tambm.
     - Eu digo-lhe. Mas no era ele o nico nas buscas, sabe?  Acabaram por reunir-se cerca de vinte pessoas. Pessoas de toda a cidade foram l para ajudar.
     Denise abanou a cabea, espantada.
     - Mas eles nem sequer me conheciam.
     - As pessoas tm uma forma especial de nos surpreender, no tm? Mas h muita gente boa por aqui. Na verdade, no fiquei nada admirada. Edenton  uma cidade 
pequena, mas tem um grande corao.
     - Viveu sempre aqui?
     Judy anuiu.
     Denise murmurou com ar conspiratrio:
     - Aposto que sabe praticamente tudo o que se passa c.
     Judy ps a mo sobre o corao, como a Scarlett O'Hara, e arrastou as palavras:
     - Minha querida, podia contar-lhe histrias que lhe punham os cabelos em p.
     Denise riu-se.
     - Talvez tenhamos a oportunidade de visit-la um dia e ento pr-me  a par.
     Judy representou, por completo, o papel da bela e inocente sulista:
     - Mas isso seria bisbilhotice e a bisbilhotice  pecado.
     - Bem sei. Mas eu sou fraca.
     Judy piscou um olho.
     - Bom, eu tambm. Havemos de fazer isso. E j que falamos disto, vou contar-lhe como era a sua me em pequena.
     Uma hora aps o almoo, CarI Huddle encontrou-se com Denise e preencheu a papelada que faltava. Mais animada e muito mais lcida que na vspera, Denise respondeu 
a tudo pormenorizadamente. Uma vez que o caso estava mais ou menos oficialmente encerrado, no levou mais de vinte minutos. Kyle  estava sentado no cho a brincar 
com um avio que Denise descobrira na mala de mo. O sargento Huddle tambm lhe devolvera.
     Quando acabaram, o sargento Huddle dobrou os papis e meteu-os num ficheiro, se bem que no se levantasse logo de seguida. Em vez disso, fechou os olhos abafando 
um bocejo com as costas da mo.
     - Desculpe - pediu ele, tentando sacudir o entorpecimento que se tinha apoderado dele.
     - Cansado? - inquiriu ela compreensiva.
     - Um bocado. Tive uma noite recheada de peripcias.
     Denise ajeitou-se melhor na cama.
     - Bom, estou satisfeita por ter c vindo. Queria agradecer-lhe por tudo quanto fez a noite passada. No pode imaginar o quanto isso significa para mim.
     O sargento Huddle anuiu como se j se tivesse encontrado em situaes semelhantes.
     - No precisa agradecer.  o meu trabalho. Para alm do mais, tambm tenho uma filha e se fosse com ela, teria querido que toda a gente, num raio de setenta 
e cinco quilmetros, deixasse o que estava a fazer para me ajudar a encontr-la. Ningum teria conseguido arrastar-me dali ontem.
     Pelo seu tom de voz, Denise no duvidou do que ele dizia.
     - Ento - perguntou ela - tem uma menina?
     - Sim, tenho. O aniversrio dela foi na segunda-feira passada. Fez cinco.  uma boa idade.
     - Todas as idades so boas, pelo menos foi o que aprendi. Como  que ela se chama?
     - Campbell. Como a sopa.  o nome de solteira da Kim, a minha mulher.
     -  a sua nica filha?
     - At agora. Mas dentro de uns meses, j no ser.
     - Oh, parabns. Menino ou menina?
     - Ainda no sabemos. Vai ser surpresa como foi com a Campbell.
     Ela acenou com a cabea fechando os olhos por uns instantes.  O sargento Huddle bateu com o ficheiro na perna e levantou-se para se ir embora.
     - Bom, tenho de ir andando. Com certeza que precisa descansar - disse embora suspeitasse de que falava mais para si prprio do que para ela.
     Denise endireitou-se mais na cama.
     - Bem... Hum... Antes de ir, posso fazer-lhe algumas perguntas sobre a noite passada? Com toda a confuso na altura e tudo o mais esta manh, ainda no sei 
o que, de fato, aconteceu.  Pelo menos, no de fonte segura.
     - Claro. Pode perguntar.
     - Como  que foram capazes... Quero dizer, estava to escuro e com a tempestade... - Fez uma pausa tentando encontrar as palavras certas.
     - Quer dizer, como  que o encontramos? - Sugeriu o sargento Huddle.
     Ela assentiu.
     Ele relanceou os olhos por Kyle que ainda continuava a brincar com o avio num canto.
     - Bom, gostaria de dizer-lhe que foi tudo percia e treino, mas no foi. Tivemos sorte. Uma sorte danada. Podia ter ficado por l dias a fio; o pntano  to 
denso. Durante um bom perodo de tempo no tnhamos idia da direo que ele tinha tomado, mas o Taylor a modos que pensou que o Kyle seguiria a favor do vento de 
costas voltadas para os  relmpagos. Foi o que aconteceu, acertou em cheio.
     Acenou com a cabea em direo a Kyle com o ar de um pai cujo filho tivesse feito o gesto da vitria, depois continuou.
     - Tem ali um rapaz dos tesos, Miss Holton. O fato de o Kyle estar bem, tem mais a ver com ele do que conosco, a maioria dos meninos... Bem, dos que conheo... 
Teria ficado aterrorizada, mas o seu filho no.  espantoso.
     Denise franzia o sobrolho enquanto pensava no que ele lhe tinha acabado de contar.
     - Espere, foi Taylor McAden?
     - Sim, o tipo que a encontrou. Esfregou o queixo. Na verdade, foi ele que os encontrou aos dois, se quer saber. Descobriu Kyle numa armadilha para os patos 
e ele j no o largou at chegarmos ao hospital. Agarrou-se a ele como uma lapa.
     - Taylor McAden encontrou Kyle? Mas eu pensava que tinha sido o senhor.
     O sargento Huddle pegou no bon que  estava aos ps da cama.
     - No, no fui eu, mas pode apostar que no foi por no tentar. S que parecia que Taylor estava especialmente sintonizado com o Kyle naquela noite, no me 
pergunte como.
     O sargento Huddle parecia embrenhado em pensamentos. De onde estava deitada, Denise podia ver-lhe os papos debaixo dos olhos. Tinha um aspecto cansado, como 
se no quisesse seno estender-se numa cama.
     - Bom... Agradeo-lhe na mesma. Se no fosse o senhor, provavelmente Kyle no estaria aqui.
     - Tudo bem. Adoro finais felizes e fico satisfeito por este ter sido um deles.
     Depois de se despedir, o sargento Huddle esgueirou-se pela porta. Quando esta se fechou atrs dele, Denise olhou para o teto sem na realidade estar a v-lo.
     - Taylor McAden? Judy McAden?
     Nem queria acreditar na coincidncia, mas mais uma vez, tudo o que ocorrera na noite anterior no tinha sido seno um mero acaso. A tempestade, o veado, o cinto 
apertado no colo e no no ombro (nunca antes tinha feito isto e no voltaria a faz-lo, disso estava certa), Kyle vagueando pelo pntano enquanto Denise jazia inconsciente 
e incapaz de impedi-lo... Tudo.  At mesmo os McAden.
     Ela que viera dar-lhe apoio, ele que encontrara o seu carro. Ela que conhecera a me h tanto tempo atrs, e ele acabando por localizar Kyle.
     Coincidncia? Destino? Qualquer outra coisa?
     Ainda nessa mesma tarde, com a ajuda duma enfermeira e da lista telefnica, Denise escreveu cartas pessoais de agradecimento para Gari e para Judy, bem como 
uma carta para todos os envolvidos nas buscas (endereada ao quartel dos bombeiros).
     Por ltimo, escreveu uma carta a Taylor e, enquanto o fazia, no pde afastar o pensamento dele.
CAPTULO 10
     Trs dias aps o acidente e a busca de Kyle Holton, levada a cabo com sucesso, Taylor McAden passava por debaixo do arco em marga que lhe servia de entrada 
e percorreu a distncia at  pedra tumular do Cemitrio de Cypress Park, o mais antigo de Edenton. Sabia exatamente para onde se dirigia e encurtou caminho atravs 
do relvado, avanando por entre as lpides. Algumas eram to antigas que duzentos anos de chuvas tinham apagado quase todas as inscries nelas gravadas, e recordava-se 
das vezes que parara partentando decifr-las.
     Era, como cedo percebeu, impossvel.
     Naquele dia, contudo, Taylor no lhes prestou muita ateno deslocando-se, com passadas regulares sob um cu coberto de nuvens, e parando somente quando se 
aproximou da sombra de um salgueiro gigantesco. Aqui, no lado oeste do Cemitrio, a sepultura que tinha vindo visitar situava-se a no mais de trinta centmetros. 
Era mais um bloco de granito com uma inscrio apenas na pedra vertical.
     A relva  estava muito crescida dos lados, mas  estava bem cuidada. Mesmo em frente, num pequeno vaso,  estava um ramo de cravos secos. No teve de os contar 
para saber quantos eram, nem sequer se deitou a adivinhar quem os colocara l.
     A me deixara onze cravos, um por cada ano de casamento. Punha-os l sempre em Maio, no dia do aniversrio do seu casamento, como vinha fazendo ao longo dos 
ltimos vinte e sete anos. Durante todo este tempo, ela nunca contara a Taylor que o pai se preparava para deix-los, e Taylor nunca falara desse assunto, embora 
dele tivesse conhecimento. Ficava satisfeito por deix-la guardar o seu segredo e, assim sendo, tambm podia guardar o seu.
     Ao contrrio da me, Taylor no visitava a sepultura do pai no dia do aniversrio do casamento dos pais. Esse era o dia reservado  me, o dia em que tinham 
jurado amor eterno, na presena da famlia e dos amigos. Taylor, por sua vez, visitava-a em Junho, no dia em que o pai falecera. Era um dia que ele jamais esqueceria.
     Como habitualmente, trazia vestidos uns jeans e uma camisa de trabalho de mangas curtas. Tinha vindo diretamente dum projeto em que  estava a trabalhar, escapulindo-se 
durante o intervalo do almoo, e algumas partes da camisa colavam-se no peito e nas costas. Ningum perguntou onde  que ele ia, e ele no se deu ao trabalho de 
lhes dizer. Ningum tinha nada a ver com isso, era um assunto seu.
     Taylor curvou-se e comeou a arrancar as ervas mais altas, enrolando-as  volta da mo para agarr-las melhor e puxando-as de repente de modo a nivel-las com 
a relva circundante. No se apressou, tendo, assim, uma oportunidade de aclarar as idias enquanto desbastava dos quatro lados.
     Quando acabou, passou o dedo pelo granito polido. As palavras eram simples:
Mason Thomas McAden Pai e marido dedicado 1936-1972.
     Ano aps ano, visita aps visita, Taylor ia ficando mais velho; tinha agora a mesma idade que o pai tinha quando morreu. Tinha-se transformado de um garotinho 
assustado no homem que era agora. No entanto, a lembrana que guardava do pai tinha acabado, abruptamente, naquele ltimo e horrvel dia. Por mais que tentasse, 
no conseguia imaginar qual seria o aspecto do pai se ainda fosse vivo. Para Taylor, o pai teria sempre trinta e seis anos. Nem mais velho nem mais novo, a memria 
seletiva tinha-se encarregado disso. Naturalmente, o mesmo acontecia com a fotografia.
     Taylor fechou os olhos  espera que a imagem lhe surgisse no pensamento. No precisava andar com uma fotografia para saber exatamente como ele era. Ainda havia 
uma em cima do console da lareira da sala de estar. Via-a todos os dias ao longo dos ltimos vinte e sete anos.
     A fotografia tinha sido tirada uma semana antes do acidente, numa manh amena de Junho, mesmo em frente a casa.
     No retrato, o pai  estava a descer do alpendre, com a cana de pesca na mo, a caminho do rio Chowan. Embora s escondidas, Taylor tinha seguido o pai, ainda 
em casa enquanto reunia a isca, porfiando em encontrar tudo o que precisava. A me tinha-se ocultado atrs do caminho e, quando ela chamou por ele, Mason voltou-se, 
e, inesperadamente, ela tirou-lhe a fotografia. O rolo havia sido mandado revelar e, por esse motivo, no tinha sido destrudo com os outros retratos. Judy s o 
foi buscar depois do funeral e tinha chorado enquanto olhava a fotografia, depois meteu-a na carteira. As outras pessoas no estranhavam (o pai perambular pelas 
ruas com o cabelo despenteado, uma ndoa na camisa que vestia) mas para Taylor isso resumia a prpria natureza do pai. Era esse esprito indomvel que definia o 
homem que ele era e a razo por que tinha afetado tanto a me. Era a sua expresso, o brilho dos olhos, a postura atrevida e, no entanto, profundamente alerta.
     Um ms aps a morte do pai, Taylor surrupiara a fotografia da bolsa da me e adormecera com ela nas mos. A me tinha entrado no quarto e deparara com o retrato 
preso nas suas mozinhas pequenas, segurando-o com fora entre os dedos dobrados e manchados pelas lgrimas. No dia seguinte, ela pegara no negativo e mandara fazer 
outra cpia; Taylor colara quatro pauzinhos de gelados num vidro sem prstimo e encaixou-lhe o retrato. Ao longo dos anos nunca pensara em trocar a moldura.
     Trinta e seis.
     O pai parecia to novo na fotografia. O rosto era magro e jovial, nos olhos e na testa apenas se vislumbravam umas rugas tnues que nunca viriam a acentuar-se. 
Por que razo, ento, parecia o pai muito mais velho do que Taylor se sentia neste momento? O pai tinha-se mostrado to... Sensato, to seguro de si, to corajoso. 
Aos olhos do filho de nove anos, ele era um homem de valor mtico, um homem que entendia a vida e que era capaz de explicar quase tudo. Seria isso devido a uma vida 
vivida mais intensamente? Teria a sua vida sido pautada por experincias mais profundas e mais excepcionais? Ou seria esta impresso apenas o produto dos sentimentos 
de um garotinho pelo seu pai, incluindo os ltimos momentos que passaram juntos?
     Taylor no sabia, mas tambm nunca viria a saber. A resposta havia sido enterrada com o pai h muitos anos atrs.
     J mal se lembrava das semanas que se seguiram  sua morte. Todo aquele tempo se tinha transformado, estranhamente, numa srie de recordaes fragmentadas: 
o funeral, ficar com os avs, na casa deles, no outro extremo da cidade, pesadelos sufocantes quando tentava dormir. Era Vero, a escola tinha acabado, e Taylor 
passava a maior parte do tempo na rua, tentando apagar o que acontecera. A me vestiu-se de preto durante dois meses, chorando a perda sofrida. Depois, finalmente, 
ps o preto de lado. Mudaram de casa, para uma menor, e, se bem que nove anos de idade no compreendessem muito o que  a morte ou como lidar com ela, Taylor sabia 
exatamente o que a me queria transmitir-lhe.
     Agora somos s os dois. Temos de andar para frente.
     Depois daquele Vero fatdico, Taylor deixava-se ir ao sabor do marna escola, obtendo notas razoveis, mas no espetaculares, passando, porm, sempre de ano. 
Os outros o achavam particularmente vivo e, em alguns aspectos, tinham razo. Com os cuidados e a fora interior da me, a sua adolescncia decorreu como a da maioria 
dos outros adolescentes que viviam nesta regio. Ia acampar e andar de barco sempre que podia; jogava futebol, basquetebol e basebol, ao longo dos anos de estudante. 
No entanto, era considerado, sob muitos aspectos, um solitrio. Mitch era, e sempre tinha sido, o seu melhor amigo, e no Vero iam, apenas os dois, caar e pescar. 
Desapareciam uma semana seguida e chegavam a ir at  Gergia. Embora Mitch agora j estivesse casado, continuavam a faz-lo sempre que podiam.
     Depois de acabar o liceu, Taylor preferiu trabalhar em vez de ir para a faculdade, levantando paredes e aprendendo o oficio de carpinteiro. Foi aprendiz de 
um alcolatra, um homem amargo cuja mulher o abandonara e que se preocupava mais com o dinheiro que podia ganhar do que com a qualidade do trabalho que fazia. Depois 
de uma violenta discusso que quase acabou em pancadaria, Taylor deixou de trabalhar para ele e comeou a freqentar aulas para tirar a licena de empreiteiro.
     Sustentava-se a si mesmo trabalhando na mina de gesso perto de Little Washington, um emprego que o deixava com tosse quase todas as noites, mas aos vinte e 
quatro anos tinha poupado o suficiente para abrir o seu prprio negcio. Nenhum projeto era demasiado pequeno, e baixava freqentemente os preos para ir construindo 
o seu empreendimento e a sua reputao. Aos vinte e oito anos, quase tinha falido por duas vezes, mas continuava teimosamente em frente tentando melhores resultados. 
Ao longo dos ltimos oito anos, foi consolidando o negcio e atingindo um estilo de vida razovel. Nada de grandioso (a loja era pequena e o caminho tinha seis 
anos), mas era o suficiente para ele levar a vida simples que desejava.
     Uma vida que inclua ser bombeiro voluntrio.
     A me tinha tentado, energicamente, dissuadi-lo. Foi a nica vez que ele recusou, deliberadamente, fazer-lhe a vontade. Taylor troava, por norma, dos argumentos 
e mudava de assunto. Nunca estivera para se casar e punha em dvida se isso alguma vez viria a acontecer. Era algo que no imaginava fazer embora no passado se tivesse 
envolvido, de forma bastante sria, com duas mulheres. A primeira vez acontecera aos vinte e poucos anos, quando comeou a encontrar-se com Valerie. Ela acabara 
de sair de uma relao desastrosa quando se conheceram: o namorado engravidara outra garota, e ela recorrera a Taylor naqueles momentos difceis. Dois anos mais 
velha que ele, era esperta e tinham-se dado bem durante bastante tempo. Todavia, Valerie queria uma relao mais sria; Taylor dissera-lhe que poderia nunca vir 
a estar pronto para esse passo. Foi uma fonte de tenses sem respostas fceis. Com o passar do tempo, acabaram por se afastar; ela foi-se embora. As ltimas noticias 
que tinha dela era que se tinha casado com um advogado e que vivia em Charlotte.
     Depois houve Lori. Ao contrrio de Valerie, era mais nova que Taylor e tinha vindo para Edenton para trabalhar no banco.
     Era a funcionria que tratava dos emprstimos e trabalhava muitas horas; ainda no tinha tido a oportunidade de fazer amigos quando Taylor entrou no banco para 
pedir uma hipoteca.
     Ofereceu-se para apresent-la a algumas pessoas; ela aceitou.  Em breve comearam a namorar. Tinha uma inocncia infantil que encantava Taylor e, simultaneamente, 
lhe despertava o seu instinto de proteo; porm, ao fim e ao cabo, tambm ela desejava mais do que Taylor  estava disposto a oferecer.
     Romperam pouco tempo depois. Agora  estava casada com o filho do prefeito; tinha trs filhos e conduzia um carro. Depois do noivado, ele apenas trocara gracejos 
com ela.
     Quando chegou aos trinta, tinha sado com a maior parte das garotas solteiras de Edenton; quando chegou aos trinta e seis, estas deixaram de existir. Melissa, 
a mulher de Mitch, tinha tentado arranjar-lhe encontros, mas tambm estes tinham fracassado. Contudo, em boa verdade, ele no se tinha esforado, pois no? Quer 
Valerie, quer Lori achavam que havia algo dentro dele a que elas no eram capazes de chegar, alguma coisa relacionada com a forma como ele se via a si mesmo e que 
elas no conseguiam, de fato, compreender. E, embora soubesse que elas tinham boas intenes, as suas tentativas para falarem com ele acerca deste seu distanciamento, 
no conseguiram, ou no puderam, mudar nada.
     Quando acabou de arrancar as ervas, ps-se de p, os joelhos estalaram e doam-lhe da posio em que tinha estado.  Antes de se retirar, rezou uma pequena orao 
em memria do pai e curvou-se para tocar a pedra tumular uma vez mais.
     - Tenho tanta pena, pai - murmurou - tenho tanta, tanta pena.
     Mitch Johnson  estava encostado ao caminho de Taylor quando o viu sair do Cemitrio. Na mo tinha duas latas de cerveja presas pelas tiras de plstico (o resto 
da embalagem de seis que tinha encetado na noite anterior) e agarrou numa delas e atirou-a a Taylor  medida que se aproximava. Taylor apanhou-a em andamento, surpreendido 
por ver o amigo e ainda com os pensamentos no passado.
     - Pensei que estivesses para fora por causa do casamento - comentou Taylor.
     - Regressamos ontem  noite.
     - O que  que estas aqui a fazer?
     - A modos que pensei que agora ias querer uma cerveja - retorquiu Mitch com toda a simplicidade.
     Mais alto e mais magro que Taylor, media um metro e oitenta e seis e pesava oitenta quilos. Grande parte do cabelo j desaparecera, tinha-lhe comeado a cair 
aos vinte e poucos anos, e usava culos com uns aros de metal que lhe davam um ar de contabilista ou de engenheiro. Na realidade, trabalhava no armazm de ferragens 
e ferramentas do pai e na cidade era considerado um gnio da mecnica. Conseguia consertar tudo, desde cortadores de relva a bulldozers, e trazia os dedos permanentemente 
sujos de leo. Ao contrrio de Taylor, tinha freqentado a Universidade da Carolina de Leste, formando-se em Gesto, e conhecera uma psicloga de Rocky Mount chamada 
Melissa Kindle antes de ter voltado para Edenton.  Estavam casados h doze anos e tinham quatro filhos, todos meninos.
     Taylor tinha sido o padrinho de casamento e do filho mais velho. Por vezes, da forma como ele falava da famlia, Taylor suspeitava que agora amava mais Melissa 
do que quando desceram do altar.
     Tal como Taylor, Mitch tambm era bombeiro voluntrio do Quartel de Bombeiros de Edenton. Com a insistncia de Taylor, ambos tinham feito o treino exigido e 
incorporaram-se na mesma altura. Embora Mitch o considerasse mais um dever do que uma vocao, era algum que Taylor queria ao seu lado sempre que eram chamados. 
Quando Taylor procurava o perigo, Mitch empregava a prudncia e ambos se contrabalanavam em situaes difceis.
     - Sou assim to previsvel?
     - Bolas, Taylor, conheo-te melhor que  minha mulher.
     Taylor revirou os olhos enquanto se encostava ao caminho.
     - Como vai a Melissa?
     - Vai bem. A irm p-la maluca no casamento, mas j voltou ao normal desde que chegamos a casa. Agora sou s eu e os meninos a darem com ela em doda. O tom 
de Mitch suavizara-se imperceptivelmente. E tu, como  que vais?
     Taylor encolheu os ombros sem fitar os olhos de Mitch.
     - Vou bem.
     Mitch no o pressionou sabendo que Taylor no diria mais nada.  O pai era um dos poucos assuntos de que nunca falavam. Mitch tirou um leno do bolso de trs 
das calas e limpou o suor da testa.
     - Ouvi dizer que tiveste uma grande noite no pntano enquanto estive fora.
     -  verdade, tivemos.
     - Quem me dera ter l estado.
     - Tenho a certeza de que nos tinhas feito jeito. Foi uma tempestade dos diabos.
     - Sim, mas se l tivesse estado, no tinha havido aquele drama todo. Ter-me-ia dirigido diretamente quelas armadilhas dos patos, sem hesitar. Nem acredito 
que tenham levado tantas horas a descortinar isso.
     Taylor riu  socapa bebendo um gole de cerveja e dando uma mirada a Mitch.
     - A Melissa ainda quer que desistas?
     Mitch guardou o leno no bolso e anuiu.
     - Sabes como  que , com os meninos e tudo. S no quer que nada me acontea.
     - E o que  que tu pensas?
     Levou algum tempo a dar uma resposta.
     - Costumava pensar que faria isto para o resto da vida, mas j no estou assim to certo.
     - Ento, estas a pr a hiptese de te vires embora?
     Mitch sorveu um grande gole da cerveja antes de responder.
     - Sim, acho que sim.
     - Precisamos de ti - afianou Taylor, srio.
     Mitch deu uma gargalhada.
     - Pareces um recruta do exrcito quando falas assim.
     - No entanto,  verdade.
     Mitch abanou a cabea.
     - No, no . Agora j temos uma grande quantidade de voluntrios e h muita gente que me pode substituir de um momento para o outro.
     - Esses no saberiam o que se estaria a passar.
     - Nem ns no principio. - Fez uma pausa, apertando a lata com os dedos e pensando. - Sabes, no  s por causa da Melissa,  tambm por mim. J l estou h 
muito tempo e acho que j no tem o mesmo significado. Eu no sou como tu, j no sinto necessidade de faz-lo. A modos que gosto de poder passar algum tempo com 
os meninos sem ter de sair a correr numa chamada de urgncia. Gostaria de poder jantar com a minha mulher com a certeza de que o dia acabara.
     - Parece que j te decidiste.
     Mitch percebeu o desapontamento na voz de Taylor e levou um instante a assentir.
     - Bom, na verdade assim . Vou ficar at ao fim do ano, mas depois se acabou. S queria que fosses o primeiro a saber.
     Taylor no teceu comentrios. Uns escassos minutos depois, Mitch levantou a cabea olhando timidamente para o amigo.
     - Mas no foi por isso que hoje vim ter contigo. Vim para te dar apoio, no para discutir esse assunto.
     Taylor parecia embrenhado em pensamentos.
     - Como j te disse, estou bem.
     - Queres ir ai para um stio qualquer e tomarmos umas cervejas?
     - No. Tenho de voltar ao trabalho. Estamos nos acabamentos em casa de Skip Hudson. 
     - Tens a certeza?
     - Estava s a brincar. Sabes perfeitamente que no o faria. Que tal quarta-feira? Queres passar l em casa?
     - Magnfico!
     - Est bem, ento. - Mitch concordou e afastou-se do caminho enquanto tirava as chaves do bolso. Depois de amolgar a lata, atirou-a para a caixa aberta do 
caminho de Taylor fazendo um estrpito.
     - Obrigado - agradeceu Taylor.
     - Sempre s ordens.
     - Quero dizer, por teres passado por c hoje.
     - J sabia ao que te querias referir.
     - Bom, que tal jantarmos na prxima semana? Quando as coisas voltarem ao normal?
     - Bifes grelhados?
     - Claro! Asseverou Mitch como se nunca tivesse considerado outra alternativa.
     - Ento est bem. Taylor olhou para Mitch desconfiado.
     - A Melissa no vai levar outra amiga de novo, pois no? Mitch riu-se.    
     - No. Mas posso dizer-lhe para recrutar algum, se quiseres.
     - No, obrigado. Depois da Claire, acho que j no acredito no discernimento dela.
     - Ora, v l, a Claire no era assim to m.
     - Tu no ficaste a noite toda a ouvir a tagarelice dela. Era como um daqueles coelhos a pilhas, no conseguia estar sossegada um minuto sequer.
     - Estava nervosa.
     - Era uma chata.
     - Vou contar  Melissa que me disseste isso.
     - No, no faas...
CAPTULO 11
     Sentada na cozinha, Denise pensava que a vida era como o estrume.
     Quando usado no jardim, servia de fertilizante.  Eficaz e barato, alimentava o solo e ajudava o jardim a tornar-se to bonito quanto podia ser. Mas, fora dele, 
numa pastagem, por exemplo, e quando pisado inadvertidamente, era uma coisa repugnante.
     Uma semana atrs, quando ela e Kyle se juntaram no hospital, sentira, decididamente, que o estrume estava a ser utilizado no jardim. Nessa altura nada mais 
importava, e quando ela verificou que ele se encontrava bem, tudo no mundo ficou no seu lugar. A sua vida, por assim dizer, tinha sido fertilizada.
     No entanto, passada uma semana, tudo parecia, de repente, ser diferente. A realidade, na seqncia do acidente, tinha-se finalmente instalado, e no era, de 
forma nenhuma, um fertilizante. Denise  estava sentada em cima da mesa de frmica da sua pequena cozinha, estudando atentamente os papis que tinha na frente e esforando-se 
por perceb-los. A estada no hospital estava coberta pelo seguro, mas o que podia ser deduzido nos impostos no. O carro podia ser velho, porm era seguro. Agora 
estava desfeito, e ela s tinha seguro contra terceiros. O patro, Ray, graas a Deus, dissera-lhe que voltasse ao trabalho quando estivesse tudo em ordem, e haviam 
passado oito dias sem receber um nico tosto. As faturas habituais, telefone, eletricidade, gua, gs, deviam ser pagas dentro de poucos dias. Sem contar com a 
conta do servio de reboque que tinha sido chamado para retirar o carro da berma da estrada.
     Esta semana a vida de Denise  estava como o estrume numa pastagem.
     Claro que no seria assim to mal se fosse milionria.  Nestas circunstncias, estes problemas no passariam de meros inconvenientes. Imaginava alguns colunveis 
comentarem a que era ter de tratar destes assuntos. Mas com apenas umas centenas de dlares no banco, isto no era uma maada. Era um problema concreto e dos grandes.
     Podia pagar as contas mensais com o que restava na conta  ordem e ainda ficar com dinheiro suficiente para as despesas de alimentao, se tivesse cuidado. 
Este ms comeriam montanhas de cereais, isso era certo, e tinham muita sorte por Ray os deixar comer de graa ao jantar. Podia utilizar o carto de crdito para 
pagar ao hospital a parte que no  estava coberta pelo seguro, quinhentos dlares. Felizmente tinha telefonado a Rhonda, uma outra empregada do Eights, e ela tinha 
concordado em lhe dar boleia  ida e no regresso do emprego. Ainda faltava a conta do reboque, mas afortunadamente, estavam dispostos a no lhe cobrar nada em troca 
dos salvados. Setenta e cinco dlares pelo que restava do carro e, afirmavam, estavam quites.
     Resultados prticos? Um pagamento adicional do carto de crdito todos os meses, e ela teria de comear a usar a bicicleta para as suas voltas na cidade. Pior 
ainda, teria de depender de algum para ir e vir do restaurante. Para uma garota com formao universitria, no era uma situao de que se pudesse gabar.
     Que porcaria!
     Se tivesse uma garrafa de vinho, t-la-ia aberto. Bem precisava de um escape. Gaita, nem sequer se podia dar ao luxo de compr-la.
     Setenta e cinco dlares pelo carro!
     Embora fosse correto, parecia-lhe que, de alguma forma, no era justo. Nem sequer ia pr os olhos no dinheiro.
     Depois de passar os cheques das contas, fechou os sobrescritos e colou os ltimos selos que tinha. Teria de passar pelos correios para comprar mais e fez uma 
anotao no bloco junto do telefone ao tomar conscincia de que "passar por" tinha assumido um significado completamente novo. Se no fosse to pattico, ter-se-ia 
rido do ridculo de tudo aquilo.
     Uma bicicleta. Valha-nos Deus!        
     Tentando ver os aspectos positivos, disse de si para si que, pelo menos, ficaria em forma. Alguns meses depois poderia at ficar grata pela melhoria da forma 
fsica. "Olhe para as tuas pernas", j imaginava as pessoas a comentarem "sem dvida, parecem ao. Como  que conseguiste?"
     "A andar de bicicleta".
     Desta vez no pde deixar de soltar uma risada. Tinha vinte e nove anos e havia de estar a falar da sua bicicleta.
     Valha-nos Deus!
     Denise parou de rir, sabendo que no se tratava seno de uma  reao ao stress e saiu da cozinha para ir ver Kyle.
     Estava a dormir profundamente. Depois de lhe ajeitar o cobertor e de lhe dar um beijo rpido na face, deixou o quarto e foi sentar-se no alpendre das traseiras, 
perguntando-se, mais uma vez, se teria tomado a deciso certa em mudar-se para ali. Se bem que soubesse que era impossvel, deu consigo a desejar ter podido ficar 
em Atlanta. Teria sido agradvel ter, por vezes, com quem conversar, algum que ela j conhecia h anos. Achou que podia telefonar, mas este ms estava fora de questo 
e nem pensar em telefonar a pagar no destino. Apesar de os amigos no se importarem, no era algo que ela se sentisse bem a fazer.
     No entanto, queria tanto falar com algum. Mas quem?
     A exceo de Rhonda, do restaurante, (que tinha vinte anos e era solteira), e de Judy McAden, Denise no conhecia ningum na cidade. Uma coisa era ter perdido 
a me alguns anos antes, outra era ter perdido toda a gente que conhecia. Nem to pouco a ajudava saber que a culpa era sua. Tinha decidido mudar-se, tinha decidido 
deixar o emprego, tinha decidido viver para o filho. Viver assim implicava certas facilidades (bem como uma necessidade) mas, por vezes, no podia deixar de pensar 
que a vida lhe passava ao lado sem ela se dar conta.
     A solido, no entanto, no era da exclusiva responsabilidade da mudana para Edenton. Mesmo em Atlanta, pensando bem, as coisas tinham comeado a alterar-se. 
A maior parte dos seus amigos havia casado e tinham filhos. Outros tinham ficado solteiros. Nenhum deles, Porm, tinha j afinidades com ela. Os casados gostavam 
de se encontrar com outros casais, os solteiros gostavam de levar o tipo de vida que tinham tido na faculdade. Ela no se encaixava em nenhum destes mundos. Mesmo 
no dos que tinham filhos; bolas, era penoso ouvir as maravilhas que eles faziam. E falar sobre Kyle? Mostravam-se prestveis, mas nunca iriam compreender, de fato, 
a situao.
     E depois havia, naturalmente, a relao com os homens Brett, o bom do Brett, foi o ltimo homem com quem saiu e, na  realidade, nem sequer tinha sido um encontro 
marcado. Uma casualidade, talvez, mas no um encontro marcado. E que casualidade, hein? Vinte minutos e catrapus!  Toda a sua vida mudou. Como  que seria a sua 
vida se isto no tivesse acontecido?  verdade, Kyle no teria nascido... Mas... Mas o qu? Talvez estivesse casada, talvez tivesse tido filhos, talvez tivesse at 
uma casa com uma vedao branca de estacas pontiagudas em volta do jardim. Talvez conduzisse um Volvo ou uma carrinha e passasse as frias na Disney World. Soava 
bem, definitivamente soava mais fcil, mas a sua vida teria sido melhor?
     Kyle. O querido Kyle. O simples pensamento a fez sorrir.
     No, decidiu ela, no teria sido melhor. Se havia um raio de sol na sua vida, esse raio era ele. Engraado como ele a conseguia pr doida e ainda faz-la am-lo 
por isso.
     Suspirando, Denise deixou o alpendre e dirigiu-se para o quarto. Ao despir-se no banheiro, ficou em p frente ao espelho. As escoriaes no rosto ainda eram 
visveis, mas apenas ligeiramente. O corte na testa fora muito bem cosido e, embora fosse ficar com uma cicatriz para sempre, era perto da raiz do cabelo e no seria 
muito evidente.
      parte isso, agradou-lhe o que viu. Porque o dinheiro era uma preocupao constante, no havia bolachas nem batatas fritas l em casa. E dado que Kyle no 
comia carne, tambm raramente a comprava.  Estava agora mais magra do que antes de Kyle ter nascido; cus, estava mais magra do que quando andava na faculdade. Sem 
qualquer esforo, tinha perdido sete quilos.
     Se tivesse tempo, escreveria um livro com o titulo "Stress e Pobreza: O Caminho Mais Seguro Para Perder Rapidamente os Centmetros a Mais!" Era capaz de vender 
um milho de exemplares e depois reformava-se.
     Voltou a dar uma risada. Sim. Pois..
     Tal como Judy referira no hospital, Denise parecia-se muito com a me. Tinha o mesmo cabelo escuro e ondulado e olhos amendoados, tinham sensivelmente a mesma 
altura. A semelhana da me, tambm nela os anos iam passando sem marcas evidentes: alguns ps-de-galinha aos cantos dos olhos, mas,  parte isso, tinha uma pele 
macia.
     Ao menos alguma coisa corria bem.
     Decidindo pr de lado estas conjecturas, vestiu um pijama, ps a ventoinha no mnimo e engatinhou para dentro dos lenis antes de apagar a luz. O zumbido e 
o movimento da ventoinha eram ritmados, e ela adormeceu uns escassos minutos depois.
     Com os primeiros raios de sol a entrarem pela janela, Kyle atravessou o quarto e enfiou-se na cama com Denise, pronto para dar incio ao novo dia. Murmurou: 
- Acorda, M, acorda. E, quando ela se agitou com um suspiro, ele trepou para cima dela e, com os deditos, tentou levantar-lhe as plpebras. Conquanto no tivesse 
obtido resultado, ele achou a situao divertida e o seu riso era contagioso. - Abre os olhos, m, repetia ele, e apesar da hora imprpria, ela no pde deixar de 
rir tambm.
     Para alegrar a manh ainda mais, Judy telefonou um pouco depois das nove para saber se estavam  espera da visita dela.
     Depois de alguma tagarelice (Judy viria na tarde seguinte, hurra!) Denise desligou o telefone, pensando na disposio da noite anterior e na diferena que fazia 
uma boa noite de sono.
     Atribuiu o mau humor  tenso pr-menstrual.
     Um pouco depois do pequeno-almoo, Denise foi preparar as bicicletas. A de Kyle estava pronta; a sua  estava cheia de teias de aranha que ela teve de limpar. 
Os pneus de ambas as bicicletas estavam em baixo, verificou, mas tinham ar suficiente para chegarem  cidade.
     Depois de ajudar Kyle a pr o capacete, partiram em direo  cidade sob um cu azul e sem nuvens, com Kyle na dianteira. Em Dezembro ltimo, tinha ela passado 
um dia a correr pelo parque de estacionamento dos apartamentos, em Atlanta, segurando o selim da bicicleta do filho at ele lhe apanhar o jeito. Levou-lhe algumas 
horas e meia dzia de quedas, mas, de maneira geral, o garotinho mostrou um talento natural para andar de bicicleta.
     Kyle  estava acima da mdia no que se referia ao desenvolvimento motor, um fato que sempre surpreendera os mdicos quando o examinavam. Era, acabou ela por 
perceber, uma criana com muitas contradies.
     Claro que, como qualquer criana de quatro anos, no era capaz de se concentrar para alm de manter o equilbrio e de se divertir. Para ele, guiar a bicicleta,era 
uma aventura (principalmente quando a me o fazia tambm), e seguia com afoito desembarao. Embora no houvesse muito trnsito, Denise achou-se a gritar instrues 
em questo de segundos.
     - Fica perto da mame...
     -Pra!
     - No vs para a estrada...
     - Vai para a berma, querido, vem l um carro...
     -Pra!
     - Cuidado com o buraco...
     -Pra!
     - No vs to depressa...
     - Pra!
     "Pra" era a nica ordem que ele entendia de fato, e, de cada vez que ela a gritava, ele travava, punha um p no cho e voltava-se para trs com um sorriso 
largo, como se dissesse isto  to divertido. Por que est to transtornada?
     Denise  estava arrasada quando chegaram aos Correios.
     Foi nesse preciso momento que se deu conta que deslocar-se de bicicleta no era soluo e decidiu pedir a Ray que lhe desse mais dois turnos, pelo menos por 
enquanto. O pagamento das dedues do hospital, poupar todos os tostes, e talvez conseguisse comprar outro carro dentro de uns dois meses.
     Uns dois meses?
     At l, com certeza dava em doida.
     Na fila, havia sempre uma fila nos Correios, Denise limpou a transpirao da testa e rezou para que o desodorizante fizesse efeito. Este era outro fator de 
que ela no  estava propriamente  espera quando saiu de casa de manh.
     Andar de bicicleta no era simplesmente um inconveniente, era trabalho, sobretudo para algum que j no pedalava h muito tempo. Tinha as pernas cansadas, 
sabia que o rabo lhe iria doer no dia seguinte e sentia o suor escorrer por entre os seios e nas costas. Tentou manter uma certa distncia em relao s outras pessoas 
da fila para no lhes desagradar.
     Felizmente, ningum parecia notar.
     Um minuto depois  estava em frente ao balco e comprou os selos. Preencheu um cheque, guardou o livro de cheques e os selos na carteira e dirigiu-se para a 
rua. Ela e Kyle confiaram nas respectivas bicicletas e rumaram ao mercado.
     Edenton tinha uma pequena "baixa", mas do ponto de vista histrico, a cidade era uma preciosidade. As casas datavam dos princpios de 1800 e quase todas tinham 
sido restauradas, nos ltimos trinta anos, de forma a apresentarem o seu esplendor de outros tempos. Carvalhos gigantescos alinhavam-se ao longo de ambos os lados 
da rua e davam sombra ao caminho, fornecendo uma agradvel proteo do calor e do sol.
     Embora Edenton tivesse um supermercado, este situava-se no outro lado da cidade, e Denise decidiu entrar no Merchants, um armazm que fazia parte da cidade 
desde 1940. Era antiquado em todos os aspectos, mas uma maravilha em termos de provises. Vendia de tudo, desde comida a refeies ligeiras, a mquinas, tinha vdeos 
para alugar e um pequeno grelhador do lado de fora onde as pessoas podiam cozinhar o que quisessem mesmo ali. Para compor o ambiente, havia quatro cadeiras de balano 
e um banco comprido, em frente  loja, onde um grupo habitual de habitantes parava para tomar o caf de manh.
     A loja em si no era grande, talvez umas centenas de metros quadrados, mas espantava sempre Denise quando olhava para a quantidade de diferentes produtos que 
se acumulavam nas prateleiras. Denise encheu um pequeno cesto de plstico com as coisas que necessitava: leite, flocos de aveia, queijo, ovos, po, bananas, Cheerios, 
macarro com queijo, bolachas Ritz e rebuados (para trabalhar com Kyle), e depois se encaminhou para a caixa. A conta no chegou ao que pensara, o que era bom, 
todavia, ao contrrio do supermercado, o armazm no fornecia os sacos de plstico para transportar as compras. Em vez disso, o dono, um homem com o cabelo perfeitamente 
penteado e sobrancelhas grossas e farfalhudas, empacotou tudo em dois sacos sem alas de papel castanho.
     E esta era, naturalmente, uma situao que ela no equacionara.
     Teria preferido os sacos de plstico para poder pendur-los no guiador... Mas sacos sem asas? Como  que ela ia levar isto tudo para casa? Dois braos, dois 
sacos, dois manpulos na bicicleta; isto no fazia sentido. Sobretudo, porque tinha de vigiar Kyle.
     Olhou para o filho, ponderando o problema, e reparou que ele estava a olhar atentamente, atravs do vidro da porta da entrada, para a rua, com uma expresso 
estranha no rosto.
     - O que  querido?
     Ele respondeu, se bem que ela no percebesse o que tentava dizer-lhe. Era qualquer coisa como bambei. Deixando as compras em cima do balco, ela curvou-se 
para poder observ-lo a repetir a palavra. s vezes conseguia perceb-lo mais facilmente pelo movimento dos lbios.
     - O que  que disseste? "Bambei"?
     Kyle acenou a cabea e repetiu. - Bambei. - Desta vez ele apontou atravs da porta, e Denise seguiu a direo da mo. Quando o fez, Kyle correu para a porta, 
e ela percebeu exatamente o que ele queria dizer.
     No era bambei, embora andasse l perto. Bombeiro.
     Taylor McAden estava do lado de fora da loja, segurando a porta, parcialmente aberta, enquanto falava com algum a seu lado, algum que ela no conseguia ver. 
Observou-o inclinar a cabea e a acenar, a rir-se de novo e depois abriu a porta um pouco mais. Enquanto Taylor acabava a conversa, Kyle desatou a correr em direo 
a ele, e Taylor entrou sem prestar muita ateno ao caminho por onde seguia. Quase atirou Kyle ao cho enquanto se equilibrava outra vez.
     - Uau, desculpa no te vi - pediu instintivamente. - desculpa. - Involuntariamente, deu um passo atrs, pestanejando confuso. Depois, um sbito reconhecimento 
atravessou-lhe O rosto, abriu um sorriso largo, agachando-se para ficar nivelado aos olhos da criana. - Oh, ei, meu rapaz. Como  que vais?
     - Ol, Taylor - cumprimentou Kyle alegremente. (O Taier.)
     Sem acrescentar mais nada, Kyle lanou os braos em volta do pescoo de Taylor, como tinha feito naquela noite na armadilha dos patos. Taylor, inseguro a princpio, 
enterneceu-se e abraou-o tambm, simultaneamente surpreendido e contente.
     Em silncio, Denise observava aturdida, a cena com a mo na boca. Passado um longo momento, Kyle finalmente afrouxou o abrao, permitindo que Taylor recuasse. 
Os olhos de Kyle danavam como se reencontrasse um amigo que no via h muito tempo.
     - Bambei, exclamou Kyle excitado. Encontrou-te. (Contou.)
     Taylor ps a cabea de lado.
     - O que  isso?
     Denise finalmente recuperou a presena de esprito e avanou na direo deles, se bem que com dificuldades em acreditar no que presenciara. Mesmo depois de 
passar um ano com a sua terapeuta da fala, Kyle s a abraava quando a me o incitava. Nunca tinha sido um abrao espontneo como este, e ela no sabia bem o que 
pensar sobre esta nova e extraordinria amizade de Kyle. Ver o filho abraar um estranho, mesmo sendo uma boa pessoa, suscitou-lhe sentimentos antagnicos. Era bom, 
mas perigoso. Agradvel, mas algo que no devia tornar-se num hbito. Ao mesmo tempo, havia qualquer coisa de reconfortante na forma como Taylor reagiu a Kyle, e 
vice-versa, que lhe pareceu tudo menos ameaadora. Tudo isto lhe passava pela cabea enquanto se aproximava e respondia pelo filho.
     - Ele est tentando dizer-lhe que o encontrou, explicou ela.
     Taylor olhou para cima e viu Denise pela primeira vez desde o acidente, e, por escassos momentos, no conseguiu desfit-la. No obstante o fato de t-la visto 
antes, ela tinha um aspecto... Bom, mais atraente do que ele se lembrava.
     Era evidente que, naquela noite, ela estava num estado lastimvel, mas ainda assim, o aspecto que ela podia ter em circunstncias normais nunca lhe passara 
pela cabea. No  que estivesse fascinante ou elegante; era mais como se irradiasse uma beleza natural, uma mulher que sabia que era atraente, mas que no passava 
o dia a pensar nisso.
     - Sim. Encontrou-te repetiu Kyle, interrompendo os pensamentos de Taylor. Kyle acenava com a cabea para dar mais nfase, e Taylor ficou agradecido por encontrar 
um motivo para encar-lo de novo. Imaginava se Denise teria percebido o que pensara.
     - Isso mesmo, encontrei - aquiesceu amigvel com a mo sobre o ombro de Kyle -, mas tu, meu rapaz,  que s corajoso.
     Denise observava-o a falar com Kyle. Apesar do calor, Taylor trazia jeans e botas de trabalho Red Wing. As botas  estavam cobertas por uma fina camada de lama 
seca e muito gastas, como se as tivesse calado todos os dias ao longo de vrios meses. O couro grosso estava cheio de golpes e de esfoladelas. A camisa branca que 
vestia tinha mangas curtas mostrando braos bronzeados e musculados; os braos de algum que trabalhava com as mos o dia inteiro. Quando se levantou, pareceu-lhe 
mais alto do que se lembrava.
     - Desculpe quase t-lo feito cair pediu ele. - No o vi quando entrei. - Hesitou como se no soubesse o que devia acrescentar, e Denise detectou uma timidez 
que no esperara.
     - Eu vi o que aconteceu. A culpa no foi sua. Ele quase que se atirou a si. - Sorriu. - A propsito, eu sou Denise Holton. Sei que j nos encontramos antes, 
mas a maior parte dessa noite continua bastante nublada.
     Esticou-lhe a mo, e Taylor cumprimentou-a. Podia sentir as calosidades na palma da mo dele.
     - Taylor McAden - apresentou-se. - Recebi a sua carta.  Obrigado.
     - Bambei - repetiu Kyle, o tom de voz mais alto do que antes. Apertava as mos uma na outra, torcendo-as e virando-as quase compulsivamente. Era uma coisa 
que ele fazia sempre que  estava nervoso.
     - Gande bambei.  Realou o grande.
     Taylor franziu as sobrancelhas e estendeu o brao ao mesmo tempo em que segurava o capacete de Kyle de modo amistoso, quase fraternal. A cabea de Kyle movia-se 
de acordo com os movimentos da sua mo.
     - Com que ento, achas que sim, hein?
     Kyle assentiu.
     - Gande.
     Denise riu-se.
     - Acho que  um caso de venerao ao heri.
     - Bom, o sentimento  recproco, meu rapaz. Foste tu, mais do que eu.
     Os olhos de Kyle estavam arregalados. 
     - Gande.
     Se Taylor percebeu que Kyle no tinha entendido o que lhe dissera, no o mostrou. Ao contrrio, piscou-lhe um olho.  Excelente.
     Denise aclarou a garganta.  
     - Ainda no tinha tido a oportunidade de lhe agradecer pessoalmente por tudo o que fez naquela noite.
     Taylor deu de ombros. Com algumas pessoas, este gesto poderia parecer arrogante, como se soubessem que tinham feito algo de extraordinrio. Com Taylor, Porm, 
isso no acontecia e era aceito de maneira diferente, como se no tivesse voltado a pensar no assunto desde aquela altura.
     - Ah, tudo bem, retorquiu ele. A sua carta foi o bastante.
     Durante alguns momentos nenhum deles falou. Kyle, por seu turno, como se estivesse cansado com tanta conversa, afastou-se em direo ao corredor das guloseimas. 
Ambos observavam como ele parava a meio caminho, concentrando-se atentamente nas cores vivas dos invlucros.
     - Est com boa cara, - afirmou Taylor quebrando o silncio.  - Quero dizer, Kyle. Depois de tudo o que se passou, at certo ponto interrogava-me como  que 
ele estaria a reagir.
     Os olhos de Denise seguiram os dele. Parece estar bem.  Acho que o tempo o dir, mas por agora no estou muito preocupada. O mdico afianou que est de perfeita 
sade.
     - E a senhora? - Perguntou-lhe ele.
     Ela respondeu-lhe automaticamente, quase sem pensar.
     - O mesmo de sempre.
     - No... Quero dizer os seus ferimentos.  Estava bastante ferida quando a vi da ltima vez.
     - Oh... Bom, acho que tambm estou bem, corrigiu ela.
     -S bem?
     A sua expresso suavizou-se.
     - Melhor que bem. Apenas uma dorzinha aqui e ali, mas quanto ao resto estou perfeitamente. Podia ter sido pior.
     - timo, fico satisfeito. Tambm estava preocupado consigo.
     Houve qualquer coisa na voz dele que fez com que ela o olhasse com mais ateno. Se bem que no fosse o homem mais bonito que alguma vez vira, havia algo nele 
que lhe prendia a ateno: talvez uma certa delicadeza apesar da sua estatura; uma arguta mas nada ameaadora percepo no seu olhar firme. Se bem que fosse impossvel, 
era quase como se ele soubesse o quo difcil a sua vida tinha sido nos ltimos anos. Olhando sub-repticiamente para a sua mo esquerda, reparou que ele no usava 
aliana.
     Nesse momento, desviou o olhar rapidamente, imaginando onde tinha ido buscar tal pensamento e de que forma tinha surgido. O que  que isso lhe interessava? 
Kyle continuava no corredor dos doces e preparava-se para abrir um saco de Skittles quando Denise reparou no que ele estava a fazer.
     - Kyle, no! - Apressou-se na sua direo e depois se voltou para Taylor. -Desculpe. Esta  beira de fazer o que no deve.
     Ele recuou ligeiramente. 
     - No h problema.
      medida que ela se afastava Taylor no deixava de observ-la. O rosto atraente, quase misterioso, acentuado por mas salientes e olhos exticos, o cabelo 
comprido e escuro apanhado num rabo de cavalo que lhe chegava abaixo dos ombros, uma silhueta realada pelos cales e a blusa que trazia...
     - Kyle, pe isso no lugar. Os teus rebuados j esto no saco.
     Antes que ela o apanhasse a olhar para ela, Taylor abanou a cabea e voltou-se, espantando-se de novo como a sua beleza lhe tinha passado despercebida. Uns 
escassos minutos depois, Denise estava de volta,  sua frente, com Kyle junto dela. A expresso do menino mostrava-se sombria por ter sido apanhado com a boca na 
botija.
     - Desculpe. Ele  muito espertinho - justificou-se ela.
     - Tenho a certeza que sim, mas as crianas vo sempre at aos limites.
     - Parece que fala por experincia prpria.
     Ele sorriu.
     - No, na verdade no.  o que eu acho. No tenho filhos.
     Fez-se um silncio desconfortvel antes de Taylor continuar.
     - Ento veio  cidade fazer compras? - Conversa fiada, nada mais que isso, reconheceu Taylor, mas, por qualquer razo, sentia-se relutante em deix-la ir-se 
embora.
     Denise passou a mo pelo rabo de cavalo despenteado.
     - Sim, precisvamos de algumas coisas. A despensa estava a ficar vazia, sabe como . E o senhor?
     - S vim buscar umas bebidas para a rapaziada.
     - Do quartel?
     - No, sou apenas voluntrio. A rapaziada que trabalha para mim. Sou empreiteiro; fao a reconstruo de casas, coisas do gnero.
     Por um momento ela ficou baralhada.
     - Voluntrio? Julguei que era o que fazia desde h vinte anos.
     - No, aqui no. De fato, penso que nas cidades pequenas no  assim. Em regra geral no h trabalho que justifique o pessoal o tempo inteiro, portanto dependem 
de pessoas como eu quando surgem as emergncias.
     - No sabia. - A constatao deste fato fez com que a atuao dele parecesse ainda mais significativa, se bem que ela no achasse isso possvel.
     Kyle chamou a ateno da me.
     - Ele tem fome - queixou-se. (Tem fomi.)
     - Tens fome, meu amor?
     -Sim.
     - Bom, estaremos em casa num instante. Fao-te uma tosta de queijo quando l chegarmos. Achas bem?
     Ele assentiu.
     - Sim,esta bem. (Sim, t bem.)
     Todavia, Denise no se despachou logo, pelo menos no to depressa quanto Kyle desejava. Em vez disso, olhou de novo para Taylor. Kyle ergueu a mo e puxou 
a me pela bainha dos cales e ela baixou as mos automaticamente para impedi-lo de continuar.
     - Vamos embora - acrescentou Kyle. (Vamo boa.)
     - J vamos querido.
     As mos de Denise e de Kyle encetaram uma pequena batalha  medida que ela evitava que os dedos dele lhe puxassem a bainha outra vez. Agarrou-lhe a mo para 
faz-lo parar.
     Taylor abafou uma gargalhada e aclarou a garganta.
     - Bom,  melhor no a reter por mais tempo. Um garotinho a crescer precisa de comer.
     - Sim, acho que sim. - Olhou para Taylor com a expresso de aborrecimento comum a todas as mes e teve uma estranha sensao de alivio quando percebeu que ele 
no se importava que Kyle estivesse a fazer disparates.
     - Foi bom v-lo de novo - acrescentou ela. Embora lhe parecesse superficial tudo quanto fosse "Ol. Como vai? Que bom. Gostei de v-lo!" Denise esperava que 
ele percebesse que ela sentia o que dizia.
     - A ti tambm - retorquiu ele. Agarrou no capacete de Kyle e sacudiu-o enquanto afirmava: 
     - A ti tambm, meu rapaz.
     Kyle acenou com a mo livre. - Deus, Tayer - despediu-se ele com exuberncia.
     - Adeus.
     Taylor sorriu antes de se dirigir aos frigorficos encostados  parede para tirar as bebidas que tinha vindo buscar.
     Denise voltou-se para o balco suspirando. O dono estava imerso na leitura da revista Field and St ream, mexendo ligeiramente os lbios  medida que examinava 
o artigo. Quando se encaminhava para ele, Kyle voltou a repetir:
     - Ele tem fome.
     - Eu sei. J vamos embora, esta bem?
     O dono viu-a aproximar-se, confirmou se ela precisava dele ou se queria apenas as compras e depois ps a revista de lado.
     Ela indicou os sacos.
     - Importa-se que deixemos isto aqui um bocadinho? Temos de ir arranjar outro tipo de sacos que se possam pendurar no guiador.
     Apesar de j se encontrar a meio caminho da loja e de estar a tirar uma embalagem de seis Cocas-Cola do frigorfico, Taylor esforava-se por ouvir o que se 
estava a passar. Denise continuou:
     - Viemos de bicicleta e acho que no consigo levar isto para casa. No demoramos muito, voltamos j.
     L ao fundo a voz dela extinguiu-se e ouviu o gerente responder:
     - Claro, no h problema. Vou p-los aqui atrs do balco enquanto no chegam.
     Com as bebidas na mo, Taylor encaminhou-se para a parte da frente da loja. Denise empurrava Kyle para fora da loja com a mo nas costas dele. Taylor deu dois 
passos, pensando no que acabara de ouvir casualmente e decidiu-se rapidamente.
     - Ei, Denise, espere...
     Voltou-se e parou enquanto Taylor se aproximava.
     - Aquelas bicicletas em frente  loja so vossas?
     Ela anuiu.
    - Hum-hum, porqu?
     - No pude deixar de ouvir O que dizia ao gerente e... Bem...
     Fez uma pausa, os seus firmes olhos azuis deixando-a imvel no meio da loja.
     - Posso ajud-la a levar as compras para casa? Vou nessa direo e tenho todo o gosto em levar-lhes.
     Enquanto falava, ele apontou para o caminho estacionado mesmo em frente  porta.
     - Oh, no, no tem importncia...
     - Tem a certeza? Fica mesmo em caminho. So dois minutos no mximo.
     Embora ela soubesse que ele estava sendo simptico, o produto da educao numa pequena cidade, ela no  estava certa se deveria aceitar.
     Sentindo a indeciso dela, levantou as mos com um sorriso traquinas no rosto.
     - Juro que no roubo nada.
     Kyle deu um passo em direo  porta e ela ps-lhe a mo no ombro para impedi-lo de avanar.
     -No, no  nada disso...
     Mas ento o que era? Estaria assim h tanto tempo entregue a si prpria que j no sabia aceitar a generosidade dos outros? Ou seria porque ele j fizera tanto 
por ela?
     V l. Ele no te esta a pedir que cases com ele nem nada que se parea...
     Engoliu em seco, pensando que tinha de sair e de voltar outra vez para depois carregar as compras para levar para casa.
     - Se lhe fica em caminho...
     Taylor sentiu-se como se tivesse obtido uma pequena vitria.
     - Claro, fica em caminho. Deixe-me s pagar isto e ajudo-a a transportar as coisas para o caminho.
     Ele voltou ao balco e ps as Cocas-cola ao lado da registradora.
     - Como  que sabe onde vivo?  Perguntou ela.
     Ele olhou-a por cima do ombro. -  uma cidade pequena. Sei onde mora toda a gente.
     Ao fim do dia Melissa, Mitch e Taylor encontravam-se no quintal, os bifes e os cachorros j crepitando sobre o carvo e os primeiros vestgios de Vero fazendo-se 
sentir quase como um sonho. Era uma tarde que se prolongava lentamente com o ar carregado de umidade e de calor. O Sol dourado pairava baixo no cu mesmo por cima 
dos cornisos imveis, as folhas nem se mexiam no ar calmo da tarde.
     Enquanto Mitch cuidava dos grelhados com a tenaz na mo, Taylor bebericava uma cerveja, a terceira da tarde. Sentia uma agradvel excitao e bebia exatamente 
 cadncia certa para se conservar assim. Pegando-lhes na palavra sobre os acontecimentos recentes, incluindo a busca no pntano, aludiu ao encontro com Denise no 
armazm e ao fato de lhe ter levado as compras a casa.
     - Parece que esto bem - observou ele tentando matar um mosquito que lhe pousara na perna.
     Se bem que o tivesse dito com inocncia, Melissa deu-lhe uma olhadela, examinando-o cuidadosamente e depois se inclinou para frente na cadeira.
     - Com que ento gostas dela, hein? Comentou ela sem esconder a sua curiosidade.
     Antes que Taylor tivesse oportunidade de responder, Mitch meteu-se na conversa.
     - O que  que ele disse? Que gosta dela?
     - Eu no disse isso, redargiu Taylor rapidamente.
     - Nem era preciso. Pode ver-se na tua cara e, ademais, no lhe terias levado as compras se no gostasses.
     Melissa voltou-se para o marido.
     - Sim, ele gosta dela.
     - Vocs esto a falar de cor.
     Melissa sorriu com malicia.
     - Ento...  bonita?
     - Que diabo de pergunta  essa?
     Melissa participou ao marido:
     -Ele tambm a acha bonita.
     Mitch anuiu convencido.
     - A modos que o achei muito quieto quando chegou. Ento e a seguir? Vais convid-la para sair?
     Taylor olhava de um para outro, cismando de que modo a conversa tinha tomado este rumo.
     - No tinha pensado nisso.
     - Devias. Precisas de sair de casa de vez em quando.
     - Estou fora de casa o dia inteiro...
     - Tu sabes ao que me refiro.
     Mitch piscou-lhe o olho, gozando o embarao do outro.
     Melissa recostou-se na cadeira.
     - Ele tem razo, sabes? No ests a ficar mais novo. J no ests na flor da idade.
     Taylor sacudiu a cabea.
     - Muito agradecido. Da prxima vez que precisar de insultos, sei exatamente aonde vir busc-los.
     Melissa deu uma risada.   
     - Sabes que nos estamos a colocar contigo.
     -  essa a tua verso de um pedido de desculpas?
     - S se te fizer mudar de opinio em relao a convid-la para sair. - As sobrancelhas dela danavam para cima e para baixo e, involuntariamente, Taylor desatou 
a rir. Melissa tinha trinta e quatro anos, mas parecia e agia como se tivesse menos dez. Loura e mignone,  estava sempre pronta a dar uma palavra simptica, era 
leal aos amigos e parecia nunca guardar ressentimentos de nada. Os filhos podiam bater-se, o co podia ter sujado a carpete, o carro podia no pegar: no tinha importncia. 
Em poucos minutos voltava a ser ela de novo.
Taylor tinha dito a Mitch, mais que uma vez, que era um homem de sorte. A resposta de Mitch era sempre a mesma:
     - Eu sei.
     Taylor bebeu mais um gole de cerveja.
     - Por que  que esto to interessados? - perguntou ele.
     - Porque gostamos de ti - retorquiu Melissa gentilmente como se isso explicasse tudo.
     E no percebem por que  que ainda continuo sozinho, pensou Taylor.
     - Esta bem - rematou ele -, vou pensar no assunto.
     - De acordo - afirmou Melissa sem esconder o seu entusiasmo.
CAPTULO 12
     No dia a seguir ao encontro de Denise com Taylor no Merchants, ela passou a manh a trabalhar com Kyle. O acidente parecia no ter tido quaisquer conseqncias, 
nem negativas nem positivas, na sua aprendizagem, se bem que, agora que o Vero tinha chegado, dava mostras de trabalhar melhor se se despachasse antes do meio-dia. 
Depois dessa hora ficava muito calor para ambos conseguirem se concentrar.
     Nessa manh, depois do pequeno-almoo, telefonara a Ray e pedira-lhe mais dois turnos temporrios no restaurante.
     Felizmente, ele tinha concordado. A partir do dia seguinte, trabalharia todos os dias exceto aos domingos, contrariamente aos quatro turnos habituais. Como 
de costume, deveria chegar por volta das sete e sair  meia-noite. Se bem que entrar um pouco mais tarde significasse menos gorjetas, pois perderia uma boa parte 
do maior movimento ao jantar, ela no podia, em conscincia, deixar Kyle no quarto de trs sozinho mais uma hora enquanto estivesse acordado. Chegar mais tarde significava 
que o deitaria na caminha, e ele adormeceria numa questo de minutos.
     Deu consigo a pensar em Taylor McAden desde que o encontrara na loja, no dia anterior. Tal como havia prometido, deixara as compras no alpendre da frente,  
sombra do beiral do telhado. Como no levou mais de dez ou quinze minutos a regressar, o leite e os ovos ainda estavam frescos, e ela meteu-os no frigorfico para 
no se estragarem.
     Enquanto Taylor carregava os sacos para o caminho, ofereceu-se para pr as bicicletas na caixa aberta e dar-lhes uma boleia tambm, mas Denise recusou. Tinha 
mais a ver com Kyle do que com Taylor; ele j estava a montar a bicicleta e ela sabia como ansiava por mais uma corrida com a me. No quis defraudar as suas expectativas, 
principalmente porque esta seria, provavelmente, uma rotina habitual e a ltima coisa que ela queria era que ele julgasse que, cada vez que iam  cidade, voltariam 
de caminho.
     No entanto, uma parte dela tinha desejado aceitar a oferta. Gostaria de ter estado com ele o tempo suficiente para se certificar de que ele a tinha achado atraente 
(o modo como ele olhava para ela demonstrava-o) se bem que no a tinha feito sentir-se constrangida como por vezes acontecia com os olhares dos outros homens. No 
existia aquele olhar guloso quando a olhava, aquele olhar convidativo que resolveria tudo.
     Nem os seus olhos a tinham olhado de alto a baixo enquanto conversavam outra situao vulgar.  impossvel levar um homem a srio se ele no tirar os olhos 
dos seios.
     No, havia um qu diferente na maneira de ele a olhar. Era talvez mais de apreciao, menos ameaadora e, por mais que resistisse  idia, ficou no s lisonjeada 
mas tambm satisfeita.
     Claro que ela sabia que podia fazer parte das caractersticas de Taylor, a sua forma de abordar as mulheres, um modelo desenvolvido ao longo dos anos. Alguns 
homens eram muito bons neste aspecto. Encontr-los e falar com eles evidenciava cada nuance da sua personalidade e parecia insinuar que eram diferentes, de mais 
confiana que outros. J vivia h tempo suficiente para ter encontrado bastantes indivduos assim e, por norma, costumava ouvir uma campainha de alarme disparar. 
Mas, ou Taylor era um ator de primeira categoria com quem jamais se cruzara, ou era, de fato, diferente, pois desta vez a campainha no tinha soado o alarme.
     Ento, que tipo de homem seria?
     Das muitas coisas que aprendeu com a me, havia uma que sempre se destacara, aquela que lhe vinha  idia na avaliao das outras pessoas. "Vais encontrar muita 
gente pela vida fora que diz as palavras certas na altura certa. Mas, ao fim e ao cabo,  pelas suas aes que os deves julgar. So as aes e no as palavras que 
contam".
     Talvez fosse essa a razo, pensou de si para si, por que se tinha mostrado sensvel a Taylor. J havia mostrado que era capaz de atos hericos, mas no foi 
apenas o salvamento dramtico de Kyle que influenciou o seu interesse nele, se era que assim se podia chamar. At mesmo os mais grosseiros podiam, por vezes, fazer 
coisas decentes. No; foram as pequenas coisas que fizera quando se encontraram na loja. O modo como se ofereceu para ajudar sem esperar nada em troca... O modo 
como parecia estar preocupado com Kyle e com ela... O modo como tratou Kyle...
     Isso em especial.
     Embora no o quisesse admitir, acabou por comear a avaliar as pessoas em funo da maneira como tratavam o filho.
     Lembrava-se de, mentalmente, agrupar as amigas que se tinham esforado por Kyle e as que no o fizeram. "Aquela se sentava no cho com ele e brincava com os 
Legos", esta era boa. "A outra mal reparava que ele existia", essa era m. A lista das pessoas "ms" era bastante mais extensa do que a das pessoas "boas".
     Todavia, havia um indivduo que, por qualquer razo, tinha estabelecido uma ligao com o filho, e ela no conseguia deixar de pensar nisso. Nem era capaz de 
esquecer a  reao de Kyle em relao a ele. O, Tayer...
     Se bem que Taylor no tivesse percebido tudo quanto Kyle lhe dissera (levava algum tempo at as pessoas se habituarem  dico de Kyle), Taylor tinha continuado 
a conversar com ele como se o entendesse. Tinha-lhe piscado o olho, agarrara no capacete de forma brincalhona, abraara-o, fitava os olhos de Kyle quando falava 
com ele. No se esquecera de se despedir.
     Coisas insignificantes, mas incrivelmente importantes para ela.  Aes.
     Taylor tinha tratado Kyle como uma criana normal.
     Ironicamente, Denise ainda pensava em Taylor mesmo quando Judy subia a entrada de cascalho para o carro e estacionou  sombra de uma enorme magnlia. Denise, 
que estava a acabar de lavar a loua, avistou Judy e acenou-lhe, simultaneamente dando uma vista de olhos pela cozinha. No estava perfeita, mas suficientemente 
limpa, pensava ela enquanto se dirigia  porta da frente ao encontro de Judy.
     Aps os habituais cumprimentos (como  estava cada uma delas e todos esses preliminares), Denise e Judy sentaram-se no alpendre da frente para poderem vigiar 
Kyle.  Estava a brincar com os seus caminhes perto da vedao, empurrando-os por estradas de fingir. Pouco antes da chegada de Judy, Denise tinha-lhe aplicado um 
protetor solar e um spray contra os insetos e as loes funcionavam como cola quando ele brincava na terra. Os cales e a camisola estavam manchados de terra castanha 
e o rosto parecia que no era lavado h uma semana, lembrando a Denise as crianas descritas em As Vinhas da Ira de Steinbeck.
     Em cima da pequena mesa de madeira (comprada numa venda de garagem por trs dlares; outra compra excelente por uma pechincha que Denise Holton  realizara!) 
havia copos de ch doce. Denise tinha-o feito de manh  moda tipicamente sulista: ch de Luzianne ainda a ferver de modo a poder dissolver por completo uma grande 
quantidade de acar e depois arrefecido no frigorfico com gelo. Judy bebeu um gole da bebida sem nunca tirar os olhos de Kyle.
     - A sua me tambm adorava sujar-se - informou Judy.
     - A minha me?
     Judy olhou-a divertida.
     - No esteja to espantada. A sua me era uma Maria-rapaz quando era nova.
     Denise pegou no copo.
     - Tem a certeza de que estamos a falar da mesma pessoa? - perguntou. - A minha me nem sequer era capaz de ir buscar o jornal sem se maquiar.
     - Oh, isso aconteceu  mais ou menos na altura em que descobriu os rapazes. Foi nessa altura que a sua me mudou as suas atitudes. Transformou-se na requintada 
senhora sulista, com luvas brancas e modos perfeitos  mesa, praticamente do dia para a noite. Mas no se deixe enganar.  Antes disso a sua me era o retrato fiel 
do Huckle berrv Finn.
     - Esta a brincar, no esta?
     - No,  srio. A sua me costumava apanhar rs, praguejava como um pescador de camares que tivesse perdido a rede, at se meteu em algumas brigas com rapazes 
para lhes mostrar como era valente. E era uma lutadora e peras, deixe-me dizer-lhe. Enquanto um rapaz se punha a pensar se era correto bater numa garota ou no, 
ela dava-lhe um murro em cheio no nariz. Uma vez, os pais dos outros meninos chegaram a chamar o xerife. Era uma garota muito aguerrida.
     Judy pestanejou, a mente vagueando, claramente, entre o presente e o passado. Denise ficou em silncio,  espera que a outra continuasse.
     - Lembro-me de que costumvamos descer o rio para apanhar amoras-pretas. A sua me nem sequer calava os sapatos nestas incurses mais imprudentes. Tinha os 
ps mais resistentes que eu jamais vira. Era capaz de passar o Vero todo sem se calar, exceto quando tinha de ir  igreja. Em Setembro tinha os ps to sujos que 
a me no lhe conseguia tirar as manchas seno com Brillo e Ajax. Quando a escola recomeava, a sua me coxeava nos dois primeiros dias. Nunca cheguei a perceber 
se era por causa da esfrega com BrilIo ou se era por no estar habituada aos sapatos.
     Denise riu-se no querendo acreditar. Era uma faceta da me de que nunca tinha ouvido falar. Judy prosseguiu.
     - Eu vivia na mesma rua, um pouco mais abaixo. Conhece a casa de Boyle? Aquela casa branca com venezianas verdes, com um grande celeiro vermelho nas traseiras?
     Denise assentiu. Passava por ela quando ia  cidade.
     - Bom, era ai que eu morava quando era pequena. A sua me e eu ramos as duas nicas garotas a viver nesta zona e acabamos, portanto, a fazer quase tudo em 
conjunto. Tambm tnhamos a mesma idade e, assim sendo, estudvamos as mesmas matrias na escola. Foi nos anos quarenta, e nessa altura todos freqentavam a mesma 
sala de aulas at o oitavo ano, embora nos agrupassem de acordo com o nvel etrio. A sua me e eu sentavamos ao lado uma da outra ao longo desse tempo todo. Ela 
foi, seguramente, a melhor amiga que j tive.
     Fitando as rvores distantes, Judy parecia mergulhada numa tristeza nostlgica.
     - Por que  que ela no manteve o contato depois de se ter ido embora? - indagou Denise. - Isto ...
     Fez uma pausa, imaginando como perguntar o que realmente lhe ia na cabea, e Judy deitou-lhe um olhar de soslaio.
     - Quer dizer por que, se ramos to boas amigas? Ela no lhe contou?
     Denise confirmou, e Judy embrenhou-se em pensamentos.
     - Acho que teve a ver, sobretudo, com o fato de ela se ter ido embora. Levei algum tempo a perceber que a distncia pode arruinar a melhor das intenes.
     -  triste...
     - Nem por isso. Acho que depende da forma como encaramos as coisas. Para mim... Bem, s traz o enriquecimento que, de outra maneira, no possuiria. As pessoas 
vm e vo, entram e saem das nossas vidas, quase como as personagens de um livro de que gostamos muito. Quando, finalmente, o fechamos, as personagens contaram a 
sua histria e procuramos outro livro, recheado de novas personagens e aventuras. Ento damos conosco a concentrarmos-nos nos novos e no nos que j lemos.
     Denise demorou algum tempo a responder, lembrando-se dos amigos que havia deixado em Atlanta.
     - Isso  bastante filosfico - acabou por dizer.
     - Sou velha. O que  que esperava?
     Denise colocou o copo em cima da mesa e, com ar ausente, limpou aos cales a umidade que o copo lhe deixara nas mos.
     - Ento no voltou a falar com ela outra vez? Depois que se foi embora?
     - Oh no, ainda nos mantivemos em contato durante uns anos, mas nessa altura a sua me apaixonou-se, e quando as mulheres se apaixonam, s conseguem pensar 
nisso. Foi por essa razo que ela se foi embora de Edenton. Por um rapaz, Michael Cunningham. Alguma vez lhe falou dele?
     Denise abanou a cabea, espantada.
     - No me surpreendo. Michael era o prottipo do rapaz que no convm, no exatamente o tipo de pessoa de quem queremos lembrar-nos mais do que devemos. No 
tinha uma boa reputao, se  que me entende, mas as garotas achavam-no atraente.
     - Julgo que o consideravam excitante e perigoso. A mesma velha histria, mesmo nos dias de hoje. Bem, a sua me foi com ele para Atlanta logo depois de acabar 
o liceu.
     - Mas ela disse-me que tinha ido para Atlanta por causa da faculdade.
     - Oh, isso podia ser  o motivo remoto, mas a verdadeira razo era Michael. Ele exercia uma espcie de magnetismo sobre ela, isso era certo. Ele foi tambm a 
causa que a levou a no voltar aqui nem de visita.
     - Como assim?
     - Bem, Os pais, os seus avs, no lhe perdoaram por ter fugido daquela maneira. Eles viram logo o tipo de pessoa que ele era e disseram-lhe que se ela no regressasse 
imediatamente a casa, no voltaria a ser bem-vinda. Pertenciam  velha gerao, teimosos como tudo, e a sua me no lhes ficava atrs. Eram como dois touros que 
se fitavam, cada um deles  espera que o outro se desse por vencido. Todavia, nenhum deles o fez, mesmo depois de Michael ter passado  histria por causa de outra 
pessoa.
     - O meu pai?
     Judy abanou a cabea.
     - No... Outra pessoa, o seu pai s apareceu muito depois de eu ter perdido contato com ela.
     - Ento nunca o conheceu?
     - No. Mas lembro-me de os seus avs terem ido ao casamento e de terem ficado magoados por a sua me no me ter convidado. No que eu pudesse ter ido. Claro. 
Eu j estava casada nessa altura e, como a maioria dos casais jovens, eu e o meu marido tnhamos algumas dificuldades financeiras e com o beb... Bem, teria sido 
impossvel deslocar-me daqui.
     - Lamento tudo isso.
     Judy ps o copo na mesa.
     - No tem nada que lamentar. No foi voc e, de certo modo, a sua me j no era a mesma pessoa, pelo menos no era a que eu conhecera. O seu pai vinha de uma 
famlia muito respeitvel de Atlanta e nessa altura da vida dela acho que se envergonhava das suas origens. No que o seu pai se importasse, obviamente, uma vez 
que casou com ela. Mas recordo-me que os seus avs no falaram muito, depois de virem do casamento. Penso que tambm  estavam um tanto embaraados, se bem que no 
devessem estar.
     Eram umas excelentes pessoas, mas julgo que pensavam que j no se encaixavam no mundo da filha, mesmo depois de o seu pai falecer.
     - Isso  horrvel.
     -  triste, mas como eu disse, aconteceu de ambas as partes. Eles eram obstinados e a sua me tambm. E  pouco a pouco, foram-se afastando.
     - Sei que a minha me no era muito chegada aos pais, mas nunca me contou nada disso.
     - No, no esperava que o fizesse. Mas, por favor, no pense mal da sua me. Eu no penso. Ela era sempre to cheia de vida, to arrebatada... Era timo estar 
com ela. E tinha o corao de um anjo, tinha mesmo. Era a pessoa mais doce que jamais encontrei. - Judy voltou-se para encar-la. - H muito dela em si.
     Denise tentava digerir estas informaes acerca da me enquanto Judy bebia mais um gole de ch. Em seguida, como se reconhecesse que tinha falado demais, Judy 
acrescentou:
     - Agora oua-me, tenho estado aqui a falar como uma velha senil. Deve pensar que estou com os ps para a cova. Fale-me de si.
     - De mim? No h muito para dizer.
     - Ento por que no comear com o bvio? Por que se mudou para Edenton?
     Denise olhou para o filho a brincar com os caminhes, imaginando o que ele estaria a pensar.
     - Existem algumas razes.
     Judy inclinou-se para frente e murmurou em tom de conspirao:
     - Problemas com algum homem? Algum desequilibrado como os que se vem na America  Most Wanted?
     Denise deu uma risada.
     - No, nada to dramtico. - Calou-se franzindo ligeiramente as sobrancelhas.
     - Se for muito pessoal, no tem de me contar nada. Para todos os efeitos, no tenho nada a ver com isso.
     Denise sacudiu a cabea.
     - No me importo de falar disso;  que no sei por onde comear. - Judy ficou em silncio e Denise suspirou, ordenando os pensamentos. - Acho que tem a ver 
principalmente com Kyle.
     -J lhe falei do problema da fala que ele tem, no j?
     Judy assentiu.
     - Disse-lhe por qu?
     -No.
     Denise dirigiu o olhar para Kyle.
     - Ora bem, neste momento dizem que tem uma deficincia auditiva que se repercute no atraso da linguagem verbal e na compreenso do que ouve. Basicamente, significa 
que por qualquer motivo, ningum sabe qual, perceber o que se diz e aprender a falar  uma grande dificuldade para ele. Julgo que a melhor comparao se faz com 
a dislexia, s que em vez de sinais visuais, o problema pe-se em relao  reproduo dos sons. Parece que os sons se misturam todos:  como se estivesse a ouvir 
chins e logo a seguir alemo, resultando num discurso sem sentido. Ningum sabe se o problema est na relao entre o crebro e o ouvido ou s no crebro. Ao princpio 
no sabiam como fazer-lhe um diagnstico e, bem...
     Denise passou a mo pelos cabelos e encarou Judy de novo.
     - Tem a certeza de que me quer ouvir falar disto tudo?  uma longa histria.
     Judy esticou o brao e bateu no joelho de Denise.
     - S se lhe apetecer desabafar.
     A expresso sincera de Judy fez subitamente Denise recordar-se da me. Estranhamente, sentia-se bem a contar-lhe tudo e hesitou apenas uns escassos segundos, 
antes de continuar.
     - Bem, ao principio os mdicos pensavam que ele era surdo. Passei semanas a levar Kyle a consultas de especialistas em audio e em otorrinolaringologia, sabe, 
especialistas em ouvidos, nariz e garganta, antes que descobrissem que ele tinha capacidades auditivas. Ento, pensaram que ele era autista. Esse diagnstico demorou 
quase um ano, talvez o ano mais desgastante da minha vida. Depois pensaram numa disfuno difusa do desenvolvimento, que  uma espcie de autismo, embora menos grave. 
Tambm este subsistiu apenas uns meses, at lhe fazerem novos exames. Depois afirmaram que era deficiente mental, com um problema de insuficincia da ateno, ainda 
por cima. No foi seno h nove meses que se decidiram, finalmente, por este diagnstico.
     - Deve ter sido muito difcil para si...
     - Nem consegue imaginar quanto. Dizem-nos coisas horrveis sobre um filho e passamos por variadssimos sentimentos: descrena, raiva, mgoa e, por fim, aceitao.
     - Estudamos tudo sobre o assunto, pesquisamos, lemos, conversamos com quem quer que seja, e quando estamos prontos para o enfrentarmos frontalmente, mudam de 
idias e recomea tudo outra vez.
     - Onde  estava o pai ao longo dessa trapalhada toda?
     Denise encolheu os ombros, uma expresso de quase culpa no rosto.
     - O pai nunca esteve presente. Em boa verdade, no esperava engravidar. Kyle foi um deslize, se  que me entende.
     Voltou a fazer uma pausa e, em silncio, ambas observaram Kyle. Judy no parecia nem surpreendida nem chocada com as revelaes que acabara de ouvir, nem to-pouco 
a sua expresso revelava qualquer tipo de julgamento. Denise aclarou a garganta.
     - Depois de Kyle ter nascido, pedi uma licena sem vencimento na escola onde era professora. A minha me tinha morrido, e eu queria passar o primeiro ano com 
o beb. Mas depois que isto tudo comeou a acontecer, no pude regressar ao trabalho. Andava numa roda viva a consultar mdicos, a ir a centros de diagnstico e 
a terapeutas at que, finalmente, me deparei com um programa teraputico que podiamos fazer em casa. Com tudo isto no me sobrava tempo para um emprego a tempo inteiro. 
Trabalhar com Kyle  a tempo inteiro. Tinha herdado esta casa, e o dinheiro acabou por se gastar.
     Olhou para Judy com uma expresso pesarosa no rosto.
     - Assim, acho que a resposta  sua pergunta  que tive de me mudar para c por necessidade, para poder continuar a trabalhar com Kyle.
     Quando ela acabou de falar, Judy fixou-a e bateu-lhe no joelho mais uma vez.
     - Desculpe a expresso, mas voc  uma me dos diabos. Muito pouca gente faria esse tipo de sacrifcios.
     Denise observava o filho a brincar na terra.
     - S quero que ele melhore.
     - Pelo que me contou, parece que j melhorou. - Deixou que esta frase fosse digerida antes de se encostar de novo na cadeira e continuou: - Sabe, lembro-me 
de observar Kyle quando costumava ir ao computador da biblioteca, mas nem uma nica vez me passou pela cabea que tivesse qualquer tipo de problemas. Era como todas 
as crianas que l iam, exceto, talvez, que se portava melhor.
     - Mas ainda tem problemas na fala.
     - Tambm Einstein e TeIler os tinham e tornaram-se nos maiores fsicos da histria.
     - Como  que sabe que eles tinham esses problemas?
     Embora Denise soubesse (tinha lido quase tudo sobre o assunto) ficou surpreendida, e impressionada, que Judy tivesse este tipo de conhecimentos.
     - Oh, ficaria espantada com a quantidade de pormenores que fui aprendendo ao longo dos anos. Sou como um aspirador com coisas dessas, no me pergunte por qu.
     - Devia ir ao Jeopardy!
     - E iria se no fosse aquele Alex Trebek que  to engraado. Provavelmente, esquecer-me-ia de tudo mal ele me cumprimentasse. No seria capaz de tirar os olhos 
dele o tempo todo, tentando inventar uma maneira de ele me beijar, como aquele Richard Dawson fez em Family Feud.
     - O que  que o seu marido iria pensar se soubesse que tinha dito isso?
     - Tenho a certeza de que no se importava. - o seu tom de voz tornou-se um pouco mais srio. - Morreu h muito tempo.
     - Desculpe - comeou Denise -, no sabia.
     - No h problema.
     No silncio repentino que se fez, Denise esfregava as mos, nervosa.
     - Ento... Nunca voltou a casar?
     Judy abanou a cabea.
     - No. Parecia que no tinha tempo para encontrar algum.
     - Taylor era terrvel, era tudo quanto podia fazer para acompanh-lo.
     - Oh, como isso soa to familiar. Parece que a nica coisa que fao  trabalhar com Kyle e trabalhar no restaurante.
     - Trabalha no Eights? Com o Ray Toler?
     - Hum-hum. Arranjei esse emprego quando me mudei para c.
     - J lhe falou dos filhos?
     - S uma dzia de vezes mais ou menos - retorquiu Denise.
     A partir daqui, a conversa desviou-se facilmente para o trabalho de Denise e para os interminveis projetos que pareciam ocupar o tempo de Judy. O ritmo da 
conversa era fluido, como Denise no experimentava h muito tempo achando-o, inesperadamente, reconfortante. Meia hora mais tarde, Kyle estava farto de brincar com 
os caminhes e meteu-os debaixo do alpendre (embora nada lhe dissessem, Judy no pde deixar de reparar) e olhou interrogativamente para a me. O rosto dele estava 
corado do calor e algumas madeixas de cabelo colavam-se  testa. 
     - Posso comer macarro e queijo? (Podi com caro qujo?)
     - Macarro e queijo?
     -Sim.
     - Claro, meu a mor. Vou preparar-te.
     Denise e Judy levantaram-se e entraram na cozinha com Kyle no seu encalo, deixando pegadas de terra pelo soalho.
     Sentou-se  mesa enquanto Denise abria o armrio.
     - Quer fazer-nos companhia ao almoo? Posso arranjar, rapidamente, umas sandes.
     Judy olhou para o relgio.
     - Gostaria muito, mas no posso. Tenho uma reunio na baixa por causa da feira do prximo fim-de-semana. Ainda temos de acertar algumas agulhas.
     Denise enchia um tacho com gua quente e olhou por cima do ombro.
     - Uma feira?
     - Sim, no fim-de-semana.  um acontecimento anual e predispe as pessoas para o Vero. Espero que possa ir.
     Denise ps o tacho no fogo e, com um dique, ligou o gs.
     - No tinha pensado nisso.
     - Porque no?
     - Bom, por um lado, nem sequer tinha ouvido falar disso.
     - Anda mesmo na lua.
     - Nem me diga!
     - Ento devia ir, Kyle ia adorar. H comida e artesanato, concursos, um parque de diverses; h sempre algo para toda a gente.
     O pensamento de Denise voltou-se imediatamente para as despesas que isso acarretaria.
     - No sei se podemos - acabou por dizer, pensando numa desculpa. - Tenho de trabalhar no sbado  noite.
     - ora, no precisa ficar muito tempo. V durante o dia se preferir. Mas  muito divertido e, se quiser, posso apresent-la a pessoas da sua idade.
     Denise no respondeu logo, e Judy percebeu a hesitao dela.
     - Pense no assunto, esta bem?
     Judy pegou na carteira que estava em cima da bancada e Denise inspecionou gua (ainda no estava a ferver) antes de se dirigirem  porta da rua e sarem para 
o alpendre outra vez.
     Denise passou a mo pelos cabelos afastando uma madeixa que lhe cara para a cara.
     - Obrigada por ter vindo. Foi muito agradvel ter uma conversa de adultos para variar.
     - Gostei muito - afianou Judy, inclinando-se para lhe dar um abrao inesperado. - Obrigada por me ter convidado.
     Quando Judy se voltava para se ir embora, Denise apercebeu-se do que se esquecera de lhe mencionar.
     - Oh, a propsito, no lhe disse que ontem encontrei Taylor no armazm.
     - Eu sei. Falei com ele a noite passada.
     Aps um breve e incomodo silncio, Judy ajeitou a ala da carteira.
     - Vamos repetir isto, esta bem?
     - Adoraria.
     Denise demorou o olhar em Judy enquanto esta descia os degraus e se dirigia para o caminho de gravilha. Quando chegou ao carro, voltou-se para ver Denise mais 
uma vez.
     - Sabe, Taylor vai estar na feira, este fim-de-semana, com os colegas do quartel - gritou Judy sem cerimnias. - A equipe deles de soft ball vai jogar s trs 
horas.
     - Oh? - Foi tudo quanto ocorreu a Denise dizer.
     - Bem, no caso de aparecer,  l que eu vou estar.
     Um momento depois, Judy abriu a porta do carro. Denise continuava  porta de casa e acenou enquanto Judy deslizava para trs do volante, com um sorriso brincando-lhe 
nos lbios, e punha o motor a trabalhar.
CAPTULO 13
     - Ei! No tinha a certeza se vocs iam aparecer - chamou Judy, feliz.
     - Era sbado  tarde, um pouco depois das trs, quando Denise e Kyle subiram a bancada em direo a Judy, abrindo caminho por entre os outros espectadores.
     O jogo de softball no tinha sido difcil de encontrar; era a nica zona do parque com bancadas e com o campo rodeado por um separador de correntes. Quando 
estacionaram as bicicletas, Denise tinha descortinado facilmente Judy sentada no banco. Ao v-los, Judy acenara-lhes enquanto Denise agarrava Kyle, fazendo os possveis 
por se equilibrar  medida que tomava o caminho dos lugares superiores.
     - Ei, Judy... Conseguimos. No sabia que Edenton tinha tanta gente. Ainda levamos um bom bocado para atravessar a multido.
     As ruas da baixa tinham sido fechadas ao trnsito e fervilhavam de gente. Havia bandeiras ao longo da rua e tendas que se estendiam em ambos os passeios com 
pessoas que observavam as peas de artesanato e que vagueavam entrando e saindo das lojas, transportando as suas novas aquisies.
     Perto do Cook's Drugstote, tinha-se instalado uma zona para as crianas. A podiam montar os seus prprios brinquedos usando cola Elmer, pinhas, feltro, espuma 
Styro, bales e uma diversidade de materiais que vrias pessoas tinham oferecido.
     No centro da praa, o parque de diverses estava em pleno auge. Denise reparou que as filas j eram bem compridas.
     Denise e Kyle caminharam com calma, levando as bicicletas  mo, atravs da cidade, ambos gozando a efervescncia da feira. No extremo mais afastado da cidade, 
o parque palpitava com mais comida e mais jogos. Um concurso de churrascos estava a ter lugar numa zona de sombra junto  estrada, e os Shriner estavam a preparar 
uma fritada de peixe na esquina mais prxima. Por todo o lado, as pessoas que tinham trazido a sua prpria comida, confeccionavam, em pequenos grelhadores, cachorros 
quentes e hambrgueres para a famlia e os amigos.
     Judy chegou-se para o lado para dar espao aos dois, e Kyle postou-se entre as duas. Ao faz-lo, inclinou-se sobre Judy, quase amoroso e riu-se como se achasse 
a situao muito divertida. Em seguida, instalou-se e tirou um dos avies que trouxera consigo. Denise tinha insistido que ele os metesse nos bolsos antes de sarem 
de casa. Nem sequer tinha a pretenso de lhe explicar o jogo de forma a mant-lo interessado e queria que ele tivesse alguma coisa com que brincar.
     - Oh, as pessoas vm de todo o lado para a feira - comentou Judy  laia de explicao. - Arrasta multides de todo o distrito.  uma das poucas ocasies em 
que as pessoas podem reencontrar amigos que j no vem h muito tempo e  uma bela maneira de passar o tempo.
     - , de fato, o que parece.
     Judy deu uma cotovelada a Kyle.
     - Ol, Kyle. Como  que vais?
     Com uma expresso sria, comprimiu o queixo no peito antes de levantar o brinquedo para ela o ver.
     - Vio - exclamou ele com entusiasmo, certificando-se que Judy o via. Embora Denise soubesse que era a forma que ele utilizava para tentar se comunicar, ao 
nvel do seu prprio entendimento (algo que ele fazia freqentemente) ela encorajou-o, no obstante, a dar uma resposta correta.  Deu-lhe uma palmadinha nas costas.
     - Kyle, diga: "Estou bem, obrigado".
     - Estou bem, obrigado. (Tou bem. bigado.) Meneava a cabea para trs e para a frente ao ritmo das slabas, depois dirigiu a sua ateno para o brinquedo.
     Denise ps-lhe um brao em volta dos ombros e concentrou-se no desenrolar do jogo.
     - Por quem  que estamos a torcer concretamente?
     - Na verdade, por qualquer das equipes. Agora Taylor est em campo como terceiro base da equipe vermelha: os Voluntrios Chowan. So do Quartel dos Bombeiros. 
A equipa azul, as Foras Chowan. So os polcias, os xerifes e os militares locais.
     -Todos os anos jogam apenas para fins de beneficncia. A equipe que perder tem de pagar quinhentos dlares  biblioteca.
     - E quem teve essa idia? - perguntou Denise intencionalmente.
     - Fui eu, claro.
     - Assim, a biblioteca ganha de qualquer das maneiras?
     -  esse o objetivo - afirmou Judy. - Na realidade, os rapazes levam o jogo muito a srio. H uma grande quantidade de egos ali no campo. Sabe como so os homens.
     - Qual  o resultado?
     - Quatro a dois.  Est a ganhar o Quartel dos Bombeiros.
     No campo, Denise viu Taylor agachado em posio de bater a bola, tamborilando, distraidamente, na luva e pronto para o arremesso. O pitcher atirou uma bola 
alta e difcil, e o batedor atingiu-a com destreza empurrando-a para o centro do campo. Foi agarrada com segurana, um corredor alcanou o home plate aumentando 
a pontuao.
     - No foi Carl Huddle que bateu aquela bola?
     - Foi. O Gari  na  realidade, um dos melhores jogadores.  Ele e Taylor jogaram juntos no liceu.
     Durante a hora seguinte, Denise e Judy observaram o jogo, tagarelando acerca de Edenton e puxando por ambas as equipes.
     O jogo s tinha sete turnos e era, de fato, mais interessante do que Denise o havia imaginado, pontuavam bastante e no havia tantas bolas perdidas como pensara. 
Taylor fez umas duas jogadas de modo a que a bola chegasse  base antes do batedor, mas, no geral, era um jogo de lanamentos, e a vantagem subia e descia alternadamente 
em cada turno. Quase todos os jogadores conseguiam bater a bola para o outfield, obrigando os jogadores a um exerccio intenso. Denise no pde deixar de verificar 
que os jogadores do outfield eram bastante mais jovens, e transpiravam muito mais, do que os que  estavam no infield.
     Todavia, Kyle tinha-se fartado do jogo apenas um turno aps o incio e foi brincar para as bancadas trepando e saltando para cima e para baixo, correndo por 
aqui e ali. Com tanta gente, Denise ficava nervosa com receio de perd-lo de vista e, em vrias ocasies, levantou-se para localiz-lo.
     Sempre que o fazia, Taylor sentia os olhos desviarem-se para essa direo. Tinha-a visto chegar com Kyle, segurando-lhe a mo e caminhando devagar, perscrutando 
as bancadas, sem se dar conta de os homens voltarem a cabea  medida que passava por eles. Porm, Taylor havia reparado nos olhares, tinha-os visto admirarem o 
seu aspecto: a camisa branca metida para dentro dos cales, as pernas longas descendo at umas sandlias a condizer, o cabelo solto caindo em cascata pelos ombros. 
E no conseguiu perceber por que razo deu consigo com inveja do fato de a sua me (e no ele) estar sentada ao seu lado.
     A presena dela era perturbadora, mas no s porque no deixava de pensar no que Melissa havia dito. A bancada onde ela se encontrava sentada era entre o home 
e a primeira base; a sua posio na terceira base fazia com que no pudesse deixar de v-la. Parecia no poder deixar de olhar, constantemente, na sua direo, como 
que para se certificar que no  tinha ido embora. Censurava-se cada vez que o fazia, perguntando-se por que motivo era isso assim to importante, mas dava consigo 
a repetir o mesmo gesto uns escassos minutos depois. Numa das vezes demorara o seu olhar um pouco mais, e ela acenou-lhe.
     Ele correspondeu da mesma forma com um sorriso de embarao e voltou-se, interrogando-se por que diabo, de repente, se sentia como o raio de um adolescente outra 
vez.
     - Com que ento  ela, hein? Perguntou-lhe Mitch quando ambos se sentaram no banco entre dois turnos.
     - Quem?
     - Denise, a que est sentada ao lado da tua me.
     - Nem sequer reparei, retorquiu Taylor enquanto distraidamente fazia girar o basto, esforando-se por parecer desinteressado.
     - Tinhas razo - rematou Mitch.
     - Sobre o qu?
     - Ela  muito bonita.
     - No fui eu quem disse isso, foi a Melissa.
     - Oh- concordou Mitch -  claro.
     Taylor desviou a sua ateno para o jogo, e Mitch seguiu-lhe o olhar.
     - Ento por que  que no tiravas os olhos dela? - perguntou-lhe finalmente.
     - Eu no estava a olhar para ela.
     - Oh - condescendeu Mitch, assentindo. Nem sequer se incomodou a esconder o sorriso trocista.
     Ao stimo turno, com a contagem em 14-12, os Voluntrios  estavam a perder, e Taylor esperava pela sua vez na defesa.
     Kyle tinha feito uma pausa nas suas brincadeiras e estava em p junto  vedao quando viu Taylor a treinar os movimentos.
     - O, Tayer - cumprimentou ele alegremente, exatamente como tinha feito no Merchants.
     Taylor rodou nos calcanhares ao ouvir a sua voz e aproximou-se da vedao.
     - Ol, Kyle. Que bom ver-te. Como vais?
     - Bambei, exclamou Kyle apontando.
     - Claro que sou bombeiro.  Ests a divertir-te com o jogo?
     Em vez de responder, Kyle ergueu o avio no ar para Taylor o ver.
     - O que  que tem ai, meu rapaz?
     -Vio.
     - Tens razo.  um bonito avio. 
     - Podes pegar-lhe. (P pega)
     Kyle passou-lho atravs da vedao, e Taylor hesitou antes de agarr-lo. Examinou-o enquanto Kyle o observava com um olhar de orgulho no seu rosto pequeno. 
Por sobre o ombro, Taylor ouviu que o chamavam para a base.  Obrigado por me mostrares o teu avio. Queres que te d?
     - Podes pegar-lhe - repetiu Kyle.
     Taylor hesitou e depois resolveu:
     - Esta bem, vai ser o meu amuleto da sorte. J to trago.
     Certificou-se de que Kyle conseguia v-lo guardar o brinquedo no bolso, e o garotinho esfregava as mos uma na outra.
     - No te importas?  - perguntou-lhe Taylor.
     Kyle no respondeu, mas parecia estar de acordo.
     Taylor esperou, para se assegurar, depois correu a passo lento. Denise inclinou a cabea na direo de Kyle. Quer ela, quer Judy tinham-se apercebido da cena 
que acabara de ter lugar.
     - Acho que o Kyle gosta de Taylor - admitiu Denise.
     - Penso que o sentimento  recproco - retorquiu Judy.
     No segundo arremesso, Taylor bateu na bola vigorosamente atirando-a mesmo para o field (bateu-lhe com a mo esquerda) e desatou a correr em direo  primeira 
base enquanto dois outros, em posio de marcar, faziam o percurso  volta dos sacos. A bola bateu no cho e saltou trs vezes antes do fielder a conseguir apanhar 
e estava em desequilbrio quando a atirou. Taylor dava a volta  segunda, atacando com fora, refletindo se devia tentar a base. Porm, a sua deciso acabou por 
vencer, e a bola alcanou o infield mesmo quando Taylor chegava, so e salvo,  terceira base. Ganhou dois pontos, o jogo estava empatado e Taylor marcou quando 
o jogador seguinte rebateu a bola. A caminho do banco, devolveu o avio a Kyle com um grande sorriso nos lbios.
     - Bem te disse que me daria sorte, meu rapaz.  um lindo avio.
     - Sim, o avio  lindo. (Sim, vio indo)
     Teria sido a forma perfeita de acabar o jogo, mas azar dos azares, no era assim que tinha de ser. No fim do stimo turno, as Foras marcaram o ponto da vitria 
quando Carl Huddle atirou uma bola para fora do parque.
     Depois de o jogo acabar, Denise e Judy desceram da bancada com o resto dos espectadores, prontas a encaminharem-se para o parque onde a comida e as cervejas 
as aguardavam. Judy apontou para o lugar onde se iriam sentar.
     - J estou atrasada, anunciou Judy. Tinha ficado de ajudar  montagem. Podemos encontrar-nos alm?
     - Com certeza. Vou l ter dentro de minutos. Primeiro, tenho de ir buscar o Kyle.
     O garoto ainda estava perto da vedao, a observar Taylor a reunir o equipamento, quando Denise se aproximou dele. No se voltou mesmo depois de Denise o ter 
chamado, e ela teve de lhe dar uma palmadinha nas costas para se fazer notar.
     - Kyle, anda, vamos embora, incitou Denise.
     - No , respondeu abanando a cabea.  
     - O jogo j acabou.
     Kyle ergueu o olhar para ela com uma expresso de ansiedade no rosto.
     - No , no.
     - Kyle, queres ir jogar?
     - No  -, repetiu ele, franzindo as sobrancelhas e descendo uma oitava no tom de voz. Denise sabia exatamente o que isto queria dizer: era uma das formas de 
mostrar frustrao dada a sua incapacidade de comunicar. Era tambm o primeiro passo que conduzia, freqentemente, a uma verdadeira, demolidora e interminvel birra. 
E que birra!
     Claro que todas as crianas tinham acessos de raiva de vez em quando, e Denise no estava  espera que Kyle fosse perfeito. Todavia, com Kyle estes ataques 
de fria sucediam porque no conseguia exprimir-se de forma a ser compreendido.
     Zangava-se com Denise por ela no o perceber, Denise zangava-se porque ele no conseguia transmitir as suas intenes e, a partir daqui, tudo acontecia num 
crescendo em espiral.
     Pior ainda, no entanto, eram os sentimentos que esses incidentes despoletavam. Sempre que aconteciam, lembravam a Denise, de modo brutal, que o filho sofria 
de um problema grave e apesar de saber que a culpa no era dele, apesar de saber que era errado, se a birra se prolongava por muito tempo, dava consigo a gritar 
com o filho da mesma maneira irracional que ele gritava com ela. 
     "Que dificuldade h em juntar umas simples palavras? Por que  que no consegues faz-lo? Por que  que no s como as outras crianas? Por que  que no s 
normal, Deus do cu?".
     Posteriormente, depois de as coisas acalmarem, ela sentia-se terrivelmente. Como  que, amando-o tanto, podia dizer-lhe semelhantes coisas? Como  que podia 
at pens-las?
     Nunca conseguia dormir na seqncia duma situao destas, ficando horas a fio a olhar para o teto, pensando realmente que era a me mais mesquinha que havia 
ao cimo da terra.
     Mais do que tudo, no queria que acontecesse ali algo parecido. Controlou-se, prometendo-se no levantar a voz.
     - Muito bem, comea com o que sabes... Demora o tempo que precisares... ele est a fazer o melhor que pode...
     - No  - afirmou Denise, repetindo o que Kyle dissera.
     - Sim.
     Ela pegou-lhe no brao suavemente, na expectativa do que poderia seguir-se. Queria que ele se concentrasse.
     - Kyle, no  o qu?
     - No... - A palavra saiu como um queixume e Kyle fez um rudo baixo de raiva com a garganta. Tentou afastar-se.
     Decididamente,  beira de uma birra.
     Ela tentou de novo com o vocabulrio que ele conhecia.
     - Queres ir para casa?
     - No.
     - Ests cansado?
     - No.
     - Tens fome?
     -No.
     -Kyle...
     - No! - exclamou ele sacudindo a cabea e cortando-lhe a palavra. Agora estava zangado, as faces corando.
     - No  o qu? - perguntou ela to pacientemente quanto possvel.
     -No ...
     - No  o qu? - repetiu Denise.
     Kyle abanou a cabea frustrado, procurando as palavras.
     - No ... Kye - declarou por fim.
     Denise ficou perplexa.
     - Tu no s o Kyle?
     - Sim.
     - Tu no s o Kyle - repetiu ela desta vez como se fosse uma afirmao. Tinha aprendido que a repetio era importante.  Era um modo de perceber se  estavam 
ou no no mesmo comprimento de onda.
     - Sim.
     - Hein?
     Denise ficou a pensar, tentando entender o que se passava antes de se concentrar nele de novo.
     - Qual  o teu nome?  Kyle?
     Kyle sacudiu a cabea.
     - Ele no  Kye.  meu gapaz.
     Ela pensou outra vez, certificando-se de que compreendera o que ele dissera.
     - Meu rapaz? - inquiriu.
     Kyle acenou triunfante com a cabea e sorriu, a sua fria desaparecendo to sbita e rapidamente como surgira.
     -  meu gapaz - insistiu de novo, e tudo quanto Denise fez foi olhar para ele estarrecida.
     - Meu rapaz.
     Oh, Deus, quanto tempo iria isto durar?
     Nesse momento, Taylor aproximou-se deles com o saco do equipamento a tiracolo.
     - Ei, Denise, como est? - Tirou o chapu e limpou a testa com as costas da mo.
     Denise voltou a sua ateno para ele, ainda aturdida.
     - No tenho bem a certeza - respondeu ela abertamente.
     Os trs comearam a atravessar o parque, e Denise contou-lhe a troca de palavras com Kyle. Quando acabou, Taylor deu umas palmadinhas nas costas de Kyle.
     - Meu rapaz, hein?
     - Sim. Meu gapaz - afirmou Kyle com orgulho.
     - No o encoraje - avisou Denise com um aceno pesaroso de cabea.
     Taylor parecia ter achado tudo muito divertido e no se incomodou a escond-lo. Kyle, por seu turno, contemplava Taylor como se fosse uma das sete maravilhas 
do mundo.
     - Mas ele  um homenzinho, - afirmou Taylor tomando a defesa de Kyle. - No s?
     Kyle acenou afirmativamente, satisfeito por ter algum do seu lado. Taylor correu o fecho do saco do equipamento e vasculhou-o antes de tirar uma velha bola 
de basebol.
     Entregou-a a Kyle.
     - Gostas de basebol? - perguntou.
     -  uma bola - respondeu Kyle ( bola.)
     - No  s uma bola.  uma bola de basebol - explicou solenemente.
     Kyle pensou com ateno.
     - Sim - murmurou. -  uma bola de basebol. (Sim... Bola besbol.)
     Segurou firmemente a bola na mo pequena e parecia estud-la como se procurasse um segredo que apenas ele podia entender. Depois, olhando para cima, vislumbrou, 
 distncia, um escorrega para crianas que, de repente, assumiu prioridade sobre tudo o resto.
     - Ele quer andar - exclamou Kyle olhando na expectativa para a me - alm. Apontou para onde se queria dirigir. (Qu and... lm.)
     - Repete, "Quero andar".
     - Quero andar - murmurou ele docemente. (Quo and.)
     - Est bem - concordou ela. Mas no te afastes.
     Kyle desatou a correr em direo  zona onde as crianas brincavam com uma energia desmedida. Felizmente, era logo ao lado das mesas onde eles se sentariam; 
Judy tinha escolhido o local com esse objetivo uma vez que quase todos os envolvidos no jogo tinham trazido os filhos. Quer Denise quer Taylor observavam Kyle enquanto 
corria.
     -  um menino engraado - comentou Taylor com um sorriso.
     - Obrigada.  um bom menino.
     - Aquela coisinha pequena no  verdadeiramente um problema, pois no?
     - No devia ser... Passou por uma fase, h uns meses atrs, em que fingia ser o Godzilla. No respondia a qualquer outro tipo de chamamento.
     - Godzilla?
     - Sim,  bastante divertido quando penso nisso. Mas na altura, valha-me Deus. Lembro-me de que uma vez estvamos no armazm, e Kyle escapuliu-se. Andei pelos 
corredores a chamar pelo Godzilla e no imagina os olhares que as outras pessoas me deitavam. Quando finalmente Kyle apareceu, havia uma senhora por perto, olhou 
para mim como se eu fosse uma extraterrestre. Sabia que estava a pensar que tipo de me daria o nome de Godzilla a um filho.          
     - Taylor riu-se.
     - Essa  boa!
     - Sim, bom... - Revirou os olhos evidenciando uma mistura de satisfao e desespero. Ao olhar para ele, os olhos dela surpreenderam os dele e demoraram-se uns 
nos outros um momento antes de cada um deles os desviarem. Continuaram a andar em silncio, parecendo exatamente como os outros casais jovens do parque.
     No entanto, pelo canto do olho, Taylor ainda a observava.
     Estava radiosa  luz do Sol daquele Junho ameno. Os olhos, reparou ele, eram da cor do jade, exticos e misteriosos. Era mais baixa do que ele (talvez um metro 
e setenta, calculou) e deslocava-se com a graciosidade fcil das pessoas que sabem qual  o seu lugar no mundo. Mais do que isso, pressentiu a inteligncia dela 
no modo paciente com que lidava com o filho e, mais importante, o quanto o amava. Para Taylor eram ests as coisas que tinham, de fato, significado.
     Melissa, reconhecia ele,  estava certa.
     - Jogou bem - elogiou Denise, interrompendo-lhe os pensamentos.
     - Mesmo assim, no ganhamos.
     - Mas jogou bem. J  alguma coisa.
     - Sim, bem, no ganhamos.
     - Isso  mesmo coisa de homem. Espero que Kyle no venha a ser assim.
     - Mas vai ser, quer queira quer no.  Est nos nossos genes.
     Denise riu-se e deram alguns passos em silncio.
     - Ento por que  que decidiu ser bombeiro? - perguntou ela.
     A pergunta trouxe-lhe  memria a imagem do pai. Taylor engoliu em seco, tentando afastar o pensamento.
     - No passava de uma coisa que eu queria fazer desde criana - retorquiu ele.
     Se bem que ela tenha percebido uma ligeira alterao no seu tom de voz, a expresso dele parecia neutra enquanto olhava para a multido  distncia.
     - Como  que isso funciona? Quero dizer, uma vez que  voluntrio. Chamam-no apenas quando acontece uma emergncia?
     Ele encolheu os ombros, subitamente aliviado por qualquer estranha razo.
     - Mais ou menos.
     - Foi assim que encontrou o meu carro naquela noite? Algum o chamou?
     Taylor abanou a cabea.
     - No, isso foi por mero acaso. Todas as pessoas do quartel tinham sido chamadas muito antes por causa do temporal; j havia muitas linhas eltricas derrubadas 
ao longo das estradas, e eu andava c por fora a colocar sinais luminosos para as pessoas poderem parar a tempo. Aconteceu que vi o seu carro e encostei para ver 
o que se passava.
     - E l estava eu - concluiu ela.
     Nessa altura ele parou e fitou os olhos dela, os seus eram da cor do cu.
     - E l estava voc.
     As mesas estavam repletas de comida suficiente para alimentar um pequeno exrcito, sensivelmente igual ao nmero de pessoas que se moviam lentamente naquela 
rea.
     Num dos lados, perto dos grelhadores onde os hambrgueres e as salsichas estavam a ser assados, viam-se quatro grandes frigorficos cheios de gelo e cervejas. 
 medida que se aproximavam deles, Taylor atirou o saco do equipamento para o lado, amontoando-o sobre os outros, e serviu-se de uma cerveja. Ainda curvado, pegou 
numa Coors Light.
     - Quer uma tambm?
     - Claro, se houver que chegue.
     -  o que no falta. Se conseguirmos despejar os frigorficos,  melhor que nada acontea esta noite. Ningum estaria em condies de reagir.
     Deu-lhe a lata e ela abriu-a. Nunca tinha bebido muito, mesmo antes de Kyle nascer, mas a cerveja era refrescante num dia to quente.
     Taylor sorveu um grande gole exatamente quando Judy os avistou. Colocou uma pilha de pratos de papel no meio de uma das mesas e depois foi ao encontro deles.
     Deu um abrao rpido a Taylor.
     - Lamento que a tua equipe tenha perdido - comentou brincalhona. - Mas deves-me quinhentos dlares.
     - Obrigado pelo apoio moral.
     Judy riu-se.
     - Oh, sabes que estou a colocar-me contigo. - Voltou a abra-lo antes de dirigir a sua ateno a Denise.
     - Bom, agora que j chegou, posso apresent-la a algumas pessoas?
     - Claro, mas deixe-me s ver do Kyle.
     - Est timo. Vi-o quando ai apareceu.  Est a brincar no escorrega..
     Tal e qual um radar, Denise foi capaz de avist-lo quase de imediato. Andava, de fato, a brincar, mas parecia ter muito calor. Ela conseguiu ver-lhe as faces 
vermelhas, mesmo quela distncia.
     - Acha que no faz mal se eu lhe levar qualquer coisa para beber? Uma gasosa ou assim?
     - Com certeza. Do que  que ele gosta? Temos Coca-Cola, Sprite, sumo...
     - Pode ser um Sprite.
     Pelo canto do olho, Taylor viu Melissa e Kim, a mulher de Carl Huddle que estava grvida, virem na sua direo para cumpriment-los. Melissa tinha a mesma expresso 
triunfante da noite em que ele fora jantar com eles. No havia dvida de que ela os tinha visto caminharem lado a lado.
     - Deixe ver que eu vou levar-lhe - ofereceu-se Taylor rapidamente no querendo enfrentar o olhar malicioso dela. - Acho que vm ai umas pessoas para nos cumprimentarem.
     - Tem a certeza? - perguntou Denise.
     - Absoluta - respondeu ele. - Levo-lhe uma lata ou um copo?
     - Um copo.
     Taylor deu mais um gole na cerveja enquanto se dirigia  mesa para preparar a bebida de Kyle, evitando Melissa e Kim por um triz.
     Judy apresentou-lhes Denise, e aps uns minutos de conversa informal, afastaram-se para falarem a outras pessoas.
     Se bem que Denise sentisse sempre um certo retraimento ao conhecer estranhos, neste caso no foi to difcil quanto imaginara. A atmosfera despreocupada (crianas 
a correrem de um lado para o outro, toda a gente vestida com roupas leves, pessoas a rir e a dizer piadas) tornou a situao fcil e descontrada. Mais parecia um 
encontro onde todos eram bem-vindos.
     Durante a meia hora seguinte conheceu cerca de uma dzia de pessoas e, tal como Judy havia referido, quase todas elas tinham filhos. As apresentaes sucediam-se 
rapidamente, as suas e as dos filhos, sendo-lhe impossvel fixar os nomes de todas, embora fizesse um esforo para reter os das que pareciam ter uma idade aproximada 
da sua.
     Em seguida serviu-se o almoo para a crianada e, mal os cachorros eram tirados da grelha, as crianas corriam para a mesa vindas de todos os lados.
      claro que Kyle no foi para a mesa como o resto das crianas, todavia e estranhamente, ela tambm no vislumbrava Taylor. No o via desde que ele se afastara 
em direo ao parque infantil e perscrutou a multido, perguntando-se se ele teria regressado sem dar conta. No o avistou.
     Curiosa, olhou para o parque infantil e foi ento que os divisou a ambos, apenas a alguns metros, olhando um para o outro. Quando se apercebeu do que estavam 
a fazer, ficou com a respirao suspensa.
     Quase no acreditava no que via. Fechou os olhos por um longo espao de tempo e depois os abriu de novo.
     Petrificada, observava como Taylor atirava a bola cuidadosamente em direo a Kyle. Este estava em p com os dois braos estendidos e os antebraos juntos um 
ao outro. No mexeu um msculo quando a bola foi projetada pelo ar. Contudo, como que por um truque de magia, a bola aterrou diretamente em suas mos pequenas.
     Tudo quanto ela fazia era olhar, espantada e fixamente, para a cena.  Taylor McAden estava a jogar ao apanha-bolas com o filho.
     O ltimo lanamento de Kyle foi para fora (como haviam sido outros tantos) e Taylor corria quando a bola passava por ele e parava, finalmente, na relva aparada.
     - Oh, ei! - exclamou ele sem cerimnias. - estamos a jogar ao apanha-bolas. - E pegou na bola.
     - Tm estado a jogar a isso este tempo todo? - perguntou ela, ainda sem conseguir esconder a sua incredulidade.
     Kyle nunca antes tinha querido brincar a este jogo.  Ela tinha tentado, em inmeras ocasies, que ele se interessasse, mas nem uma nica vez o filho fizera 
uma tentativa. A sua surpresa, todavia, no se limitava somente a Kyle; tinha a ver com Taylor. Era a primeira vez que algum, para alm dela, despendia algum tempo 
a ensinar a Kyle algo novo, uma coisa que as outras crianas faziam.
     Ele estava a brincar com Kyle. Ningum brincava com Kyle.
     Taylor assentiu.
     - Quase todo o tempo. Parece que ele gosta disto.
     Nesse momento Kyle viu-a e acenou-lhe.
     - O, m  - gritou ele.
     - Ests a divertir-te? - inquiriu ela.
     - Atira-a - pediu ele entusiasmado. (Atia)
     Denise no pde deixar de sorrir.
     - Estou a ver. Foi um bom arremesso.
     - Atia - repetiu Kyle concordando com ela.
     Taylor empurrou a aba do chapu para cima.  - s vezes tem um brao e tanto - comentou ele  laia de explicao por ter falhado o lanamento de Kyle.
     Denise apenas o olhava fixamente.
     - Como  que conseguiu p-lo a jogar?
     - O qu? Ao apanha-bolas? - Encolheu os ombros, completamente alheio  proeza que alcanara. - Na verdade, foi idia dele. Depois de tomar o refrigerante, a 
modos que me atirou com a bola. Quase que me atingiu na cabea. Depois lancei-lhe e dei-lhe algumas dicas sobre como apanh-la.  Aprendeu bastante depressa.
     - Atia - gritou Kyle com impacincia, os braos esticados de novo.
     Taylor olhou para ela procurando a sua concordncia.
     - Vamos l - anuiu Denise. - Tenho de ver isso outra vez.
     Taylor tomou posio a uns metros de Kyle.
     - Ests pronto? - quis saber.
     Kyle, concentrando-se o mais possvel, no respondeu.
     Denise cruzou os braos, um tanto nervosa.
     - L vai ela! - exclamou, lanando a bola. A bola bateu no pulso de Kyle e fez ricochete para o seu peito como uma ponball antes de, finalmente, aterrar no 
cho. Kyle apanhou-a de imediato, fez pontaria e atirou-a. Desta vez, a bola seguiu o rumo certo e Taylor conseguiu apanh-la sem se mexer.
     - Boa bola - exclamou Taylor.
     Atiraram a bola um ao outro mais algumas vezes antes de Denise intervir.
     - No querem fazer um intervalo? - perguntou ela.
     - S se ele quiser - retorquiu Taylor.
     - Oh, ele era capaz de continuar a jogar por mais um bom bocado. Quando encontra uma coisa de que gosta no quer parar.
     - J reparei.
     Denise gritou ao filho: - Esta bem, querido, s mais uma.
     Kyle sabia o que isto queria dizer e observou a bola atentamente antes de lan-la. A bola desviou-se para a direita e, uma vez mais, Taylor foi incapaz de 
apanh-la. Caiu perto de Denise que a agarrou no momento em que o filho se dirigia para ela.
     -  assim to fcil? No refila? - espantou-se Taylor, obviamente impressionado com a natureza obediente de Kyle.
     - No, no tenho razo de queixa nesse aspecto.
     Quando Kyle chegou junto dela, ela pegou-lhe ao colo e abraou-o.
     - Jogaste muito bem ao apanha-bolas.
     - Sim - concordou o filho feliz.
     - Queres ir brincar para o escorrega? - perguntou.
     Kyle assentiu com a cabea enquanto ela o punha no cho.  O garotinho deu rapidamente meia volta e encaminhou-se para o parque infantil.
     Quando ficaram sozinhos, Denise encarou-o.
     - Foi muito simptico da sua parte, mas no tinha de ficar com ele o tempo todo.
     - Bem sei. Fui eu que quis. Ele  muito divertido.
     Ela sorriu agradecida, pensando quo raramente tinha ouvido algum dizer tal coisa sobre o filho. - O almoo esta pronto se quiser ir comer qualquer coisa - 
anunciou ela.
     - Ainda no tenho muita fome, mas gostaria de acabar de beber a minha cerveja, se no se importa.
     A lata de cerveja estava em cima de um banco perto da vedao do parque infantil, e Taylor e Denise avanaram nessa direo. Taylor agarrou na lata e sorveu 
um grande gole de cerveja. Pelo ngulo da lata, ela percebeu que ele mal tinha podido tocar-lhe. Via gotas de transpirao escorrer-lhe pelas faces. O seu cabelo 
escuro e ligeiramente ondulado espreitava por debaixo do chapu e a camisa colava-se ao peito. O filho no lhe tinha dado descanso.
     - Quer sentar-se um instante? - inquiriu ele.
     - Claro.
     Entretanto, Kyle havia desviado a sua ateno do escorrega para as estruturas em ferro. Trepou, esticou os braos to alto quanto podia e comeou a suspender-se 
nas barras.
     - Olha mame - gritou ele de repente. -  m.
     Denise voltou-se na sua direo e observou Kyle soltar-se das barras, uma queda de cerca de um metro e pouco, aterrando no cho com um baque surdo. Ps-se rapidamente 
em p e sacudiu a terra dos joelhos com um largo sorriso no rosto.
     - Tem cuidado,esta bem? - avisou ela.
     - Saltou - retorquiu Kyle. (Satou)
     - Pois saltaste.
     - Saltou - repetiu o garoto.
     Enquanto a ateno de Denise se concentrava no filho, Taylor observava-lhe o peito, que subia e descia a cada movimento respiratrio, e notou o modo como ela 
cruzava uma perna sobre a outra. O movimento, por qualquer motivo, pareceu-lhe estranhamente sensual.
     Quando ela se voltou para ele, teve o cuidado de manter a conversa a um nvel cauteloso.
     - Ento, j teve oportunidade de conhecer toda a gente? - perguntou ele.
     - Acho que sim - retorquiu ela. - Parecem boas pessoas.
     - E so. Conheo a maior parte desde menino.
     - Tambm gosto da sua me. Tem sido uma verdadeira amiga nestes ltimos tempos.
     -  uma mulher encantadora.
     Nos minutos subseqentes, continuaram a observar Kyle  fazer o circuito por todos os divertimentos que o parque oferecia. Escorregar, trepar, saltar e rastejar. 
Kyle parecia ter descoberto uma fonte de energia para tudo isto. Apesar do calor e da umidade, nada parecia det-lo.
     - Acho que agora j como um hambrguer, - confessou Taylor. - Julgo que j tenha comido.
     Denise olhou para o relgio. - Na verdade, ainda no, mas no podemos demorar-nos muito mais. Tenho de ir trabalhar esta noite.
     - J se vai embora?
     - Dentro em breve. So quase cinco horas e ainda tenho de ir dar de comer ao Kyle e preparar-me para o trabalho.
     - Ele pode comer aqui. H tanta comida!
     - O Kyle no come cachorros quentes nem batatas fritas.  uma criana difcil em relao  alimentao.
     Taylor assentiu. Durante um longo perodo de tempo, pareceu mergulhado em pensamentos.
     - Posso dar-lhe boleia at casa? - quis saber por fim.
     - Viemos de bicicleta at aqui.
     Taylor acenou com a cabea. - Eu sei.
     Logo que ele proferiu estas palavras, ela percebeu que era o momento de reconhecimento para ambos. Ela no precisava de boleia, e ele sabia disso; mas tinha-se 
oferecido, no obstante o fato de os amigos e a comida se encontrarem  sua espera a poucos passos dali. Era bvio que ele desejava que ela aceitasse; a sua expresso 
denunciava-o. Ao contrrio do seu oferecimento para lhe levar as compras a casa, desta vez, ela reconhecia-o, a sua oferta tinha pouco a ver com o cavalheirismo, 
mas antes com o que pudesse acontecer entre os dois.
     Teria sido fcil recusar. J tinha problemas de sobra na vida; seria preciso acrescentar mais alguma coisa quela existncia complicada? A mente dizia-lhe que 
no tinha tempo, que no seria uma boa idia, que ela mal o conhecia. Os pensamentos surgiam em catadupa fazendo sentido, todavia e apesar de tudo isso, deu consigo 
a aceitar. - Gostaria muito.
     Do mesmo modo, a resposta dela pareceu surpreend-lo tambm. Tomou outro gole de cerveja e depois acenou sem dizer uma palavra. Foi nessa altura que Denise 
reconheceu a mesma timidez que verificara no Merchants e, de sbito, ela admitiu aquilo que tinha andado a negar para si mesma desde essa altura.
     Ela no tinha ido  feira apenas para estar e conversar com Judy, nem to-pouco para conhecer novas pessoas. Tinha ido para se encontrar com Taylor McAden.
     Mitch e Melissa ficaram a ver a partida de Taylor e de Denise. Mitch inclinou-se sobre o ouvido da mulher para os outros no o escutarem.
     - Ento, o que  que achas dela?
     -  simptica - respondeu Melissa com franqueza. - Mas no depende s dela. Conheces o Taylor. O que acontecer daqui em diante depende fundamentalmente dele.
     - Achas que eles se vo entender?
     - Voc o conhece melhor do que eu. O que  que pensas?
     Mitch encolheu os ombros.
     - No tenho a certeza.
     - Ai isso  que tens. Sabes perfeitamente como o Taylor pode ser encantador quando pe os olhos em algum que lhe agrada. S espero que desta vez no magoe 
ningum.
     - Ele  teu amigo, Melissa. Nem sequer conheces a Denise.
     - Bem sei. E  por essa razo que sempre o desculpei.
CAPTULO 14
     - Caminho gigante! - exclamou Kyle. (Mio gante!)
     Um Dodge quatro por quatro, preto com rodas enormes.  Tinha dois projetores montados numa barra cilndrica, um cabo de reboque de servios pesados enganchado 
no pra-choques dianteiro, um suporte para armas por cima dos assentos na cabina e por baixo uma caixa de ferramentas prateada.
     Ao contrrio dos que ela tinha visto este no era, contudo, uma pea de exposio. A pintura estava baa e com uma enorme quantidade de riscos e esfoladelas, 
e havia uma amolgadela no painel da frente, mesmo perto da porta do condutor. Um dos espelhos retrovisores tinha sido arrancado deixando um buraco que se enferrujara 
em volta, e toda a metade inferior do caminho tinha uma grossa camada de lama.
     Kyle torcia as mos, excitado. - Caminho gigante - repetiu.         
     - Gostas? - inquiriu Taylor.
     - Sim - respondeu, acenando com entusiasmo.
     Taylor carregou as bicicletas na caixa aberta e depois lhes segurou a porta para entrarem. Porque o caminho era alto, teve de ajudar Kyle a trepar l para 
dentro. Denise subiu a seguir e Taylor, acidentalmente, tocou-lhe de leve ao mostrar-lhe onde se devia agarrar para se conseguir erguer.
     Ps o motor a trabalhar e dirigiram-se aos arredores da cidade com Kyle postado entre ambos. Como se soubesse que ela queria estar sozinha com os seus pensamentos, 
Taylor no disse nada e ela ficou-lhe grata por isso. Algumas pessoas sentiam-se constrangidas com o silncio, considerando-o um vazio que precisava ser preenchido, 
todavia ele no era seguramente uma delas.  Estava satisfeito apenas por conduzir.
     Os minutos decorriam, e a mente dela vagueava. Observava os pinheiros que passavam, uns atrs dos outros, ainda estupefata por se encontrar no caminho com 
ele. Pelo canto dos olhos conseguia v-lo concentrado na estrada. Tal como notara no incio, Taylor no era propriamente um bonito. Se tivesse passado por ele numa 
rua de Atlanta, no lhe teria deitado um segundo olhar. No tinha aquele aspecto agradvel que alguns homens possuem, havia nele, porm, qualquer coisa que ela achava 
intensamente atraente. Tinha o rosto bronzeado e magro; o Sol havia gravado algumas rugas finas em redor dos olhos. A cintura era estreita e os ombros bem musculados 
como se tivessem sido sujeitos a anos de transporte de cargas pesadas.
     Os braos faziam crer que tinha martelado milhares de pregos, coisa que, sem dvida, acontecera. Era quase como se a sua profisso de empreiteiro lhe tivesse 
moldado a aparncia.
     Perguntava-se se ele alguma vez tinha sido casado. Nem ele nem Judy aludiram ao fato, mas isso no queria dizer nada. As pessoas sentiam-se freqentemente relutantes 
em falar de erros cometidos no passado. S Deus sabia que ela no teria tocado no nome de Brett se a isso no tivesse sido obrigada.
     No entanto, havia algo nele que a fazia suspeitar de que nunca tinha assumido semelhante compromisso. No churrasco, no pde deixar de reparar, parecia ser 
ele o nico homem solteiro.
     Em frente ficava a Charity Road, e Taylor abrandou a velocidade na curva e acelerou em seguida.  Estavam quase a chegar a casa.
     Um momento depois, Taylor alcanou o acesso de cascalho e enfiou por ai, travando aos poucos at o caminho se imobilizar.
     Embraiou-o, deixou-o parar lentamente e Denise voltou-se para Taylor curiosa.
     - Ei, meu rapaz - perguntou ele -, queres guiar o meu caminho? Transcorreram uns escassos momentos antes de Kyle se virar.
     - V l - disse ele desafiando-o -, s capaz de gui-lo.
     Kyle hesitou e Taylor desafiou-o de novo. O garoto mexeu-se um pouco e Taylor puxou-o, enfim, para o colo.  Colocou as mos de Kyle na parte superior do volante 
enquanto mantinha as suas suficientemente perto para o agarrar se tal fosse necessrio.
     - Ests pronto?
     Kyle no respondeu, mas Taylor meteu a mudana, e o caminho comeou a avanar devagar.
     - Muito bem, meu rapaz, vamos l.
     Kyle, um tanto inseguro, segurou firmemente o volante e o caminho seguiu pelo caminho. Os seus olhos abriram-se quando percebeu que, de fato, era ele a conduzir 
e, de repente, girou o volante com fora para a esquerda. O caminho correspondeu e desviou-se para cima da relva, oscilando ligeiramente e tomando o rumo da vedao 
antes de Kyle guinar outra vez o volante para o outro lado. A viragem foi impetuosa, mas acabou por atravessar o acesso de cascalho no sentido oposto.
     Iam a no mais de sete quilmetros  hora, todavia Kyle abriu um sorriso rasgado e voltou-se para a me com uma expresso no rosto que significava "v o que 
estou a fazer".  Riu-se deliciado antes de guinar mais uma vez.
     - est a guiar! - exclamou o menino. (T gui.)
     O caminho rodava em direo a casa descrevendo um grande S, no acertando em nenhuma rvore (graas aos pequenos, mas necessrios ajustes que Taylor ia fazendo 
durante o percurso) e quando Kyle riu alto pela segunda vez, Taylor piscou um olho a Denise.
     - O meu pai deixava-me fazer isto quando eu era pequeno.  Achei que Kyle tambm gostaria de experimentar.
     Kyle, com a orientao oral, e manual, avanou para a sombra de uma magnlia antes de, finalmente, parar. Depois de abrir a sua porta, Taylor baixou Kyle para 
o cho. Este tentou equilibrar-se e depois correu para casa.
     Enquanto o observavam, nenhum deles disse nada, e por fim Taylor voltou-se e aclarou a garganta.
     - Deixe-me ir tirar as vossas bicicletas - afirmou. E saltou da cabina.
      medida que se deslocava para as traseiras do caminho e destrancava as lingetas, Denise ficou sentada sem se mexer, sentindo-se um tanto estranha. Mais uma 
vez Taylor a tinha surpreendido. Duas vezes numa nica tarde, ele tinha feito algo simptico por Kyle, algo considerado normal na vida das outras crianas. A primeira 
tinha-a deixado maravilhada; a segunda, contudo, sensibilizara-a como ela nunca pudera esperar. Como me, fazia o que podia; podia amar e proteger o filho, mas no 
podia obrigar as outras pessoas a aceit-lo.  Era bvio, no entanto, que Taylor j o aceitara e sentiu um n na garganta.
     Aps quatro anos e meio, Kyle tinha por fim feito um amigo.
     Ouviu um rudo surdo e sentiu o caminho balanar ligeiramente quando Taylor subiu para a caixa. Controlou-se antes de abrir a porta e saltar para fora.
     Taylor tinha posto as bicicletas no cho e depois saltou da caixa com um movimento fcil e fludo. Ainda no se sentindo em si, Denise procurou Kyle e avistou-o 
em p, em frente  porta. Com o Sol espreitando por entre a folhagem das  rvores e batendo-lhe nas costas, o rosto de Taylor parecia esconder-se com as sombras.
     - Obrigada por nos ter trazido a casa - agradeceu ela.
     - O gosto foi todo meu - replicou ele calmamente.
     Parada perto dele, no conseguia esquecer as imagens de Taylor a jogar ao apanha-bolas com o filho ou a deix-lo conduzir o caminho e foi ento que admitiu 
que gostaria de saber mais coisas sobre Taylor McAden. Queria passar mais tempo com ele, queria conhecer melhor a pessoa que tinha sido to amvel para com o filho. 
Acima de tudo, queria que ele sentisse o mesmo.
     Comeou a experimentar uma sensao de rubor nas faces, levando a mo  testa para tapar o Sol que lhe batia nos olhos.
     - Ainda tenho algum tempo antes de me comear a arranjar para ir trabalhar - aventurou-se ela, seguindo os seus instintos.
     - Gostaria de entrar e tomar uma chvena de ch?
     Taylor empurrou o chapu para cima. - Parece-me uma boa idia, se no for incomodo.
     Levaram as bicicletas  mo para as traseiras da casa deixando-as no alpendre e entraram ento empurrando uma porta cuja tinta tinha estalado e cado ao longo 
dos anos. A casa  estava um tanto abafada, e Denise deixou a porta aberta para o ar circular. Kyle seguiu-lhes na peugada.
     - Vou buscar o seu ch - disse ela tentando esconder o sbito nervosismo que transparecia na sua voz.
     Tirou um jarro de ch do frigorfico e colocou uns quantos cubos de gelo nos copos que tinha ido buscar ao armrio. Entregou a Taylor um copo, deixando o seu 
em cima da bancada, consciente da proximidade dele. Voltou-se para Kyle, esperando que Taylor no se apercebesse do seu estado de esprito.
     - Queres beber alguma coisa?
     Kyle assentiu. - Quer gua. (Qu bua.)
     Intimamente, agradeceu a interrupo dos seus pensamentos e foi buscar gua e deu-lhe.
     - Vamos tomar banho? Ests todo transpirado.
     - Sim - concordou ele. Bebeu um gole pelo seu pequeno copo de plstico derramando parte da gua na camisa.
     -D-me um minuto para lhe preparar o banho? - perguntou olhando de relance para Taylor.
     - Claro! Esteja  vontade.
     Denise levou o filho da cozinha e, uns momentos depois, Taylor ouviu gua a correr sobrepondo-se ao sussurro distante da sua voz. Encostando-se  bancada, avaliou 
a cozinha com o olhar profissional de empreiteiro. A casa, isso j ele sabia, tinha estado vazia durante um bom par de anos antes de Denise vir habit-la e, apesar 
dos esforos dela, a cozinha ainda apresentava sinais de incria. O cho denunciava uma ligeira deformao e o linleo amarelecera com o passar dos anos. Trs das 
portas dos armrios estavam estragadas, e no lava louas um lento gotejar havia deixado marcas de ferrugem nos azulejos. O frigorfico, sem sombra de dvidas, j 
estava l na casa; fazia-o recordar-se de um que tinham tido quando era criana. J havia anos que no via nenhum como aquele.
     Contudo, era bvio que Denise tinha feito o seu melhor para torn-lo to apresentvel quanto possvel.  Estava limpo e bem tratado, isso podia ver-se. Cada 
prato estava guardado, os tampos das bancadas tinham sido esfregados, um pano da loua j velho estava dobrado no lava louas. Perto do telefone, havia uma pilha 
de correspondncia que parecia j ter sido passada a pente fino.
     Junto da porta das traseiras, avistou uma pequena mesa de madeira com livros arrumados ao alto em que dois pequenos vasos de flores com gernios, um de cada 
lado, serviam de suporte. Curioso, caminhou nessa direo e deu uma vista de olhos aos ttulos. Cada um deles tratava do desenvolvimento das crianas. Na prateleira 
de baixo havia uma grossa encadernao azul cuja etiqueta tinha o nome de Kyle.
     gua foi fechada e Denise voltou para a cozinha tomando conscincia do tempo que passara desde que estivera sozinha com um homem. Para ela, era uma sensao 
estranha, uma sensao que lhe recordou a sua vida distante, antes de o seu mundo se ter alterado.
     Taylor examinava atentamente os ttulos dos livros quando ela o viu e se encaminhou para ele.
     - Leitura interessante - comentou ele.        
     - s vezes. A sua voz j soava diferente, embora Taylor no parecesse ter notado.
     - Kyle?
     Ela assentiu e Taylor apontou para a encadernao.
     - o que  isto?
     - So os dirios dele. Sempre que trabalho com ele, registro tudo o que ele  capaz de dizer, no que  que tem dificuldades, coisas do gnero. Assim, consigo 
acompanhar os progressos dele.
     - Parece uma tarefa e tanto.
     - E . - Ela fez uma pausa. - No quer sentar-se?
     Sentaram-se ambos  mesa da cozinha e, se bem que ele nada tivesse perguntado, ela explicou-lhe, at onde lhe era possvel, qual o problema de Kyle, tal como 
havia feito com Judy. Taylor escutou-a sem a interromper at ao fim.
     - Ento trabalha com ele todos os dias? - inquiriu.
     - No, todos os dias no. Descansamos ao domingo.
     - Por que  que  to difcil para ele falar?
     - Essa  a pergunta crucial, - afirmou ela. - Ningum sabe responder a isso com exatido.
     Ele acenou na direo da prateleira. - O que  que dizem os livros?
     - Na grande maioria, no dizem muito. Falam bastante dos atrasos da fala nas crianas, mas normalmente abordam apenas um aspecto de uma grande situao problemtica, 
como o autismo, por exemplo. Recomendam a terapia, mas no especificam que tipo de terapia  a mais aconselhada. Apenas chamam a ateno para a consecuo de qualquer 
programa, e h muitas teorias diferentes sobre qual  o mais vantajoso.
     - E os mdicos?
     - So eles que escrevem os livros.
     Taylor fixava o copo, pensando nas brincadeiras com Kyle, depois ergueu os olhos de novo.
     - Sabe, ele no fala assim to mal - afirmou ele com sinceridade. Eu percebi tudo o que ele me dizia e acho que ele tambm percebeu a mim.
     Denise passou uma unha por uma das fissuras da mesa pensando que era uma coisa simptica, se no verdadeira, de dizer.
     - Neste ltimo ano fez bastantes progressos.
     Taylor inclinou-se para frente na sua cadeira. 
     - No estou a dizer isto por dizer - afianou ele. - Estou a falar a srio. Quando estvamos a lanar a bola um ao outro? Ele pedia-me para lha atirar e, sempre 
que a agarrava, exclamava:
"Boa jogada!"
     - Fundamentalmente, quatro palavras. Atira-a. Boa jogada.
     Denise poderia ter comentado: "Se pensarmos bem, no  muito pois no". E teria razo. Todavia, Taylor  estava a ser amvel e, naquele momento, ela no queria 
entrar numa discusso sobre as limitaes de linguagem de Kyle. Ao contrrio,  estava mais interessada no homem sentado  sua frente. Ela anuiu, pondo de lado os 
seus pensamentos.
     - Considero que tem muito a ver consigo e no apenas com Kyle. Voc  muito paciente com ele, o que no acontece com a maioria das pessoas. Faz-me lembrar alguns 
professores com quem trabalhei.
     - Voc foi professora?
     - Ensinei durante trs anos, at Kyle nascer.
     - Gostava de ensinar?
     - Adorava. Trabalhava com crianas do segundo ano e essa  uma idade fabulosa. Os meninos gostam dos professores e ainda tm um grande desejo de aprender. Faz-nos 
sentir que podemos, de fato, ter alguma importncia nas suas vidas.
     Taylor bebeu mais um gole de ch, olhando-a atentamente por cima da borda do copo. Sentado na cozinha, rodeado pelas coisas dela, observando a sua expresso 
enquanto falava do passado, tudo isso a fez parecer quase mais delicada, de alguma forma menos protegida do que antes. Tambm sentiu que falar dela prpria no era 
algo que ela costumasse fazer.
     - Quer voltar a ensinar?
     - Um dia - retorquiu ela. - Talvez daqui a uns anos.  Temos de ver o que o futuro nos reserva. - Endireitou-se na cadeira. - Mas e voc? Disse que era empreiteiro?
     Taylor assentiu. - J h doze anos.
     - E constri casas?
     - J constru no passado, mas habitualmente fao restauros. Quando comecei, era o nico tipo de trabalho que conseguia arranjar, pois mais ningum os queria. 
Mas gosto disso tambm; para mim  um desafio maior do que construir de raiz. Temos de trabalhar com o que j existe e nunca nada  to fcil como supnhamos que 
seria. E mais, a maior parte das pessoas tem um determinado oramento e  divertido tentar imaginar de que modo  que podemos arrancar-lhes mais dinheiro.
     - Acha que era capaz de fazer alguma coisa desta casa?
     - Podia faz-la parecer novinha em folha se voc quisesse. Isso depende de quanto  que estaria disposta a gastar.
     - Bom - declarou ela corajosamente, - acontece que tenho apenas dez dlares a fazerem-me ccegas no bolso.
     Taylor levou a mo ao queixo. - Hum. O rosto assumiu uma expresso grave. - Podemos ter de eliminar os tampos em madeira e o frigorfico com arca congeladora 
- opinou ele e ambos desataram a rir.
     - Ento, gosta de trabalhar no Eights? - perguntou ele.
     - No est mal. Neste momento,  tudo quanto preciso.
     - Como  o Ray?
     - Na verdade, ele  maravilhoso. Deixa que o Kyle durma no quarto das traseiras enquanto trabalho e isso evita uma montanha de problemas.
     - J lhe falou dos filhos?
     Denise ergueu ligeiramente as sobrancelhas. -  exatamente a mesma pergunta que a sua me me fez.
     - Bem, uma vez que j vive aqui h algum tempo, vai descobrir que toda a gente sabe tudo sobre toda a gente e que, a seu tempo, toda a gente vai fazer as mesmas 
perguntas.  uma cidade pequena.
     - Difcil passar despercebida, hein?
     - Impossvel.
     - E se eu me mantiver  distncia?
     - A as pessoas tambm ho de falar disso. Mas no  assim to mau quando nos habituamos. A maior parte das pessoas no so mesquinhas, apenas curiosas. Se 
no fizermos nada de imoral ou de ilegal, elas no se importam e certamente tambm no perdem muito tempo conosco.  apenas um meio de passar o tempo, pois no h 
muito mais para fazer por ests bandas.
     - Ento o que  que costuma fazer? Isto , no seu tempo livre?
     - O meu trabalho e o quartel dos bombeiros do-me bastante que fazer, mas sempre que posso escapar, vou  caa.
     - Isso  um passatempo que no seria muito popular entre os meus amigos l de Atlanta.
     - o que  que eu posso fazer? No passo de um bom rapaz do Sul.
     Mais uma vez, Denise foi surpreendida pela grande diferena entre ele e os homens com quem costumava sair. No apenas nas coisas mais bvias (o seu tipo de 
trabalho e o seu aspecto), mas porque parecia satisfeito com o mundo que criara para si. No ansiava por fama ou glria, no lutava para ganhar milhes de dlares, 
cheio de planos ambiciosos para ultrapassar os outros. De certo modo, quase parecia um espcime de uma poca passada, uma poca em que o mundo no parecia to complicado 
como agora e em que as coisas simples  que assumiam importncia.
     Enquanto pensava nele, Kyle chamou-a do banheiro e Denise voltou-se ao ouvir a sua voz. Olhando para o relgio, verificou que Rhonda devia estar a chegar dentro 
de meia hora para lev-la e ela ainda no estava pronta. Taylor adivinhou o que ela estava a pensar e acabou o ch que restava no copo.
     - Acho que tenho de ir andando.
     Kyle chamou-a outra vez e ento Denise respondeu-lhe.
     - Vou j, meu amor. - Depois se voltou para Taylor. - Vai para o churrasco?
     Taylor aquiesceu:
     - Devem estar a pensar onde me meti.
     Ela sorriu-lhe com um olhar atrevido.
     - Acha que esto a cortar-nos na casaca?
     -  o mais certo.
     - Parece que tenho de me habituar a isso.
     - No se preocupe. Farei com que fiquem a saber que no aconteceu nada.
     Os olhos dela mergulharam nos dele, sob este olhar, ela sentiu uma agitao interior, algo repentino e inesperado.
     Antes que se pudesse conter, as palavras saram-lhe:
     - Para mim, aconteceu.
     Taylor parecia estud-la em silncio, cogitando no que acabara de ouvir, enquanto um rubor de embarao subia pelas faces e pelo pescoo dela. Ele olhou em volta 
e depois para o cho, antes de, por fim, se concentrar nela outra vez.
     - Amanh  noite trabalha? - acabou por perguntar.
     - No - retorquiu quase sem flego.
     Taylor inspirou fundo. Deus, como ela era bonita.
     - Posso levar-vos aos dois  feira? Tenho a certeza de que Kyle ia adorar andar nos carrossis.
     Apesar do fato de suspeitar que ele fosse convid-la, ela sentiu, ainda assim, uma onda de alivio quando ouviu as palavras pronunciadas em voz alta.
     - Gostaria muito - afirmou calmamente.
     Muito depois, nessa mesma noite, sem conseguir conciliar o sono, Taylor refletia que, o que tinha comeado como um dia simples e normal, se transformara em 
algo que ele no previra.
     No compreendia muito bem como  que tinha acontecido... Toda a situao criada  volta de Denise tinha-se tornado como que numa bola de neve, quase para alm 
do seu controle.
      claro que ela era atraente e inteligente, admitia-o. Mas j antes havia encontrado mulheres atraentes e inteligentes. No entanto, havia algo em Denise, qualquer 
coisa na relao deles que provocou um pequeno deslize no seu controle habitualmente forte. Era quase como que conforto,  falta de uma palavra mais adequada.
     Na verdade, no fazia qualquer sentido, dizia para si mesmo, socando a almofada e tentando p-la a seu jeito. Mal a conhecia. Apenas conversara com ela algumas 
vezes, s a vira umas duas vezes em toda a sua vida. Talvez ela no fosse como ele a imaginava.
     Para alm de tudo o mais, ele no queria envolver-se. J tinha passado por isso.
     Taylor sacudiu o cobertor com uma sbita irritao.
     Por que diabo lhe tinha perguntado se a podia levar a casa? Por que razo a convidara para sair no dia seguinte?
     E mais importante ainda, por que motivo as respostas a ests perguntas o deixavam com um sentimento to incomodo?
CAPTULO 15
     O domingo, felizmente, no estava to quente como o dia anterior. Nuvens imprecisas tinham sido trazidas pelo vento, impedindo que o Sol se refletisse em todo 
o seu esplendor e, ao entardecer, levantou-se uma brisa exatamente quando Taylor se aproximava da entrada da casa de Denise. Era um pouco antes das seis quando, 
devido aos buracos, o caminho balanou e as rodas levantaram o cascalho do acesso. Denise saiu para o alpendre, vestida com umas jeans desbotadas e uma camisa de 
manga curta, no exato momento em que ele saltava do caminho.
     Esperava que o seu nervosismo no transparecesse. Era o seu primeiro encontro depois do que parecia uma eternidade.
     Tudo bem, Kyle estaria com eles e, tecnicamente, no era um encontro a srio, mas mesmo assim, sentia-o como tal. Tinha passado quase uma hora tentando encontrar 
o que havia de vestir antes de, finalmente, se decidir e, no obstante, ainda  estava na dvida. S quando viu que ele tambm trazia jeans  que ficou um pouco mais 
aliviada.
     - Ei, ol! - exclamou ele. - Espero no estar atrasado.
     - Absolutamente nada. - replicou ela. - Vem mesmo a tempo.
     Distraidamente, coou uma das faces. - onde  que est o Kyle?
     - Ainda est l dentro. Vou j busc-lo.
     Num minuto  estavam prontos para partir. Enquanto Denise fechava a porta  chave, Kyle desatou a correr pelo jardim.
     - O, Tayer! - cumprimentou ele.
     Taylor segurou a porta e ajudou-o a subir, exatamente como havia feito no dia anterior.
     - Ei, Kyle. Ests com vontade de ir  feira? 
     - Mio gante! Exclamou alegremente.
     Logo que tomou lugar no assento, trepou para o volante tentando, sem sucesso, rod-lo de um lado para o outro.
      medida que se aproximava, Denise ouvia o filho a emitir uns rudos semelhantes a um motor.
     - Tem estado todo o dia a falar do seu caminho - explicou ela.
     - esta manh descobriu uma Matchbov que se parece com o seu caminho e j no a largou.
     - Ento e o avio?
     - Isso era a atrao de ontem. Hoje  o caminho.
     Acenou em direo  cabina.
     - Acha que posso deix-lo guiar outra vez?
     - No me parece que tenha alguma hiptese de recusar.  Enquanto Taylor se afastava para a deixar subir, ela sentiu o aroma da sua gua-de-colnia. Nada de extravagante, 
provavelmente comprada no drugstore local, mas ficou sensibilizada pela inteno. Kyle afastou-se para lhe dar espao e depois engatinhou, de imediato, para o seu 
colo mal Taylor se instalou.
     Denise encolheu os ombros com uma expresso no rosto que significava: "Bem o avisei". Taylor fez um sorriso forado ao rodar a chave na ignio.
     - Muito bem, meu rapaz, vamos l. Lentamente, desenharam um grande S, passando por cima da relva e em volta das rvores at que, por fim, chegaram  estrada. 
Nessa altura, muito contente, Kyle saltou do seu colo e Taylor rodou o volante avanando rumo  cidade.
     A viagem at  feira demorou apenas uns escassos minutos Taylor ia explicando a Kyle os diversos objetos do caminho (o rdio transmissor, a telefonia, os botes 
do painel), e se bem que fosse evidente que o filho dela no entendia o que lhe  estava a ser dito, Taylor continuou a explicao. Ela reparou, no entanto, que Taylor 
Parecia estar a falar mais devagar do que no dia anterior e que utilizava palavras mais simples. Se foi por causa da conversa deles na cozinha ou porque ele apanhara 
o ritmo que ela usava, no tinha a certeza, mas ficou agradecida por aquele cuidado.
     Chegaram  cidade e voltaram  direita para uma das ruas laterais a fim de estacionarem. Mesmo sendo a ltima noite da feira, no havia demasiado movimento, 
e encontraram um lugar perto da rua principal. Caminhando em direo  feira, Denise reparou que as barracas ao longo dos passeios no tinham muita gente e os seus 
donos apresentavam um aspecto cansado, como se no pudessem esperar mais para encerr-las de vez.
     A feira, todavia, continuava animada; sobretudo crianas com os pais, na esperana de aproveitar ao mximo as ltimas horas de entretenimento que lhes eram 
proporcionadas. No dia seguinte, j tudo teria sido levantado e carregado, a caminho de outra cidade.
     - Ento, Kyle, o que  queres? Perguntou-lhe a me.
     A criana apontou, de imediato, para o balano mecnico, uma viagem em que dezenas de balanos de metal rodavam em crculos, primeiro para frente e depois para 
trs. Cada criana tinha o seu prprio assento, apoiado em cada canto por correntes, e a crianada gritava, simultaneamente, de pnico e de prazer. Kyle observava, 
paralisado, as voltas e reviravoltas do balano.
     -  um balano, afirmou ele. ( paloio.)
     - Queres andar no balano?  Quis saber Denise.
     - Balano, repetiu com um aceno da cabea.
     Diga: "Quero andar no balano".
     - Quero andar no balano.  Murmurou ele. (Qu and paloio.)     
     - Est bem.
     Denise avistou a tenda que servia de bilheteira (tinha guardado alguns dlares das gorjetas da noite anterior) e comeou a procurar na mala de mo. Taylor, 
contudo, notou o que ela fazia e levantou as mos para impedi-la.
     - Isto  comigo. Eu convidei, lembra-se?
     - Mas o Kyle...        
     - Eu convidei-o tambm.
     Depois de Taylor comprar os bilhetes, esperaram na fila.  O balano parou e esvaziou-se, e Taylor entregou os bilhetes a um homem que parecia ter vindo diretamente 
da Fundio Central. As mos estavam pretas de leo, os braos cobertos de tatuagens, faltava-lhe um dos dentes da frente. Rasgou os bilhetes antes de arremess-los 
para dentro de uma caixa de madeira.
     - Esta geringona  segura? - perguntou ela.   
     - Passou na inspeo anteontem - respondeu ele automaticamente.
     Era, sem dvida, a mesma resposta que tinha dado a todos os pais que haviam feito aquela pergunta e no foi, seguramente, suficiente para aliviar a ansiedade 
dela. Algumas partes do balano pareciam ter sido agrafadas umas s outras.
     Denise, nervosa, conduziu Kyle ao seu assento. Levantou-o para sent-lo e depois baixou a barra de segurana enquanto Taylor ficava fora do porto  espera.
     -  paloio, repetiu Kyle quando ficou pronto para a viagem.
     - Sim, .  Ela ps-lhe as mozinhas na barra. Agora Segura-te e no largues.
     A nica resposta de Kyle foi uma gargalhada de prazer.
     - Segura-te! - repetiu ela, desta vez mais sria, e Kyle apertou a barra com fora.
     Ela regressou para junto de Taylor e ficou a seu lado, rezando para que o filho fizesse o que ela mandara. Um minuto depois deu-se o arranque, e a mquina comeou 
lentamente a ganhar velocidade. Na segunda volta os balanos principiaram a mover-se, levados pelo mpeto. Denise no tirava os olhos de Kyle que balanava, era 
impossvel no ouvir as suas gargalhadas to agudas. Quando vinha para trs, ela reparou que as suas mos ainda estavam exatamente onde deviam estar.  Suspirou de 
alivio.
     - Parece surpreendida - comentou Taylor, inclinando-se para se fazer ouvir por cima do barulho ensurdecedor.
     - E estou - concordou ela. -  a primeira vez que ele anda numa coisa destas.
     - Nunca o levou a uma feira?
     - No achei que estivesse preparado para isto antes.
     - Por causa dos problemas da fala?
     - Em parte. - Ela deitou-lhe uma olhadela. - H tantas Coisas sobre Kyle que nem eu prpria entendo.
     Ela hesitou perante o olhar espantado de Taylor.
     Inesperadamente, desejou mais do que tudo na vida, que Taylor compreendesse Kyle, queria que ele percebesse o que tinham sido aqueles ltimos quatro anos. Mais 
ainda, queria que ele a entendesse.
     - O que eu quero dizer  - comeou ela suavemente -, imagine um mundo onde nada  explicado, onde tudo tem de ser aprendido por meio de um processo de tentativas 
e erros. Para mim,  como o mundo de Kyle  agora. As pessoas pensam em regra geral, que a fala tem por objetivo apenas a conversa, mas para as crianas  muito 
mais do que isso.  atravs dela que iniciam a sua aprendizagem do mundo.  assim que aprendem que os bicos do fogo esto quentes sem terem de lhes tocar. E assim 
que aprendem que  perigoso atravessar uma rua sem terem de ser atropelados. Sem a capacidade da linguagem, como  que eu lhe posso ensinar essas coisas? Se Kyle 
no compreender o conceito de perigo, como  que eu o posso proteger? Quando naquela noite ele andou perdido l pelo pntano... Bem, foi voc mesmo quem afirmou 
que ele no parecia assustado quando o encontrou.
     Olhou para Taylor atentamente. 
     - Bom, faz sentido, pelo menos para mim. Nunca passeei no pntano com ele, nunca lhe mostrei cobras; nunca lhe mostrei o que poderia acontecer se ele ficasse 
preso num stio qualquer sem poder sair. E porque no lhe mostrei nada disto, ele no sabia o suficiente para ter medo. Claro que se dermos mais um passo e considerarmos 
todas as possibilidades do perigo e o fato de que eu tenho de lhe mostrar, literalmente, o que isso significa, em vez de ser capaz de lhe dizer, d a sensao de 
que estou tentando atravessar o oceano a nado. No tm conta as vezes em que foi por um triz. Subir demasiado alto e querer saltar, andar de bicicleta muito perto 
da estrada, perder-se, dirigir-se para ces que rosnam... Parece que em cada dia surge uma coisa nova.
     Fechou os olhos um instante como se estivesse a reviver cada experincia, antes de prosseguir.
     - Acredite ou no, essas so apenas uma parte das minhas preocupaes. A maior parte do tempo preocupo-me com as coisas bvias. Se algum dia vir  a conseguir 
falar normalmente, se freqentar  uma escola normal, se alguma vez far amigos, se as pessoas o aceitaro... Se terei de trabalhar com ele o resto da minha vida. 
So ests as coisas que me mantm acordada de noite.
     Depois fez uma pausa, as palavras comearam a sair-lhe mais lentas, cada silaba marcada pela dor.
     - No quero que pense que me arrependo de ter tido o Kyle porque no  verdade. Amo-o de todo o meu corao. Am-lo-ei sempre. Mas...
     Fixou o olhar nos balanos em movimento, os seus olhos sem brilho fecharam-se.   
     - No era bem assim que eu pensava que seria criar uma criana.
     - Nunca imaginei - disse Taylor com suavidade.
     Ela no respondeu, parecendo mergulhada em pensamentos.
     Por fim, com um suspiro encarou-o de novo.
     - Desculpe, no lhe devia ter contado ests coisas.
     - No, no se desculpe. Ainda bem que o fez.
     Desconfiada de que tinha feito demasiadas confidncias mostrou-lhe um sorriso arrependido. 
     - O mais certo  ter pintado uma situao muito negra, no ?
     - No, na verdade no - mentiu ele.
      luz j fraca do Sol ela parecia estranhamente radiosa.  Estendeu a mo e tocou no brao dele. Era uma mo macia e quente.
     - Sabe, no  muito bom a mentir. Devia dizer-me a verdade.  que fiz um quadro horrvel, mas isso no passa do lado mau da minha vida. No lhe falei das coisas 
boas.
     Taylor levantou ligeiramente as sobrancelhas.    
     - Tambm h coisas boas? - inquiriu, suscitando uma gargalhada embaraada em Denise.
     - Da prxima vez que eu precisar desabafar, faa-me sinal para parar,est bem?
     Embora tentasse aligeirar o comentrio, a voz traiu a sua ansiedade. Taylor suspeitou, imediatamente, que ele era a primeira pessoa a quem ela tinha aberto 
o corao desta maneira e que no era altura para brincadeiras.
     A viagem acabou de repente, o balano girou trs vezes antes de se imobilizar. Kyle chamou do seu lugar, tinha a mesma expresso de xtase no rosto.
     - Paloio! - gritou, quase cantando a palavra, com as pernas oscilando para frente e para trs.
     - Queres andar no balano outra vez? - perguntou Denise.
     - Sim - assentiu ele abanando a cabea.
     No havia muita gente na fila, e o homem acenou que Kyle podia ficar no mesmo lugar. Taylor entregou-lhe os bilhetes e depois voltou para o lado de Denise.
     Quando a viagem seguinte se iniciou, Taylor viu Denise a olhar estarrecida para Kyle.
     - Acho que gosta daquilo - afirmou ela quase com orgulho.
     - Parece que tem razo.
     Ele inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos no gradeamento, lamentando ainda a piada que dissera.
     - Ento, conte-me l as coisas boas - pediu ele calmamente.
     O balano rodopiou duas vezes, e ela acenou a Kyle de cada uma das vezes antes de comear a falar.
     - Quer mesmo saber? - inquiriu ela por fim.
     - Claro que quero.
     Denise hesitou. Que estava ela a fazer? A fazer confidncias sobre o filho a um homem que mal conhecia, dando voz a coisas que ela nunca tinha referido no passado; 
sentiu-se a pisar terreno pouco firme, como uma grande pedra que resvala para a beira de um penhasco. Todavia, de alguma forma, desejava acabar o que havia iniciado.
     Aclarou a garganta.
     - Muito bem, as coisas boas... - olhou de relance para Taylor e depois desviou o olhar para o infinito. - o Kyle est a melhorar. s vezes pode no parecer 
e os outros no se aperceberem, mas est a melhorar, de certeza, embora devagar.
No ano passado o vocabulrio dele rondava as quinze ou vinte palavras. Este ano, j vai s centenas e consegue, por vezes, construir uma nica frase com trs ou 
quatro palavras. E na maior parte dos casos, agora j consegue transmitir os seus desejos. Diz-me quando tem fome, quando est cansado, o que quer comer: tudo isto 
 recente nele. S nos ltimos meses  que tem vindo a fazer isso.
     Respirou fundo, sentindo as suas emoes virem ao de cima outra vez.
     - Tem de compreender... Kyle esfora-se tanto todos os dias. Enquanto as outras crianas podem vir brincar c para fora, ele fica sentado na sua cadeira, olhando 
para as figuras dos livros, tentando descobrir o mundo. Ele leva horas a aprender as coisas que as outras crianas conseguem aprender em minutos.
     Fez uma pausa, voltando-se para ele com um olhar de quase desafio.
     - Sabe, Kyle limita-se a acompanhar... Tentando, dia aps dia, palavra por palavra, conceito por conceito. E no se queixa, no chora, faz pura e simplesmente. 
Se ao menos soubesse o quanto ele tem de trabalhar para entender as coisas... O quanto tenta fazer as pessoas felizes... O quanto deseja que as pessoas gostem dele, 
para depois ser apenas ignorado...
     Sentia um n na garganta, inspirou profundamente, lutando para manter a compostura.
     - No imagina at onde ele j chegou, Taylor. S o conhece h pouco tempo. Mas se soubesse onde comeou e quantos obstculos j ultrapassou at aqui, ficaria 
muito orgulhoso dele...
     Apesar dos seus esforos, as lgrimas marejaram-lhe os olhos.
     - E saberia o que eu sei. Que Kyle tem mais corao, mais esprito que qualquer outra criana que j conheci. Ficaria a saber que Kyle  o filho mais maravilhoso 
que uma me podia desejar ter. Ficaria a saber que, apesar de tudo, o Kyle foi a melhor coisa que alguma vez me aconteceu.  o que h de bom na minha vida.
     Todos aqueles anos em que estas palavras nunca foram ditas, todos aqueles anos desejando transmiti-las a algum.  Todos esses anos, todos esses sentimentos, 
quer os bons quer os maus, era um alivio poder, enfim, partilh-los. Ficou, sbita e intensamente, grata por t-lo feito e esperava do fundo do corao, que Taylor 
pudesse, de algum modo, compreender.
     Incapaz de falar, Taylor tentou engolir o n que se formara na sua garganta. V-la falar do filho, o medo e o amor absolutos, tornou o movimento seguinte quase 
instintivo. Sem uma palavra, pegou na mo dela e apertou-a na sua. Era um sentimento esquisito, um prazer esquecido, se bem que ela no tivesse tentado retir-la.
     Com a mo livre limpou uma lgrima que lhe escorrera pela face e fungou. Parecia exausta, contudo desafiadora e bela.
     - Acho que foi a coisa mais bonita que alguma vez ouvi - afirmou ele.
     Quando Kyle quis andar no balano pela terceira vez, Taylor teve de largar a mo de Denise para poder ir entregar os bilhetes respectivos. Ao regressar, aquele 
momento especial tinha passado; Denise estava inclinada sobre o gradeamento, apoiando-se nos cotovelos, e ele decidiu, simplesmente, deix-lo esfumar-se. No entanto, 
a seu lado, ainda podia experimentar a sensao magntica do toque dela na sua pele.
     Demoraram-se ainda mais uma hora na feira, andando na roda Ferris, os trs amontoados no banco inseguro com Taylor a chamar a ateno para alguns locais que 
podiam ver-se l de cima, e no Polvo, uma atrao com um efeito de parafuso, de mergulho e de revolver os intestinos em que Kyle queria andar vezes sem conta.
     J quase no final dessa hora, encaminharam-se para a zona dos jogos de sorte. "Rebente trs bales com trs dardos e ganhe um prmio, acerte em dois cestos 
e ganhe algo diferente!", apregoavam os mascates aos transeuntes, mas Taylor passou por todos eles at alcanar a tenda dos tirinhos. Os primeiros chumbos foram 
usados para verificar a mira da arma e depois continuou de forma a acertar quinze seguidos, negociando prmios mais generosos  medida que ia comprando mais sries. 
Quando acabou, ganhara um panda gigante, apenas um pouco menor que o prprio Kyle. O mascate entregou-o com alguma relutncia.
     Denise saboreou cada minuto. Era gratificante ver Kyle tentar, e gozar, coisas novas, e perambular pela feira proporcionou uma alterao agradvel ao mundo 
em que ela vivia habitualmente. Havia alturas em que se sentia como se fosse outra pessoa, algum que desconhecia. Ao anoitecer, as luzes das diversas atraes cintilaram; 
 medida que o cu escurecia ainda mais, parecia que se intensificava o movimento da multido, como se toda a gente soubesse que tudo estaria acabado no dia seguinte.
     Tudo estava bem, como ela mal teria ousado pensar que estaria.  Ou, se possvel, melhor ainda.
     Quando chegaram a casa, Denise foi buscar um copo de leite e levou Kyle para o quarto. Instalou o panda ao canto, para que ele o pudesse ver, e em seguida ajudou 
o filho a vestir o pijama. Depois de acompanh-lo nas oraes, deu-lhe o leite.
     Os olhos dele estavam quase a fechar-se.
     Quando acabou de lhe ler uma histria, Kyle j dormia profundamente.  Esgueirando-se pela porta, saiu e deixou-a parcialmente aberta.
     Taylor estava  sua espera na cozinha, sentado  mesa com as longas pernas estendidas sob a mesma.
     - Dorme a sono solto - comentou ela.
     - Foi rpido.
     - Foi um longo dia para ele. No est habituado a estar de p at to tarde.
     A cozinha  estava iluminada pela nica lmpada do candeeiro do teto. A outra tinha-se fundido na semana anterior e, de repente ela desejou t-la substitudo. 
Na pequena cozinha havia pouca claridade, um pouco intimo demais.  Deu algum tempo e fez a pergunta tradicional:
     - Toma alguma coisa?
     - Se tiver, bebo uma cerveja.
     - A escolha  limitada.
     - O que  que tem?
     - Ch gelado.
     - E?
     Ela encolheu os ombros.
     - gua?
     Ele no pde deixar de sorrir.
     - Ento o ch est bem.
     Ela encheu dois copos e entregou-lhe um, desejando ter algo forte para ambos. Algo que suavizasse o que sentia.
     - Est um pouco abafado c dentro - constatou ela. - Quer deitar-se no alpendre?
     Encaminharam-se l para fora e sentaram-se nas cadeiras de balano, Denise ficou perto da porta para poder ouvir Kyle se ele acordasse.
     - Que bem que se est aqui - reconheceu Taylor instalando-se confortavelmente.
     - O que  que quer dizer?
     - Isto. Sentarmos-nos aqui fora. Sinto-me como se estivesse num episdio dos Waltons.
     Denise riu-se, sentindo dissipar-se um pouco o seu nervosismo.
     - No gosta de se sentar no alpendre?
     - Claro. Mas raramente o fao.  uma das coisas para as quais parece que no tenho tempo.
     - Um bom rapaz do sul como voc? - Espantou-se ela, repetindo as palavras que ele usara na vspera. - Pensava que um tipo como voc se sentava no alpendre da 
sua casa com um banjo, a tocar canes atrs de canes com um co deitado aos ps.
     - Com a famlia, um jarro duma bebida de contrabando e uma escarradeira ao longe?
     Ela sorriu.    
     - Pois claro!
     Ele abanou a cabea.
     - Se no soubesse que tambm  do sul, pensaria que  estava a insultar-me.
     - Mas s porque sou de Atlanta?
     - Desta vez vou deixar passar. Os cantos da sua boca ergueram-se num sorriso. Ento, do que  que tem mais saudades da grande cidade?
     - No de muitas coisas. Julgo que se fosse mais nova e o Kyle no existisse, este lugar dava comigo em doida. Mas j no preciso dos grandes centros comerciais, 
ou dos restaurantes requintados, ou dos museus. Houve uma altura em que pensava que estas coisas eram importantes, mas na verdade no eram uma opo durante os ltimos 
anos, mesmo quando l vivia.
     - Tem saudades dos seus amigos?
     - s vezes. Tentamos manter-nos em contato. Por carta, telefone e assim. E voc? Nunca sentiu a necessidade de fazer as malas e ir-se embora daqui?
     - Nem por isso. Aqui sou feliz, e, para alm disso, a minha me est c. Sentir-me-ia mal se a deixasse sozinha.
     Denise assentiu. 
     - No sei se me teria mudado se a minha me fosse viva, mas acho que no.
     De sbito Taylor deu consigo a pensar no pai.
     - Voc j passou por muita coisa na vida - observou ele.
     - Demasiado,  o que penso por vezes.
     - Mas continua em frente.
     - Tem de ser. H algum que depende de mim.
     A conversa foi interrompida por um farfalhar nos arbustos, seguido por um grito parecido ao de um gato. Dois guaxinins saram a correr dos arbustos passando 
por cima do relvado. Passaram a grande velocidade na luz refletida pelo alpendre, e Denise levantou-se partentando ver melhor. Taylor juntou-se a ela perto da vedao, 
perscrutando na escurido. Os guaxinins pararam e voltaram-se, dando conta da existncia de duas pessoas no alpendre e depois continuaram pelo relvado fora antes 
de desaparecerem de vista.
     - Saem quase todas as noites. Devem andar a surripiar alguma comida.
     -  o mais certo. Ou isso, ou os seus caixotes do lixo.
     Denise anuiu com ar entendido. 
     - Quando me mudei para c, pensava que eram os ces que os vasculhavam. Depois,  noite, apanhei aqueles dois em flagrante. Ao princpio no sabia o que eram.
     - Nunca antes tinha visto um guaxinim?
     - Claro que sim. Mas no no meio da noite, nem a remexerem no meu lixo, e muito menos no meu alpendre. O meu apartamento em Atlanta no tinha propriamente criaturas 
da vida selvagem.  Aranhas, sim; animais selvagens, no.
     - Voc  como aquele rato da cidade, da histria infantil, que salta para o caminho errado e fica encurralado no campo.
     - Acredite que  assim que me sinto s vezes.
     Com o cabelo movendo-se suavemente com a brisa, Taylor voltou a ficar impressionado com a beleza dela.
     - Ento, como  que era a sua vida? Quero dizer, como foi crescer em Atlanta?
     - Provavelmente, um pouco como a sua.
     Ela procurou os olhos dele, alongando as palavras como se fosse uma revelao.
     - ramos ambos filhos nicos, criados por mes vivas que cresceram em Edenton.
      medida que ela falava, Taylor sentiu um sobressalto no peito. Denise continuou.
     - Sabe como . Sentimo-nos um bocado diferentes porque as outras crianas tm uma me e um pai, mesmo quando so divorciados -  como se crescssemos sabendo 
que perdemos uma coisa importante e que toda a gente tem, mas no sabemos bem o que . Lembro-me de ouvir as minhas amigas dizerem que os pais no as deixavam sair 
at muito tarde ou que no gostavam dos namorados delas. Isto costumava irritar-me imenso, pois elas nem sequer se apercebiam do que tinham. Entende o que quero 
dizer?
     Taylor acenou com a cabea afirmativamente, compreendendo, de sbito, o quanto ambos tinham em comum.
     - A parte isso, a minha vida foi bastante normal. Vivia com a minha me, freqentei escolas catlicas, ia s compras com as minhas amigas, ia aos bailes de 
estudantes e apoquentava-me de cada vez que tinha uma borbulha por pensar que as pessoas deixariam de gostar de mim.
     - Chama a isso normal?
     - Quando somos garotas .
     - Nunca me preocupei com coisas dessas.
     Ela lanou-lhe um olhar de soslaio.
     - Voc no foi educado pela minha me.
     - No, mas a Judy ficou mais pacifica com a idade. Era um bocado mais arisca quando eu era mais novo.
     - Ela disse-me que andava sempre metido em encrencas.
     - E voc era a menina perfeita.
     - Tentava, brincou ela.
     - Mas no era?
     - No, mas obviamente era mais astuta a enganar a minha me do que voc.
     Taylor casquinou.
     - Ainda bem. Se h coisa que no suporto  a perfeio.
     - Sobretudo a de outra pessoa, no  verdade?
     - Pois .
     Houve uma breve interrupo na conversa antes de Taylor voltar a falar.
     - Importa-se que lhe faa uma pergunta? - inquiriu ele interessado.
     - Depende da pergunta - respondeu ela, tentando no ficar tensa.
     Taylor olhou para longe, de novo em direo  extremidade do quintal, fingindo procurar os guaxinins.
     - Onde  que est o pai de Kyle? Quis saber aps um breve intervalo.
     Denise sabia que a pergunta era inevitvel.
     - No sei. Nem sequer o conheci muito bem. No era previsto Kyle acontecer.
     - Ele sabe da existncia de Kyle?
     - Telefonei-lhe quando estava grvida. Disse-me logo que no queria nada com ele.
     - Alguma vez o viu?
     -No.
     Taylor franziu as sobrancelhas.
     - Como  que ele pode no se importar com o prprio filho?
     Denise encolheu os ombros.
     - No sei.
     - Alguma vez sente vontade que esteja presente?
     - Oh, Deus, no, afirmou ela rapidamente. Ele no.
     - Isto , teria gostado que Kyle tivesse um pai, mas nunca uma pessoa como ele. Por outro lado, para Kyle ter um pai, quero dizer, o pai certo e no algum 
a quem chamasse pai, tambm teria que ser meu marido.
     Taylor assentiu, compreendendo.
     - Mas agora, Sr. Mcaden,  a sua vez! - exclamou Denise voltando-se para ele. - Contei-lhe tudo sobre mim, mas no houve reciprocidade. Portanto, fale-me de 
si.
     - J sabe a maior parte.
     - No me contou nada.
     - Disse-lhe que sou empreiteiro.
     - E eu sou empregada de mesa.
     - E tambm j sabe que sou bombeiro voluntrio.
     - Soube disso a primeira vez que o vi. No chega.
     - Na verdade no h muito mais a acrescentar - protestou ele atirando as mos para o cu numa imitao de frustrao. - o que  que queria saber?
     - Posso fazer-lhe as perguntas que me apetecer?
     - Fora!
     - Ora muito bem. - Ela ficou em silncio uns instantes e depois olhou-o nos olhos. - Fale-me sobre o seu pai - pediu ela suavemente.
     As palavras sobressaltaram-no. No era a pergunta que ele esperava e Taylor sentiu-se um tanto constrangido, tomando conscincia de que no queria responder. 
Podia ter acabado com aquilo de forma simples, com umas frases que nada significassem, mas por um momento no falou.
     A noite estava cheia de sons. As rs e os insetos, o rumorejar das folhas. O luar tinha aparecido e pairava por sobre a linha das rvores. No seu reflexo leitoso, 
um morcego fortuito rasgava o ar. Denise teve de se aproximar para consegui-lo ouvir.
     - O meu pai morreu quando eu tinha nove anos. Comeou ele.
     Denise observava-o atentamente enquanto ele ia falando.
     Falava devagar, como se coligisse os pensamentos, todavia ela pressentia a sua relutncia em cada ruga do rosto.
     - Mas ele era mais do que apenas o meu pai. Era o meu melhor amigo, tambm. Hesitou. Sei que parece estranho. Isto , eu no passava de um menino e ele era 
um adulto, mas  verdade. ramos ambos inseparveis. Mal chegavam as cinco horas, instalava-me nos degraus da frente e esperava que o caminho subisse o caminho 
de acesso a casa. Ele trabalhava na serrao, e eu corria para ele assim que abria a porta do caminho e saltava-lhe para os braos. Era robusto; mesmo  medida 
que ia crescendo nunca me disse para no fazer aquilo.
Costumava pr-lhe os braos  volta do pescoo e respirar fundo. Trabalhava no duro, e mesmo no Inverno, podia sentir o cheiro da transpirao e da serradura nas 
suas roupas. Chamava-me "meu rapaz".
     Denise assentiu reconhecendo a expresso.
     - A minha me esperava sempre dentro de casa enquanto ele me perguntava o que eu tinha feito nesse dia ou como a escola tinha corrido. E eu falava muito depressa 
tentando dizer o mais que podia antes dele entrar. No entanto, embora estivesse cansado e provavelmente com vontade de ver a minha me, ele nunca me repeliu. Deixava-me 
contar tudo o que me ia  cabea e s depois  que me punha no cho. Depois pegava na lancheira, dava-me a mo e entrvamos em casa.
     Taylor engoliu em seco, esforando-se por pensar apenas nas coisas boas.
     - Costumvamos ir pescar nos fins-de-semana. Nem me consigo lembrar de quando comecei a acompanh-lo, talvez mais novo que Kyle. Saiamos no barco e ficvamos 
sentados horas a fio. s vezes contava-me histrias, parecia que sabia milhares delas, e respondia-me sempre, o melhor que podia ao que quer que fosse que eu lhe 
perguntasse. O meu pai no chegou a fazer o liceu, mas mesmo assim conseguia explicar-me muito bem as coisas. E, quando eu lhe fazia perguntas sobre coisas que ele 
no sabia, tambm o confessava. No era o gnero de pessoa que tinha de ter sempre razo.
     Denise sentiu-se tentada a tocar-lhe, mas ele parecia perdido em pensamentos do passado, com o queixo descado sobre o peito.
     - Nunca o vi zangado, nunca o ouvi levantar a voz para ningum. Quando tinha de chamar a ateno, tudo quanto dizia era: "J chega filho." E eu parava logo, 
pois sabia que  estava a desapont-lo. Sei que provavelmente parece estranho, mas acho que no queria decepcion-lo.
     Quando terminou, Taylor respirou fundo devagar.
     - Parece ter sido um homem maravilhoso, afirmou Denise, apercebendo-se de que tinha tocado num tema crucial para Taylor, mas em dvida quanto  forma e ao contedo.
     - E era.
     O tom decidido da sua voz tornou claro que o assunto  estava encerrado, embora Denise suspeitasse de que havia muito mais a dizer. Ali ficaram sem falar durante 
bastante tempo, ouvindo o cricrilar dos grilos.
     - Que idade tinha quando o seu pai morreu? - quis saber ele quebrando, por fim, o silncio.
     - Quatro.
     - Lembra-se dele como eu me lembro do meu?
     - Nem por isso, no da maneira com se recorda do seu. Na verdade, s guardo algumas imagens: a ler-me histrias ou da sensao dos plos da barba na cara quando 
me dava um beijo de boas-noites. Andava sempre satisfeita quando ele estava em casa. Ainda hoje no passa um dia em que no deseje poder fazer o tempo andar para 
trs e mudar o que aconteceu.
     Mal ela acabou a frase, Taylor voltou-se para ela com uma expresso de espanto no rosto, percebendo que ela tinha tocado no ponto fulcral. Em poucas palavras, 
ela tinha chegado  essncia do que ele tinha tentado explicar a Valerie e a Lori.
     No entanto, ambas o ouviram com compaixo, mas no o entenderam de fato. No podiam. Nenhuma delas tinha alguma vez acordado com a terrvel conscincia de que 
tinham esquecido o som da voz dos pais. Nenhuma delas acarinhara uma s fotografia como o nico meio de recordao. Nenhuma delas sentira a tremenda necessidade 
de se dirigir a uma pequena pedra de granito  sombra de um salgueiro.
     A nica coisa que sabia era que, finalmente, ouvira algum fazer eco dos seus prprios sentimentos e, pela segunda vez nessa noite, ele pegou-lhe na mo.
     Ficaram em silncio de mos dadas com os dedos entrelaados, cada um deles receando que as palavras quebrassem o encantamento. Nuvens preguiosas, prateadas 
pelo luar, pairavam no cu. Assim to perto dele e sentindo-se ligeiramente insegura, Denise observava as sombras brincarem no seu rosto. No maxilar detectou uma 
pequena cicatriz que antes nunca notara; havia uma outra no dedo anelar da mo que lhe segurava a sua, talvez uma pequena queimadura que h muito sarara. Se ele 
se dava conta do seu exame minucioso, no o mostrou. Em vez disso, olhava simplesmente para o quintal.
     A noite arrefecera um pouco. Uma brisa martima havia soprado anteriormente deixando uma grande quietude  sua passagem. Denise bebericou o seu ch escutando 
o zumbido forte dos insetos em volta da luz do alpendre. Uma coruja gritou na escurido. As cigarras cantavam nas rvores. A noite estava a chegar ao fim, pressentia 
ela.  Estava quase a acabar.
     Ele tomou o resto do seu ch, os cubos de gelo tilintando no copo, depois o colocou sobre o anteparo da vedao.
     - Acho que tenho de me ir embora. Amanh tenho de me levantar cedo.
     - Decerto. Concordou ela.
     Todavia, ficou ali mais uns minutos sem dizer nada. Fosse pelo que fosse, continuava a lembrar-se do aspecto dela quando lhe manifestou os seus receios sobre 
Kyle: a sua expresso desafiadora, as emoes intensas  medida que as palavras lhe brotavam dos lbios. A sua me tambm se havia preocupado com ele, mas alguma 
vez essas preocupaes se assemelharam ao que Denise passava todos os dias?
     Sabia que no tinha sido o mesmo.
     Sensibilizou-o verificar que os seus medos apenas tornavam mais forte o seu amor pelo filho. E testemunhar um amor to incondicional, to puro face s dificuldades; 
era natural encontrar beleza em tudo isso. Quem no a encontraria?
Contudo, havia mais qualquer coisa, no havia? Algo mais profundo, algo em comum que ele nunca encontrara antes em ningum.
     "Ainda hoje no passa um dia em que no deseje poder fazer o tempo andar para trs e mudar o que aconteceu".
     Como  que ela sabia?
     O seu cabelo de bano, ainda mais escuro pela noite, parecia envolv-la em mistrio.
     Finalmente, Taylor afastou-se da vedao.
     - Voc  uma boa me, Denise. Ele estava relutante em libertar a mo dela. Mesmo sendo difcil, mesmo no sendo o que voc esperava, no posso deixar de acreditar 
que tudo acontece por uma razo. Kyle precisava de uma me assim.
     Ela assentiu.
     Com grande relutncia, desviou-se da vedao, desviou-se dos pinheiros e dos carvalhos, desviou-se dos sentimentos que o assaltavam. O cho do alpendre rangeu 
a medida que se deslocava para os degraus com Denise a seu lado.
     Ela olhou para ele.
     Ento ele quase a beijou.  luz amarela e suave do alpendre os olhos dela pareciam cintilar com uma intensidade misteriosa. Mesmo assim, ele no tinha a certeza 
se ela desejava que o fizesse e, no ltimo instante conteve-se. A noite j tinha uma marca mais especial do que qualquer outra noite de h muito tempo a esta parte; 
ele no a queria estragar.
     Ao invs, deu um passo atrs como que para lhe dar mais espao.
     - Passei uma tima noite, assegurou ele.
     - Tambm eu, concordou ela.
     Por fim, largou a mo dela, sentindo um frmito de desejo enquanto a deixava deslizar da sua. Queria dizer-lhe que havia nela algo extraordinariamente raro, 
algo que ele procurara no passado, mas que jamais esperara encontrar. Queria dizer-lhe tudo isto, porm descobriu que no era capaz.
     Sorriu de novo, debilmente, depois voltou-se descendo os degraus  luz fraca da lua dirigindo-se, atravs da escurido, para o caminho.
     Ainda no alpendre, ela acenou-lhe uma vez mais enquanto Taylor descia pelo caminho, os faris brilhando  distncia.  Ouvi-o parar j perto da estrada e esperar 
para dar passagem a um carro solitrio que se aproximava. O caminho de Taylor deu a curva em direo  cidade.
     Depois de ele se ter ido embora, Denise encaminhou-se para o quarto e sentou-se na cama. Na mesinha-de-cabeceira havia um candeeiro, uma fotografia de Kyle 
de quando comeara a andar, um copo de gua meio vazio que ela se esquecera de levar para a cozinha nessa mesma manh. Suspirando, abriu uma gaveta. No passado poderia 
ter contido revistas e livros, mas atualmente encontrava-se vazia,  exceo de um frasco de perfume que a me lhe oferecera uns meses antes de falecer.
     Tinha sido um presente de aniversrio que fora embrulhado em papel e fita dourados. Denise gastara metade do seu contedo nas primeiras semanas a seguir  oferta; 
aps a morte da me, nunca mais o havia usado. Guardava-o como uma recordao da me e naquele momento, lembrou-se de h quanto tempo no usava nenhum perfume. Mesmo 
nessa noite, tinha-se esquecido de pr um bocadinho.
     Ela era me. Era assim, e acima de tudo, que agora se definia. Contudo, por mais que tentasse neg-lo, tambm sabia que era uma mulher e, aps anos querendo 
manter est verdade enterrada, sentiu-a prxima e presente. Sentada na cama, fixando o frasco de perfume, sentiu-se dominada por uma sensao de inquietao. Havia 
algo dentro dela que ansiava por ser desejada, apreciada e protegida, por ser ouvida e ser aceita sem juzos de valor. Por ser amada.
     Com os braos cruzados, depois de apagar a luz do quarto.  Atravessou o corredor. Kyle dormia a sono solto. Com a temperatura amena do quarto, a criana tinha 
empurrado os cobertores para o lado e dormia destapada. De cima da cmoda, enchendo o quarto, vinha a msica suave de um ursinho de plstico luinjooso que repetia 
a mesma melodia vezes sem conta. Era a sua luz de presena desde beb. Ela desligou-o, caminhou em direo  cama e endireitou o lenol para no se enrolar nos cobertores. 
Kyle virou-se enquanto ela lhe aconchegava a roupa. Beijou-o na face, a pele macia e imaculada, e esgueirou-se para fora do quarto.
     Na cozinha reinava o silncio. L fora podiam ouvir-se os grilos cricrilar, entoando a sua cano do Vero. Olhou pela janela.  luz da Lua, as rvores tinham 
um brilho prateado, as folhas no buliam. O cu estava coberto de estrelas, estendendo-se at  eternidade, e ela fixou-as, sorrindo, pensando em Taylor MacAden.
CAPTULO 16
     Duas noites mais tarde, Taylor estava sentado na cozinha, a tratar de uns papis quando recebeu o telefonema.
     Tinha havido um acidente entre um caminho cisterna com gasolina e um automvel.
     Depois de ir buscar as chaves, saiu em menos de um minuto; passados cinco minutos, foi um dos primeiros a chegar ao local do sinistro. Ouviam-se,  distncia, 
as sirenes dos carros dos bombeiros cortando o ar.
     Ao parar o caminho, Taylor refletia se chegariam a tempo.  Saltou para fora sem fechar a porta e olhou em redor. Os veculos aglomeravam-se em ambos os sentidos 
da ponte e as pessoas estavam fora dos seus carros pasmados com o horrvel espetculo.
     A cabine do caminho cisterna tinha-se encaixado na traseira do Honda, esmagando-a por completo, antes de colidir com o gradeamento que limitava a ponte. No 
meio do acidente, o condutor havia bloqueado o volante antes de travar a fundo e o caminho atravessara-se nas duas vias da estrada barrando, por completo, a circulao 
nos dois sentidos. O carro, encravado sob a frente do caminho, estava suspenso da ponte pelos pneus de trs como uma prancha de mergulho, balanando inclinado numa 
posio precria. O tejadilho havia sido rasgado, como uma lata parcialmente aberta,  medida que arrancara o cabo ao longo de um dos lados da ponte. A nica coisa 
que impedia o Honda de cair no rio, uns dois metros e meio abaixo, era o peso da cabina do caminho cisterna e a prpria cabina no parecia muito estvel.
     O motor deitava muito fumo e o leo derramava-se, sem cessar, sobre o Honda, espalhando uma camada brilhante sobre o capot.
     Logo que Mitch vislumbrou Taylor, apressou-se na sua direo para o pr a par dos acontecimentos, indo direto ao assunto.
     - O condutor do caminho est bem, mas ainda h gente dentro do carro. Um homem ou uma mulher, ainda no sabemos, quem quer que seja no est nada bem.
     - E os tanques da cisterna?
     - Esto com trs quartos da sua capacidade. O motor a fumegar... Um derramamento sobre o carro...
     - Se a cabine explodir, os tanques tambm explodem?
     - O motorista diz que no, se o revestimento no tiver sido danificado. No vi nenhuma fuga, mas no tenho a certeza.
     Taylor olhou em volta, a adrenalina percorrendo-lhe o corpo.  Temos de afastar estas pessoas daqui.
     - Bem sei, mas  uma multido, e eu prprio s aqui cheguei h uns instantes. No tive oportunidade.
     Dois carros dos bombeiros chegaram; o da bomba e o do guincho com a escada, com as suas luzes vermelhas iluminando, em crculos, aquela rea, e sete homens 
saltaram das viaturas antes de estas se terem imobilizado. J vestidos com os seus fatos  prova de fogo, puseram-se a par da situao, comearam a gritar ordens 
e foram buscar as mangueiras. Tendo vindo diretamente para o local (o acidente, sem primeiro terem passado pelo quartel, Mitch e Taylor correram a buscar os fatos 
que lhes tinham trazido). Enfiaram-nos sobre a roupa que tinham vestida com aquela facilidade que a prtica sempre trazia.
     Entretanto, Carl Huddle chegara, bem como mais dois polcias da cidade de Edenton. Aps uma breve reunio, voltaram a sua ateno para os veculos na ponte. 
Retiraram um alto-falante do porta-bagagem e deram ordem aos basbaques que se afastassem a fim de desimpedirem aquela zona. Os outros dois agentes (em Edenton havia 
um agente por carro) caminharam em sentidos opostos, na direo dos extremos das filas dos carros aglomerados na estrada. O ltimo veculo da fila recebeu a primeira 
instruo.
     - Tem de fazer marcha atrs ou de fazer inverso de marcha.
     - Temos uma situao difcil na ponte.
     - At onde?
     - Cerca de setecentos e cinqenta metros.
     O primeiro condutor com quem falaram hesitou, como que refletindo se era realmente necessrio cumprir o que lhe haviam pedido.
     - J! Trovejou o agente.
     Taylor considerava que setecentos e cinqenta metros eram uma distncia razovel para abrir uma rea de segurana, mas mesmo assim, ainda ia levar algum tempo 
at todos os carros se afastarem.
     Entretanto, o caminho cisterna deitava cada vez mais fumo.
     Por norma, os bombeiros costumavam ligar as mangueiras s bocas de incndio para poderem extrair toda gua de que precisassem. Na ponte, contudo, no havia 
bocas de incndio.
     Desta forma, apenas dispunham da gua contida no reservatrio do carro da bomba. Era mais do que suficiente para extinguir as chamas da cabine do caminho, 
mas de modo nenhum para controlar um incndio se a cisterna explodisse.
     Controlar o fogo seria uma situao critica; salvar o passageiro preso no interior do automvel era o que dominava os pensamentos das pessoas.
     Porm, como chegar at ele? Iam-se formulando idias  medida que todos se preparavam para o inevitvel.
     Trepar pela cabine para alcanar a pessoa? Utilizar uma escada e arrast-la para fora? Montar um cabo e suspend-lo at ela?
     Fosse qual fosse o processo por que optassem, o problema mantinha-se: todos tinham receio de aumentar o peso do carro.
     Era um milagre que ainda ali se agentasse, e um pequeno empurro ou algum excesso de peso seriam suficientes para lhe provocar a queda. Quando um jato de gua 
foi dirigido para a cabine, aqueles receios, todos compreenderam de sbito, eram mais que justificados.
     gua jorrou com violncia em direo  cabine do caminho, depois caiu em cascata para dentro do vidro traseiro espatifado do Honda  razo de dois mil duzentos 
e cinqenta litros por minuto enchendo parcialmente o interior do veculo.
     Em seguida escorreu por causa da gravidade, do habitculo para o motor. Em poucos instantes, a gua saltava pela grelha da frente. A parte da frente do carro 
inclinou-se ligeiramente fazendo levantar a cabine do caminho, depois voltou a erguer-se. Os bombeiros que manejavam a mangueira viram o carro em destroos oscilar 
e, sem perder um segundo, desviaram-na para o cu aberto antes de fecharem as torneiras.
     Todos, sem exceo, ficaram lvidos.
     A gua ainda continuava a escorrer pela grelha do carro.  No tinha havido qualquer movimento por parte do passageiro que l se encontrava.
     - Vamos utilizar a escada do nosso carro - alvitrou Taylor. - Vamos suspend-la sobre o carro e usamos um cabo para puxarmos a pessoa c para fora.
     O automvel continuava a balanar, aparentemente de forma automtica.
     - Pode no agentar com vocs os dois, alertou Joe rapidamente.
     Como chefe, era o nico bombeiro o tempo inteiro no Quartel; tinha como funo conduzir uma das viaturas e era sempre o fiel da balana numa situao de crise 
como est.
     Era bvio que o seu ponto de vista estava correto.  Devido ao ngulo que o carro em destroos fazia e  largura da ponte, relativamente estreita, o guincho 
e a escada no se poderiam aproximar a uma distncia ideal. De onde se podia instalar, a escada teria de ser colocada por sobre o carro do lado onde o passageiro 
se encontrava, numa extenso de pelo menos mais seis metros. No era muito se a posio da escada fosse de feio; mas visto ter de ser colocada quase na horizontal 
sobre o rio, desafiaria os limites da segurana.
     Fosse aquele um modelo recente de carro de bombeiros e no haveria problemas. Todavia, a viatura dos bombeiros de guincho e de escada de Edenton era uma das 
mais antigas do estado ainda em funcionamento e tinha sido, inicialmente, adquirida tendo em conta que o edifcio mais alto da cidade s tinha trs andares. A escada 
no tinha sido projetada para situaes como est.
     - Que outra alternativa temos? Vou e venho num abrir e fechar de olhos, assegurou Taylor.
     Joe j esperava que ele se oferecesse como voluntrio. H doze anos atrs, no segundo ano em que Taylor se juntara  companhia, Joe tinha-lhe perguntado por 
que razo era sempre o primeiro a oferecer-se para as misses mais arriscadas. Embora o risco fizesse parte integrante do trabalho dos bombeiros, os desnecessrios 
j eram outra cantiga, e Taylor impressionara-o, pois parecia-lhe um homem que precisava provar o seu valor.
     Joe no queria algum assim para o secundar; no porque no confiasse em Taylor para o livrar de problemas, mas porque no queria arriscar a prpria vida a 
salvar a algum que desafiava o destino desnecessariamente.
     Todavia, Taylor deu-lhe uma explicao bem simples.
     - O meu pai morreu quando eu tinha nove anos e sei perfeitamente o que  crescer sozinho. No quero que isso acontea a mais ningum.
     No  que os outros no arriscassem a vida, claro. Todos os bombeiros aceitavam os riscos de olhos abertos. Sabiam bem o que podia acontecer-lhes e houve dezenas 
de ocasies em que o oferecimento de Taylor havia sido recusado.
     Mas desta vez...
    - Est bem, concluiu Joe, tens razo, Taylor. Vamos ao trabalho.
     Dado que o guincho e a escada se encontravam inclinados para frente, tinham de desistir da ponte e procurar seguir pela relva para conquistar a melhor posio 
possvel. Uma vez retirada a viatura da ponte, o condutor teve de deslocar o caminho para trs e para frente trs vezes antes de conseguir colocar-se de novo na 
direo do automvel. Quando, finalmente, obteve a posio correta, j tinham decorrido sete minutos.
     Durante esse tempo, o motor do caminho cisterna continuava a deitar cada vez mais fumo. Viam-se agora pequenas chamas aparecendo sob o motor, lambendo e queimando 
as traseiras do Honda. As chamas pareciam terrivelmente prximas do depsito da gasolina, e eles no conseguiam aproximar-se o suficiente com os extintores para 
debel-las.
     O tempo estava a esgotar-se e tudo quanto podiam fazer era olhar, impotentes.
     Enquanto a viatura dos bombeiros se colocava em posio, Taylor pegou na corda de que precisava e prendeu-a ao seu prprio arns com um movimento rpido. Quando 
o caminho se colocou em posio, Taylor trepou e amarrou a outra ponta da corda  escada, a alguns degraus da extremidade. Um cabo, muito mais comprido, foi tambm 
passado das traseiras do guincho e da escada atravs desta. Amarrado ao guincho, na extremidade mais distante do cabo, encontrava-se um arns de segurana macio 
e bem almofadado. Uma vez que o arns de segurana fosse preso em volta do passageiro, o cabo deveria ser lentamente rebobinado retirando-o do habitculo.
      medida que a escada se ia estendendo, Taylor deitou-se de barriga para baixo, com a mente fervilhando. Mantenha o equilbrio... Fique o mais longe possvel... 
Quando chegar o momento, baixa-te rpido, mas cuidadosamente... No toques no carro...
     Contudo, o ocupante do automvel ocupava-lhe a maioria dos pensamentos. Estaria preso? Poderia ser transportado sem lhe provocar mais danos fsicos? Seria possvel 
retir-lo sem o carro se precipitar no rio?
     A escada continuava a avanar devagar, aproximando-se do carro.
     Ainda faltavam trs, a trs metros e meio, e Taylor sentiu a escada mais instvel, rangendo sob o seu peso, como um velho celeiro exposto ao temporal.
     Dois metros e meio.  Estava suficientemente prximo para poder tocar com a mo na parte da frente do caminho.
     Um metro e oitenta.
     Taylor podia sentir o calor vindo das pequenas chamas, podia v-las propagarem-se ao tejadilho destrudo do carro.  medida que a escada ia se estendendo, comeou 
a oscilar ligeiramente.
     Um metro e vinte. Encontrava-se agora por cima do carro... Aproximando-se do pra-brisa.
     Ento a escada imobilizou-se com um estrpito. Ainda de barriga para baixo, Taylor olhou para trs por cima do ombro para verificar se tinha ocorrido algum 
problema. No entanto, pela expresso dos outros bombeiros, percebeu que a escada  estava to esticada quanto possvel e que ele tinha de se arranjar por sua conta 
e risco.
     A escada balanava precariamente enquanto desamarrava a corda presa ao seu arns. Segurando o outro arns para o passageiro, comeou a deslocar-se para frente 
muito devagar, em direo  extremidade da escada, tirando partido dos trs ltimos degraus. Precisava deles para se posicionar sobre o pra-brisa e fazer-se descer 
para alcanar o ocupante do carro.
     Apesar do caos que o rodeava, enquanto rastejava para frente, foi surpreendido pela inverossmil beleza da noite.
     Como num sonho, o cu noturno abria-se perante ele. As estrelas, a Lua, as nuvens delicadas... L em cima, um pirilampo naquele cu escuro. Vinte e quatro metros 
mais abaixo, gua tinha a cor do carvo, to negro como o tempo e, no entanto, refletindo a luz das estrelas. Podia ouvir a sua prpria respirao enquanto avanava, 
podia sentir o corao bater dentro do peito. Por baixo de si, a escada vacilava e estremecia a cada movimento.
     Rastejava como um soldado na relva, agarrando-se aos frios degraus de metal. Atrs de si, o ltimo dos automveis retirava-se da ponte. Naquele silncio de 
morte, Taylor conseguia ouvir as chamas lambendo a base do caminho e, inesperadamente, o carro comeou a balanar.
     A frente do carro inclinou-se um pouco e endireitou-se para trs, depois mergulhou de novo antes de recuperar o equilbrio. No havia vento nenhum. Numa frao 
de segundo em que se apercebeu disso, ouviu um leve queixume, um som surdo e quase impossvel de detectar.
     - No se mexa! Gritou Taylor instintivamente.
     O gemido cresceu de tom e o Honda comeou a oscilar incessantemente.
     - No se mexa! Gritou Taylor outra vez, a sua voz revelando desespero, o nico som sado da escurido. Tudo o mais estava calmo. Um morcego cortou o ar da noite.
     Voltou a escutar o queixume e o carro inclinou-se para frente, afocinhando em direo ao rio antes de se equilibrar de novo.
     Taylor movimentou-se rapidamente. Amarrou a sua corda ao ltimo degrau, fazendo um n to cego como o de qualquer marinheiro. Empurrando as pernas para frente, 
comprimiu-se por entre os degraus esforando-se por se mover to fluda e lentamente quanto possvel, sustentando-se pelo arns. A escada balanava como um vaivm 
infantil, gemendo e estalando, oscilando como se fosse partir-se em duas. Taylor posicionou-se de forma to segura quanto pde, quase como se estivesse num balano. 
Era o melhor ngulo em que conseguira instalar-se. Segurando a corda com uma mo, estendeu a outra em direo ao ocupante do carro, testando simultaneamente a resistncia 
da escada. Espreitando pelo pra-brisa para o interior, verificou que ainda estava longe, porm vislumbrou a pessoa que tentava salvar.
     Era um homem com vinte e tal, trinta anos, pouco mais ou menos da sua estatura. Aparentemente confuso, debatia-se no meio dos destroos provocando um violento 
desequilbrio no carro. Os movimentos do homem, apercebeu-se Taylor, eram uma faca de dois gumes. Significavam que, eventualmente, podia ser retirado do veculo 
sem risco de agravamento de problemas da coluna vertebral; por outro lado, esses movimentos podiam precipitar o carro no rio.
     Com a mente a fervilhar, Taylor alcanou a escada e agarrou no arns de segurana puxando-o para si. Este gesto sbito fez estremecer a escada como berlindes 
em terreno firme. O cabo retesou-se.
     - Mais corda! Gritou ele, e um instante depois sentiu-a tornar-se mais solta e comeou a desc-la. Uma vez atingida a posio desejada, gritou aos companheiros 
que a imobilizassem.
     Desenganchou uma das extremidades do arns de segurana para poder enrol-la em volta do corpo do homem e apert-la de novo.
     Debruou-se mais uma vez, mas constatou, frustrado, que ainda no conseguia chegar ao homem. Precisava de mais um bom meio metro.
     - Consegue ouvir-me?  Perguntou para dentro do automvel.
      - Se percebe o que estou a dizer, responda-me.
     Voltou a escutar um gemido e, se bem que o ocupante se mexesse, era bvio que, na melhor das hipteses, estava semiconsciente.
     As chamas sob o caminho alastraram e intensificaram-se subitamente.
     Rangendo os dentes, Taylor deixou-se escorregar pela corda at ao ponto mais baixo que lhe foi possvel, depois se esticou partentando apanhar o passageiro. 
Desta vez ficou mais prximo, podia chegar ao painel da frente, mas o homem ainda estava fora do seu alcance.
     Taylor ouviu os outros chamarem-no da ponte.
     - Consegues tir-lo dai?   Gritou-lhe Joe.
     Taylor avaliou a situao. A parte da frente do carro no parecia ter sofrido estragos, e o homem, sem o cinto de segurana, estava meio deitado no assento 
e meio deitado no cho, encravado debaixo do volante, mas afigurando-se possvel que pudesse ser retirado pela abertura do tejadilho. Taylor ps a mo livre em volta 
da boca para o poderem ouvir melhor e gritou:
     - Acho que sim. o pra-brisa est completamente destrudo e o tejadilho nem existe. H espao suficiente para ele sair e no vejo nada a prend-lo.
     - Consegues agarr-lo?
     - Ainda no - retorquiu ele. - Estou quase, mas no consigo pr-lhe o arns em volta. Est confuso.
     - Despacha-te e faz o que puderes. Era a voz ansiosa de Joe.
     - Daqui parece que o incndio do motor est a alastrar.
     No entanto, Taylor j tinha conhecimento desse fato.
     Nesse momento o caminho espalhava um calor insuportvel e ele ouvira uns estampidos que vinham do interior do caminho. O suor comeou a escorrer-lhe pelo 
rosto.
     Tomando coragem, Taylor voltou a agarrar a corda e esticou-se, roando com as pontas dos dedos no brao do homem inconsciente atravs do pra-brisa estilhaado. 
A escada oscilou e, a cada oscilao, tentava aproximar-se mais. Ainda  estava a alguns centmetros.
     De repente, como um pesadelo, ouviu um estouro enorme e as labaredas eclodiram, subitamente, do motor do caminho, crepitando em direo a Taylor. 
     Deteve-se, tapando instintivamente o rosto enquanto as chamas recuavam para o caminho outra vez.
     - Ests bem? gritou-lhe Joe.
     - Estou timo!
     No havia tempo para planos, no havia tempo para consideraes...
     Taylor agarrou no cabo e puxou-o para si. Esticando as pontas dos ps, levou o gancho do arns de segurana para debaixo da bota. Depois, sustentando o seu 
peso com o p, elevou-se ligeiramente e desenganchou o seu prprio arns da sua corda de apoio.
     Lutando pela prpria vida, com um pequeno ponto de apoio na bota a sustent-lo, fez deslizar as mos pelo cabo abaixo at ficar quase dobrado em dois. Agora, 
suficientemente perto do ocupante do carro tirou uma mo do cabo e alcanou o arns de segurana. Tinha de coloc-lo em volta do peito do homem, por baixo dos braos.
     A escada balanava vigorosamente. As chamas comeavam a crestar o tejadilho do Honda, a apenas alguns centmetros da sua cabea. Regatos de suor derramavam-se 
sobre os seus olhos, toldando-lhe a viso. A adrenalina avolumou se nos seus membros
     - Acorde! - gritou ele com a voz rouca de pnico e frustrao.
     - Tem de me ajudar!
     O homem gemeu de novo pestanejando. No era o suficiente. Com as chamas chispando na sua direo, Taylor deitou a mo ao homem puxando-o, em esforo, com o 
brao.
     - Ajude-me, raios! - vociferou Taylor.
     O homem, desperto finalmente por um lampejo de auto-preservao, ergueu a cabea ligeiramente.
     - Ponha o arns debaixo do brao!
     Parecia no ter percebido. Todavia, a nova posio do seu corpo oferecia uma oportunidade. Taylor orientou imediatamente uma extremidade do arns na direo 
do brao do homem (o que estava sobre o assento) e o fez deslizar por debaixo do membro.
     - E vai um.
     Durante todo o tempo continuou a gritar, os seus brados cresciam em desespero.
     - Ajude-me! Acorde! J quase no h tempo!
     As labaredas ganhavam intensidade e a escada oscilava perigosamente.
     Mais uma vez, o homem moveu a cabea, no muito, no o suficiente. O outro brao do homem, encravado entre o corpo e o volante, parecia preso. Sem se importar 
com o que pudesse acontecer naquele momento, Taylor deu um puxo ao corpo, fazendo-o balanar com a fora. A escada inclinou-se precariamente tal como o carro. A 
frente apontada para o rio.
     Fosse como fosse, o encontro foi o suficiente.
     Desta vez o homem abriu os olhos e comeou tentando libertar-se de entre o volante e o assento. O automvel balanava agora violentamente. Dbil, o passageiro 
libertou o outro brao, depois levantou-o ligeiramente como se tentasse subir para o assento. Taylor colocou o arns de segurana  sua volta. Com a mo transpirada 
sobre o cabo, apertou a ponta solta do arns, fechando o crculo e depois o agarrou com fora.
     - Agora vamos tir-lo dai. J quase no temos tempo.
     O homem balanceou simplesmente a cabea, voltando, de sbito, a ficar inconsciente, todavia Taylor conseguiu ver que o caminho estava finalmente livre.
     - Puxem-no para cima! Gritou. O passageiro est em segurana!
     Taylor comeou a iar-se pelo cabo at ficar de novo em p. Lentamente, os bombeiros principiaram a enrolar o cabo, com todo o cuidado para no o fazer oscilar, 
pois tinham receio da sobrecarga que isso implicaria para a escada.
     O cabo retesou-se e a escada comeou a vergar-se e a estremecer. Contudo, em vez de o passageiro subir, parecia que a escada se inclinava cada vez mais na direo 
do rio.
     Cada vez mais para baixo...
     - Oh, gaita...
     Taylor podia senti-la  beira de se dobrar, ento ambos comearam a elevar-se no ar.
     Centmetro a centmetro.
     Depois, com um propsito horripilante, o cabo deixou de retroceder. Por seu lado, a escada comeou a vergar-se de novo. Taylor percebeu, imediatamente, que 
a escada no conseguia suportar o peso de ambos.
     - Parem! - gritou. - A escada vai partir-se!
     Ele tinha de soltar o cabo e saltar da escada. Depois de se certificar de que o homem no ficaria preso, agarrou os degraus da escada acima da cabea. Ento, 
com todo o cuidado, tirou o p do gancho, deixando as pernas bamboleantes e rezando para que a tenso adicional no partisse a escada em duas.
     Decidiu trepar pela escada com as mos, como fazem as crianas nas barras das estruturas metlicas dos parques. Um degrau... Dois... Trs... Quatro. O carro 
j no estava por baixo dele, no entanto ainda podia sentir a escada deslizar para baixo.
     Foi enquanto ele atravessava os degraus que as labaredas irromperam num frenesi, estendendo-se com uma violncia mortal aos tanques de gasolina. Tinha visto 
incndios de motores inmeras vezes, mas este estava a poucos segundos de explodir.
     Olhou em direo  ponte. Como que em cmara lenta, viu os bombeiros, seus amigos, gesticularem freneticamente com os braos, gritando-lhe que se despachasse, 
que sasse da escada, que se pusesse a salvo antes de o caminho explodir. No entanto, ele sabia que no havia a mnima possibilidade de chegar ao caminho a tempo 
e ainda salvar o passageiro.
     - Puxem-no! - gritou Taylor rouco. - Tem de subir agora!
     Balanando muito acima da gua, largou os degraus e deixou-se ir em queda livre. Num  pice viu-se engolido pelo ar da noite.
     O rio  estava vinte e quatro metros abaixo.
     - Foi a coisa mais louca, mais idiota que j alguma vez te vi fazer - asseverou-lhe Mitch prosaicamente, quinze minutos mais tarde, sentados os dois na margem 
do rio Chowan.
     - Quero dizer, j vi muitas proezas estpidas na minha vida, mas est leva a taa!
     - Conseguimos tir-lo, no conseguimos?   Perguntou-lhe Taylor.
     Estava ensopado e tinha perdido uma bota enquanto tentava salvar-se. No rescaldo, depois de a adrenalina se esgotar sentia o corpo ceder a uma espcie de aquietao 
exaurida. Sentia-se como se no dormisse h muitos dias, os msculos pareciam de borracha, as mos tremiam-lhe descontroladamente. Felizmente, o acidente na ponte 
estava a ser assistido pelos seus companheiros, ele no teria tido foras para os ajudar embora o motor tivesse explodido os selos dos tanques principais tinham 
se agentado e agora eram capazes de controlar o incndio com relativa facilidade.
     - No tinhas de te ter largado. Podias ter voltado para trs. Embora o dissesse, Mitch no tinha a certeza de ser verdade.
     Logo a seguir a Taylor ter se soltado, os bombeiros sacudiram as emoes e recomearam a rebobinar o cabo com convico. Sem o peso de Taylor, a escada possua 
uma resistncia  trao que permitiu que o ocupante do carro fosse iado atravs do pra-brisa. Tal como Taylor previra, ele tinha sido retirado com facilidade. 
Uma vez fora do carro, a escada recuperou o equilbrio, longe do acidente, e retrocedeu em direo  ponte. Mal a escada alcanou a ponte, o motor do caminho explodiu 
vomitando, com violncia, chamas brancas e amarelas em todas as direes. O carro desprendeu-se e seguiu Taylor, mergulhando na gua l em baixo. Taylor tinha tido 
o discernimento necessrio para, depois de se afundar nas guas, nadar por debaixo da ponte, prevendo que tal situao pudesse ocorrer. De fato, o carro cara muito 
perto, demasiado perto.
     Depois de Taylor mergulhar na gua, a presso sugou-o para baixo e reteve-o durante vrios segundos, e muitos mais segundos depois. Taylor rodopiou e foi torcido 
como um trapo numa mquina de roupa, mas conseguiu, por fim, nadar para a superfcie, aonde chegou com a respirao ofegante.
     Quando veio  tona a primeira vez, Taylor informara que se encontrava bem. Depois do carro se despencar e de ter evitado, por um triz, ser esmagado pelos destroos, 
voltou a gritar que estava bem. Todavia, quando chegou  margem, sentia nuseas e estava tonto, os acontecimentos da ltima hora tinham, finalmente, manifestado 
os seus efeitos. Foi quando as suas mos comearam a tremer.
     Taylor no sabia o que sentir: medo por causa do salto ou alivio por tudo ter resultado bem. Quanto ao passageiro, tudo indicava que ia ficar bom, e Joe pediu 
a Mitch que fosse falar com Taylor.
     Mitch encontrara-o sentado na lama, com as pernas encolhidas e as mos e a cabea descansando sobre os joelhos.
     Ainda no se tinha mexido desde que Mitch se sentara ao p de si.
     - No devias ter saltado - acrescentou Mitch finalmente, quando Taylor no lhe respondeu.
     Taylor levantou a cabea preguiosamente, limpando gua da cara.
     - Eu sei... Foi por isso que nadei para debaixo da ponte - retorquiu ele.
     - Mas e se ele tivesse cado mais cedo? E se o motor tivesse explodido vinte segundos antes? E se tivesses batido em alguma coisa submersa na gua? Por amor 
de Deus!
     - E se?
     - Ento estaria morto.
     Taylor abanou a cabea, entorpecido. Sabia que ia ter que responder a estas perguntas outra vez, quando Joe o submetesse a um interrogatrio cerrado e srio.
     - No sabia o que mais havia de fazer - afirmou ele.
     Mitch observou-o preocupado, escutando o desconforto inexpressivo da sua voz. J antes o tinha visto assim, era o aspecto traumtico de algum que sabia ter 
sorte por estar vivo. Reparou nas mos trementes de Taylor e estendeu a sua batendo-lhe nas costas.
     - S estou contente por estares bem.
     Taylor assentiu, demasiado cansado para falar.
     - Parecia apenas perigoso - disse inexpressivamente.
     - Isso  porque era perigoso. Mas no que eu pensava era no carro que se despenhou logo a seguir a tu teres saltado para gua. Podias ter sido esmagado.
CAPTULO 17
     Nessa mesma noite, mais tarde, quando a situao na ponte  estava completamente controlada, Taylor meteu-se no carro para regressar a casa. Como suspeitara, 
Joe fez-lhe todas as perguntas que Mitch lhe fizera e muitas mais, explorando todas as decises e os seus motivos, mastigando tudo duas e trs vezes. Se bem que 
estivesse to zangado como Taylor nunca o vira, este fez o seu melhor para convenc-lo de que no tinha agido de forma imprudente.
     - Oua - garantiu ele -, eu no queria saltar, mas se no o tivesse feito, nenhum de ns teria conseguido sobreviver.
     Perante este fato, Joe no tinha resposta.
     As mos j no tremiam e o seu sistema nervoso tinha, gradualmente, voltado ao normal, embora se sentisse esgotado.
     Ainda tiritava quando percorreu as calmas estradas rurais.
     Uns breves minutos depois, Taylor subia os degraus de cimento estalado da pequena casa a que chamava lar. Tinha deixado as luzes acesas na pressa de sair, e 
a casa parecia acolh-lo quase com deleite quando entrou. A papelada, relacionada com os seus negcios ainda estava espalhada sobre a mesa, a calculadora ficara 
ligada. O gelo do copo com gua havia-se derretido.
     Na sala de estar podia escutar, em pano de fundo, a televiso ligada; o desafio de futebol que ele estava a ouvir tinha dado lugar s noticias locais.
     Pousou as chaves em cima da bancada e tirou a camisa  medida que atravessava a cozinha em direo a um pequeno quarto onde estavam as mquinas de lavar e secar 
roupa.
     Abrindo a tampa deitou a camisa para dentro da mquina de lavar. Descalou os sapatos e deu-lhes um pontap atirando-os de encontro  parede. Meteu as calas, 
as peugas e a roupa interior na mquina com a camisa e deitou-lhe detergente.
     Depois de pr a mquina a trabalhar, agarrou numa toalha dobrada que  estava em cima da mquina de secar, dirigiu-se ao banheiro e tomou uma ducha rpida, enxaguando 
a gua salobra do seu corpo.
     Em seguida, deu uma escovadela ao cabelo e andou pela casa a desligar tudo antes de se enfiar na cama.
     Apagou as luzes quase com alguma relutncia. Queria dormir, precisava dormir, contudo, apesar da exausto, percebeu de repente que o sono no viria. Ao contrrio, 
mal fechava os olhos as imagens dos acontecimentos das ltimas horas voltavam a desenrolar-se na sua mente. Quase como um filme, algumas delas passavam apressadamente, 
outras de trs para frente, mas em ambos os casos eram diferente daquilo que realmente acontecera. As suas, no eram imagens de sucesso, eram mais como pesadelos.
     Seqncia atrs de seqncia, ele assistia indefeso como tudo tinha corrido mal.
     Viu-se a si mesmo alcanar a vtima, ouviu um estouro e sentiu um estremecimento nauseante quando a escada se partiu em duas, atirando-os ambos para a morte... 
Ou... Observava horrorizado como a vtima tentava alcanar a sua mo estendida, o rosto contorcido de pnico, mesmo no momento em que o carro escorregava da ponte 
e Taylor se sentia incapaz de fazer o que quer que fosse para impedi-lo...  Ou...  Sentiu a sua mo suada escapar-se do cabo mergulhando na direo aos pilares da 
ponte, para uma morte certa...  Ou... Enquanto enganchava o arns, ouviu um tique taque esquisito, imediatamente antes de o caminho explodir, a sua pele estava 
lacerada e queimada, ouviu o som dos seus prprios gritos  medida que a vida lhe era roubada...  O pesadelo com que vivia desde a infncia..
     Esbugalhou os olhos. As mos tremiam-lhe de novo, tinha a garganta seca. Com a respirao ofegante, podia sentir outra onda de adrenalina, se bem que desta 
vez lhe fizesse doer o corpo todo.
     Voltou a cabea para ver as horas. As luzes vermelhas e brilhantes dos dgitos mostravam que eram quase onze e meia.
     Reconhecendo que no era capaz de dormir, acendeu o candeeiro da mesinha-de-cabeceira e comeou a vestir-se.
     No percebera por que tomara est deciso. Tudo quanto sabia era que precisava desabafar.
     No com Mitch, nem com Melissa. Nem mesmo com a me.
     Precisava falar com Denise.
     O parque de estacionamento junto ao Eights  estava praticamente vazio quando ele chegou. Havia um carro parado a um dos lados. Taylor conduziu o caminho para 
o espao livre mais perto da porta e viu as horas. O restaurante ia fechar dali a dez minutos.
     Empurrou a porta de madeira e ouviu o tinido de um sino que assinalava a sua entrada. Era o mesmo restaurante de sempre. Um balco corrido ao longo da parede 
mais afastada;
     Era ai que a maioria dos caminhoneiros se sentava durante as horas matutinas. Havia cerca de uma dzia de mesas quadradas ao centro da sala sob uma ventoinha 
de teto rotativa. De cada um dos lados da porta abaixo do nvel das janelas, havia trs cabines com os assentos forrados em vinil, todos eles com pequenos rasges. 
O ar cheirava a bacon apesar do adiantado da hora.
     Por detrs do balco ao fundo, vislumbrou Ray que limpava as traseiras. Ray voltou-se com o tinido do sino e reconheceu Taylor quando este entrava. Acenou-lhe 
com um pano da loua gorduroso na mo.
     - Ei, Taylor - saudou-o. - J h muito tempo que no o via. Vem jantar?
     - Oh, ei, Ray. - Varreu a sala com os olhos. - Na verdade, no.
     Ray abanou a cabea, rindo de si para si.
     - Foi o que me pareceu - acrescentou malicioso. - Denise est quase a sair. Est a guardar umas coisas no roupeiro.  Veio saber se ela quer boleia?
     Quando Taylor no respondeu logo, os olhos de Ray brilhavam.
     - Pensa que  o primeiro a entrar aqui com esse ar de cachorrinho perdido na cara? H um ou dois que vm c todas as semanas, exatamente com o mesmo aspecto, 
com esperana de conseguirem o mesmo. Caminhoneiros, ciclistas, at tipos casados. - Arreganhou os dentes. - Ela  um pedao de mulher, l isso , no acha? Bela 
como uma flor. Mas no se preocupe, ela ainda no aceitou nada de nenhum.
     - Eu no ia... - tartamudeou Taylor, sem conseguir arranjar desculpa.
     - Claro que ia. - Piscou um olho, deixando cair a frase, depois baixou a voz. - Mas como j lhe disse, no se preocupe.
     - Tenho o pressentimento de que  capaz de lhe dizer que sim.
     - Vou avis-la de que est aqui.
     Tudo quanto Taylor podia fazer era olhar no vazio, dado que Ray desaparecera de vista. Quase de imediato, Denise surgiu dos lados da cozinha, empurrando uma 
porta de vaivm.
     - Taylor? Perguntou com a surpresa espelhada no rosto.
     - Ol - cumprimentou ele encabulado.
     - o que  que est a fazer aqui? - dirigiu-se a ele sorrindo, com curiosidade.
     - Queria falar consigo - afirmou ele calmamente, sem saber o que dizer.
      medida que ela se encaminhava na sua direo, ele reteve  a imagem. Trazia um avental branco com algumas ndoas por cima do vestido amarelo com malmequeres. 
O vestido, de mangas curtas e decote em V,  estava abotoado at acima; a saia cobria-lhe os joelhos. Calava tnis brancos, um calado confortvel para quem tem 
de estar vrias horas em p. O cabelo  estava penteado a trs, atado num rabo de cavalo e o rosto brilhava com a sua prpria transpirao e com a gordura do ar. 
Era bela.
     Ela deu-se conta da apreciao dele, no entanto  medida que se aproximava, detectou-lhe algo nos olhos, algo que nunca vira antes.
     - Est bem? - perguntou. - Parece que viu um fantasma.
     - No sei - sussurrou ele, quase de si para si.  Ela fixou-o, preocupada, e depois olhou por cima do ombro.
     - Ei, Ray! Posso fazer uma pausa por uns instantes?
     Ray agiu como se no tivesse notado a presena de Taylor.  Continuou a limpar a grelha enquanto respondia:
     - O tempo que quiseres querida. De qualquer maneira, estou quase a acabar isto aqui.
     Ela encarou Taylor novamente.
     - Quer sentar-se. Era exatamente o motivo que o tinha levado ali, todavia os comentrios de Ray haviam-no deixado envergonhado. S conseguia pensar nos homens 
que vinham ao restaurante  procura dela.
     - Talvez no devesse ter vindo, especulou ele.
     Contudo, Denise, como se soubesse exatamente o que fazer, sorriu-lhe compreensivamente.
     - Ainda bem que veio - disse ela suavemente. - O que  que aconteceu?
     Ele permaneceu em silncio  sua frente, passando-lhe, num turbilho, todas as peripcias pela cabea. O odor vago do champ dela, o seu desejo de a abraar 
e de lhe contar o que acontecera nessa noite, os pesadelos que tivera acordado, o quanto desejava que ela o ouvisse... Os homens que vinham ao restaurante  procura 
dela...
     Apesar de tudo o que sucedera, este pensamento apagava os acontecimentos dramticos dessa noite. No que tivesse alguma razo para ficar com cimes. Ray assegurara-lhe 
que ela sempre rejeitara os outros, e ele no estabelecera nenhum tipo de relao sria com ela. No entanto, aquele sentimento perturbava-o. Que homens? Quem  que 
a queria levar a casa?
     Queria perguntar-lhe mas sabia que no tinha nada a ver com isso.
     - Tenho de me ir embora - afirmou ele sacudindo a cabea.
     - No devia estar aqui. Ainda est a trabalhar.
     - No - redargiu ela, agora com ar srio, pressentindo que alguma coisa o incomodava. - Aconteceu alguma coisa est noite. O que foi?
     -  Queria falar consigo - replicou ele simplesmente.
     - Sobre o qu?
     Os olhos dela procuraram os dele sem o desfitar. Aqueles olhos maravilhosos. Deus, ela era adorvel. Taylor engoliu em seco, a mente num alvoroo.
     - Houve um acidente na ponte - disse ele abruptamente.
     Denise assentiu, ainda sem saber aonde  que ele queria chegar.
     - Eu sei. A noite esteve muito calma por aqui. Quase ningum veio por causa da ponte estar fechada. Esteve l?
     Taylor abanou a cabea afirmativamente.
     - Ouvi dizer que foi horrvel. Foi?
     Mais uma vez, Taylor fez que sim.
     Ela estendeu a mo para o brao dele, tocando-lhe ao de leve.
     - Espere aqui, est bem? Vou ver o que  que ainda h para fazer antes de fecharmos.
     Ela afastou-se dele, a mo dela deslizando na sua pele, e regressou  cozinha. Taylor ficou sentado, sozinho com os seus pensamentos por uns breves instantes, 
at Denise voltar.
     Surpreendentemente, ela passou por ele em direo  porta da frente, onde virou a placa de "Aberto". O Eights  estava fechado.
     - Na cozinha est tudo arrumado - explicou ela. - Tenho umas coisas para acabar e depois fico pronta para me ir embora. Por que  que no espera por mim, est 
bem? Podemos conversar l em casa.
     Taylor levou Kyle ao colo para o caminho, a cabea dele apoiada no seu ombro. Uma vez instalados, passou-o para Denise. Quando chegaram a casa, procederam 
ao contrrio e depois de retirar Kyle do colo da me, Taylor transportou-o pela casa para o quarto. Deitou a criana na cama e Denise aconchegou lhe a roupa.  sada 
ela ligou o ursinho de plstico, e a msica fez-se ouvir. Deixou a porta entreaberta enquanto ambos se esgueiravam do quarto.
     Na sala de estar, Denise acendeu um dos candeeiros e Taylor instalou-se no sof. Aps uma breve hesitao, Denise sentou-se numa cadeira no lado oposto ao sof.
     A caminho de casa nenhum deles falou com receio de acordarem Kyle, mas uma vez sentados, Denise foi direta ao assunto.
     - O que aconteceu? - perguntou. - Na ponte, est noite.
     Taylor contou-lhe tudo: o salvamento, o que Mitch e Joe lhe disseram, as imagens que, a seguir, o tinham atormentado.
     Denise manteve-se calma enquanto ele desfiava a sua histria, os seus olhos presos no rosto dele.
     - Salvou-o?
     - No fui s eu. Fomos todos, corrigiu Taylor, marcando instintivamente a diferena.
    - Mas quantos de vs subiram a escada? Quantos de vs tivestes de se atirar  gua porque a escada no agentava?
     Taylor no respondeu, e Denise levantou-se do seu lugar para se sentar ao lado dele no sof.
     - Voc  um heri - rematou ela com um pequeno sorriso no rosto. - Tal como o foi quando Kyle se perdeu.
     - No, no sou - discordou ele, vindo-lhe  mente, contra a sua vontade, imagens do passado.
     - Ai isso  que . Ela procurou a mo dele. Nos vinte minutos que se seguiram, falaram de coisas inconseqentes, a conversa abordando isto e aquilo. Por fim, 
Taylor fez-lhe perguntas sobre os homens que queriam lev-la a casa; ela riu-se revirando os olhos e explicou-lhe que era normal no seu tipo de trabalho.
     - Quanto mais simptica eu for, mais gorjetas recebo.
Todavia, alguns homens interpretam isso de forma errada.
     A simples mudana do tema de conversa teve um efeito calmante; Denise esforou-se para que Taylor no pensasse no acidente. Quando era criana, a me costumava 
fazer o mesmo quando ela tinha pesadelos. Ao tagarelar sobre isto e aquilo, ela conseguia, finalmente, descontrair-se.
     Parecia que em relao a Taylor tambm  estava a resultar.  Gradualmente, ele comeou a falar menos, as respostas eram mais lentas. Os seus olhos fechavam-se 
e abriam-se, e fechavam-se nova mente. A respirao ganhou um ritmo mais regular e profundo  medida que as provaes do dia comearam a esbater-se.
     Denise segurou-lhe na mo, observando-o, at ele adormecer. Ento levantou-se e foi ao quarto buscar um cobertor. Quando ela o empurrou levemente, Taylor estendeu-se 
e ela tapou-o. Meio adormecido, murmurou algo sobre ter de se ir embora; Denise sussurrou-lhe que  estava ali muito bem.
     - Durma - balbuciou ela apagando a luz.
     Foi para o quarto e tirou a roupa de trabalho, depois vestiu o pijama. Soltou o rabo de cavalo, lavou os dentes e limpou a gordura do rosto. Em seguida, depois 
de se ter enfiado na cama, fechou os olhos.
     O fato de Taylor McAden estar a dormir, ali ao lado na sala, foi a ltima coisa de que se lembrou antes de, tambm ela, adormecer.
     - O, Tayer! - cumprimentou Kyle feliz da vida.
     Taylor abriu os olhos para de seguida os semicerrar com a luminosidade da manh que entrava pela janela da sala.
     Esfregou os olhos com as costas da mo para eliminar os vestgios do sono, viu Kyle em p  sua frente com a cara muito perto da sua. O cabelo do menino, em 
desalinho e emaranhado, espetava-se em todas as direes.
     Taylor levou um instante a perceber onde se encontrava.  Quando Kyle se afastou sorrindo, Taylor sentou-se. Passou ambas as mos pelos cabelos. Olhando para 
o relgio, verificou que passava pouco das seis. No resto da casa reinava o sossego.
     -Bom dia, Kyle. Como ests?
     - Ele est a dormir. (T mimir.)
     - Onde est a tua me?
     - Ele est no sof. (T o sof.)
     Taylor endireitou-se, sentindo a rigidez das articulaes. O corpo doa-lhe como acontecia todas as manhs ao acordar.
     - Claro que estava.
     Taylor esticou os braos para os lados e bocejou.
     - Bom dia. -  ouviu a saudao atrs de si. Por cima do ombro Denise a sair do quarto, vestindo um longo pijama cor-de-rosa e calando umas pegas. Levantou-se 
do sof.
     - Bom dia - retribuiu ele, voltando-se. - Calculo que tenha passado pelas brasas ontem  noite.
     - Estava cansado.
     - Peo-lhe desculpas.
     - No tem importncia, afirmou ela. Kyle tinha-se dirigido para um canto da sala e sentou-se a brincar com os brinquedos.
     Denise encaminhou-se para ele e inclinou-se o beijando no alto da cabea.
     - Bom-dia, meu amor.
     - Bom-dia, replicou ele. (Dia.)
     - Ests com fome?
     - No.
     - Queres um iogurte?
     - No.
     - Queres brincar com as tuas coisas?
     Kyle assentiu e Denise voltou a sua ateno para Taylor.
     - E voc? Tem fome?
     - No quero que v preparar nada de especial.
     - Ia oferecer-lhe uns Cheerios, anunciou ela, fazendo-o sorrir. Ajeitou a camisola do pijama. Dormiu bem?
     - Como uma pedra - garantiu ele. - obrigado pela noite de ontem. Foi mais do que paciente comigo.
     Ela encolheu os ombros, os seus olhos captando a luz da manh. O cabelo longo e emaranhado roava-lhe os ombros.
     - Para que servem os amigos?
     Um tanto embaraado, pegou no cobertor e comeou a dobr-lo, satisfeito por ter algo para fazer. Sentia-se pouco  vontade, ali na casa dela, logo de manh 
to cedo.
     Denise aproximou-se e ficou ao lado dele.
     - Tem a certeza de que no quer ficar para o pequeno-almoo?
     - Ainda tenho meia caixa.
     Taylor ps um ar de reflexo.
     - E leite? - acabou por perguntar.
     - No, ns pomos gua nos cereais - afirmou ela muito sria Ele olhou-a como que a perguntar-se se devia acreditar ou no.  Quando, de repente, Denise soltou 
uma gargalhada. Que som melodioso!
     - Claro que temos leite, seu tonto.
     - Tonto?
     -  uma expresso de carinho. Quer dizer que gosto de si - explicou ela com um piscar de olhos.
     Aquelas palavras davam-lhe, estranhamente, uma sensao de bem-estar.
     - Nesse caso, gostaria de ficar.
     - Ento qual  o seu programa para hoje? - perguntou Taylor. Tinham acabado de tomar o pequeno-almoo e Denise acompanhava-o  porta. Ele ainda tinha de passar 
por casa para mudar de roupa antes de ir ter com os operrios.
     - O mesmo de sempre. Vou trabalhar com Kyle durante umas horas e depois no tenho a certeza. Depende do que ele quiser fazer: brincar no jardim, andar de bicicleta, 
o que calhar.  noite vou trabalhar.
     - Servir aqueles homens devassos?
     - Uma garota tem de pagar as contas - comentou ela brejeira - e , alm disso, no so assim to maus. O que l esteve ontem  noite era bem simptico. Deixei-o 
ficar c em casa.
     - Um encanto, hein?
     - Nem por isso. Mas era to pattico que no tive coragem de mand-lo embora.
     - Bolas!
     Quando chegaram  porta, ela inclinou-se o empurrando, divertida.
     - Sabe que estava a brincar.
     - Assim espero. - No cu no havia nuvens e o sol, a leste, comeava a espreitar por entre as rvores quando saram para o alpendre. - Oua, sobre a noite passada... 
Obrigado por tudo.
     - J h pouco me agradeceu, lembra-se?
     - Bem sei - afirmou Taylor com sinceridade -, mas queria agradecer outra vez.
     Ficaram juntos um do outro at que Denise, por fim, deu um pequeno passo em frente. Olhou para baixo e depois para cima, na direo de Taylor, inclinou a cabea 
ligeiramente aproximando o seu rosto do dele. Quando o beijou de leve nos lbios, pde ver a surpresa nos seus olhos.
     Na realidade, no passou de um pequeno beijo, mas tudo quanto ele conseguia fazer era olhar para ela e pensar quo agradvel tinha sido.
     - Estou contente por ter sido voc a vir comigo. - afirmou ela.
     Ainda de pijama e com o cabelo despenteado, parecia absolutamente perfeita.
CAPTULO 18
     Mais tarde, nesse dia, a pedido de Taylor, Denise mostrou-lhe o dirio de Kyle.
     Sentada a seu lado na cozinha, ela folheava as pginas, fazendo um comentrio de vez em quando. Cada pgina tinha os objetivos de Denise escritos, bem como 
palavras e expresses especificas, a respectiva pronncia e as suas observaes finais.
     - Est a ver.  apenas um registro do que fazemos.  tudo.
     Taylor percorreu a primeira pgina. Em cima estava escrita uma nica palavra: Ma. Pela pgina abaixo, e continuando no verso, estava a descrio de Denise 
do primeiro dia em que trabalhara com Kile.
     - Posso? - perguntou ele virando a pgina.
     Denise assentiu, e Taylor leu lentamente, assimilando cada palavra. Quando acabou, ergueu os olhos.
     -Quatro horas?
     -Sim.
     - S para dizer a palavra ma?
     - Na verdade, ele no a pronunciou corretamente, nem mesmo no fim. Mas dava para entender o que ele  estava tentando dizer.
     - Como  que conseguiu que ele a dissesse?
     - Continuei a trabalhar com ele at ele conseguir pronunci-la.
     - Mas como  que sabia qual o melhor processo?
     - De fato, no sabia. No principio, no. Tive de estudar uma quantidade de coisas diferentes sobre como trabalhar com crianas como o Kyle; debrucei-me sobre 
vrios programas que as universidades estavam a implementar, aprendi terapias da fala e as coisas que se costumam fazer. Todavia, nenhuma delas parecia, realmente, 
descrever o problema de Kyle, isto , algumas partes coincidiam, mas a maior parte apontava para outro tipo de problemas. No entanto, houve dois livros, Crianas 
Que Falam Tarde de Thomas Sowell e Deixa-me ouvir a Tua Voz de Catherine Maurice, que se aproximavam bastante. O livro de Sowell foi o primeiro que me ensinou que 
eu no era a nica nesta situao; que havia uma enorme quantidade de crianas com dificuldades na fala mesmo que no tivessem quaisquer outros problemas. Com o 
livro de Maurice fiquei com uma idia de como devia ensinar Kyle, se bem que o livro dela abordasse fundamentalmente o autismo.
     - Ento como  que faz?
     - Utilizo um tipo de programa de modificao do comportamento, um programa originalmente proposto pela UCLA.
     - Tiveram, ao longo dos anos, um grande sucesso em casos de crianas autistas utilizando o mtodo da recompensa no bom comportamento e do castigo no comportamento 
negativo. Eu adaptei o programa s dificuldades da fala, uma vez que esse era o nico problema de Kyle. Basicamente, quando ele diz o que  suposto que diga, recebe 
um rebuado. Quando no diz, no recebe nada. Quando nem sequer se esfora ou fica teimoso, ralho com ele. Quando lhe ensinei a palavra "ma", apontava para o desenho 
de uma ma e repetia a palavra vezes sem conta. De cada vez que ele emitia um som, dava-lhe um bocadinho de rebuado; a partir dai s lhe dava o rebuado quando 
ele pronunciava o som correto, mesmo que fosse apenas de uma parte da palavra. Posteriormente, s era recompensado quando dizia a palavra toda.
     - E isso levou quatro horas?
     Denise assentiu.
     - Quatro horas incrivelmente longas. Ele chorava e exasperava-se, estava sempre tentando sair da cadeira, gritava como se eu o estivesse a picar com alfinetes. 
Se algum nos tivesse ouvido nesse dia, pensava, com certeza, que eu estava a tortur-lo. Devo ter repetido a palavra, sei l, algumas quinhentas ou seiscentas vezes. 
No parava de repeti-la at ambos j estarmos completamente fartos dela. Foi terrvel, verdadeiramente pavoroso para os dois e nunca pensei que acabasse, mas sabe... 
Ela aproximou-se um pouco mais.
     - Quando ele finalmente a pronunciou, todos os momentos horrveis desapareceram de repente, toda a frustrao, a raiva e o medo que ambos experimentamos.
     - Lembro-me de como fiquei entusiasmada, nem sequer lhe passa pela cabea. Desatei a chorar e o fiz repetir a palavra pelo menos mais uma dzia de vezes at 
acreditar que, de fato, ele tinha conseguido. Essa foi a primeira vez que tive a certeza de que Kyle era capaz de aprender. Consegui-o eu, sozinha, e nem sequer 
sou capaz de dizer o quanto isso significou, sobretudo depois de tudo o que os mdicos tinham dito acerca dele.
     Ela abanou a cabea com tristeza, recordando aquele dia.
     - Bom, depois disso, apenas continuamos tentando novas palavras, uma de cada vez, at as aprender tambm. Ele chegou a uma altura em que j conseguia dizer 
o nome de cada rvore e flor que existe, cada marca de automvel, cada tipo de avio... O vocabulrio dele era muito vasto, no entanto ainda no era capaz de entender 
que a linguagem , na  realidade, usada com um objetivo. Portanto, comeamos com combinaes de duas palavras, como por exemplo, "caminho azul" ou "rvore grande" 
e acho que isso o ajudou a perceber o que eu estava tentando ensinar-lhe: que as palavras so o meio para as pessoas comunicarem. Alguns meses depois, ele era capaz 
de repetir quase tudo o que eu dizia, foi a vez, ento, de comear a ensinar-lhe para que serviam as perguntas.
     - Foi difcil?
     - Ainda  difcil. Mais difcil do que ensinar-lhe apenas palavras porque agora tem de tentar interpretar as inflexes de tom e compreender qual  a pergunta 
e responder de forma adequada. Todas estae componentes so difceis para ele e  o que temos trabalhado ao longo dos ltimos meses. De incio, as perguntas apresentavam 
desafios completamente novos, pois Kyle queria simplesmente repetir o que eu dizia. Eu apontava para uma ma e perguntava-lhe: "o que  isto? e o Kyle respondia: 
"o que  isto?" Eu insistia: "No, repita:  uma ma." E ele repetia: "No, repita:  uma ma."  Acabei por sussurrar a pergunta e dizer a resposta em voz alta 
na esperana que ele entendesse aquilo que eu pretendia. Todavia, durante bastante tempo, ele murmurava a pergunta e respondia em voz alta, repetindo exatamente 
as minhas palavras e entoao. Levou semanas at ele dizer apenas a resposta. Naturalmente, eu recompensava-o sempre que ele conseguia os resultados desejados.
     Taylor assentiu, comeando a perceber o quo difcil tudo aquilo deve ter sido.
     - Voc deve ter a pacincia de um santo, declarou ele.
     - Nem sempre.
     - Mas fazer isto todos os dias...
     - Tem de ser. Alm disso, veja at onde ele chegou.
     Taylor folheou o dirio at s ltimas pginas. De uma pgina quase completamente em branco em que estava escrita uma s palavra, os registros de Denise sobre 
as horas despendidas com Kyle ocupavam, agora, trs e quatro pginas de cada vez.
     - Conseguiu progredir muito.
     - Sim,  verdade. Contudo, ainda tem um longo caminho a percorrer. Safa-se bem com algumas perguntas, como por exemplo, "o qu" e "quem", mas ainda no domina 
as perguntas com "Por que" e "como". Tambm ainda no conversa; normalmente apenas faz uma nica afirmao. Do mesmo modo, ainda revela dificuldades na construo 
de perguntas. Entende o que eu quero dizer quando pergunto "onde est o teu brinquedo?", mas quando digo "onde puseste o teu brinquedo?", tudo o que obtenho  um 
olhar vazio. Coisas como estas so a razo por que fico satisfeita em ter  guardado o dirio. Sempre que Kyle tem um mau dia, o que acontece com freqncia, abro-o 
e relembro todos os desafios que ele ultrapassou para ter chegado onde j chegou. Um dia, quando estiver melhor, hei de dar-lhe. Quero que ele o leia para que saiba 
o quanto o amo.
     - Ele j sabe isso.        
     - Eu sei. Mas um dia mais tarde, tambm o quero ouvir dizer que me ama.
     - Ele no faz isso j? Quando lhe aconchega a roupa  noite?
     - No, retorquiu ela. O Kyle nunca me disse isso.
     - No tentou ensinar-lhe?
     - No.
     - Por qu?
     - Porque quero que ele me surpreenda no dia em que o fizer de sua livre e espontnea vontade.
     Ao longo da semana seguinte, Taylor ia permanecendo cada vez mais tempo em casa de Denise, passando por l  tarde, quando sabia que ela tinha acabado o seu 
trabalho com Kyle.
     Por vezes ficava uma hora, outras um pouco mais. Por duas vezes brincou ao apanha-bolas com Kyle enquanto Denise os observava do alpendre; no dia seguinte ensinou-o 
a bater a bola com um pequeno basto e um tee que Taylor tinha utilizado quando era jovem. Balano aps balano, Taylor recuperava a bola e colocava-a no tee no 
sentido de encorajar Kyle tentando de novo. Quando Kyle se fartava, a camisa de Taylor estava ensopada. Denise beijou-o pela segunda vez depois de lhe ter oferecido 
um copo com gua.
     No domingo da semana a seguir  feira, Taylor levou-os a Kitty Hawk onde passaram o dia na praia. Taylor indicou o local onde Orville e Wilbur Wright fizeram 
o seu histrico vo em 1903 e leram os pormenores da viagem num monumento erigido em sua honra. Fizeram um piquenique e depois deram um longo passeio pela praia, 
ora correndo para a rebentao das ondas ora fugindo dela, com as andorinhas do mar batendo as asas sobre as suas cabeas. J quase ao fim da tarde, Denise e Taylor 
construram castelos de areia que Kyle se comprazia em destruir. Rugindo como Godzilla, pisava com fora os montes de areia to rapidamente quanto eram moldados.
     No regresso a casa, pararam numa barraca de estrada de um agricultor para comprarem milho. Enquanto Kyle comia macarro e queijo, Taylor jantou, pela primeira 
vez, em casa de Denise.
     O Sol e o vento tinham esgotado Kyle, e ele adormeceu logo a seguir.  Taylor e Denise ficaram a conversar na cozinha at quase  meia -noite.  porta, voltaram 
a beijar-se e Taylor abraou-a.
     Uns dias depois, Taylor emprestou o caminho a Denise para ela ir  cidade tratar de alguns assuntos. Quando voltou, ele tinha consertado as portas dos armrios 
da cozinha.
     - Espero que no se importe afirmou ele, imaginando se no teria ultrapassado alguma fronteira invisvel.
     - De modo nenhum exclamou ela, batendo palmas.  Consegue fazer alguma coisa com a torneira do lava louas?  Est sempre a pingar.
     Meia hora depois tambm isso estava arranjado.
     Quando se encontravam sozinhos, Taylor ficava hipnotizado com a simplicidade da beleza e graa dela. No entanto, momentos havia em que ele conseguia detectar 
nos seus traos os sacrifcios que vinha fazendo pelo filho. Era quase uma expresso de fadiga, como a de um guerreiro depois de uma longa batalha nas plancies, 
e isso inspirava-lhe uma admirao que dificilmente era capaz de exprimir por palavras.
     Ela parecia ser um exemplar de uma raa em vias de extino; um contraste total com todos aqueles que passavam a vida atrs de alguma coisa, a correr, em constante 
movimento,  procura da satisfao e auto-estima. Havia tanta gente, hoje em dia, que acreditava que estas coisas se podiam adquirir apenas atravs do trabalho e 
no pela maternidade ou paternidade, e muitas pessoas julgavam que ter filhos no tinha nada a ver com educ-los. Quando ele lhe confidenciou estes seus pensamentos, 
Denise olhara indiferente, pela janela.
     - Tambm eu j pensei assim.
     Na quarta-feira da semana seguinte, Taylor convidou Denise e Kyle para irem a sua casa. Semelhante  de Denise em muitos aspectos, era uma casa antiga situada 
num enorme lote de terreno. A dele, todavia, tinha sido restaurada ao longo dos anos, antes e depois de compr-la. Kyle adorou a oficina das ferramentas construda 
nas traseiras e, depois de apontar para o "trator" (na verdade no passava de um cortador de relva), Taylor levou-o para dar uma volta pelo jardim sem ligar a lmina. 
Tal como havia acontecido com o caminho, Kyle  estava radiante ziguezagueando pelo ptio.
     Ao observ-los juntos, Denise percebeu que a sua impresso inicial sobre Taylor ser tmido no era completamente exata. Todavia, ele no se referia a aspectos 
pessoais, refletia ela. Embora tivessem conversado sobre o seu trabalho e da sua experincia como bombeiro, ele ficara estranhamente calado em relao ao pai, naquela 
primeira noite, no indo alm do que considerara indispensvel. Tambm nunca falara das mulheres que conhecera no passado, nem sequer de modo fortuito. Claro que 
isso no importava, contudo essa omisso deixava-a perplexa.
     Ainda assim, tinha de admitir que se sentia atrada por ele. Tropeou na sua vida quando ela menos esperava e da forma mais inverossmil. J era mais que um 
amigo. Mas  noite, enfiada entre os lenis com a ventoinha rotativa zumbindo em pano de fundo, dava consigo a desejar e a rezar para que tudo fosse real.
     - Quanto tempo falta? - indagou Denise.
     Taylor surpreendera-a ao ir buscar uma batedeira de gelados antiga e todos os ingredientes necessrios para fazer um gelado. Ele rodava a manivela, o suor escorria-lhe 
pelo rosto e batia o creme que, lentamente, ia ganhando consistncia.
     - Cinco minutos, talvez dez. Por que, est com fome?
     - Nunca comi gelado caseiro em toda a minha vida.
     - Gostaria de reclamar alguma interveno? Pode continuar a bater...
     Ela levantou as mos.
     - No, est muito bem assim.  mais divertido v-lo  fazer isso.
     Taylor acenou com a cabea como que decepcionado e depois fez o papel de mrtir enquanto fingia debater-se com a manivela. Ela riu. Quando ela parou, Taylor 
limpou a testa com as costas da mo.
     - Tem alguma coisa para fazer no domingo  noite?
     Ela sabia; era uma pergunta por que esperara.
     - Nem por isso.
     - Quer ir jantar fora?
     Denise encolheu os ombros.
     - Claro. Mas j sabe como  o Kyle. Ele no come qualquer coisa.
     Taylor engoliu em seco, o brao sempre em movimento. Os seus olhos encontraram os dela.
     - Quero dizer, s ns dois? Sem o Kyle desta vez?
     - A minha me disse que ficaria feliz em l ir tomar conta dele.
     Denise hesitou.
     - No sei qual vai ser a  reao dele em relao a ela. Ele no a conhece muito bem.
     E se eu a for buscar quando ele j estiver a dormir? Pode deit-lo, aconchegar-lhe a roupa, e no samos enquanto voc achar que j no h problema.
     Ento ela enterneceu-se, incapaz de disfarar a satisfao.
     - Voc premeditou isto muito bem, no foi?
     -No queria dar-lhe a oportunidade de recusar.
     Ela sorriu, aproximando-se da cara dele.
     - Nesse caso, adorava ir.
     Judy chegou s sete e meia, alguns minutos depois de Denise ter deitado Kyle.   Ela mantivera-o ocupado todo o dia, ao ar livre, na esperana de que ele no 
acordasse enquanto ela estivesse fora. Tinham ido de bicicleta  cidade e foram ao parque infantil; tinham brincado na terra, nas traseiras de casa. O dia estava 
quente e mido, o tipo de dia que dilui as energias, e Kyle comeou a bocejar mesmo antes do jantar.
     Depois de lhe dar banho e de lhe vestir o pijama, Denise leu-lhe, no quarto, trs histrias enquanto ele bebia o leite com os olhos semicerrados. Em seguida 
puxou os estores para baixo, ainda havia luz l fora, e fechou a porta; Kyle j dormia profundamente.
     Tomou uma ducha e rapou as pernas, depois ficou com a toalha enrolada a si, tentando decidir o que vestir. Taylor dissera-lhe que iriam ao Fontana, um restaurante 
maravilhosamente sossegado no corao da baixa. Quando lhe perguntou o que devia levar vestido, ele respondeu-lhe que no se preocupasse com isso, o que no a ajudou 
em nada.
     Por fim, decidiu-se por um vestido preto de cocktail que lhe parecia apropriado para quase todas as ocasies. H anos que estava pendurado no roupeiro, ainda 
protegido com o invlucro de plstico da lavanderia de Atlanta. No conseguia recordar-se da ltima vez que o usara, mas depois de o vestir ficou satisfeita por 
verificar que ainda lhe assentava muito bem. Em seguida, tirou um par de escarpins pretos; ainda ps a hiptese de calar tambm umas meias pretas, mas abandonou 
a idia to rapidamente quanto lhe viera  idia.  Estava uma noite muito quente e, alm disso, quem  que se lembraria de calar meias pretas em Edenton a no ser 
para um funeral?
     Depois de secar e arranjar o cabelo, aplicou uma maquiagem leve e tirou o perfume que guardava na gaveta da mesa-de-cabeceira. Ps uma gota no pescoo e cabelos 
e uns salpicos nos pulsos esfregando-os um no outro. Na gaveta de cima da cmoda, tinha um pequeno guarda-jias de onde tirou um par de argolas.
     Ficou de p, frente ao espelho, e examinou a sua imagem, satisfeita com o que via. Nem de mais, nem de menos.
     Na  realidade, na medida certa. Foi ento que ouviu Judy bater  porta. Taylor chegou dois minutos depois.
      O restaurante Fontana j existia h cerca de doze anos.  Era propriedade de um casal de meia idade originrio de Berna, na Sua, que se mudara de Nova orlens 
para Edenton em busca de uma vida mais simples. No entanto, e por acrscimo, trouxeram um toque de elegncia  cidade. Difusamente iluminado, oferecendo um servio 
de primeira qualidade, era muito freqentado por casais que celebravam os seus aniversrios de casamento ou noivados; a sua reputao veio a ser consolidada quando, 
na revista Suthern Living, apareceu um artigo sobre este local.
     Taylor e Denise  estavam sentados a uma pequena mesa de canto, ele entretendo-se com um whisky escocs com gua gasosa e ela bebericando um Chardonnay.
     - J tinha vindo aqui? - quis saber Denise, deitando uma vista de olhos  ementa.
     - Algumas vezes, mas j h muito tempo que c no vinha. Ela folheou as pginas, pouco acostumada a um leque to variado de opes aps anos de jantares de 
prato nico.
     - O que  que recomenda?
     - Tudo, de fato. As costelas de cordeiro so uma especialidade da casa, mas tambm so afamados os bifes e o marisco.
     - Na verdade, isso no reduz as alternativas.
     -  verdade. Mas no ficar  desapontada com o que quer que seja.
     Estudando a lista de entradas, ela torcia, entre os dedos, uma madeixa de cabelo. Taylor observava-a num misto de fascinao e divertimento.
     - J lhe disse que est muito bonita est noite? perguntou ele.
     - S duas vezes, frisou ela, fingindo-se distante, mas no se sinta inibido. No me importo.
     - Srio?
     - No quando o galanteio vem de homem to janota como voc.
     - Janota?
     Ela piscou-lhe um olho.
     - Tem o mesmo significado carinhoso da expresso tonto.
     O jantar foi maravilhoso em todos os aspectos, a comida era deliciosa e o ambiente inegavelmente intimista. Aps a sobremesa, Taylor procurou a mo dela do 
outro lado da mesa.  Durante a hora seguinte no lhe soltou.
      medida que a noite avanava, ficaram absorvidos a conversar sobre as suas vidas. Taylor contou a Denise a sua histria de bombeiro e alguns episdios mais 
arriscados que ele tinha ajudado a ultrapassar; tambm falou de Mitch e de Melissa, os dois amigos que sempre o tinham apoiado. Denise confidenciou-lhe peripcias 
dos seus anos na faculdade e aspectos dos seus dois primeiros anos no ensino e do quo pouco preparada se sentia quando pisou uma sala de aulas pela primeira vez. 
Para ambos, est noite parecia marcar o incio das suas vidas como casal. Foi tambm a primeira vez que conversaram sem que Kyle tivesse sido o tema da conversa.
     Depois do jantar, ao sarem para a rua deserta, Denise notou o quo diferente a cidade parecia  noite, era como um lugar perdido no tempo.  exceo do restaurante 
onde haviam estado e de um bar na esquina, tudo  estava fechado. Caminhando ao longo dos passeios de ladrilhos que foram estalando com os anos, passaram por um antiqurio 
e uma galeria de arte.
     A rua  estava em absoluto silncio, nenhum deles sentiu necessidade de falar. Em poucos minutos, chegaram ao porto, e Denise pde avistar os barcos recolhidos 
nas suas docas.
     Grandes e pequenos, novos e velhos, numa gama que passava pelos barcos  vela em madeira at s traineiras de fim-de-semana. Alguns, poucos, tinham luz no interior, 
mas o nico som que se ouvia era o das ondas espirrando sobre o molhe.
     Encostando-se a um gradeamento instalado perto das docas, Taylor aclarou a garganta e pegou na mo de Denise.
     - Edenton foi um dos primeiros portos a estbelecer-se no Sul e, mesmo quando a cidade no passava de um posto avanado, os barcos de comrcio costumavam ancorar 
aqui, ou para vender as suas mercadorias ou para se reabastecerem de provises. Consegue ver, alm, aquelas grades no cimo daquelas casas?
     Ele apontou para algumas casas histricas ao longo do cais e Denise acenou afirmativamente com a cabea.
     - Nos tempos coloniais, era perigoso andar embarcado e as mulheres ficavam naquelas varandas  espera que os navios dos maridos entrassem no porto. Todavia, 
morreram tantos que elas ficaram conhecidas como as arcadas das vivas. Mas aqui em Edenton, os barcos nunca mais atracaram no porto. Costumavam fundear ao largo, 
alm no meio, qualquer que tivesse sido a distncia da viagem, e as mulheres acorriam s arcadas das vivas e, forando a vista, procuravam os maridos enquanto o 
navio se imobilizava.
     - Por que  que eles ficavam ali?
     - Havia uma rvore, um cipreste gigante, completamente isolado. Era uma das formas de os marinheiros reconhecerem que tinham chegado a Edenton, principalmente 
se nunca antes aqui tivessem estado. Era uma rvore nica ao longo do litoral leste. Normalmente, os ciprestes crescem junto s margens, apenas a alguns metros, 
mas este estava, pelo menos, a cento e oitenta metros da costa. Era como um monumento por parecer to deslocado. Bom, no sei por que motivo, passou a ser um hbito 
os marinheiros pararem ao p da rvore sempre que chegavam ao porto. Metiam-se num pequeno barco e remavam em direo  rvore e punham uma garrafa de rum junto 
do tronco, gratos por terem regressado sos e salvos da viagem. E sempre que um navio partia, a tripulao parava ao p da rvore e os marinheiros bebiam um trago 
de rum na esperana de realizarem uma viagem segura e proveitosa.  por isso que lhe chamam a rvore do trago.
     - Srio?
     - Srio. A cidade est cheia de lendas de barcos cujos marinheiros partiam sem tomarem o seu "trago" de rum e que, subseqentemente, se perdiam no mar. Era 
um sinal de azar, e s os tolos descuravam esse costume. Os marinheiros que o negligenciavam punham em risco as suas prprias vidas.
     - E se no houvesse l nenhum rum quando os barcos partiam?  Voltavam atrs?
     - Segundo a lenda, isso nunca aconteceu. Olhou para o mar, o tom de voz alterando-se ligeiramente. Lembro-me de o meu pai me contar est histria quando eu 
era menino. Levava-me ao stio onde a rvore se encontrava e falava-me destas coisas.
     Denise sorriu.
     - Sabe mais histrias de Edenton?
     - Algumas.
     - Alguma histria de fantasmas?
     - Claro! Todas as cidades da Carolina do Norte tm histrias de fantasmas. No Dia das Bruxas, o meu pai costumava sentar-se comigo e com os meus amigos, depois 
de termos ido ao "doce ou partida", e contava-nos a histria de Brownrigg Mill.
     Era sobre uma bruxa e tinha todos os ingredientes para aterrorizar uma criana. Pessoas supersticiosas, feitios, mortes misteriosas e at um gato com trs 
patas. Quando o meu pai acabava, ficvamos com tanto medo que no conseguamos dormir. Conseguia contar uma histria interminvel da forma mais surpreendente.
     Ela pensou no tipo de vida de uma pequena cidade, as histrias antigas, e em como tudo era diferente das suas experincias em Atlanta.
     - Isso devia ter sido fantstico.
     - Era. Se quiser, fao o mesmo com Kyle.
     - Duvido que ele percebesse o que  estava a dizer.
     - Talvez lhe conte aquela do caminho assombrado do distrito de Chowan.
     - Isso no existe.
     - Bem sei. Mas posso sempre inventar uma. Denise apertou-lhe a mo de novo.
     - Como  que nunca teve filhos? Perguntou.
     - No perteno propriamente ao sexo certo.
     - Sabe exatamente ao que me refiro - recalcitrou ela dando-lhe uma cotovelada.  - Teria sido um bom pai.
     - No sei. Acontece que no os tenho.
     - Alguma vez o desejou?
     - Algumas.
     - Pois bem, devia.
     - Agora j parece a minha me.
     - No sabe o que costumam dizer? As mentes brilhantes pensam da mesma maneira.
     - Se assim o diz.
     - Exatamente!
     Quando deixavam o porto e se encaminhavam para a baixa de novo, ocorreu de sbito a Denise o quanto o seu mundo se alterara recentemente; e tudo, refletiu ela, 
se podia imputar ao homem que a acompanhava. No entanto, nem uma s vez, e apesar de tudo quanto fizera por ela, a tinha pressionado para receber algo em troca, 
algo para que ela ainda no estivesse preparada. Fora ela a beij-lo primeiro e fora ela tambm a beij-lo da segunda vez. Mesmo quando ficou em sua casa at mais 
tarde, no dia em que foram  praia, ele foi-se embora quando pressentiu que era altura de faz-lo.
     A maioria dos homens no teria agido desta forma, disso  estava certa. A maior parte dos homens agarraria a oportunidade mal ela se apresentasse. Deus sabia 
que era o que tinha acontecido com o pai de Kyle. Mas Taylor era diferente. Contentava-se em conhec-la primeiro, pensava ela, em escutar os seus problemas, em consertar 
portas de armrios estragadas e em fazer gelado caseiro no alpendre. Em todos os aspectos, tinha-se mostrado um verdadeiro cavalheiro.
     Mas justamente porque ele nunca a forara a nada, dera consigo a desej-lo com uma intensidade que a surpreendia.
     Perguntava-se como se sentiria quando, por fim ele a enlaasse nos braos ou como seria quando ele lhe tateasse o corpo, os seus dedos tocando-lhe a pele. Estes 
pensamentos geraram uma agitao interior e, instintivamente, apertou-lhe a mo.
      medida que se aproximavam do caminho, passaram por uma fachada cuja porta de vidro estava escancarada e sobre a qual se via gravado o nome "Bar Trina". Alm 
do Fontana, era o nico local aberto na baixa; quando espreitaram l para dentro, Denise viu trs casais a conversarem calmamente em redor de pequenas mesas circulares. 
A um canto achava-se uma jukebox tocando uma cano country, a pronncia nasalada do bartono esbatendo-se ao chegar ao fim da letra. Houve um breve silncio at 
a cano seguinte se fazer ouvir:  "Unchained Melody". Denise estacou quando a reconheceu e puxou Taylor pela mo.
     - Adoro est cano.
     - Quer entrar?
     Ela hesitava enquanto a msica ecoava  sua volta.
     - Podemos ir danar se lhe apetecer, acrescentou ele.
     - No. Sentir-me-ia embaraada com todas as pessoas a olharem, decidiu ela aps mais um compasso. E, seja como for, tambm no h muito espao.
     A rua  estava completamente desprovida de trnsito, os passeios desertos. Um nico candeeiro, colocado num poste alto, bruxuleava debilmente iluminando a esquina. 
Sob os acordes da msica, confundiam-se os rumores de conversas intimas. Denise afastou-se da porta aberta, indecisa. A msica continuava a fazer-se ouvir quando 
Taylor parou de repente.  Ela olhou-o com curiosidade.
     Sem uma palavra, ele ps-lhe um brao em volta das costas, puxando-a para si. Com um sorriso carinhoso, ergueu-lhe a mo e levou-a aos lbios beijando-lha, 
depois tomou posio. Compreendendo, de sbito, o que  estava a acontecer, contudo ainda sem acreditar, Denise deu um passo incerto e comeou a acompanhar o seu 
par.
     Por um breve instante, ambos ficaram um tanto embaraados. Mas a msica continuava a tocar, em fundo, e ultrapassando o constrangimento, aps uns passos de 
dana, Denise fechou os olhos e apoiou-se nele. O brao de Taylor amparava-a e ela conseguia ouvir-lhe a respirao enquanto rodopiavam lentamente, movendo-se suavemente 
ao som da msica.
     De repente j no importava se algum  estava a ver. J nada importava a no ser o toque e o calor do corpo dele de encontro ao seu, e danaram, danaram, enlaados 
sob a luz bruxuleante de um candeeiro de iluminao pblica na pequena cidade de Edenton.
CAPTULO 19
     Judy, na sala de estar, lia um romance quando ambos regressaram. Kyle, contara ela, nem sequer se mexera durante a ausncia deles.
     - Divertiram-se? Quis saber, reparando nas faces coradas de Denise.
     - Divertimo-nos respondeu ela. Muito obrigada por ter ficado a tomar conta de Kyle.
     - Tive muito prazer, afirmou ela com sinceridade, pondo a ala da carteira sobre o ombro e preparando-se para sair.
     Denise foi espreitar Kyle para ver como ele estava enquanto Taylor acompanhava Judy ao carro. Taylor no falou muito  medida que caminhavam, e Judy tinha esperana 
que isso significasse que ele estivesse apaixonado por Denise como parecia que ela tinha se apaixonado por ele.
     Taylor encontrava-se na sala de estar, acocorado junto de um pequeno refrigerador que tinha trazido do caminho, quando Denise surgiu do quarto de Kyle. Ele 
no a ouviu fechar a porta, absorvido pelo que estava a fazer. Em silncio, Denise observava-o abrir a tampa da mala frigorfica de onde retirou duas taas em cristal. 
Tilintaram uma na outra quando Taylor lhes sacudiu gua, e colocou-as em cima da pequena mesa em frente ao sof. Voltou a colocar a mo na mala e tirou uma garrafa 
de champanhe.
     Depois de arrancar o selo em folha de metal, torceu o arame que sustentava a rolha e a fez soltar-se num movimento nico e fcil. Ps a garrafa sobre a mesa, 
ao lado das taas.
     Mais uma vez, inclinou-se para a mala e retirou um prato de morangos elegantemente embrulhados em celofane. Depois de desembrulhar os morangos, disps tudo 
sobre a mesa e empurrou o refrigerador para o lado. Inclinou-se ligeiramente para trs para ver o efeito e pareceu satisfeito. Esfregou as mos nas calas, limpando 
a umidade e olhou em direo ao vestbulo.
     Mal viu Denise ali  porta, ficou paralisado com uma expresso de atrapalhao no rosto. Depois, sorrindo timidamente, levantou-se.
     - Achei que era uma surpresa agradvel, comeou ele.
     Ela olhou para a mesa e depois para Taylor, apercebendo-se de que tinha estado a suster a respirao.
     - E  - concordou ela.
     - No sabia se preferia vinho ou champanhe, por isso resolvi arriscar.
     Os olhos de Taylor fixavam-na.
     - Tenho a certeza que  uma maravilha - murmurou ela. - J no bebo champanhe h anos.
     Ele pegou na garrafa.
     - Posso encher-lhe uma taa?
     - Sim, se faz favor.
     Taylor encheu as duas taas enquanto Denise se aproximava da mesa, de repente um tanto insegura. Sem falar, ele entregou-lhe uma taa e tudo quanto ela podia 
fazer era olhar para ele, imaginando quanto tempo teria levado a planejar tudo aquilo.
     - Espere um momento, est bem? - pediu Denise vivamente, percebendo exatamente o que estava a faltar.
     Taylor observou-a  pousar a taa e correr  cozinha.
     Ouviu-a vasculhar numa gaveta. Ela apareceu com duas velas e uma caixa de fsforos. Colocou-as na mesa, junto ao champanhe e aos morangos, e acendeu-as. Mal 
apagou a luz, a sala transformou-se, as sombras danando na parede quando ela pegou na taa. quela luz brilhante, era ainda mais bela.
     - A si - brindou ele, as taas tocando-se. Ela sorveu um pequeno gole. As bolhinhas fizeram-lhe ccegas no nariz, mas sabia maravilhosamente.
     Ele dirigiu-se para o sof e sentaram-se ambos, um ao lado do outro, ela com uma perna dobrada sob o corpo. L fora, a lua tinha-se erguido no cu e os seus 
raios derramavam-se por entre as nuvens transmitindo-lhes uma cor de prata leitosa. Taylor sorveu um pouco mais de champanhe olhando para Denise.
     - Em que  que est a pensar? - inquiriu ela. Taylor desviou os olhos por um instante e encarou-a de novo.
      - Estava a pensar no que teria acontecido se no tivesse tido aquele acidente naquela noite.
     - Teria o meu carro - declarou ela, e Taylor riu-se para logo assumir um ar mais grave.
     - Acha que eu estaria aqui se no tivesse acontecido?
     Denise refletiu.
     - No sei - confessou por fim. - Embora desejasse que sim. A minha me acreditava que o destino se encarregaria de juntar as pessoas.  uma idia romntica 
que tm as garotas, mas acho que uma parte de mim ainda acredita nisso.
     Taylor assentiu.
     - A minha me tambm costumava dizer o mesmo. Penso que  uma das razes pela qual no voltou a casar. Ela sabia que nunca ningum poderia substituir o meu 
pai. Acho que nem sequer ps a hiptese de sair com algum depois que ele morreu.
     - Srio?
     - Foi o que sempre me pareceu.
     - Tenho a certeza de que est enganado, Taylor. A sua me  humana, e todos ns precisamos de companhia.
     Mal acabou de proferir estas palavras, deu-se conta de que  estava a falar de si mesma tanto quanto de Judy. Taylor, no entanto, no pareceu distinguir est 
nuance.
     Ao invs, sorriu.
     - Voc no a conhece to bem quanto eu.
     - Talvez, mas lembre-se, a minha me passou por tudo quanto passou a sua. Ela sempre sentiu a falta do meu pai, mas tenho a certeza de que ainda sentia o desejo 
de ser amada por algum.
     - Costumava ter encontros?
     Denise anuiu, tomando um gole de champanhe. Algumas sombras perpassaram lhe pelo rosto.
     - Alguns anos depois, sim. Teve namoros srios com alguns homens e houve alturas em que pensei que ia arranjar um padrasto, mas no resultou com nenhum deles.
     - E isso a aborrecia? Os encontros dela, quero eu dizer.
     - No, de forma nenhuma. Eu queria que a minha me fosse feliz.
     Taylor ergueu um sobrolho antes de engolir a ltima gota de champanhe.
     - No sei se eu seria to compreensivo e maduro como voc.
     - Talvez no. No entanto, a sua me ainda  nova. Ainda pode surgir uma oportunidade.
     Taylor puxou a garrafa para o colo e percebeu que jamais se tinha colocado essa possibilidade.
     - E voc? Pensava j estar casada nesta altura? - perguntou ele.
     - Claro! Ela olhou-o de soslaio. Tinha tudo planejado.  Licenciada aos vinte e dois anos, casada aos vinte e cinco, me aos trinta. Era um plano formidvel, 
s que nada aconteceu como havia pensado.
     - Parece desapontada.
     - E estive, admitiu ela. Durante muito tempo. Isto , a minha me sempre idealizou um determinado estilo de vida para mim e nunca perdia a oportunidade de me 
recordar. E as suas intenes eram boas, tenho a certeza. Queria que aprendesse com os erros dela, e eu estava disposta a isso. Contudo, quando ela morreu... No 
sei. Parece-me que durante algum tempo me esqueci de tudo quanto me ensinara.
     Interrompeu-se com um olhar pensativo no rosto.
     - Porque engravidou? Perguntou ele suavemente.
     Denise abanou a cabea.
     - No, no por ter engravidado, se bem que isso tambm tenha a sua quota parte de importncia.  que, depois de ela morrer, senti-me como se ela j no estivesse 
sempre a controlar-me, pesando todos os aspectos da minha vida. S mais tarde  que percebi que as coisas que ela me dizia no tinham por objetivo refrear os meus 
impulsos, fazia-o para meu prprio bem e para que todos os meus sonhos se tornassem  realidade.
     - Todos ns cometemos erros, Denise...
     Ela ergueu uma mo cortando-lhe a palavra.
     - No estou a dizer isto por ter pena de mim. Como lhe disse,  j no me sinto desapontada. Agora, quando penso na minha me, sei que ela teria orgulho das 
decises que tomei ao longo destes ltimos cinco anos.
     Hesitou, respirou fundo e acrescentou:
     - Acho que ela teria gostado de si.
     - Por ser simptico com o Kyle?
     - No - respondeu ela. - A minha me teria gostado de si porque me fez mais feliz nesta s ltimas duas semanas do que fui nos ltimos cinco anos.
     Taylor no fez mais do que olhar para ela, tocado pela emoo que as palavras dela escondiam. Era to franca, to vulnervel, to bonita...
      luz cintilante das velas, sentada junto dele, olhava-o frontalmente, os seus olhos brilhavam com mistrio e compaixo, e foi nesse momento que Taylor McAden 
se apaixonou por Denise Holton.
     Todos os anos de expectativa sobre o que isso significava, todos os anos de solido, tinham-no conduzido a este aqui e agora. Ele tomou-lhe a mo, sentindo 
a macieza da sua pele, ao mesmo tempo em que uma fonte de ternura nascia dentro dele.
     Quando ele lhe tocou na face, Denise fechou os olhos desejando que este momento durasse para sempre. Sabia, instintivamente, o significado da caricia de Taylor, 
das palavras que ele no disse. No porque o conhecesse assim to bem. Mas porque se apaixonara por ele exatamente no mesmo instante em que ele se apaixonara por 
ela.
     De madrugada, a lua entrava pelo quarto. A atmosfera era de prata e Taylor jazia na cama com a cabea de Denise repousando no seu peito. Ela havia ligado o 
rdio, e os acordes fracos da msica jazz emudecia o som dos seus suspiros.
     Denise levantou a cabea do peito dele, maravilhada com a beleza nua das suas formas, vendo, simultaneamente, o homem que amava e a imagem do jovem que ela 
no conhecera. Com um prazer pecaminoso, relembrou a viso dos seus corpos entrelaados com paixo, os seus prprios frmitos de xtase quando se uniram num s e 
de como enterrara o rosto no pescoo dele para abafar seus gritos. Consciente de que era o que ela precisava e desejava, fechou os olhos e entregou-se sem reservas.
     Quando Taylor a viu fix-lo, ergueu a mo e afagou-lhe a face com os dedos, um sorriso melanclico aflorou-lhe os lbios, olhos imperscrutveis  luz cinzenta 
e suave.
     Ficaram deitados, em silncio, muito juntos enquanto os dgitos do relgio piscavam avanando inexoravelmente, depois, Taylor levantou-se. Vestiu as calas 
rapidamente e dirigiu-se  cozinha para ir buscar dois copos de gua. Quando regressou, viu o corpo de Denise meio enrolado no lenol, tapando-a apenas parcialmente. 
Estava deitada de costas. Taylor bebeu um gole de gua e pousou os dois copos na mesa de cabeceira.
Quando ele a beijou entre os seios, ela sentiu a temperatura fria da sua lngua.
     - s perfeita - murmurou ele.
     Ela ps-lhe um brao em torno do pescoo e percorreu-lhe as costas com a mo, sentindo na totalidade a plenitude da noite, o peso silencioso da sua paixo.
     - No sou, mas obrigada. Por tudo.
     Ento ele sentou-se na cama com as costas apoiadas na cabeceira da cama. Denise soergueu-se e ele envolveu-a com um brao puxando-a para si.
     Foi nesta posio que, finalmente, acabaram por adormecer.
CAPTULO 20
     Quando, na manh seguinte Denise acordou, encontrava-se sozinha. As cobertas da cama do lado de Taylor haviam sido puxadas para cima e as suas roupas no estavam 
 vista. Ao consultar o relgio para ver as horas, verificou que faltava um pouco para as sete. Confusa, saltou da cama, vestiu um roupo de seda curto e andou pela 
casa  procura dele antes de olhar atravs da janela. O caminho de Taylor tinha desaparecido.
     De cenho carregado, Denise regressou ao quarto para ver se havia algum recado em cima da mesa de cabeceira: nenhum recado. Na cozinha tambm no.
     Kyle, que a ouvira cirandar pela casa, saiu do quarto estremunhado, enquanto ela avaliava a situao, afundando-se no sof da sala.
     O, m - murmurou ele com os olhos semicerrados. No preciso momento em que ela correspondia ao cumprimento, ouviu o caminho de Taylor subir o caminho de acesso. 
Um minuto depois Taylor abria devagar a porta da entrada, com todo o cuidado para no acordar a famlia, transportando um saco de compras nos braos.
     Oh, ei! - exclamou ele num sussurro mal os viu. - No pensei que j estivessem a p.
     - O, Tayer - gritou Kyle, subitamente desperto. Denise apertou o roupo um pouco mais.
     - Onde  que foste?
     - Dei um pulinho ao armazm.
     - A est hora?
     Taylor fechou a porta atrs de si e atravessou a sala de estar.
     - Abre s seis.
     - Por que  que ests a falar to baixo?
     - No sei. Riu-se e o seu tom de voz voltou ao normal.
     - Desculpa por ter sado logo de manh, mas o meu estmago  estava a dar horas.
     Ela olhou-o interrogativamente.
     - Portanto, uma vez que estava acordado, decidi fazer-vos aos dois um pequeno-almoo a srio. Ovos, bacon, panquecas, tudo como deve ser!
     Denise sorriu.
     - No gostas dos meus Cheerios?
     - Adoro os teus Cheerios, mas hoje  um dia especial.
     - Por que  que  to especial?
     Ele olhou de relance para Kyle, que estava agora concentrado nos seus brinquedos amontoados a um canto. Judy tinha-os arrumado a todos na noite da vspera e 
ele empenhava-se ao mximo para corrigir essa situao. Certo de que a ateno dele estava presa aos brinquedos, Taylor ergueu simplesmente as sobrancelhas.
     - Tem alguma coisa vestida por baixo desse roupo, Miss Holton? - murmurou ele, o seu tom evidenciando desejo.
     - Isso queria tu saber! Provocou-o ela.
     Taylor ps o saco numa das extremidades da mesa e abraou-a, as suas mos percorrendo-lhe as costas at abaixo.  Ela ficou momentaneamente embaraada, os olhos 
dirigidos para Kyle.
     - Acho que acabei de descobrir - afirmou ele em tom conspiratrio.
     - Pra com isso, disse ela, com essa mesma inteno, mas no querendo que ele o fizesse de fato. O Kyle est aqui na sala.
     Taylor anuiu e afastou-se com um piscar de olhos. Kyle no deixara de prestar ateno aos brinquedos.
     - Bem, hoje  um dia especial pela razo bvia - declarou ele informalmente e pegou no saco das compras. Mas h mais.  Depois de vos servir um pequeno-almoo 
de gourmet, gostaria muito de vos levar  praia aos dois.
     - Mas eu tenho de trabalhar com o Kyle e  noite vou para o restaurante.
      medida que passava por ela, dirigindo-se  cozinha, ele parou e inclinou-se sobre a sua orelha como se lhe transmitisse um segredo.
     - Bem sei. E eu tinha de ir a casa do Mitch, esta manh, para o ajudar a consertar o telhado. Mas estou disposto a fazer gazeta se vocs estiverem de acordo.
     - Mas eu tirei a manh de folga no armazm - protestou Mitch energicamente. - Agora no te podes cortar. J tirei tudo da garagem.
     Vestindo umas jeans e uma camisa velha, estava  espera que Taylor chegasse quando ouviu a campainha do telefone.
     - Bom, volta a colocar tudo l dentro - afirmou Taylor bem-humorado. - Como te disse, hoje no vai ser possvel.
     Enquanto falava, Taylor ia virando o bacon com um garfo na frigideira que chiava. O aroma enchia a casa. Denise estava por perto, ainda no seu roupo curto, 
deitando colheres de caf em p para dentro do filtro. A sua imagem fez Taylor desejar que Kyle se evaporasse durante a hora seguinte. A sua mente mal se concentrava 
na conversa.
     - Mas e se chover?
     - No me disseste que ainda no deixa entrar gua?  por isso que vamos adiar por hoje.
     - Para quatro chvenas ou seis? - perguntou Denise.
     Levantando o queixo do fone, Taylor respondeu:
     - Para oito. Adoro caf.
     - Quem  que est ai? - inquiriu Mitch, tornando-se, ento, tudo absolutamente claro para ele. - Ei..., ests com Denise?
     Taylor olhou para ela com espanto.
     - No  que seja da tua conta, mas estou.
     - Ento, passaste a noite com ela?
     - Que diabo de pergunta  essa?
     Denise sorriu, sabendo exatamente o que Mitch dizia do outro lado.
     - Sua raposa matreira...
     - Ento, acerca do telhado - atalhou Taylor tentando retomar o fio da conversa.
     - Oh, no te preocupes com isso - afirmou Mitch, repentinamente afvel. - Goza bem o dia com ela. J no era sem tempo que encontravas algum...
     - Adeus, Mitch - disse Taylor, cortando-lhe a palavra.  Abanando a cabea, desligou o telefone deixando Mitch pendurado a falar do outro lado. Denise tirou 
os ovos do saco das compras.  Mexidos?  Perguntou.
     Ele rasgou um sorriso.
     - Com esse teu aspecto to delicado como  que eu no havia de sentir-me baralhado?
     Ela revirou os olhos.
       - s mesmo um tonto!
     Duas horas mais tarde, encontravam-se sentados numa manta na praia em Nags Head, Taylor aplicando um protetor solar nas costas de Denise. Kyle estava a fazer 
covas com uma p, por perto, transportando a areia de um stio para outro. Nem Taylor nem Denise faziam a mnima idia do que ele estaria a pensar enquanto procedia 
quela operao, mas parecia divertir-se.
     As memrias da noite anterior surgiram na mente de Denise  medida que a loo ia sendo espalhada, com carinho, na sua pele.
     - Posso fazer-te uma pergunta? - pediu ela.
     - Claro!
     - Ontem  noite... Depois de... Bom... Fez uma pausa.
     - Depois de termos danado o tango horizontal? - sugeriu Taylor.
     Ela deu-lhe uma cotovelada nas costelas.
     - No lhe ds esse tom romntico - protestou ela e Taylor riu-se.
     Ela abanou a cabea, incapaz de reprimir um sorriso.
     - Seja como for - continuou ela, recuperando o autodomnio.
     - Depois, ficaste muito calmo, como se estivesses... Triste ou coisa parecida.
     Taylor anuiu, olhando em direo  linha do horizonte.
     Denise esperava por uma resposta, mas ele ficou calado. Observando as ondas enrolarem-se na areia, Denise reuniu coragem.
      -  porque lamentas o que aconteceu?
     - No - afirmou ele calmamente, as suas mos acariciando-lhe a pele de novo. 
     - No  nada disso.
     - Ento o que foi?
     Sem lhe responder diretamente, Taylor seguiu-lhe o olhar que se mantinha nas ondas.
     - Lembras-te de quando ramos crianas? Na altura do Natal?  De como o gozo antecipado da festa era algo mais excitante do que abrir os presentes propriamente 
ditos?
     -Sim.
     -  o que me faz lembrar. Sempre sonhei em como isto, enfim, seria...
     Calou-se, refletindo na melhor maneira de lhe explicar o que queria dizer.
     - Ento, o gozo antecipado foi de fato mais excitante do que a noite passada? Quis ela saber.
     No! - exclamou ele rapidamente. - No percebeste o que eu quis dizer. Foi justamente ao contrrio. A noite passada foi maravilhosa, tu foste maravilhosa. Foi 
tudo to perfeito... Acho que o que me faz ficar triste  pensar que nunca mais vai haver uma primeira vez contigo outra vez.
     Neste ponto, ele calou-se de novo. Denise, digerindo as palavras dele e o seu sbito olhar fixo e tranqilo, decidiu deixar o assunto. Ao invs, recostou-se 
contra ele, consolada pelo calor reconfortante dos braos que a envolviam. Ficaram assim durante muito tempo, cada um perdido nos seus pensamentos.
     Mais tarde, quando o Sol descrevia no cu a sua trajetria de final do dia, arrumaram as coisas nos sacos, prontos a seguirem para casa. Taylor transportava 
a manta, as toalhas e o cesto do piquenique que trouxeram com eles. Kyle caminhava  frente deles com o corpo coberto de areia, levando o balde e a p enquanto calcava, 
deliberadamente, as ltimas dunas. Ao longo do trilho para os pees, desabrochava um mar de flores, de cores espetaculares, cor de laranja e amarelas.
     Denise curvou-se e apanhou uma flor, levando-a ao nariz.
     - Por estas bandas, chamamos-lhes flores de JobelI - informou Taylor, observando-a.
     Ela entregou-lhe e ele fez-lhe sinal com o dedo fingindo repreend-la.
     - Sabes que  proibido colher flores nas dunas. Elas ajudam a proteger-nos dos furaces.
     - Vais denunciar-me?
     Taylor abanou a cabea. 
     - No, mas vou fazer-te escutar a lenda de como receberam este nome.
     Ela afastou os cabelos que o vento impelira para os seus olhos..
     -  uma histria como a da rvore do "trago"?
     - Mais ou menos. Todavia, um pouco mais romntica.
     Denise deu um passo para se aproximar dele.
     - Ento conte a lenda das flores.
     Ele torceu-a entre os dedos e as ptalas pareceram fundir-se.
     - A flor de JobelI recebeu este nome por causa de Joe BelI que viveu nesta  ilha h muito tempo. Supostamente, Joe  estava apaixonado por uma mulher que acabou 
por casar com outro homem. Com o corao desfeito, mudou-se para as outer Banks onde pretendia levar uma vida de eremita. Contudo, na primeira manh que passou na 
sua nova casa, viu uma mulher, com um ar terrivelmente triste e solitrio, a passear pela praia mesmo em frente  sua casa. Todos os dias,  mesma hora, costumava 
v-la e um dia acabou por ir ao seu encontro, mas mal o viu, ela voltou-se e fugiu. Ele julgou que a tinha afugentado para sempre, no entanto, no dia seguinte l 
andava ela a passear outra vez pela praia. Desta vez, quando se encaminhou para ela, no fugiu e Joe ficou impressionado com a sua beleza. Conversaram o dia inteiro, 
depois no dia seguinte, e em breve se apaixonaram. Surpreendentemente, no momento em que ele se apaixonou, uma pequena quantidade de flores comeou a crescer nas 
traseiras da sua casa, flores que nunca antes se tinham visto por estes lados.  medida que o seu amor ia aumentando, as flores continuavam a espalhar-se e, no final 
do Vero, tinham-se transformado num belo oceano de cor. Foi nessa altura que Joe se ajoelhou aos ps dela e lhe pediu para casar com ele. Como ela aceitasse, Joe 
colheu uma dzia de flores e entregou-lhe, mas estranhamente, ela recuou, recusando-se a receb-las. Mais tarde, no dia do casamento, ela explicou-lhe o motivo que 
a impedira de aceitar as flores. "Esta flor  o smbolo vivo do nosso amor", disse ela. "Se as flores morrerem, ento o nosso amor tambm morre." Isto aterrorizou 
Joe; por qualquer razo, ele sentiu, no fundo do seu corao, que jamais haviam sido proferidas palavras mais verdadeiras. Assim, ele comeou a plantar ou a semear 
flores de Jobell ao longo da faixa da praia onde se tinham conhecido e, posteriormente, por todas as outer Banks, como testemunho do quanto amava a mulher. E, a 
cada ano que passava,  medida que as flores se espalhavam, eles sentiam um pelo outro um amor cada vez mais profundo.
     Quando acabou de contar a histria, Taylor baixou-se e apanhou mais algumas flores e entregou o ramo a Denise.
     - Gosto dessa histria - confessou ela.
     - Eu tambm.
     - Mas no acabaste de infringir a lei tambm?
     - Claro! Mas acho que desta maneira cada um de ns ter  algo para pr o outro na linha.
     - Como a confiana?
     - Isso tambm - concordou ele, aproximando-se e beijando-a na face.
     Nessa noite, Taylor levou-a ao emprego, mas Kyle no ficou com a me. Em vez disso, Taylor prontificou-se a tomar conta dele na casa dela.
     - Vamos divertir-nos. Jogamos  bola um bocadinho, vemos um filme, comemos pipocas.
     Aps alguma indeciso, Denise acabou por concordar e Taylor deixou-a  porta do restaurante, mesmo um pouco antes das sete.  medida que o caminho se afastava, 
Taylor piscou o olho a Kyle.
     - Muito bem, meu rapaz. A primeira parada  na minha casa. Se vamos ver um filme, precisamos de um vdeo.
     - Ele vai conduzir - respondeu Kyle com energia e Taylor riu-se, habituado j  forma de comunicar da criana.
     - Ainda temos de fazer uma outra parada, est bem?
     Kyle limitou-se a acenar novamente com a cabea, parecendo aliviado por no ter de entrar no restaurante.
     Taylor pegou no telemvel e fez uma chamada esperando que o tipo no outro lado da linha no se importasse de lhe fazer um favor.
      meia-noite, Taylor levou Kyle para o carro para ir buscar Denise.  Kyle s acordou por uns breves instantes quando a me entrou, depois aninhou-se no colo 
dela como fazia habitualmente. Quinze minutos depois, j todos estavam deitados; Kyle no seu quarto, Denise e Taylor no dela.
     - Tenho estado a pensar no que me disseste  tarde - declarou Denise tirando o vestido de malmequeres do servio.
     Taylor teve dificuldade em se concentrar quando aquele caiu no cho.
     - o que  que eu disse?
     - Sobre estares triste por no voltar a haver uma primeira vez.
     - E?
     De soutien e calcinha, ela aproximou-se, aconchegando-se a ele.
     - Bem, estava s a pensar que se desta vez for melhor que a noite passada, o teu gozo antecipado pode voltar.
     Taylor sentiu o corpo dela roar no seu.
     - Como assim?
     - Se de todas as vezes forem melhores que a anterior, vais ficar sempre em nsias pela vez seguinte.
     Taylor abraou-a, ficando excitado.
     - Achas que vai dar certo?
     - No fao a mnima idia - respondeu ela desapertando-lhe os botes da camisa - mas gostaria muito de saber.
     Taylor esgueirou-se para fora do quarto dela antes do alvorecer, como tinha feito na vspera, se bem que desta vez ficasse no sof. No querendo que Kyle os 
visse dormir juntos, dormitou ali um par de horas, at Denise e Kyle sarem dos seus quartos. Eram quase oito horas; Kyle j h muito tempo que no dormia at to 
tarde.
     Denise perscrutou a sala e, de imediato, percebeu a razo. Pelo aspecto das coisas, era bvio que tinha estado acordado at tarde.  O televisor tinha uma posio 
diferente, o vdeo estava no cho perto dele, havia cabos eltricos serpenteando por todo o lado. Duas chvenas meio-vazias estavam num dos tampos da mesa, paralelamente 
a trs latas de Sprite. Bocadinhos de pipocas espalhavam-se pelo cho e pelo sof; os papis que embrulhavam os SittIes tinham sido enfiados entre as almofadas da 
cadeira. Sobre o televisor viam-se dois filmes, os Libertadores e o Rei Leo, as caixas abertas com as pelculas por cima.
     Denise ps as mos nas ancas, contemplando a confuso.
     - Quando entrei, no reparei na desordem que vocs os dois fizeram ontem  noite. Parece que passaram um bom bocado,  moda antiga.
     Taylor sentou-se no sof e esfregou os olhos.
     - Divertimo-nos.
     - Aposto que sim - resmungou ela.
     - Mas j viste o que fizemos alm disso?
     - Queres dizer, para alm de espalharem pipocas por toda a minha moblia? Ele riu.
     - V l. Deixa-me mostrar. Limpo isto num instante.
     Levantou-se do sof e espreguiou os braos por cima da cabea.
     - Tu tambm Kyle. Vamos mostrar  me o que fizemos ontem  noite.
     Para grande surpresa de Denise, Kyle parecia ter percebido o que Taylor lhe dissera e, obediente, seguiu Taylor at  porta das traseiras. Este os conduziu 
pelo alpendre, at os degraus, em direo ao jardim de ambos os lados da porta.
     Quando Denise viu o que a esperava, ficou sem fala.
     Ao longo das traseiras da casa havia flores JobelI recentemente plantadas.
     - Fizeste isto? - perguntou ela.
     - O Kyle tambm - respondeu ele com uma ponta de orgulho na voz, verificando que ela tinha ficado satisfeita.
     -  to bom - exclamou Denise docemente.
     J passava da meia-noite, muito depois de Denise, mais uma vez, ter acabado o seu turno no Eights. Ao longo da ltima semana, Taylor e Denise tinham-se encontrado 
praticamente todos os dias. No 4 de Julho, Taylor levou-os a passear no seu velho e restaurado barco a motor; mais tarde, deitaram o seu prprio fogo de artifcio 
para grande jbilo de Kyle. Fizeram um piquenique nas areias do rio Chowan e apanharam mexilhes na praia. Para Denise tudo isto constitua uma espcie de interldio, 
mais doce que quaisquer sonhos, que nunca sequer se havia permitido imaginar.
     Naquela noite, como em tantas outras noites recentes,  estava deitada na cama, nua, com Taylor a seu lado. A sensao das mos dele, amaciadas pelo leo, ao 
deslizarem no seu corpo era insuportavelmente perturbadora.
     - Pareces um pedao do cu - sussurrou Taylor.
     - No podes continuar a fazer isto - gemeu ela.
     Ele massageou-lhe os msculos das costas, fazendo uma ligeira presso e aliviando as mos em seguida.
     - A fazer o qu?
     - Ficares acordado at to tarde todas as noites.  a minha morte.
     - Para uma mulher  beira da morte, tens muito bom aspecto. No tenho dormido mais de quatro horas desde o fim-de-semana passado.
     - Isso  porque no me consegues largar.
     Com os olhos quase fechados, ela sentiu que um sorriso lhe aflorava aos cantos da boca. Taylor inclinou-se e beijou-a nas costas entre as omoplatas.
     - Queres que me v embora para poderes descansar? - perguntou-lhe, as suas mos movimentando-se para os ombros dela outra vez.
     - Ainda no - ronronou ela. - Vou deixar-te acabar primeiro.
     - Agora estou a ser usado?
     - Se no te importares.
     - No me importo.
     - Ento, o que  que est a acontecer com Denise? - quis saber Mitch.   - A Melissa deu-me ordens expressas para no te deixar ir embora sem me informares de 
todos os detalhes.
     Encontravam-se em casa de Mitch, na segunda-feira, a consertar, finalmente, o telhado, conserto este que Taylor to bem soubera adiar na semana anterior. O 
Sol estava particularmente quente e ambos haviam despido as camisas enquanto usavam os ps-de-cabra, arrancando, uma a uma, as telhas danificadas. Taylor puxou o 
leno e limpou o suor do rosto.
     - Nada de especial.
     Mitch esperou que Taylor continuasse, mas este no disse mais nada.
     - S isso? Espantou-se Mitch. - Nada de especial?
     - O que  que queres que diga?
     - Os fatos. Comea l a despejar o saco que eu te interrompo se precisar de explicaes.
     Taylor relanceou o olhar por todos os lados como se quisesse certificar-se que ningum mais andava por perto.
     - Sabes guardar um segredo?
     - Claro!
     Taylor inclinou-se para se aproximar.
     - Eu tambm! - afirmou ele com um piscar de olhos e Mitch desatou a rir.
     - Com que ento no vais contar nada?
     - No sabia que tinha de te informar de tudo - replicou ele com uma indignao fingida. - Acho que presumi que eram contas do meu rosrio.
     Mitch abanou a cabea.
     - Sabes? Vai contar essa a outro. Se bem te conheo, acabar por me contar tudo mais cedo ou mais tarde, portanto mais vale ser agora.
     Taylor observou o amigo com um sorriso presunoso.
     - Achas que sim, hein?
     Mitch comeou a arrancar um prego do telhado.
     - Eu no acho. Tenho a certeza. Alm disso, como j disse, a Melissa no te deixa ir embora sem que o faas.
     - Confia em mim, aquela mulher pode atirar uma frigideira com uma preciso mortal.
     Taylor riu-se.
     - Bom, podes dizer-lhe que est tudo bem.
     De luvas caladas, Mitch agarrou numa telha estragada e comeou a pux-la com fora, sentindo que ia se partir em duas. Arremessou-a para o cho e continuou 
a tratar da outra metade.
     - E?
     - E o qu?
     - Ela te faz feliz?
     Taylor levou um momento a responder.
     - Sim - acabou por dizer. - Muito.
     Procurava as palavras certas  medida que continuava a trabalhar com o p-de-cabra. Nunca tinha conhecido ningum como ela.
     Mitch agarrou na garrafa-termo com gua gelada e sorveu um gole,  espera que Taylor prosseguisse.
     - Quero dizer, ela tem tudo.  bonita, inteligente, encantadora, faz-me rir... E havias de ver como ela  com o filho.  um puto bestial, mas tem problemas 
na fala, e a forma como ela trabalha com ele, ela  to paciente, to dedicada, to amorosa...  espetacular, l isso  verdade.
     Taylor fez saltar mais um prego solto, atirando-o para o lado.
     - Parece fantstica - afirmou Mitch impressionado.
     - E .
     De sbito, Mitch estendeu o brao, agarrou o ombro de Taylor e deu-lhe um forte abano.
     - Ento o que faz ela ao p de um tipo como tu? Gracejou ele. Em vez de rir, Taylor encolheu simplesmente os ombros.
     - No fao a mnima idia.
     Mitch ps a garrafa-termo de lado.
     - Posso dar-te um conselho?
     - Posso impedir-te?
     - No, de fato no. Sou como a Ann Landers quando se trata de coisas como est.
     Taylor tomou posio no telhado e encaminhou-se para outra telha.
     - Diz l ento.
     Mitch ficou um pouco mais tenso, antevendo a reao do amigo.
     - Bem, se ela  como dizes e te faz feliz, no lixes tudo desta vez.
     Taylor parou a meio caminho.
     - O que pretendes dizer com isso?
     - Sabes como reages em situaes como est. Lembras-te da Valerie? Lembras-te da Lori? Se no consegues lembrar, eu consigo. Sais com elas, s um poo de charme, 
passas o tempo todo com elas, deixa que se apaixonem por ti... E depois, zs, acabas com tudo.
     - No sabes do que  que ests a falar.
     Mitch observou como a boca de Taylor se transformava numa linha dura.
     - No? Ento me diz l onde  que eu estou enganado.
     Com relutncia, Taylor refletiu sobre o que Mitch acabara de dizer.
     - Elas eram diferentes de Denise... Replicou ele lentamente.
     - Eu tambm era diferente. De l para c, mudei.
     Mitch levantou as mos impedindo-o de continuar.
     - No  a mim que tens de convencer, Taylor. Como se costuma dizer, no mate o mensageiro, s te estou a avisar porque no quero que te arrependas depois.
     Taylor abanou a cabea. Durante uns minutos trabalharam em silncio. Por fim acrescentou:  um chato, sabias?
     Mitch arrancou alguns pregos.
     - Sim, eu sei. A Melissa tambm me diz o mesmo, portanto no me leves to a peito.  assim que eu sou.
     - Ento, acabaram o telhado?
     Taylor assentiu. Tinha uma lata de cerveja no colo, e bebia devagar, algumas horas antes de Denise iniciar o seu turno.  Estavam sentados nos degraus da porta 
da frente enquanto Kyle brincava com os seus caminhes no jardim. Apesar dos seus esforos, os seus pensamentos voltavam-se sistematicamente para o que Mitch lhe 
havia dito. Existia alguma verdade no que o amigo lhe dissera, ele bem o sabia, mas no conseguia deixar de desejar que no tivesse levantado aquelas questes que 
o importunavam como uma m lembrana.
     - Sim - comentou ele -, j est pronto.
     - Foi mais difcil do que pensavas? - inquiriu Denise.
     - No, nem por isso. Por qu?
     - Pareces distrado.
     - Desculpa. Acho que estou apenas um bocado cansado.
     Denise examinou-o.
     - Tens a certeza de que no  mais nada?
     Taylor levou a cerveja aos lbios e deu-lhe um trago.
     - Acho que sim.
     - Achas?
     Colocou a lata sobre os degraus.
     - Bom, hoje o Mitch disse-me umas coisas...
     - Que coisas?
     - Coisas sem importncia, respondeu Taylor no querendo ir mais alm. Denise leu-lhe a preocupao nos olhos.
     - Como por exemplo?
     Taylor respirou fundo, refletindo se devia ou no contar-lhe, acabando por decidir faz-lo.
     - Disse-me que se as minhas intenes forem srias em relao a ti, no devo estragar as coisas desta vez.
     Denise sentiu a respirao parar com a franqueza do comentrio dele. Por que razo precisava Mitch de avis-lo desta maneira?
     - o que  que lhe respondeste?
     Taylor abanou a cabea.
     - Disse-lhe que no sabia do que estava a falar.
     - Bem... - ela hesitou. - E sabe?
     - No, claro que no!
     - Ento por que  que isso te preocupa?
     - Porque - respondeu ele - me chateia que ele pense que eu pudesse fazer isso. Ele no sabe nada de ti ou de ns. E no sabe o que sinto.
     Ela semicerrou os olhos, abarcando a imagem dele sob os raios do pr do Sol. 
     - O que  que sentes?
     Ele agarrou-lhe a mo.
     - No sabes? Interpelou-a. - No o tornei j bvio?
CAPTULO 21
     Em meados de Julho, o Vero chegou em plena fora com as temperaturas a subirem aos quarenta graus centgrados, comeando depois a refrescar. Quase no fim do 
ms, o furaco BelIe ameaou a costa da Carolina do Norte perto do Cabo Hatteras, antes de evoluir para o mar; nos princpios de Agosto aconteceu o mesmo com o furaco 
Delilah. Os meados do ms de Agosto trouxeram condies favorveis  seca e no seu final as colheitas definhavam com o calor.
     O ms de Setembro chegou com uma frente fria fora de poca, uma coisa que j no sucedia h vinte anos. Tiravam-se os jeans das gavetas e vestiam-se casacos 
leves quando se aproximava o fim do dia. Uma semana mais tarde, foi substituda por uma vaga de calor e as jeans foram arrumados, esperanadamente, por mais dois 
meses.
     Ao longo de todo o Vero, a relao entre Taylor e Denise manteve-se estvel. Instalados numa certa rotina, passavam a maior parte das tardes juntos (para fugir 
ao calor, os operrios de Taylor comeavam a trabalhar muito cedo e terminavam por volta das duas horas da tarde) e Taylor continuava a ir levar e a ir buscar Denise 
ao restaurante sempre que podia. Ocasionalmente jantavam em casa de Judy; outras vezes Judy vinha tomar conta de Kyle para eles poderem passar algum tempo sozinhos.
     Durante estes trs meses, Denise foi gostando cada vez mais de Edenton. Taylor, naturalmente, continuava a se fazer de guia, mostrando-lhe as paisagens dos 
arredores da cidade, andando de barco e indo  praia. Com o tempo, Denise acabou por aceitar Edenton pelo que era, uma cidade que flua a uma velocidade lenta e 
prpria, uma cultura virada para a educao dos filhos, em que aos domingos era obrigatria uma visita  igreja, ao trabalho nos reservatrios de gua e no cultivo 
do solo frtil; um lugar onde o lar ainda tinha significado.
     Denise dava consigo a olh-lo fixamente quando se encontrava na cozinha com uma chvena de caf nas mos, imaginando preguiosamente se ele ainda teria o mesmo 
aspecto num futuro distante, quando o cabelo tivesse se tornado grisalho.
     Ela esperava ansiosamente tudo quanto faziam; numa noite amena dos finais de Julho, ele levou-a a danar em Elizabeth City, mais uma primeira vez em tantos 
anos. Ele conduzia-a pela sala com uma graciosidade surpreendente, danando a valsa ou o two-step ao ritmo de uma banda country local. As mulheres, no pudera ela 
deixar de notar, sentiam-se naturalmente atradas por ele e, ocasionalmente, uma ou outra sorrira-lhe e Denise tivera um inopinado acesso de cimes, se bem que Taylor 
parecesse nunca ter reparado nisso. Ao invs, o seu brao nunca deixou de abra-la nas costas e olhava-a, nessa noite, como se ela fosse a nica pessoa do mundo. 
Horas depois, enquanto comiam sandes de queijo na cama, Taylor puxou-a para si  medida que, atravs da janela, uma trovoada rugia l fora.
     - O temporal- confidenciou ele - Est praticamente no auge.
     Tambm Kyle desabrochara com os cuidados dele. Ganhou confiana no seu discurso, comeou a falar mais freqentemente, embora muito do que dizia no fizesse 
sentido.
     Tambm deixara de sussurrar quando conseguia juntar mais que algumas palavras seguidas. No final do Vero, tinha aprendido a bater a bola do tee com convico 
e a sua habilidade a lan-la tinha melhorado substancialmente. Taylor colocara bases improvisadas no ptio da frente e, se bem que se esforasse por lhe ensinar 
as regras, Kyle nunca manifestara interesse. S queria divertir-se.
     Todavia, por mais idlico que tudo parecesse, momentos havia em que Denise pressentia em Taylor uma onda de inquietao que ela no conseguia explicar. Tal 
como havia acontecido na primeira noite em que dormiram juntos, Taylor assumia, por vezes, aquele ar vago, quase distante, depois de fazerem amor. Abraava-a e acariciava-a 
como de costume, todavia, ela sentia algo nele que lhe deixava uma sensao vagamente desconfortvel, algo obscuro e impenetrvel que o fazia parecer mais velho 
e mais cansado, e que ela jamais experimentara. Por vezes ficava assustada, se bem que com o amanhecer se censurasse por deixar dar asas  sua imaginao.
     Nos finais de Agosto, Taylor teve de ausentar-se, durante trs dias, para ir ajudar a combater um incndio na floresta Croatan, uma situao tanto mais perigosa 
dada a seca provocada pelas altas temperaturas do ms. Denise teve alguma dificuldade em dormir enquanto ele esteve fora. Preocupada, telefonou a Judy e passaram 
uma hora a conversar. Denise seguia a cobertura dada ao incndio pelos jornais e pela televiso, procurando, em vo, vislumbrar Taylor. Quando, finalmente, Taylor 
regressou a Edenton, dirigiu-se imediatamente para casa dela. Com a aprovao de Ray, tirou a noite de folga, mas Taylor estava to exausto que adormeceu no sof 
pouco depois do pr do Sol. Denise tapara-o com um cobertor, pensando que ele iria dormir at de manh, no entanto a meio da noite, esgueirou-se para o quarto dela.
     Voltou a sentir as tremuras, contudo desta vez, prolongaram-se durante horas. Taylor recusou-se a falar acerca do que havia acontecido e Denise manteve-o nos 
seus braos, preocupada, at que por fim ele voltou a adormecer. Mesmo enquanto dormia, os seus fantasmas no lhe davam descanso. Torcia-se e dava voltas, falava 
alto, as palavras incompreensveis, exceto pelo medo que ela adivinhava nelas.
     Na manh seguinte ele pediu-lhe, timidamente, desculpa, no dando, contudo, qualquer tipo de explicao. No tinha de faz-lo. Ela sentia que no eram simplesmente 
as lembranas do incndio o que o consumia; era qualquer outra coisa, intima e obscura que tentava vir  superfcie.
     A me dissera-lhe uma vez que havia homens que guardavam segredos dentro de si que s traziam problemas para as mulheres que os amavam. Instintivamente, Denise 
reconheceu a verdade da afirmao da me, embora fosse difcil conjugar as suas palavras com o amor que ela sentia por Taylor McAden.
     Adorava o cheiro dele, adorava a textura rugosa das suas mos sobre o seu corpo e as rugas aos cantos dos olhos de cada vez que ele se ria. Adorava a forma 
como ele a olhava quando saia do emprego, encostado ao caminho com uma perna cruzada sobre a outra. Adorava tudo nele.
     s vezes, dava consigo a imaginar-se, um dia, a caminhar pela nave da igreja ao lado dele. Podia negar este fato, podia ignor-lo, podia dizer de si para si 
que ainda nenhum dos dois estava preparado. E talvez esta ltima parte fosse verdade. No estavam juntos h muito tempo e, se ele lhe perguntasse no dia seguinte, 
gostaria de pensar que teria a prudncia suficiente para lhe responder exatamente isto. No entanto... Ela nunca diria tais palavras, admitia-o a si prpria nos seus 
momentos mais impiedosamente honestos. Ela dir-lhe-ia Sim... Sim... Sim.
     Nos seus devaneios, s esperava que Taylor sentisse a mesma coisa.
     - Pareces nervosa - comentou Taylor observando a imagem dela refletida no espelho. Ele estava em p atrs dela, no banheiro, enquanto ela acabava os ltimos 
retoques da maquiagem.
     - Eu estou nervosa.
     - Mas so apenas o Mitch e a Melissa. No h nenhum motivo para estares nervosa.
     Segurando dois brincos, cada um junto de cada orelha, hesitava entre as argolas e umas bolinhas simples.
     - Talvez para ti. J os conheces. S os encontrei uma vez, h trs meses e no estivemos a falar assim tanto tempo. E se eu lhes causar uma m impresso?
     - No te preocupes. Taylor deu-lhe um pequeno belisco no brao. Isso no vai acontecer.
     - Mas, e se acontecer?
     - Eles no se importam. Vais ver.
     Ps as argolas de lado e optou pelas bolinhas. Apertou-as nas orelhas.
     - Bom, no seria to exasperante se j me tivesses l levado, sabias? Esperaste muito tempo para me levares a encontrar os teus amigos.
     Taylor levantou as mos.
     - Ei, no me deites as culpas. s tu que trabalhas seis noites por semana e peo desculpa por te querer s para mim na tua folga.
     - Sim, mas...
     - Mas o qu?
     - Bem, comeava a pensar se terias vergonha de ser visto comigo.
     - No sejas ridcula. Garanto-te que as minhas intenes eram puramente egostas. Fico possessivo quando se trata de passar o tempo contigo.
     Olhando por cima do ombro, ela perguntou:
     - Isso  alguma coisa com que eu tenha de me preocupar no futuro?
     Taylor encolheu os ombros com um sorriso matreiro no rosto.
     - S depende de tu continuares a trabalhar seis noites por semana.
     Ela suspirou acabando de pr os brincos.
     - Bem, parece-me que j falta pouco. J poupei quase o que preciso para um carro, e depois, acredita, vou voltar a pedir ao Ray que me d os quatro turnos.
     Taylor ps os dois braos em volta dela, continuando a fix-la atravs do espelho.
     - Ei, j te disse como ests bonita?
     - Ests a mudar de assunto.
     - Bem sei. Mas, raios. Olha s para ti. Ests linda!
     Depois de olhar para a imagem dos dois no espelho, ela voltou-se e encarou-o.
     - O suficiente para um churrasco com os teus amigos?
     - Ests fantstica - declarou ele com sinceridade - mas ainda que no estivesses, eles iam adorar-te na mesma.
     Meia hora mais tarde, Taylor, Denise e Kyle encaminhavam-se para a porta quando Mitch apareceu das traseiras da casa com uma cerveja na mo.
     - Ei, gente! - exclamou ele. - A malta est l atrs.
     Taylor e Denise seguiram-no atravs do porto, passando pelo balano e pelos arbustos de azleas antes de chegarem ao toldo.
     Melissa estava sentada  mesa do jardim observando os quatro filhos a saltarem para dentro e para fora da piscina, os seus gritos estridentes fundindo-se num 
bramido confuso, interrompido por berros agudos. A piscina fora instalada no Vero anterior depois de muitas cobras de gua terem sido vistas perto da doca do rio. 
Nada como uma cobra venenosa para azedar a opinio de uma pessoa sobre a beleza da natureza, gostava Mitch de salientar.
     - Ei - chamou Melissa levantando-se. - obrigada por ter vindo.  Taylor deu a Melissa um abrao sufocante e beijou-a na face.
     - Vocs as duas j se conhecem, no  assim? perguntou.
     - Na feira, retorquiu Melissa com vontade. Mas isso foi h sculos, e, alm disso, ela conheceu muita gente nesse dia. Como vai, Denise?
     - Bem, obrigada, respondeu ela, ainda um tanto nervosa.
     Mitch dirigiu-se ao frigorfico.
     - Vocs dois querem uma cerveja?
     -  uma bela idia, replicou Taylor. Tambm queres uma, Denise?
     - Sim, se faz favor.
     Enquanto Taylor foi buscar as cervejas, Mitch instalou-se  mesa, ajustando o chapu-de-Sol para ficarem  sombra.
     Melissa voltou a acomodar-se confortavelmente secundada por Denise. Kyle, que trazia uns cales de banho e uma T-shirt, ficou em p, timidamente, ao lado da 
me, com uma toalha enrolada sobre os ombros. Melissa inclinou-se para ele. 
     - Ol, Kyle, como vais?
     O garoto no respondeu.
     - Kyle repita: "Estou bem, obrigado". Incitou Denise. 
     - Estou bem, obrigado. (Tou bem, bidado.)   Melissa sorriu.
     - Ora bem, queres ir para a piscina com os outros meninos? Eles tm estado todo o dia  tua espera.
     Kyle desviou os olhos de Melissa para a me.
     - Queres ir nadar? Perguntou Denise, refraseando a pergunta.
     Kyle anuiu entusiasmado. - Sim.
     - Est bem, vai l ento. Tenha cuidado.
     Denise pegou na toalha dele enquanto Kyle se dirigia mansamente para gua.
     - Ele precisa de uma bia? Quis saber Melissa.
     - No, ele sabe nadar, mas claro que tenho de estar de olho nele. Kyle chegou  borda da piscina e entrou, gua dava-lhe pelos joelhos. Curvou-se e mergulhou 
espadanando gua como que a experimentar a temperatura e em seguida o seu rosto abriu-se num sorriso rasgado. Denise e Melissa observam-no  medida que ele avanava 
com energia.
     - Que idade tem ele?
     - Vai fazer cinco anos dentro de poucos meses.
     - Oh, o Jud tambm. Melissa apontou para o extremo oposto da piscina. -  aquele alm, agarrado  beira da piscina, perto da prancha de mergulhos.
     Denise avistou-o. Tinha a mesma altura de Kyle e o cabelo cortado  escovinha. Todos os filhos de Melissa saltavam, chapinhavam e gritavam, em resumo, divertiam-se 
ao mximo.
     - So todos seus, os quatro? perguntou Denise espantada.
     - Hoje so. No entanto, h de dizer-me se quer ficar com algum. Deixo-a escolher um da ninhada.
     Denise sentiu-se descontrair um pouco - So uma mo-cheia - So garotos. A energia at lhes sai pelas orelhas.
     - Que idades tm?
     - Dez, oito, seis e quatro.
     - A minha mulher tinha um plano, declarou Mitch metendo-se na conversa e retirando o rtulo da garrafa. Ano sim, ano no, no dia do nosso aniversrio de casamento, 
ela deixava-me dormir com ela quer ela quisesse quer no.
     Melissa revirou os olhos.
     - No lhe d ouvidos. O talento dele para conversar no se destina a pessoas civilizadas.
     Taylor regressou com as cervejas, abrindo a garrafa de Denise antes de lhe colocar  frente. A sua j estava aberta.
     - De que  que vocs esto para ai a falar?
     - Da nossa vida sexual, respondeu Mitch com um ar srio e Melissa, nesse momento, deu-lhe um murro no brao.
     - Tem cuidado,  fala-barato. Temos visitas. No queres causar m  impresso, pois no?
     Mitch inclinou-se para Denise.
     - No estou a causar-lhe m  impresso, pois no?
     Denise sorriu, pensando em como j gostava daquelas duas criaturas.
     - No.
     - Est vendo, querida? Exclamou Mitch vitorioso.
     - Ela s est a dizer isso porque tu a meteste em apertos.  Agora deixa a pobre senhora em paz. Ns estvamos a conversar, estvamos a ter uma conversa absolutamente 
agradvel at tu te colocares.
     - Bem...
     Foi tudo quanto Mitch pde dizer antes que Melissa lhe cortasse a palavra.
     - No insistas.
     - Mas...
     - Queres dormir no sof esta noite?
     As sobrancelhas de Mitch danaram.
     - Isso  uma ameaa?
     Ela deu-lhe uma mirada.
     - Passou a ser.
     Todos em redor da mesa riram e Mitch debruou-se para a mulher e pousou a cabea no ombro dela.
     - Desculpa, querida, pediu ele, olhando-a com o ar de um cachorrinho que tivesse sujado o tapete.
     - Isso no chega, retorquiu ela, fingindo desdm.
     - E se eu lavar a loua mais logo?
     - Hoje vamos usar pratos de papel.
     - Bem sei. Foi por isso que me ofereci.
     - Por que  que vocs dois no nos deixam em paz para conversarmos? Vo limpar a churrasqueira ou qualquer coisa.
     - Ainda agora aqui cheguei, queixou-se Taylor, por que  que tenho de ir?
     - Porque a grelha est sujssima.
     - Est? Perguntou Mitch.
     - V l! Exclamou Melissa como que enxotando uma mosca do prato. Deixem-nos a ss para podermos ter uma conversa de mulheres.
     Mitch voltou-se para o amigo.
     - No acho que sejamos bem-vindos, Taylor.
     - Tens razo, Mitch.
     Melissa comentou em tom conspiratrio:
     - Estes dois deviam ter sido cientistas de foguetes. Nada passa por eles.
     Mitch ficou, na brincadeira, boquiaberto.
     - Acho que ela acabou de nos insultar, Taylor, afirmou ele.
     - Tens razo.
     - Est a ver o que quero dizer? - inquiriu Melissa, acenando como se o seu ponto de vista tivesse acabado de ser provado.
     Cientistas de foguetes.
     - Anda da Taylor - exclamou Mitch fingindo-se ofendido.
     - No temos de aturar isto. Somos muito melhores.
     - timo! Vo ser melhores a limpar a grelha.
     Mitch e Taylor levantaram-se da mesa, deixando Denise e Melissa sozinhas. Denise ainda ria quando eles se dirigiam para a churrasqueira.
     - H quanto tempo esto casados?
     H doze anos. Mas s que parecem vinte.
     Melissa piscou-lhe um olho e Denise no pde deixar de pensar, de repente, que parecia que a conhecia desde sempre.
     - Como  que se conheceram? - quis saber Denise.
     - Numa festa na faculdade. A primeira vez que o vi, Mitch estava tentando equilibrar uma garrafa de cerveja na testa enquanto atravessava a sala. Se conseguisse 
ir at ao fim sem a entornar, ganhava cinqenta dlares.
     - Conseguiu?
     - No. Ficou ensopado da cabea aos ps. Mas era bvio que no tinha levado tudo aquilo muito a srio. E, depois dos outros tipos todos com quem tinha sado, 
acho que era dele que eu andava  procura. Comeamos a namorar e alguns anos depois estvamos casados.
     Ela olhou para o marido com uma grande afeio refletida nos olhos.
     -  um bom homem. Acho que vou ficar com ele.
     - Ento, como  que foi em Croatan?
     Quando, algumas semanas antes, Joe tinha pedido voluntrios para combaterem o incndio florestal, apenas Taylor levantara a mo. Mitch recusara abanando a cabea 
quando Taylor lhe pediu para acompanh-lo.
     O que Taylor no esperava era que Mitch j soubesse exatamente o que tinha se passado. Joe chamara Mitch  parte e contara-lhe que Taylor quase morrera, quando 
de repente o fogo se fechara em redor dele. No tivesse sido uma ligeira alterao da direo do vento, que possibilitou a Taylor encontrar uma sada, teria morrido. 
A sua ltima escaramua com a morte no fora, de modo nenhum, uma surpresa para Mitch.
     Taylor bebeu um trago da cerveja, os olhos obscurecendo-se com a lembrana.
     - Bastante complicado, por vezes, sabes como so estes fogos mas, felizmente, ningum se magoou.
     Sim, tiveste a sorte do teu lado. Mais uma vez.
     - Mais nada?
     - Nada de especial - respondeu ele, eliminando qualquer vestgio de perigo. - Mas devias ter ido. Fizeram-nos falta mais homens.
     Mitch abanou a cabea enquanto pegava na grade da grelha.
Comeou a esfreg-la de um lado para o outro.
     - No, isso  para gente jovem como tu. J estou a ficar velho para coisas como essas.
     - Sou mais velho que tu, Mitch.
     - Claro, se pensares apenas em termos de algarismos. Mas eu sou como um velho comparado contigo. Tenho uma prognie.
     - Prognie?
     - Palavras cruzadas. Quer dizer que tenho filhos.
     - Eu sei o significado.
     - Bem, ento tambm sabes que j no posso levantar-me e ir embora sem mais nem menos. Agora os meninos esto a ficar crescidos, no  justo para a Melissa 
eu sair da cidade por coisas como estas. O que quero dizer  que se houver um problema por c,  uma coisa. Mas no vou atrs deles por ai fora. A vida  demasiado 
curta para isso.
     Taylor pegou num pano da loua e entregou-o a Mitch para limpar a grelha.
     - Continuas a pensar em deixar a corporao?
     - Sim. Mais uns meses e acabou-se.
     - Sem qualquer arrependimento?
     - Nenhum. Mitch fez uma pausa antes de continuar. Sabes, talvez tambm tu possas querer pensar em retirar-te acrescentou em tom de insinuao.
     - Eu no vou sair, Mitch, afirmou Taylor, rejeitando a idia imediatamente. - No sou como tu. No tenho medo do que possa acontecer.
     - Devias ter.
     -  a tua opinio.
     - Talvez, continuou Mitch, falando calmamente. Mas  a verdade. Se de fato te preocupas com Denise e com Kyle, tens de comear a p-los em primeiro lugar, tal 
como eu fao com a minha famlia. Aquilo que fazemos  perigoso, por mais cuidadosos que sejamos, e  um risco que no temos de correr.  Tivemos sorte em inmeras 
ocasies. - Ficou em silncio enquanto punha a grelha de lado. Depois os seus olhos encontraram os de Taylor.
     - Tu sabes o que  crescer sem pai. Queres que isso acontea com Kyle?
     Taylor obstinou-se.
     - Por Cristo, Mitch...
     Mitch levantou as mos para impedir Taylor de continuar.
     - Antes de comeares a me xingar, h uma coisa que te quero dizer. Desde aquela noite na ponte... E depois, de novo, em Croatan. Sim, eu tambm sei o que se 
passou, e isso no me delicia. Um heri morto continua morto, Taylor. -Aclarou a garganta. - No percebo.  como se, ao longo dos anos, tu desafiasses o destino 
cada vez mais, como se andasses atrs de alguma coisa. Isso s vezes assusta-me.
     - No precisas se preocupar comigo.
     Mitch levantou-se e ps a mo no ombro de Taylor.
     - Preocupo-me sempre contigo, Taylor. Para mim s como um irmo.
     - o que  que acha que eles esto a conversar? Inquiriu Denise observando Taylor da mesa.
     Ela reparara na alterao do seu comportamento, a sbita rigidez, como se algum tivesse ligado um interruptor.
     Melissa tambm se dera conta do mesmo.
     - O Mitch e o Taylor? Provavelmente do Quartel dos Bombeiros. Mitch vai deix-lo no final do ano. Talvez tenha dito a Taylor para fazer a mesma coisa.
     - Mas Taylor no gosta de ser bombeiro?
     - No sei se gosta. Faz porque tem de o fazer.
     - Porqu?
     Melissa olhou para Denise em cujo rosto transpareceu uma expresso de perplexidade.
     - Bom... Por causa do pai, concluiu ela.
     - Do pai? Repetiu Denise.
     - Ele no lhe contou? Perguntou Melissa medindo as palavras.
     - No. - Denise abanou a cabea, com um receio do que Melissa queria dizer.       
     - Ele s me contou que o pai morreu quando era pequeno.
     Melissa anuiu, os lbios apertados.
     - O que ? Inquiriu Denise, a sua ansiedade evidente.
     Melissa suspirou, hesitando se devia continuar ou no.
     - Por favor, pediu Denise e Melissa olhou no vazio. Por fim disse:
     - O pai de Taylor morreu num incndio.
     A estas palavras, pareceu que uma mo gelada se havia colado  espinha de Denise.
     Taylor tinha levado a grelha a enxaguar debaixo da mangueira e regressava quando viu Mitch abrir o frigorfico e tirar mais duas cervejas. Enquanto Mitch abria 
a sua, Taylor passou por ele sem falar.
     - Ela  de fato bonita, Taylor.
     Taylor colocou a grelha na churrasqueira, sobre o carvo.
     - Bem sei.
     O filho dela tambm . Um garotinho simptico.
     - Bem sei.
     - Parece-se contigo.
     - Hein?
     - Estava s a ver se me  estavas a ouvir, explicou Mitch sorrindo. Parecias um tanto distrado quando vieste enxaguar a grelha. Ele aproximou-se. Ei, escuta. 
Lamento ter-te dito aquelas coisas. No queria que ficasses aborrecido.
     - No fiquei aborrecido - mentiu Taylor.
     Mitch entregou a cerveja a Taylor.
     - Claro que ficaste. Mas algum tem de te dizer as verdades.
     - E esse algum s tu?
     - Claro. Sou o nico a poder faz-lo.
     - No, Mitch, por favor no sejas to modesto, afirmou Taylor sarcstico.
     Mitch ergueu as sobrancelhas.
     - Pensas que estou a brincar? H quanto tempo te conheo? Trinta anos? Acho que isso me d direito a dizer o que penso de vez em quando, sem me preocupar com 
o que tu possas pensar. E falei a srio. No tanto em relao a deixares a corporao, sei que no o vais fazer. Embora no futuro devas tentar ser mais cauteloso. 
Ests a ver isto?
     Mitch apontava para a sua cabea quase calva.
     - J tive uma grande cabeleira. E continuaria a ter se no fosse um temerrio dos diabos! De cada vez que cometes uma loucura, sinto o resto dos meus cabelos 
suicidarem-se, atiram-se da cabea e aterram nos meus ombros. Se ouvisses bem, conseguias ouvi-los gritar em plena queda. Tu sabes como  que  ficar careca? Ter 
de pr um protetor solar no cocuruto da cabea sempre que andas ao ar livre? Ficar com manchas escuras onde costumavas fazer o risco? Isto no  bom para o ego, 
se  que me entendes. Portanto, Ests em divida para comigo.
     Apesar da m disposio, Taylor riu-se.
     - Credo! E eu a pensar que era hereditrio.
     - Ah, no. s tu, amigo.
     - Fico sensibilizado.
     - Devias ficar. No seria provvel estar disposto a ficar careca por qualquer um.
     - Est bem! Suspirou. - Vou tentar ser mais cuidadoso daqui para frente.
     - timo! Porque dentro em breve no vou estar l para te ajudar.
     - Como  que vo os grelhados? Gritou Melissa.
     Mitch e Taylor mantinham-se em p, junto  grelha e as crianas j estavam a comer. Mitch havia feito em primeiro lugar os cachorros quentes, e os cinco meninos 
sentavam-se  mesa. Denise, que trouxera a refeio para Kyle (macarro com queijo, bolachas Ritz e uvas), ps-lhe o prato  frente.  Depois de nadar por umas horas, 
estava esfomeado.
     - Mais uns dez minutos, exclamou Mitch por cima do ombro.
     - Tambm quero macarro com queijo, lamuriou o filho mais novo de Melissa ao ver que Kyle estava a comer uma coisa diferente da dos demais.
     - Come o teu cachorro, ordenou Melissa.
     - Mas, Mame...
     - Come o teu cachorro, repetiu ela. Se ainda tiveres fome depois disso, eu fao-te, est bem?
     Ela sabia que o garoto j no teria fome, mas o que disse pareceu acalmar a criana.
     Uma vez que tudo estava sob controle, Denise e Melissa afastaram-se da mesa e sentaram-se junto  piscina. A partir do momento em que Denise soubera o que tinha 
acontecido ao pai de Taylor, que estava tentando montar as peas mentalmente.  Melissa adivinhou o que lhe ia no pensamento.
     - Taylor? Perguntou. E Denise sorriu timidamente, embaraada por ser to bvia.
     - Sim.
     - Como  que vocs os dois se esto a dar?
     - Pensei que tudo ia bem. Mas agora j no tenho a certeza.
     - Porque ele no lhe falou do pai? Bem, vou contar-lhe um segredo. Taylor no fala com ningum acerca desse assunto.
     - Nunca. Nem comigo, nem com ningum que trabalha com ele, nem com os amigos. Ele nem nunca falou com Mitch sobre isso.
     Denise refletia no que acabara de ouvir, sem saber o que responder.
     - Isso faz-me sentir melhor. Fez uma pausa franzindo o sobrolho. - Acho eu.
     Melissa ps de lado o seu ch gelado.  semelhana de Denise, tambm deixara de beber cerveja quando acabou a segunda.
     - Ele  encantador quando quer, no ? Atraente, tambm. Denise recostou-se na cadeira.
     - Sim, claro que sim.
     - Como  que ele  com o Kyle?
     - Kyle adora-o. Ultimamente, gosta mais do Taylor do que de mim. O Taylor  como um menino quando esto juntos.
     - O Taylor sempre se entendeu muito bem com a crianada.  Os meus filhos sentem a mesma coisa por ele. Telefonam-lhe para saberem se pode vir brincar com eles.
     - E ele vem?
     - s vezes, se bem que ultimamente no. Voc tem-lhe tomado o tempo todo.
     - Lamento que assim seja.
     Melissa acenou com a mo como que a recusar o pedido de desculpas.
     - No  preciso. Fico feliz por ele. Por si tambm. J comeava a interrogar-me se ele algum dia encontraria algum. Voc  a primeira pessoa, em muitos anos, 
que ele c traz.
     - Ento houve outras?
     Melissa sorriu de esguelha.
     - Tambm no lhe falou delas?
     - No.
     - Muito bem, minha menina, foi muito bom ter c vindo, afirmou ela com um ar conspiratrio, e Denise riu-se.
     - Ora vamos l, o que  que quer saber?
     - Como  que elas eram?
     - Em nada parecidas consigo, essa  a verdade.
     - No?
     - No. Voc  muito mais bonita do que elas. E tem um filho.
     - o que  que lhes aconteceu?
     - Bem, infelizmente, nada posso contar-lhe. Taylor tambm no fala acerca disso. Tudo quanto sei  que, num dia tudo parecia estar a correr bem e no seguinte, 
estava tudo acabado.
     - Nunca percebi por que.
     - Que pensamento reconfortante!
     - Oh, no estou a dizer que vai passar-se o mesmo consigo. Ele gosta mais de si do que gostava delas, muito mais. Posso afirm-lo pela forma como a olha.
     Denise esperava que Melissa estivesse a dizer a verdade.
     - Algumas vezes... Comeou Denise, depois se calou, no sabendo exatamente como exprimir-se.
     - Por vezes fica assustada interrogando-se no que ele estar a pensar?
     - Olhou para Melissa, sobressaltada pela acuidade da sua observao. Melissa continuou:
     - Muito embora eu e Mitch estejamos juntos h muito tempo, ainda no entendo alguns dos seus comportamentos e atitudes. Nesse aspecto , por vezes, parecido 
com o Taylor.  Mas ao fim e ao cabo, tem resultado porque ambos queremos que assim seja. Enquanto vocs dois quiserem, vo conseguir ultrapassar todas as dificuldades.
     Uma bola de praia voou da mesa onde as crianas se sentavam e atingiu Melissa na cabea. Fez-se ouvir uma srie de risadas agudas.
     Melissa revirou os olhos, mas,  parte isso, no lhes prestou ateno e a bola rolou para longe.
     - At seria capaz de aturar quatro meninos, como ns aturamos.
     - No sei se seria capaz disso.
     - Claro que seria.  fcil. S precisa se levantar cedo, ir buscar o jornal e l-lo preguiosamente  medida que se bebem umas tequilas.
     Denise riu-se.
     - A srio. J pensou em ter mais filhos? Perguntou Melissa.
     - No penso nisso com muita freqncia.
     - Por causa de Kyle? - J ambas tinham falado dos problemas dele.
     - No, no  s isso. Mas no  uma coisa que eu possa fazer sozinha, pois no?
     - E se fosse casada?
     Alguns instantes depois Denise sorriu.
     - Talvez.
     Melissa anuiu.
     - Acha que Taylor seria um bom pai?
     - Tenho a certeza disso.
     - Eu tambm - concordou Melissa. - J alguma vez falaram disso?
     - De casamento? No. Ele nunca se referiu a isso.
     - Hum - fez Melissa. - Vou tentar saber o que  que ele pensa do assunto, est bem?
     - No tem de fazer isso, protestou Denise corando.
     - Ah, mas eu quero. Sou to curiosa como voc. Mas no se preocupe, serei discreta. Ele nem sequer vai perceber no que me estou a colocar.
     - Ento, Taylor, vais casar com est garota maravilhosa ou qu?
     Denise quase deixou cair o garfo no prato. Taylor estava a meio de um gole da bebida e engasgou-se, sendo forado a tossir trs vezes enquanto a expelia pelo 
canal errado. Levou o guardanapo ao rosto, com lgrimas nos olhos.
     - O qu?
     Estavam os quatro a comer: bifes, salada de alface, batatas com queijo Cheddar e po de alho. Tinham estado a rir e a trocar piadas, divertindo-se e j estavam 
no meio da refeio quando Melissa largou a bomba. Denise sentiu o sangue aflorar-lhe s faces enquanto Melissa continuava prosaicamente.
     - Isto , ela  uma beleza, Taylor. Tambm  esperta. No  todos os dias que aparecem garotas como ela.
     Embora dito obviamente em ar de gracejo, Taylor ficou um tanto tenso.
     - Na verdade, ainda no pensei nisso, respondeu ele na defensiva e Melissa inclinou-se para frente, batendo-lhe no brao enquanto ria alto.
     - No estou  espera de uma resposta, Taylor...  Estava no gozo. S queria ver a tua reao. Os teus olhos ficaram grandes como dois ovos.
     - Isso  porque eu me engasguei - desculpou-se Taylor.
     Ela inclinou-se para ele.
     - Peo desculpa. Mas no consegui resistir.  fcil provocar-te. Tal como a este compincha aqui.
     - Ests a falar de mim, querida? Interrompeu Mitch, tentando dissipar o embarao evidente de Taylor.
     - Quem mais  que te chama compincha?
     - Sem seres tu, e as minhas outras trs mulheres, claro, mais ningum.
     - Hum - fez ela -, assim est bem. De outro modo, poderia ficar com cimes.
     Melissa debruou-se e deu um beijo rpido na face do marido.
     - Eles so sempre assim? Perguntou Denise, num sussurro a Taylor, rezando para que ele no pensasse que tinha sido ela a fazer a pergunta pela boca de Melissa.
     - Desde que os conheo - respondeu ele, sendo, no entanto bvio que os seus pensamentos andavam longe.
     - Ei, no vale falar nas nossas costas - advertiu Melissa.
     Voltando-se para Denise, dirigiu a conversa para terrenos mais seguros.
     - Conte-me como  Atlanta. Nunca l estive...
     Denise respirou fundo enquanto Melissa a olhava de frente com uma quase imperceptvel careta no rosto. O seu piscar de olhos foi to sutil que nem Mitch nem 
Taylor se aperceberam.
     E, se bem que Melissa e Denise tagarelassem durante a hora seguinte, com Mitch a juntar-se quando lhe parecia apropriado, Taylor, notou que Denise, pouco falara.
     - Vou apanhar-te! - gritava Mitch correndo atravs do jardim atrs de Jud que tambm gritava, os guinchos agudos alternando entre o prazer e o medo.
     - Ests quase no "coito"! Corre! - gritava Taylor.
     Jud baixou a cabea, investindo, enquanto Mitch atrs dele abrandava: causa perdida. Jud alcanou o "coito" juntando-se aos outros.
     J tinham jantado h uma hora; o Sol havia, finalmente, desaparecido, e Mitch e Taylor brincavam  apanhada com os meninos no ptio  frente de casa. Mitch, 
com as mos na anca, olhava em redor do ptio para os cinco meninos, o peito arfando. Todos eles se encontravam a pouca distncia uns dos outros.
     - No consegue me apanhar, papai! - zombava Cameron com os polegares junto s orelhas e agitando os dedos.
     - Tenta apanhar-me, papai! - acrescentou Will, juntando a sua s vozes dos irmos.
     - Ento tens de sair do "coito" - arriscou Mitch curvando-se e apoiando as mos nos joelhos.
     Cameron e Will, cheirando o perigo, partiram, de repente, em direes opostas.
     - Anda, papai! - gritou Will jubilante.
     - Tudo bem, foram vocs que pediram! - afirmou Mitch, esforando-se por se manter a altura do desafio.
     Mitch comeou a arrastar-se na direo de Will, passando por Taylor e Kyle que se mantinham no "coito".
     - Corre, papai, corre! - provocava Will, sabendo que era suficientemente gil para se manter bem longe do pai.
     Nos minutos seguintes Mitch perseguia cada um dos filhos, num percurso ziguezagueante conforme as necessidades. Kyle, que precisara de uns instantes para se 
inteirar das regras do jogo, conseguiu, por fim, perceber o suficiente para correr com as outras crianas e em breve os seus gritos juntava-se aos dos outros  medida 
que Mitch corria pelo ptio. Depois de, por pouco, Mitch ter sido alvo de vrios insucessos, dirigiu-se para perto de Taylor.
     - Preciso fazer um intervalo! - exclamou ele, as palavras quase se perdendo com a respirao ofegante.
     Taylor desviou-se para o lado, pondo-se a salvo.
     - Ento tens de apanhar a mim, amigo.
     Taylor permitiu-se deix-lo sofrer mais alguns minutos, at Mitch quase ficar verde. Por fim, correu para o meio do ptio, abrandou e deixou-se agarrar por 
Mitch. Este voltou a curvar-se, tentando retomar o flego.
     - So mais rpidos do que parecem - afirmou Mitch com franqueza - e mudam de direo como lebres.
     - Isso  o que parece quando se  velhote como tu - replicou Taylor. - Mas se tiveres razo, apanho-te num instante.
     - Se pensas que vou sair do "coito", ento ests maluco!
     - Vou sentar-me aqui durante um bocado.
     - V l! Cameron desafiava Taylor, querendo que o jogo prosseguisse. 
     - No me consegues apanhar!
     Taylor esfregou as mos. - Muito bem, aqui vou eu!
     Deu uma enorme passada em direo aos meninos, que com gritos de jbilo, se afastaram em direes contrrias.  Todavia, a de Kyle, cortando forte a escurido, 
era inconfundvel e fez Taylor estacar subitamente.
     - V l, papai! (V, p) gritava Kyle. - V l, papai!
     Papai.
     Taylor ficou gelado por um breve instante, fixando, pura e simplesmente, os olhos na direo de Kyle.
     Mitch, que se tinha apercebido da reao de Taylor, provocou-o.
     - H alguma coisa que no me tenhas dito Taylor?
     Taylor no respondeu.
     - Ele s te chamou papai - acrescentou Mitch, como se tivesse escapado a Taylor.
     Todavia, Taylor mal ouvia o que o amigo lhe dizia.  Embrenhada em pensamentos, a palavra ressoou na mente dele.
     Papai.
     Se bem que soubesse que no era mais que Kyle a imitar as outras crianas (como se usar a palavras papai fizesse parte do jogo) trouxe-lhe, no entanto,  memria 
a pergunta de Melissa.
     "Ento vais casar com est garota ou qu?"
     - Terra chama Taylor... Responda, grande papai, brincou Mitch, incapaz de reprimir uma careta.
     Taylor olhou finalmente para ele.
     - Cala-te, Mitch.
     - Com certeza... Papai !
     Por fim, Taylor deu um passo no sentido dos meninos.
     - Eu no sou o pai dele - exclamou quase de si para si.
     Embora Mitch tivesse dito as palavras que disse em seguida para si mesmo, Taylor ouviu-as com nitidez, tal como ouvira Kyle uns momentos antes.
     - Ainda no!
     - Divertiram-se? Perguntou Melissa quando as crianas entraram a correr pela porta da frente, cansadas, enfim, o bastante para desistirem por aquela noite.
     - Foi o mximo! No entanto, o papai est a ficar muito lento - insinuou Cameron.
     - No estou nada! Explicou Mitch na defensiva. Deixei-os chegar ao "coito".
     - Sim, pois, papai!
     - H sumo na sala de estar. No entornem, est bem?  Declarou Melissa quando os meninos passaram por ela arrastando-se. Mitch baixou-se para beijar Melissa, 
mas ela afastou-se.
     - S depois da ducha!  Ests imundo!
     -  est a recompensa que recebo por distrair os meninos?
     - No, est  a resposta que recebes quando cheiras mal.
     Mitch riu-se e encaminhou-se para a porta de sanfona do jardim das traseiras em busca de uma cerveja.
     Taylor entrou por ltimo com Kyle  sua frente. O garoto seguiu os outros meninos enquanto Denise o observava afastar-se.
     - Como  que ele se portou? Perguntou Denise.
     - Bem, disse simplesmente Taylor. Divertiu-se.
     Denise examinou Taylor atentamente. Havia algo que obviamente o incomodava.
     - Ests bem?
     Taylor fitou o vazio.
     - Sim, respondeu, estou bem.
     Sem dizer palavra, seguiu Mitch para o exterior.
     Com a agitao da noite a abrandar, Denise ofereceu-se para ajudar Melissa a arrumar a cozinha depois do jantar, pondo os restos de lado. As crianas estavam 
a ver um filme na sala de estar, esparramadas no cho, enquanto Mitch e Taylor arrumavam tudo, l fora nas traseiras.
     Denise passava os talheres por gua antes de coloc-los na mquina. De onde se encontrava podia ver os dois homens e observou-os, as suas mos quietas sob gua.
     - Um tosto pelos seus pensamentos, declarou Melissa, sobressaltando-a.
     Denise abanou a cabea voltando  tarefa que tinha em mos.
     - No sei se um tosto chega!
     Melissa pegou em algumas chvenas vazias e levou-as para o lava-loua.
     - Oua, lamento se a pus em cheque ao jantar.
     - No, no estou zangada por isso. S estava a brincar.
     - Estvamos todos.
     - Mas, seja l como for, est preocupada?
     - No sei... Acho que... Ela olhou para Melissa. Talvez um bocadinho. Ele tem estado to aptico a noite toda.
     - Eu no me preocuparia tanto com isso. Sei que ele se importa consigo. Os olhos brilham-lhe quando olha para si, mesmo depois de eu o ter provocado.
     Observava a forma como Taylor arrumava as cadeiras em volta da mesa.
     Denise assentiu.
     - Eu sei.
     Apesar desta sua resposta, no podia deixar de se interrogar que motivo, assim de repente, isso parecia no ser o suficiente. Ps a tampa na caixa do Tupperware.
     - O Mitch contou-lhe alguma coisa que tenha acontecido l fora com os meninos?
     Melissa olhou para ela com curiosidade.
     - No, por qu?
     Denise meteu a salada no frigorfico.
     - Era s para saber.
     "Ento vais casar-te com est garota ou qu?"
      medida que bebericava a cerveja, as palavras ecoavam na sua mente.
     - Ei, por que  que ests to taciturno? Perguntou Mitch, enchendo um saco de plstico para o lixo com os restos da refeio.
     Taylor encolheu os ombros.
     - S estou preocupado.  tudo.
     - Com qu?
     - Coisas do trabalho. Estou tentando determinar tudo o que tenho de fazer amanh, respondeu Taylor, apresentando apenas uma parte da verdade. Tenho passado 
muito tempo com a Denise e desleixei um pouco os meus negcios. Tenho de voltar a eles.
     - No tens l ido todos os dias?
     - Sim, mas nem sempre l fico o dia inteiro. Sabes como . Se fizermos isso durante muito tempo, comeam a surgir problemas.
     - Posso ajudar em alguma coisa? Ver como vo as tuas encomendas ou coisas do gnero?
     Taylor fazia o grosso das suas encomendas atravs do armazm de materiais.
     - No, no  preciso, mas tenho de pr as coisas em ordem.
Se h alguma coisa que aprendi  que quando as coisas comeam a andar mal, vo por gua abaixo num instante.
     Mitch hesitou deitando um copo de papel para dentro do saco.
     A ltima vez que Taylor falara da mesma maneira estava de namoro com Lori.
     Meia hora mais tarde, Taylor e Denise  estavam no caminho de regresso a casa com Kyle no meio dos dois, uma cena repetida vezes sem conta. Todavia agora, pela 
primeira vez, havia no ar uma certa tenso sem um motivo que qualquer deles pudesse explicar. Mas era um fato que os mantinha calados a tal ponto que Kyle adormecera, 
embalado pelo silncio.
     Para Denise est sensao era surpreendente. Continuava a pensar em tudo quanto Melissa lhe contara, as suas afirmaes martelando-lhe o crebro como um jogo 
eletrnico sem sentido, fazendo ricochete. No lhe apetecia falar e o mesmo acontecia com Taylor. Tinha estado estranhamente distante e isso apenas aumentava os 
seus pressentimentos. O que deveria ter sido uma noite agradvel e informal passada em casa de amigos, tinha-se tornado, disso Denise estava certa, em algo muito 
mais srio.
     Tudo bem, Taylor quase se engasgara quando Melissa lhe perguntara se o casamento estava nos seus planos. Isto surpreenderia qualquer um, sobretudo pela forma 
abrupta e impensada como ela se exprimira, no  verdade? J no caminho, Denise convencera-se de que assim era, mas quanto mais pensava tanto mais insegura se sentia. 
Trs meses no  muito tempo quando se  jovem. Mas tambm j no eram crianas. Ela ia a caminho dos trinta e ele tinha mais seis anos. J deviam ter crescido, 
saber exatamente quem eram e o que pretendiam da vida. Ele no levava a srio o seu futuro em conjunto, como parecia, ento qual era o motivo por que a cumulava 
de atenes e carinhos ao longo dos ltimos meses?
     "Tudo quanto sei  que, num dia tudo parecia estar a correr bem e no seguinte,  estava tudo acabado. Nunca percebi por que".
     Isto tambm a incomodava, no incomodava? Se Melissa no tinha percebido o que se passara nas outras relaes de Taylor provavelmente Mitch tambm no. Significaria 
que Taylor compreendia a situao?
     E se assim era, iria acontecer-lhe o mesmo?
     Denise sentiu um n no estmago e relanceou, insegura, o olhar sobre Taylor. Pelo canto do olho, Taylor apanhou-lhe aquele movimento rpido e voltou-se para 
a encarar, aparentemente desatento aos seus pensamentos. Do lado de fora da janela, as rvores que farfalhavam  sua passagem eram escuras e fundiam-se umas nas 
outras, refletindo uma nica imagem.
     - Divertiste-te est noite?
     - Sim, me diverti, respondeu Denise calmamente. Gosto dos teus amigos.
     - Como  que tu e a Melissa se deram?
     - Demo-nos bem.
     - Uma coisa que, com certeza, j reparaste  que ela diz a primeira coisa que lhe vem  cabea, independentemente de quo ridcula possa ser. s vezes temos 
de ignor-la.
     Este comentrio no ajudou em nada ao nervosismo de Denise. Kyle resmungou, incoerente,  medida que se acomodava deslizando um pouco mais no assento. Denise 
interrogava-se por que razo as coisas que ele no dissera pareciam, subitamente, mais importantes do que as que tinha dito.
     "Quem s tu, Taylor McAden?"
     "At que ponto  que eu, de fato, te conheo? E, mais importante, para onde caminhamos a partir de agora?"
     Ela sabia que ele no responderia a nenhuma destas questes. Ao invs, respirou fundo, desejando que a sua voz se mantivesse firme.
     - Taylor... Por que  que no me contaste o que aconteceu ao teu pai? Inquiriu ela.
     Taylor esbugalhou os olhos.
     - Ao meu pai?
     - Melissa contou-me que ele morreu num incndio.
     Ela percebeu como as mos dele se apertaram mais em torno do volante.
    - Como  que surgiu esse assunto? Quis ele saber, o seu tom de voz ligeiramente alterado.
     - No sei. Aconteceu.
     - A idia de falar nisso partiu dela ou de ti?
     - O que  que isso interessa? No me lembro como surgiu.
     Taylor ficou calado; os seus olhos estavam fixos na estrada  sua frente. Denise aguardou, depois percebeu que ele no ia responder  sua primeira pergunta.
     - Foste para bombeiro por causa do teu pai?
     Sacudindo a cabea, Taylor soprou o ar com fora.
     - Prefiro no falar disso.
     - Talvez eu possa ajudar...
     - No podes, afirmou ele cortando-lhe a palavra e, alm disso,  um a coisa que no te diz respeito.
     - No me diz respeito? Perguntou ela sem acreditar no que ouvia. O que  que ests a dizer? Eu importo-me contigo, Taylor, e magoa-me pensar que tu no confias 
em mim o suficiente para me contares o que te preocupa.
     - No h nada a preocupar-me afirmou ele. S que no gosto de falar do meu pai.
     Podia t-lo pressionado um pouco mais, mas sabia que isso no a levava a lado nenhum.
     Mais uma vez o silncio se abateu dentro do caminho. Desta vez, porm, o silncio estava marcado pelo medo. E assim se manteve at chegarem a casa.
     Depois de Taylor ter levado Kyle para o quarto, esperou Denise na sala de espera at ela lhe vestir o pijama. Quando ento verificou que ele no se pusera  
vontade. Ao contrrio,  estava de p perto da porta como se esperasse para se despedir.
     - No vais c ficar? Inquiriu ela com surpresa.
     Ele abanou a cabea.
     - No, na verdade no posso. Amanh tenho de ir trabalhar bastante cedo.
     Se bem que ele o tenha dito sem azedume ou raiva, as suas palavras no dissiparam o desconforto dela. Comeou a fazer tilintar as chaves na mo e Denise atravessou 
a sala para se aproximar dele.
     - Tens a certeza?
     - Sim, tenho a certeza.
     Ela pegou-lhe na mo.
     - H alguma coisa que te esteja a preocupar?
     Taylor sacudiu a cabea.
     - No, nada de nada.
     Ela esperou para ver se ele acrescentava mais alguma coisa, mas ele ficou-se por ali.
     -Est bem. Nos vemos amanh?
     Taylor aclarou a garganta antes de responder: - Vou tentar, mas amanh tenho um dia muito sobrecarregado. No sei se poderei passar por c.
     Denise examinou-o atentamente, o seu pensamento vagueando.
     - Nem mesmo para almoar?
     - Vou fazer o possvel, replicou ele, mas no prometo nada.
     Os olhos de ambos encontraram-se por breves instantes e depois ele fitou o espao.
     - Vais ter possibilidade de me levares ao restaurante amanh  noite?
     Por um rpido e arrepiante momento, quase pareceu a Denise que ele no queria que ela lhe fizesse aquela pergunta.
     Seria imaginao sua?
     - Sim, claro. Acabou ele por dizer finalmente. - Eu levo-te l.
     Saiu, depois de lhe ter dado um beijo fugidio, e afastou-se em direo ao caminho sem se voltar.
CAPTULO 22
     Na manh seguinte, enquanto Denise bebia uma chvena de caf, o telefone tocou. Kyle estava estendido no cho da sala de estar, a pintar o melhor que podia, 
tendo, no entanto, dificuldade em no ultrapassar as linhas do desenho. Quando atendeu, reconheceu de imediato, a voz de Taylor.
     - Oh, ei, ainda bem que j ests de p! Exclamou ele.
     - A est hora j estou sempre a p retorquiu ela, tomada por uma estranha sensao de alivio que se apoderou dela ao ouvir o som da voz dele. Ontem tive saudades 
tuas.
     - Tambm eu, confessou ele. Se calhar, devia ai ter ficado. No dormi bem.
     - Nem eu, admitiu ela. Passei a noite a acordar por ter, excepcionalmente, a roupa toda s para mim.
     - Eu no fico com os lenis s para mim. Deve estar a pensar noutra pessoa qualquer.
     - Como quem, por exemplo?
     - Talvez um daqueles homens do restaurante.
     - Acho que no. Ela riu  socapa. Ei, ests a telefonar por teres mudado de idias quanto ao almoo?
     - No, no posso. Hoje no. No entanto, passo por a depois de acabar, para te levar ao emprego.
     - E uma ceia antecipada?
     - No, acho que no vou conseguir despachar-me, mas agradeo-te a oferta. Tenho um carregamento de paredes em bruto que vm tarde e penso que no conseguiria 
chegar a tempo.
     Ela virou-se no mesmo lugar e o fio do telefone esticou-se em volta dela. "Fazem distribuies depois das cinco?"
     Contudo no disse nada. Ao invs disse alegremente:
     - Oh, est bem. Vejo-te logo  noite.
     Fez-se um silncio mais prolongado do que ela esperava.
     - Est bem - acabou ele por concordar.
     - O Kyle no parou de perguntar por ti toda a tarde informou Denise displicente.
     Tal como procolocara, Taylor estava na cozinha  espera que ela reunisse as suas coisas, se bem que no tivesse vindo muito antes de ela ter de sair. Haviam-se 
beijado rapidamente e ele parecia um pouco mais distante do que o habitual, embora se desculpasse por isso, atribuindo a circunstncia a problemas no local de trabalho.
     - Ah sim? Onde  que est o garotinho?
     - L fora, nas traseiras. Acho que no te ouviu chegar. Deixa-me ir cham-lo.
     Depois de Denise abrir a porta e t-lo chamado, Kyle veio a correr para casa. Aps um instante, precipitou-se para o seu interior.
     - O, Tayer cumprimentou ele com um grande sorriso no rosto. Ignorando a me, lanou-se na direo de Taylor e saltou. Taylor agarrou-o facilmente.
     - Ei, meu rapaz. Como foi o teu dia?
     Denise no pde deixar de reparar na diferena de comportamento de Taylor enquanto elevava Kyle ao nvel dos olhos.
     -Est aqui! Gritava Kyle contente.
     - Desculpa, mas hoje estive muito ocupado, desculpou-se Taylor sentindo o que afirmava. Tiveste saudades minhas?
     - Sim - respondeu ele. - Tive saudades tuas.
     Era a primeira vez que respondia a uma pergunta corretamente sem lhe pedirem que o fizesse, ficando os outros dois em silncio pelo choque.
     E, por um segundo, as preocupaes que Denise sentira na vspera foram esquecidas.
     Se Denise estava  espera que aquela simples afirmao de KyIe lhe aliviasse as preocupaes acerca de Taylor, enganou-se redondamente.
     No que as coisas se deteriorassem logo em seguida. Na  realidade, em muitos aspectos, as coisas no pareciam de todo muito diferentes, pelo menos durante a 
semana seguinte, pouco mais ou menos. Se bem que Taylor, apresentando o trabalho como desculpa tivesse deixado de aparecer durante a tarde, continuava a ir lev-la 
e a ir busc-la ao restaurante. Tambm fizeram amor na noite em que Kyle falara.
     No entanto, as coisas estavam a mudar, isso era bvio. Nada de dramtico; era mais como o desenrolar de um cordel, um desapego gradual de tudo o que se tinha 
estabelecido ao longo do Vero. Menos tempo juntos significava menos tempo para simplesmente se abraarem ou conversarem, e por est razo, era difcil a Denise 
ignorar as campainhas de alerta que tinham soado na noite em que jantaram em casa de Mitch e de Melissa.
     Mesmo nesta altura, uma semana e meia depois, as coisas que foram ditas naquela noite ainda a perturbavam, mas, simultaneamente, ela interrogava-se, conscienciosa, 
se no estaria a exacerbar toda a situao. Taylor no tinha, em boa verdade, feito nada de errado, por assim dizer, e era isso que tornava o seu recente comportamento 
difcil de entender.
     Negara que algo o preocupasse, no levantara a voz; ainda no tinham discutido. No domingo  tarde tinham ido para o rio, como haviam feito inmeras vezes. 
Continuava fantstico para com Kyle e mais do que uma vez lhe segurara a mo enquanto a conduzia ao restaurante.  primeira vista, tudo parecia igual.
     A principal mudana  estava na sbita e intensa devoo ao trabalho, coisa que ele explicara. Todavia...
     Todavia, o qu?
     Sentada no alpendre enquanto Kyle brincava com os seus caminhes no pano, Denise tentou pr o dedo na ferida. J andava neste mundo h tempo suficiente para 
conhecer algumas caractersticas das facetas das relaes humanas. Sabia que os sentimentos iniciais associados ao amor eram quase como uma vaga do oceano na sua 
intensidade, atuando como uma fora magntica que unia duas pessoas. Era possvel ser arrastado pelas emoes, mas a onda no duraria para sempre. No podia, nem 
era assim que devia ser, mas se duas pessoas fossem a pessoa certa para cada uma, uma espcie de amor verdadeiro podia ser eterno no seu curso. Pelo menos, ela assim 
acreditava.
     No entanto, Taylor quase parecia que tinha sido apanhado pela onda, alheio ao que pudesse ficar para trs, e agora que ele percebera, tentava remar contra a 
mar. No o tempo todo... Mas durante uma parte do tempo, e era isto que ela parecia ter notado ultimamente. Era quase como se utilizasse o trabalho como desculpa 
para evitar as novas realidades da situao de ambos.
     Naturalmente que se as pessoas comeassem a procurar algo em especial, era muito provvel que encontrassem, e ela esperava que este fosse o caso. Podia simplesmente 
tratar-se de uma preocupao de Taylor pelo trabalho e os seus motivos serem razoavelmente genunos.  noite, depois de ir busc-la, ele parecia suficientemente 
cansado para Denise perceber que ele no estava a mentir ao dizer-lhe que trabalhava o dia inteiro.
     Assim, mantinha-se o mais ocupada possvel, esforando-se por no ficar a imaginar o que poderia estar a acontecer entre eles. Enquanto Taylor parecia afundar-se 
em trabalho, Denise atirava-se s lies de Kyle com energia renovada. Agora que ele falava mais, ela comeara a trabalhar frases e idias mais complexas e elaboradas, 
sem descurar outras capacidades associadas  escola. Uma a uma, comeou a ensinar-lhe instrues simples e ajudava-o a melhorar a tcnica de pintar.
     Tambm introduziu o conceito dos nmeros, o que parecia no fazer qualquer sentido para o garotinho. Limpava a casa, fazia os seus turnos, pagava as contas, 
em resumo, vivia a sua vida muito em conformidade com o que fazia antes de conhecer Taylor McAden. Mas mesmo sendo uma vida a que ela estava habituada, passava a 
maior parte da tarde a olhar para fora da janela da cozinha, na esperana de o ver subir o caminho de acesso.
     Por norma, isso no acontecia.
     Involuntariamente, dava consigo a ouvir as palavras de Melissa.
     "Tudo quanto sei  que, num dia tudo parecia estar a correr bem e no seguinte,  estava tudo acabado".
     Denise sacudia a cabea, esforando-se por afastar o pensamento. Se bem que no quisesse acreditar em semelhante coisa acerca dele, ou deles, tornava-se cada 
vez mais difcil no o fazer. Incidentes como o da vspera s reforava as suas dvidas.
     Resolvera fazer um passeio de bicicleta com Kyle at  casa que Taylor andava a trabalhar, e vira o seu caminho estacionado  frente daquela. Os proprietrios 
queriam remodelar todo o interior, a cozinha, os quartos de banho, a sala de estar, e uma enorme pilha de madeira velha que tinha sido retirada das entranhas da 
casa servia de prova de que se tratava de um projeto gigantesco. No entanto, quando ela espreitou l para dentro para cumpriment-lo, os empregados de Taylor disseram-lhe 
que ele estava nas traseiras, debaixo de uma rvore, a almoar. Quando, por fim, o encontrou, ele fez um ar de quem se sentia culpado por alguma coisa, como se tivesse 
sido apanhado a fazer um disparate. Kyle, desatento a est expresso, correu para ele e este levantou-se para saudar Denise.
     - Ei, Taylor. Como vais?
     - timo. Limpou as mos s jeans.  Estava aqui a comiscar umas coisitas, explicou ele.
     O almoo viera do Hardee's, o que significava que ele tinha de ter passado pela casa dela para se deslocar ao ponto mais distante da cidade para compr-lo.
     - Bem vejo - comentou ela, tentando que a sua preocupao no transparecesse.
     - Ento, o que  que andas a fazer por aqui?
     - No era isso propriamente que eu gostaria de ouvir.  Exibindo uma expresso corajosa, ela sorriu. - Apenas quis parar para te cumprimentar.
     Aps alguns instantes, Taylor conduziu-os para o interior da casa, descrevendo o projeto de restaurao quase como se estivesse a falar com desconhecidos. L 
no fundo, ela suspeitava que fosse uma forma de ele evitar uma pergunta bvia como, por exemplo, por que motivo tinha ele decidido comer ali em vez de ir almoar 
com ela, como havia feito ao longo de todo o Vero, ou por que razo no havia parado ao passar por sua casa.
     Todavia, nessa mesma noite, quando a foi buscar para lev-la ao emprego, no falou muito.
     O fato de isto se repetir nos ltimos tempos, deixou Denise ansiosa ao longo de todo o tempo do seu turno.
      apenas por alguns dias, explicava Taylor encolhendo os ombros.
     Estavam sentados no sof da sala de estar enquanto Kyle via os desenhos animados na televiso.
     Tinha decorrido mais uma semana e nada se alterara. Ou antes, tudo se alterara. Tudo dependia da perspectiva, e naquele momento, Denise inclinava-se firmemente 
para a ltima.
     Era tera-feira e ele acabara de chegar para a levar ao restaurante. A sua satisfao por ele ter vindo mais cedo se evaporou quase de imediato ao inform-la 
de que iria para fora por alguns dias.
     - Quando  que decidiste isso? Perguntou ela.
     - Est manh. Alguns tipos conhecidos vo e perguntaram-me se os queria acompanhar. Na Carolina do Sul poca da caa abre duas semanas mais cedo que aqui, 
ento achei que devia ir com eles. Estou a precisar descanso.
     "Ests a falar de mim ou do trabalho?"
     - Ento vais-te embora amanh?
     Taylor mexeu-se ligeiramente.
     - Na verdade,  mais a meio da noite. Samos por volta das trs da madrugada.
     - Vais estar exausto.
     - Nada que um termo de caf no consiga resolver.
     - No devias ter vindo buscar-me, ento, sugeriu Denise.  - Precisas de dormir umas horas.
     - No te preocupes com isso. Vou l estar.
     Denise abanou a cabea.
     - No, vou falar com a Rhonda. Ela traz-me a casa.
     - Tens a certeza de que no te importas?
     - Ela no mora muito longe daqui. E ultimamente no lhe tenho pedido.
     Taylor ps um brao em redor dos ombros de Denise, surpreendendo-a com est atitude. Puxou-a para si.
     - Vou ter saudades tuas.
     - Vais? Perguntou ela, detestando o tom melanclico da sua voz.
     - Claro. Principalmente por volta da meia-noite. O mais certo  enfiar-me no caminho pela fora do hbito.
     Denise sorriu, pensando que a ia beijar. Ao invs, ele voltou apontando para Kyle com o queixo.
     - E tambm vou ter saudades tuas, meu rapaz.
     - Sim afirmou Kyle com os olhos colados ao televisor.
     - Ei, Kyle chamou Denise -, o Taylor vai-se embora uns dias.
     - Sim repetiu Kyle, obviamente sem a ter ouvido.
     Taylor afastou-se do sof e aproximou-se de Kyle engatinhando.
     - No me ests a ligar nenhuma, Kyle! Resmungou ele.
     Quando j se encontrava perto, Kyle percebeu as intenes e guinchou quando tentava escapar-se. Taylor agarrou-o facilmente e comearam a lutar no cho.
     - Ests a ouvir-me? Inquiriu Taylor 
     - Est a lutar. Kyle dava risadas agudas, agitando os braos e as pernas. (T lut)
     - Vou dar cabo de ti, rugiu Taylor, e durante os minutos seguintes foi um pandemnio no cho da sala de estar.
     Quando Kyle ficou cansado, Taylor deixou-o afastar-se.
     - Ei, quando eu voltar, vou levar-te a um jogo de basebol.
     - Isto , se a tua me estiver de acordo, claro.
     - Jogo de bessbaw. Repetiu Kyle com espanto.
     - Por mim, tudo bem.
     Taylor piscou o olho a Denise e depois a Kyle.
     - Ouviste? A tua me diz que podemos ir.
     - Jogo de bessbaw gritou Kyle, desta vez ainda mais alto.
     Ao menos com Kyle ele no mudou. Denise deu uma mirada ao relgio.
     - Est na hora, suspirou ela.
     - J?
     Denise assentiu, em seguida levantou-se do sof para ir buscar as suas coisas. Uns breves instantes depois, iam a caminho do restaurante. Quando chegaram, Taylor 
acompanhou Denise at  porta.
     - Telefonas-me?
     - Vou tentar, prometeu ele.
     Ficaram a olhar um para o outro por uns momentos e Taylor deu-lhe um beijo de despedida. Denise entrou, esperando que a viagem o ajudasse a aclarar as idias 
ou o que quer que fosse que o andava a incomodar.
     Talvez assim acontecesse, mas ela no tinha forma de o saber.
     Ao longo dos quatro dias seguintes, no teve notcias dele.
     Detestava ficar  espera que o telefone tocasse.
     No fazia parte da sua personalidade proceder desta maneira; era uma nova experincia. Na faculdade, a sua colega de quarto recusava-se a sair  noite porque 
pensava que o namorado podia telefonar. Denise sempre fizera o possvel para convencer-la a acompanh-la, mas habitualmente no era bem sucedida, e ento ia-se embora 
para se encontrar com outros amigos. Sempre que explicava o motivo por que a sua companheira de quarto no viera, todos eles juravam que nunca fariam semelhante 
coisa.
     Contudo, ali estava ela, e, de sbito, no parecia assim to fcil seguir o seu prprio conselho.
     No que ela tivesse deixado de viver a sua vida, como sucedera com a sua colega. Tinha demasiadas responsabilidades para se dar a esse luxo. Mas isso no a 
impedia de correr para o telefone sempre que este tocava e de experimentar uma sensao de desapontamento quando no era Taylor.
     Toda a situao a fazia sentir-se indefesa, e ela detestava est sensao. No era, nem nunca fora, o tipo de mulher dada a abatimentos e recusava-se a transformar-se 
numa delas. Pronto, ele no telefonou... E isso que importa? Porque  estava a trabalhar, no a podia apanhar  noite, e ele, provavelmente, passava o dia inteiro 
nos bosques. Quando  que lhe podia telefonar? No meio da noite? Ao romper da aurora?
     Claro que ele podia telefonar e deixar uma mensagem quando ela no estivesse, mas por que razo estava ela  espera que ele o fizesse? E por que carga de gua 
parecia isso ser assim to importante?
     No vou ser assim, dizia de si para si. Depois de explorar todas as explicaes de novo e de se convencer que faziam sentido, Denise ia em frente. Na sexta-feira 
levou Kyle ao parque; no sbado deram um grande passeio no bosque. No domingo foram  igreja e passaram o principio da tarde a desempenhar outras tarefas.
     Denise conseguira juntar, agora, dinheiro suficiente para comprar um carro (velho e usado, barato, mas seguro) e comprou dois jornais por causa dos anncios. 
A parada seguinte foi no armazm de mercearias, passou os corredores a pente fino, fazendo uma seleo cuidadosa pois no queria levar excesso de peso no regresso 
a casa. Kyle fixava atentamente a imagem de um crocodilo dos desenhos animados, numa caixa de cereais, quando Denise ouviu chamar o seu nome. Ao virar-se, avistou 
Judy a empurrar o carrinho na sua direo.
     - Bem me parecia que era voc! Exclamou Judy alegremente. - Como vai?
     - Ol, Judy! Estou bem.
     - Ei, Kyle - cumprimentou Judy.
     - O, Miss Jewey murmurou ele, ainda enamorado pela caixa.
     Judy afastou o carrinho para um dos lados.    Ento o que  que tem andado a fazer ultimamente? Voc e Taylor j h muito tempo que no aparecem para jantar.
     Denise encolheu os ombros, experimentando uma sensao de embarao.
     - O mesmo de sempre. Tenho estado muito ocupada com o Kyle.
     - Eles so assim mesmo. Como  que ele vai indo?
     - Teve, seguramente, um timo Vero. No tiveste Kyle?
     - Sim, respondeu ele tranquilamente.
     Judy dirigiu-lhe, radiante, a sua ateno. - Ests a ficar muito bonito. E j ouvi dizer que tambm ests a ficar muito bom no basebol.
     - Bessbau repetiu Kyle, animando-se e desfitando, por fim, a caixa.
     - O Taylor tem-no ajudado, acrescentou Denise. E o Kyle gosta muito do jogo.
     - Ainda bem. Fico satisfeita.  muito mais fcil para uma me ver o filho jogar basebol do que futebol americano. Eu costumava fechar os olhos sempre que Taylor 
jogava. Era normal ele ficar esmagado pelos outros; ouvia nas bancadas e ficava com pesadelos.
     Denise deu uma gargalhada enquanto Kyle observava sem compreender. Judy continuou.
     - No esperava encontr-la aqui. Imaginei que estivesse com Taylor. Ele disse-me que ia passar o dia convosco.
     Denise passou a mo pelos cabelos.
     - Ah, sim?
     Judy assentiu.
     - Ontem. Passou por l depois de chegar a casa.
     -Ento... J voltou?
     Judy olhou-a, curiosa. As palavras seguintes foram ditas com precauo.
     - Ele no lhe telefonou?
     -No.
     Enquanto respondia, Denise cruzou os braos e voltou-se, tentando no mostrar a sua decepo.
     - Bom, talvez voc estivesse a trabalhar, disse Judy suavemente.
     No entanto, mesmo enquanto Judy falava, ambas sabiam que no era verdade.
     Duas horas depois de chegar a casa, ela avistou Taylor a subir o caminho de acesso. Kyle estava a brincar no jardim da frente e disparou imediatamente para 
o caminho, correndo por sobre a relva. Mal Taylor abriu a porta, Kyle saltou-lhe para os braos.
     Denise desceu para o alpendre com emoes contraditrias, perguntando-se se ele teria vindo por Judy, eventualmente, lhe ter telefonado depois de se encontrarem 
no armazm. Perguntando-se se, de outra forma, ele teria vindo na mesma. Perguntando-se por que  que ele no lhe telefonara enquanto estivera fora e perguntando-se 
por que razo, apesar de tudo, o seu corao ainda batia mais forte quando o via.
     Depois de Taylor pr Kyle no cho, este agarrou-lhe a mo e ambos comearam a percorrer o caminho em direo ao alpendre.
     - Ei, Denise, saudou Taylor com alguma desconfiana, quase como se soubesse naquilo que ela  estava a pensar.
     - Ol, Taylor.
     Quando ela ficou parada no alpendre sem se dirigir a ele, Taylor hesitou antes de se aproximar. Saltou os degraus enquanto Denise recuava um passo, sem o olhar 
nos olhos. Ao tentar beij-la, desviou-se ligeiramente.
     - Ests zangada comigo? Perguntou ele.
     Ela olhou em volta do ptio antes de encar-lo.
     - No, Taylor. Devia estar?
     - Tayer! Exclamou Kyle outra vez. - Tayer est aqui.
     Denise segurou-lhe a mo. - Podes ir l para dentro por um bocadinho, meu amor?
     - Tayer est aqui.
     - Bem sei. Mas faz-me um favor e deixa-nos a ss, est bem?
     Alcanando o guarda-vento atrs de si, ela abriu-o e deixou entrar Kyle. Depois de se certificar de que estava ocupado a brincar com os brinquedos, regressou 
ao alpendre.
     - Ento o que  que se passa? Inquiriu Taylor.
     - Por que motivo no telefonaste enquanto estiveste fora?
     Taylor encolheu os ombros.
     - No sei... Acho que no tive tempo. Andvamos pelo campo o dia inteiro e quando chegava ao motel estava exausto.  por isso que ests zangada?
     Sem lhe dar resposta, Denise continuou:
     - Por que razo disseste  tua me que vinhas passar o dia conosco se no era isso o que pretendias fazer?
     - Para qu tantas perguntas? Eu passei por c, o que  que pensas que estou a fazer neste momento?
     Denise respirou fundo.
     - Taylor, o que  que se passa contigo?
     - O que  que queres dizer?
     - Tu sabes o que eu quero dizer.
     - No, no sei. Ouve, regressei ontem, estava estourado e tive de tratar de uma srie de coisas hoje de manh. Por que  que ests a fazer uma tempestade num 
copo de gua por causa disto?
     - No estou a fazer uma tempestade num copo de gua...
     - Ai isso  que ests. Se no me quiseres c, basta dizeres e eu meto-me no caminho e vou-me embora.
     - No  que no te queira c, Taylor. S no entendo por que motivo andas a agir como andas.
     - E como  que eu ando a agir?
     Suspirou, tentando encontrar as palavras.
     No sei Taylor... Difcil de explicar.  como se j no soubesses o que queres. Isto , em relao a ns.
     A expresso de Taylor no se alterou.
     - Onde  que foste buscar essas idias? O qu estiveste a falar com a Melissa outra vez?
     - No. A Melissa no tem nada a ver com isto, respondeu ela com frustrao e um tanto arreliada. S que tu mudaste e, s vezes, j nem sei o que pensar.
     - S porque no telefonei? J te expliquei. Ele deu um passo em direo a ela, a sua expresso suavizando-se. No tive tempo.  s isso.
     Sem saber se devia acredit-lo ou no, ela hesitou. Entretanto, como se pressentisse que alguma coisa no  estava bem, Kyle empurrou o guarda-vento.
     - V l! Pediu ele. Vamos entrar. (V . Amos ent.)
     Durante um momento, todavia, no se mexeram.
     - V l! Incitou Kyle, puxando pela camisa de Denise.
     Ela olhou na sua direo, forou um sorriso e ergueu os olhos de novo. Taylor sorria, esforando-se por quebrar o gelo.
     - Se me deixares entrar, tenho uma surpresa para ti.
     Enquanto pensava, Denise cruzou os braos. Atrs de Taylor, no ptio, um gaio assobiou de um dos balastres da vedao. Kyle olhava na expectativa.
     - Qual  a surpresa? Acabou ela por perguntar, cedendo.
     -Est no caminho. Vou l busc-la.
     Taylor recuou, observando-a atentamente, percebendo que aquela pergunta significava que ela ia deix-lo l ficar. Antes que ela mudasse de idias, fez um movimento 
com a cabea para Kyle.
     - Anda da, podes ajudar-me.
      medida que se encaminhavam para o caminho, Denise sentiu as suas emoes digladiando-se no peito. Mais uma vez as suas explicaes pareciam plausveis, tal 
como acontecia de h duas semanas a est parte. Mais uma vez fora fantstico com Kyle.
     'Ento, por que  que no acreditava nele?"
     Nessa mesma noite, depois de Kyle adormecer, Denise e Taylor sentaram-se no sof da sala de estar.
     - Ento, gostaste da surpresa?
     - Uma maravilha! Mas no tinhas de me encher o congelador.
     - Bom, o meu j  estava cheio.
     - A tua me poderia ter ficado com algumas coisas.
     Taylor encolheu os ombros.
     - O dela tambm est cheio.
     - Quantas vezes costumas ir caar?
     - Tantas quantas posso.
     Antes do jantar, Taylor e Kyle tinham estado a jogar  apanhada no jardim, Taylor preparou a refeio, ou melhor, preparou uma parte. Com o veado, trouxera 
salada de batatas e feijes cozidos do supermercado. Agora, descontraindo-se pela primeira vez, Denise sentia-se melhor do que durante as duas ltimas semanas. A 
nica luz da sala provinha de um candeeiro de canto e o rdio transmitia, em pano de fundo, uma msica suave.
     - Ento quando  que levas o Kyle a ver o jogo de basebol?
     - Estava a pensar no prximo sbado, se estiveres de acordo. Vai disputar-se um jogo em Norfolk.
     - Oh,  o aniversrio dele! Exclamou ela desapontada.
     - Estava a pensar fazer-lhe uma festa, uma festa pequena.
     - A que horas  a festa?
     - Provavelmente por volta do meio-dia.  noite tenho de ir trabalhar.
     - O jogo comea s sete. E se eu levar Kyle ao jogo enquanto ficas a trabalhar?
     - Mas eu tambm gostaria de acompanhar-vos.
     - Ah, deixa-nos passar uma noite s de homens. Ele vai gostar.
     - Sei que sim. J o conseguiste fascinar por esse jogo.
     - Ento ests de acordo que o leve? Voltamos a tempo de te ir buscar.
     Ela pousou as mos no regao. 
     - Est bem, ganhaste. No o faas ficar muito tempo se ele se cansar.
     Taylor ergueu as mos.
     - Palavra de escoteiro. Venho busc-lo as cinco e l pelo fim da noite j ele estar  a comer amendoins e cachorros quentes e a cantar "Leva-me ao Jogo de Basebol".
     Ela deu-lhe uma cotovelada nas costelas. - Ah, pois, sem dvida!
     - Bom, talvez tenhas razo. Mas no ser por no tentar.
     Denise encostou a cabea no ombro dele. Ele cheirava a sal e a vento.
     - s um bom tipo, Taylor.
     - Esforo-me por isso.
     - No, estou a falar a srio. Fizeste sentir-me especial nestes ltimos meses.
     - Tambm tu.
     Durante um longo espao de tempo, o silncio encheu a sala como uma presena viva. Ela sentia o peito de Taylor subir e descer a cada respirao. Por mais maravilhosa 
que a noite tivesse sido, no conseguia esquecer as preocupaes que a tinham perturbado nas ltimas duas semanas.
     - Alguma vez pensas no futuro, Taylor?
     Ele aclarou a garganta antes de responder.
     - Claro, s vezes. No entanto, no vai muito alm da refeio seguinte.
     Ela pegou-lhe na mo, entrelaando os seus dedos nos dele.
     - Alguma vez pensas em ns? Quero dizer, para onde  que caminhamos com isto tudo. Taylor no respondeu e Denise continuou.
     - Tenho andado a pensar que temos estado juntos estes meses, mas por vezes no sei qual  a tua posio face a isto tudo. Isto , nesta s duas ltimas semanas... 
No sei... D a sensao que tu te ests a afastar. Tens trabalhado tantas horas que no temos muito tempo para estar juntos e quando tu no telefonaste...
     Ela calou-se, deixando os pensamentos suspensos, sabendo que se estava a repetir. Sentiu no corpo uma ligeira tenso quando ouviu a resposta dele que lhe saia 
num sussurro rouco.
     - Eu gosto de ti, Denise, se  o que me ests a perguntar.
     Ela pestanejou e fechou os olhos um longo momento antes de os abrir de novo.
     - No. No  isso... Ou, antes, no  s isso. Acho que preciso de saber se tens intenes srias sobre ns.
     Ele puxou-a para si, passando-lhe a mo pelos cabelos.
     - Claro que so srias. Mas como te disse, as minhas perspectivas de futuro no vo to longe. No me considero o tipo inteligente que tu j alguma vez conheceste.
     Sorriu com a sua prpria piada. A insinuao no ia ser suficiente. Denise respirou fundo.
     - Muito bem, quando pensas no futuro, o Kyle e eu fazemos parte dele? Inquiriu ela diretamente.
     A sala estava tranqila enquanto ela esperava uma resposta. Passando a lngua pelos lbios, ela apercebeu-se que tinha a boca seca. Por fim, ouviu-o suspirar.
     - No posso prever o futuro, Denise. Ningum pode. Porm, tal como te disse, gosto de ti e gosto do Kyle. Por ora no chega?
     No  preciso dizer que est no era a resposta que ela esperava, todavia levantou a cabea do ombro dele e olhou-o nos olhos.
     - Sim, mentiu ela. Por ora chega.
     Durante a noite, depois de se terem amado e adormecido juntos, Denise acordou e viu Taylor de p em frente da janela olhando para as  rvores, contudo pensando, 
obviamente, em qualquer outra coisa. Observou-o durante longos momentos, at que finalmente ele voltou para a cama. Enquanto puxava o lenol, Denise virou-se para 
ele.
     - Ests bem? Murmurou ela.
     Taylor ficou surpreendido ao ouvir a sua voz.
     - Desculpa, acordei-te?
     - No, j estou acordada h um bocadinho. O que  que se passa?
     - Nada. No conseguia dormir.
     - Ests preocupado com alguma coisa?
     - No.
     - Ento, por que  que no consegues dormir?
     - No sei.
     - Alguma coisa que eu fiz?
     Ele inspirou longamente.
     No. Est tudo bem contigo.
     Com est afirmao, ele abraou-a e puxou-a para si.
     Na manh seguinte Denise acordou sozinha.
     Desta vez Taylor no estava a dormir no sof. Desta vez no lhe fez a surpresa de preparar o pequeno-almoo. Esgueirou-se sem que ningum desse conta e os telefonemas 
para sua casa no foram atendidos. Por uns instantes, Denise ficou indecisa sobre passar mais tarde pelo seu local de trabalho, Porm, a recordao da sua ltima 
visita impediu-a de levar a cabo aquela idia.
     Ao invs, passou em revista a noite anterior, tentando efetuar uma melhor anlise da mesma. Por cada aspecto positivo, parecia haver um negativo. Sim, ele tinha 
l ido a casa... Mas isso podia ter sido por causa da me lhe ter dito alguma coisa. Sim, ele tinha sido fantstico com Kyle... Mas podia estar a centrar a sua ateno 
no garoto para evitar o que, de fato, o preocupava. Sim, dissera-lhe que gostava dela... Mas no o suficiente para, nem sequer, pensar no futuro? Tinham feito amor... 
Mas a primeira coisa que fez foi desaparecer sem to-pouco lhe dizer adeus.
     Anlise, reflexo, dissecao... Detestava reduzir a sua relao a estes pontos. Parecia to anos oitenta, to ligados s psico-baboseiras, uma enorme quantidade 
de palavras e atos que poderiam ou no ter nenhum significado. No, fora de questo. Tinham um significado, e era esse exatamente o problema.
     No entanto, l no fundo, ela percebeu que Taylor no  estava a mentir quando lhe disse que gostava dela. Se havia alguma coisa que a fazia ir em frente, s 
podia ser isso. Mas...
     Havia, agora, tantos "mas".
     Sacudiu a cabea tentando libertar-se de todos estes pensamentos, pelo menos at estar com ele de novo. Passaria l em casa, mais tarde, para lev-la ao emprego, 
e, se bem que achasse que no teria tempo para lhe falar outra vez dos seus sentimentos, tinha a certeza de que ficaria mais esclarecida assim que o visse. Tinha 
esperana que viesse um pouco mais cedo.
     O resto da manh e a tarde arrastaram-se lentamente. Kyle  estava com uma das suas birras, no falava, estava rabugento e teimoso, e isso tambm no a ajudou 
a ficar bem disposta, contudo evitava que os seus pensamentos se concentrassem em Taylor o dia inteiro.
     Um pouco depois das cinco pensou ter ouvido o caminho dele passar na estrada, no entanto, mal saiu de casa, verificou que no era Taylor. Desapontada, vestiu 
a sua roupa de servio, preparou uma tosta de queijo para Kyle e viu as noticias.
     As horas avanavam. Eram j seis horas. Onde estava ele?
     Desligou a televiso e tentou, sem sucesso, que Kyle se interessasse por um livro. Ento, sentou-se no cho e ps-se a brincar com os Legos, Porm Kyle ignorou-a, 
concentrando-se na pintura do seu livro. Quando ela tentou juntar-se a ele nessa tarefa, ele mandou-a embora. Suspirou e decidiu que no valia a pena esforar-se.
     Para passar o tempo, foi arrumar a cozinha. No havia muito que fazer aqui, portanto, dobrou um cesto de roupa e p-lo de lado.
     Seis e meia e nem sinais dele. A preocupao estava a dar lugar a uma tremenda sensao de tristeza.
     Ele h de vir, dizia de si para si. No vem?
     Contrariamente quilo que achava que devia fazer, marcou o nmero do telefone dele, mas no houve resposta.
     Voltou  cozinha, encheu um copo de gua e regressou  janela da sala de estar. Esperava enquanto olhava l para fora.
     E esperou.
     Quinze minutos para chegar ao restaurante ou atrasar-se-ia.
     Depois dez.
     s cinco para as sete, apertava tanto o copo na mo que os ns dos dedos ficaram brancos. Aliviando aquele aperto, sentiu o sangue circular outra vez pelos 
dedos. Quando as sete horas se aproximaram, tinha os lbios cerrados e telefonou a Ray pedindo-lhe desculpa pois chegaria um pouco atrasada.
     - Temos de ir, Kyle, afirmou ela depois de desligar o telefone. Vamos de bicicleta.
     - No, declarou ele.
     - No estou a perguntar, Kyle. Estou a mandar. Agora mexe-te.
     Ao ouvir o tom de voz da me, Kyle largou os lpis de cor e encaminhou-se para ela.
     Praguejando, dirigiu-se ao alpendre das traseiras para ir buscar a bicicleta. Conduzindo-a para fora do alpendre, reparou que no estava a deslizar como de 
costume e abanou-a antes de, por fim, perceber o que se passava.
     Um pneu furado.
     - Oh, caramba... Est noite no! Exclamou ela quase incrdula. Como se no acreditasse no que os seus olhos viam, apertou o pneu com a mo sentindo que cedia 
quando fazia uma ligeira presso.
     Raios! Praguejou, dando um pontap na roda, e deixou-a cair em cima de umas caixas de papelo. Depois entrou na cozinha no preciso momento em que Kyle vinha 
a sair.
     No vamos de bicicleta, afirmou, rangendo os dentes. Vem c para dentro.
     Kyle j a conhecia o suficiente para perceber que no era altura para protestos e fez o que ela lhe ordenou. Denise dirigiu-se ao telefone e tentou falar com 
Taylor de novo. No  estava ningum em casa. Bateu com o auscultador e pensou a quem podia ligar. No a Rhonda, ela j estava no restaurante.  Mas... Judy? Discou 
o seu nmero e ouviu-o tocar uma srie de vezes antes de desligar. A quem mais poderia telefonar? Quem mais  que ela conhecia? Em boa verdade, apenas mais uma pessoa. 
Abriu o armrio e pegou na lista, em seguida procurou a pgina certa. Depois de marcar o nmero com fria, deu um suspiro de alivio quando atenderam.
     - Melissa? Ol,  a Denise.
     - Oh, ei, como est?
     - Para ser franca, no estou muito bem neste preciso momento. Detesto fazer isto, mas estou a telefonar para lhe pedir um favor.
     - Em que posso ajud-la?
     - Sei que  uma grande maada, mas seria possvel levar-me, hoje, ao restaurante?
     - Claro! Quando?
     - Agora? Sei que  em cima da hora e peo desculpa, mas os pneus da minha bicicleta esto vazios.
     - No se preocupe, interrompeu-a Melissa, Estou ai dentro de dez minutos.
     - Fico a dever-lhe est.
     - No fica nada. No  nada do outro mundo. Vou s buscar a carteira e as chaves.
     Denise desligou, em seguida voltou a telefonar a Ray e explicou-lhe, com mais pedidos de desculpa, que chegaria dai a meia hora. Desta vez Ray riu-se.
     - No te preocupes querida. Quando chegares, chegaste. No  preciso pressas, de qualquer maneira, neste momento no h muito movimento.
     Mais uma vez suspirou de alivio. Subitamente, reparou em Kyle que a observava sem dizer palavra.
     - A mame no est zangada contigo, meu amor. Desculpa por te ter gritado.
     No entanto, com Taylor estava ainda furiosa. Qualquer espcie de alivio que experimentava era contrariado por este sentimento. Como  que podia fazer uma coisa 
destas?
     Reuniu as suas coisas e esperou que Melissa aparecesse, em seguida conduziu Kyle para fora da casa quando escutou o carro subir o caminho de acesso. Melissa 
baixou o vidro enquanto parava.
     - Ei! Entrem, mas desculpem a desordem. Os meninos tm andado s voltas com o futebol.
     Denise apertou o cinto de segurana de Kyle, no banco traseiro, e abanava a cabea quando se sentou  frente. Rapidamente, o automvel desceu a rampa e virou 
para a estrada principal.
     - Ento, o que  que aconteceu? Perguntou Melissa.
     - Disse que tinha os pneus em baixo?
     - Sim, mas,  partida, no  estava  espera de ter de ir de bicicleta. Taylor no apareceu.
     - E ele disse que vinha?
     A pergunta fez hesitar Denise antes de responder. Ela tinha-lhe pedido? Seria que ela ainda tinha de faz-lo? No falamos nisso especificamente admitiu Denise 
- mas ele tem ido levar-me todo o Vero, portanto presumi que continuaria a faz-lo.
     - Telefonou?
     - No.
     Os olhos de Melissa voaram para Denise.
     - Calculo que as coisas tenham mudado entre vocs dois, aventurou ela.
     Denise assentiu. Melissa dirigiu o olhar de novo para a estrada e ficou calada deixando Denise entregue aos seus pensamentos.
     - Sabia que isto ia acontecer, no sabia?
     - J conheo o Taylor h muito tempo, ripostou Melissa, prudente.
     - Mas ento, que  que se passa com ele?
     Melissa suspirou.
     - Para lhe dizer a verdade, no sei. Nunca soube. Contudo, Taylor parece retrair-se sempre que as coisas comeam a ficar mais srias.
     - Mas... Por qu? Isto , ns damos bem, ele  fantstico com o Kyle...
     - No posso falar por ele, essa  que  a verdade. Como disse, no consigo entender.
     - E se tivesse de dar uma opinio?
     Melissa hesitou. 
     - No  voc, acredite em mim. Quando estivemos todos no jantar, eu no estava a brincar quando lhe disse que o Taylor gosta mesmo de si. Gosta mais do que 
alguma vez o vi gostar de algum. E o Mitch diz a mesma coisa. No entanto, s vezes, penso que o Taylor no acha que deva ser feliz, portanto estraga todas as oportunidades. 
No penso que o faa de propsito, considero que  mais como uma coisa que ele no pode evitar.
     - Isso no faz sentido.
     - Talvez no. Mas  como ele .
     Denise refletiu. Em frente avistou o restaurante. Tal como Ray dissera, e a avaliar pelo parque de estacionamento, no havia muitos clientes. Fechando os olhos, 
cerrou os punhos com frustrao.
     Mais uma vez, a pergunta  - por qu?
     Melissa no lhe respondeu logo a seguir. Ligou o pisca-pisca e comeou a abrandar o carro.
     - Se me pergunta...  por causa de qualquer coisa que aconteceu h muito tempo.
     O tom da voz de Melissa tornou bvio o significado da sua resposta.
     - O pai?
     Melissa assentiu, depois as palavras saram-lhe lentamente:
     - Ele culpa-se pela morte do pai.
     Denise sentiu um n no estmago.
     - O que  que aconteceu nessa altura?
     O carro imobilizou-se.
     - Talvez devesse falar com ele sobre isso.
     - Tentei...
     Melissa sacudiu a cabea.
     - Eu sei Denise. Todos ns tentamos.
     Denise fez o seu turno mal conseguindo concentrar-se, mas como havia pouco movimento, isso no tinha importncia. Rhonda que eventualmente a levaria, com Kyle, 
de regresso a casa, saiu mais cedo, deixando Ray como a nica alternativa para desempenhar essa tarefa. Embora lhe ficasse grata por estar disposto a isso, ele costumava 
ficar mais uma hora, depois de fechar, para deixar tudo limpo, o que significava chegar mais tarde. Resignando-se perante os fatos, Denise estava a acabar o seu 
servio quando a porta da frente se abriu, quase no momento em que o restaurante ia fechar.
     Taylor.
     Entrou, acenou a Ray, mas no deu um passo em direo a Denise.
     - A Melissa telefonou, afirmou ele, e disse-me que talvez precisasses de uma boleia para casa.
     Ela no conseguia encontrar palavras. Raiva, mgoa, perplexidade... No entanto, ainda inegavelmente apaixonada. Se bem que a ltima parte parecia estar a desvanecer-se 
a cada dia que passava.
     - Onde  que te meteste o dia inteiro?
     Taylor passou o peso do corpo de um p para o outro.
     - Estive a trabalhar, acabou por responder. No sabia que hoje precisavas de boleia.
     - Durante os ltimos trs meses tens vindo pr-me e buscar-me retorquiu ela, tentando manter a compostura.
     - Mas na semana passada no estive c. Ontem  noite no me pediste boleia, portanto presumi que a Rhonda te traria. Ainda no tinha percebido que era suposto 
ser o teu motorista pessoal.
     Os olhos dela semicerraram-se.
     - Isso no  justo, Taylor, e tu sabes bem.
     Taylor cruzou os braos.
     - Ei, no vim aqui para gritares comigo. Estou aqui para o caso de precisares de uma boleia. Queres ou no queres?
     Denise comprimiu os lbios.
     - No, respondeu simplesmente.
     Se Taylor ficou surpreendido, no o mostrou.
     - Muito bem, ento disse ele. Voltou-se para olhar para as paredes, depois para o cho e finalmente para ela. Desculpa est tarde, se isso significa alguma 
coisa.
     - Significa e no significa, pensou Denise. Contudo, no disse nada. Quando Taylor se apercebeu de que ela no ia falar, rodou nos calcanhares e puxou a porta.
     - Amanh precisas de boleia? Perguntou por cima do ombro.
     Ela refletiu uma vez mais.
     - Vais l ter?
     Ele recuou.
     - Vou, afirmou ele suavemente. Vou l estar.
     - Ento est bem, concordou ela.
     Ele assentiu e em seguida saiu. Quando Denise se virou, viu Ray a esfregar o balco, como se a sua vida dependesse disso.
     - Ray?
     - Sim, querida? Respondeu fingindo que no prestara ateno ao que se passara.
     - Posso ter folga amanh  noite?
     Ele relanceou os olhos por cima do balco, olhando para ela como provavelmente teria olhado para a prpria filha.
     - Acho que  melhor, retorquiu honesta mente.
     Taylor chegou trinta minutos antes da hora a que o turno dela devia comear e ficou surpreendido quando ela lhe abriu a porta vestindo uns cales de ganga 
e uma blusa de mangas curtas. Tinha chovido a maior parte do dia e a temperatura rondava os dezenove graus centgrados, um pouco fresco para cales. Taylor, por 
seu lado, estava limpo e sem vestgios de transpirao; era evidente que tinha mudado de roupa antes de ir ter a casa dela.
     - Entra, convidou ela.
     - No devias estar vestida para ires trabalhar?
     - Hoje no vou trabalhar, retorquiu ela tranquilamente.
     - No vais?
     - No, repetiu ela. Taylor, curioso, entrou atrs dela.
     - Onde  que est o Kyle?
     Denise sentou-se.
     - A Melissa disse-me que podia ficar a tomar conta dele durante um bocado.
     Taylor estacou, olhando em redor inseguro, e Denise bateu no sof.
     - Senta-te.
     Taylor fez o que ela lhe pediu.
     - Ento o que  que se passa?
     - Temos de conversar.
     - Acerca de qu?
     Ela no pde deixar de sacudir a cabea com est interrogao.
     - O que  que se passa contigo?
     - Por qu? H alguma coisa que eu no saiba? Inquiriu ele nervoso, forando um sorriso.
     - No  altura para brincadeiras, Taylor. Tirei uma folga est noite na esperana que tu me pudesses ajudar a compreender qual  o problema.
     - Ests a falar do que aconteceu ontem  noite. Afirmei que lamentava e  verdade.
     - No se trata disso. Estou a falar de ti e de mim, de ns.
     - No discutimos j isso anteontem?
     Denise suspirou desesperada.
     - Sim, falamos. Ou antes, eu falei. No entanto, tu no disseste quase nada.
     - Claro que disse.
     - No, no disseste. Seja como for, nunca o fizeste. S falas de assuntos superficiais, nunca das coisas que, de fato, te preocupam.
     - Isso no  verdade...
     - Ento por que  que me tratas, nos tratas a ambos, de uma maneira diferente da que costumavas fazer?
     - Eu no trato...
     Denise interrompeu-o levantando as mos.
     - J raramente c vens, no telefonaste quando foste caar, foste-te embora sorrateiramente ontem de manh, depois no apareceste  tarde...
     - J te expliquei porqu.
     - Sim, no restam dvidas, explicaste todas e cada uma das situaes. Mas no consegues ver que  uma repetio?
     Ele voltou-se para o relgio, fixando-o, evitando, teimosamente, a pergunta dela.
     Denise passou as mos pelos cabelos.
     - Mais do que isso, j no conversas comigo. E comeo a perguntar-me se alguma vez o fizeste.
     Taylor dirigiu o olhar para ela de novo e Denise encontrou os seus olhos. J antes ela havia passado pela mesma situao, a recusa de qualquer circunstncia 
problemtica e no desejava voltar  carga. Com a voz de Melissa martelando-lhe os ouvidos, decidiu ir ao fundo da questo. Respirou fundo e expirou o ar lentamente.
     - O que  que aconteceu ao teu pai?
     A tenso que se apoderou dele foi imediata e ela detectou-a.
     - O que  que isso interessa? Perguntou ele, subitamente desconfiado.
     - Eu penso que isso pode ter a ver com a forma como tu tens agido nos ltimos tempos.
     Em vez de responder, Taylor abanou a cabea, o seu estado de esprito alterando-se para um sentimento prximo da clera.
     O que  que te d essa impresso?
     Ela tentou mais uma vez.
     - Isso no importa. S quero saber o que, na verdade, aconteceu.
     - J falamos sobre isso, declarou de forma lacnica.
     - No, no falamos. Fiz-te algumas perguntas sobre ele e s me contaste alguns pormenores. No entanto, no me contaste a histria toda.
     Taylor rangeu os dentes. Fechava e abria uma das mos sem disso se aperceber.
     - Ele morreu, est bem? J te disse isso.
     - E...?
     - E o qu? Enfureceu-se ele. O que  queres que diga?
     Ela pegou-lhe na mo.
     - Melissa afirma que tu te culpas por isso.
     Taylor retirou a mo com brusquido.
     - Ela no percebe nada do que est a falar.
     Denise manteve a voz calma.
     - Houve um incndio, no  verdade?
     Taylor fechou os olhos e, quando os abriu de novo, ela vislumbrou uma espcie de fria que nunca antes vira.
     - Ele morreu, ponto final.  tudo.
     Por que  que no me queres responder? Perguntou ela.  Por que motivo no me podes contar o que aconteceu?
     - Por Cristo! Bradou ele, a sua voz ressoando pela sala.  No podes esquecer o assunto?
     A sua exploso de raiva surpreendeu-a e ela esbugalhou os olhos.
     - No, no posso, insistiu ela, o seu corao disparou subitamente. No se for algo que nos diga respeito.
     Ele levantou-se do sof.
     - No tem nada a ver conosco! Que diabo vem a ser isto? Estou a ficar farto de me estares sempre a chatear!
     Ela inclinou-se para frente, as mos estendidas.
     - No te estou a chatear, Taylor. Eu... Eu s estou tentando conversar contigo tartamudeou ela.
     - O que  que pretendes de mim? Continuou ele sem a escutar e com o rosto afogueado.
     - Apenas pretendo saber o que se passa para que possamos resolver o assunto.
     - Resolver o assunto? Ns no somos casados, Denise, atirou ele. Por que diabo insistes em te introcolocar?
     As palavras dele ofenderam-na.
     - No estou a introcolocar-me, sustentou ela na defensiva.
     - Claro que ests. Ests tentando penetrar na minha mente para poderes solucionar o que achas que est errado. Mas no h nada de errado, Denise, pelo menos 
no que se refere a mim. Sou como sou, e se no consegues lidar com isso, talvez no devesses tentar.
     Ele olhou-a de forma penetrante do lugar onde se encontrava e Denise respirou fundo. Antes que ela pudesse dizer o que quer que fosse, Taylor abanou a cabea 
e recuou um passo.
     - Ouve, tu no precisas de boleia, e eu no quero ficar aqui neste momento. Portanto, pensa no que te disse, est bem? Vou-me embora.
     Com estas palavras, Taylor girou nos calcanhares e encaminhou-se para a porta saindo de casa enquanto Denise se manteve sentada no sof, absolutamente estupefata.
     - Pensa no que te disse?
     Claro que o faria, murmurou ela, se ao menos aquilo que disseste fizesse algum sentido.
     Os dias seguintes decorreram sem incidentes,  exceo, naturalmente, das flores que chegaram no dia aps a discusso entre ambos.
     A mensagem era simples.
     "Peo desculpa pelo modo como agi. S preciso de alguns dias para refletir em algumas coisas. Ser que me concedes este desejo?"
     Uma parte dela tinha vontade de atirar as flores pela janela fora, a outra parte queria ficar com elas. Uma parte dela desejava acabar com a sua relao naquele 
preciso momento, a outra parte queria dar mais uma oportunidade. Assim sendo, o que  que se alterara? Cogitou ela.
     Para alm da janela via-se a tempestade que havia regressado. O cu apresentava-se cinzento e frio, a chuva fustigava as janelas, os ventos fortes dobravam 
as  rvores ao meio.
     Ela levantou o auscultador e telefonou a Rhonda, em seguida dirigiu a sua ateno para os anncios classificados.
     No fim de semana a seguir iria comprar um carro.
     Talvez assim no se sentisse to dependente.
     No sbado, Kyle comemorava o seu aniversrio. Melissa, Mitch e os quatro filhos e Judy foram os nicos convidados. Quando lhe perguntaram por Taylor, Denise 
explicou que viria mais tarde para levar Kyle ao jogo de basebol, motivo por que no se encontrava presente naquela altura.
     Kyle tem estado em nsias durante toda a semana, comentou ela, menosprezando qualquer problema.
     Era apenas por causa de Kyle que ela no se preocupava. Apesar de tudo, Taylor no alterara o seu comportamento em relao ao filho. Ela sabia que ele viria. 
No havia a mnima hiptese de no aparecer.
     Deveria chegar por volta das cinco horas e levaria Kyle ao jogo.
     As horas foram decorrendo, mais lentas que o normal.
     As cinco e vinte, Denise, com um n no estmago e  beira de uma crise de choro,  estava a lanar bolas com Kyle, no jardim.
     Kyle estava encantador vestindo umas jeans e um bon de basebol. Com a sua luva, uma luva nova, oferta de Melissa, ele apanhou o ltimo lanamento de Denise. 
Segurando na bola, ele conservou-a a sua frente, olhando para Denise.
     - O Taylor est a chegar, afirmou ele. (O Tayer t cheg)
     Denise viu as horas pela centsima vez, depois engoliu em seco, sentindo-se enjoada. Ligara-lhe por trs vezes; ele no  estava em casa. Nem to-pouco, tudo 
levava a crer, vinha a caminho.
     - Acho que no, meu querido.
     - O Taylor est a chegar, repetiu o petiz.
     Desta vez, as lgrimas vieram-lhe aos olhos. Denise aproximou-se dele e acocorou-se de forma a ficar ao nvel dos seus olhinhos.
     - O Taylor est atarefado. Acho que ele no te vai levar ao jogo. Podes vir com a mame para o restaurante, est bem?
     Proferir estas palavras foi muito mais doloroso do que parecia possvel.
     Kyle olhou-a, interiorizando as palavras lentamente.
     - O Tayer foi-se embora, acabou por dizer.
     Denise abraou-o.
     - Pois foi, concordou com tristeza.
     Kyle deixou cair a bola, passou pela me encaminhando-se para casa, com um ar to desalentado como ela nunca o vira antes.
     Denise enterrou a cara nas mos.
     Taylor apareceu na manh seguinte com um presente embrulhado debaixo do brao. Antes que Denise conseguisse alcanar a porta, j Kyle saltara l para fora, 
esforando-se por agarrar o embrulho; o fato de ele no ter vindo na vspera j estava esquecido. Se as crianas tinham qualquer vantagem em relao aos adultos, 
ponderou Denise, era a sua capacidade para perdoar rapidamente.
     Porm, ela no era uma criana. Saiu para o alpendre com os braos cruzados, obviamente aborrecida. Kyle tinha pegado no presente e j o desembrulhava, arrancando-lhe 
o papel num frenesi de excitao. Decidindo no falar at que ele acabasse, Denise observava como os olhos de Kyle se abriam de admirao.
     - Legos! gritou ele cheio de contentamento, segurando na caixa para que Denise a pudesse ver. (gos.)
     - Claro, so Legos! concordou ela.
     Sem sequer olhar para Taylor, ela afastou uma madeixa de cabelos dos olhos.
     - Kyle, diga: "obrigado."
     - Bidado, repetiu ele, fixando a caixa.
     Vem c, pediu Taylor tirando uma pequena navalha do bolso das calas ao mesmo tempo que se acocorava -, deixa-me ajudar-te a abri-la.
     Cortou a fita-cola e retirou o papel de celofane que revestia a caixa. Kyle agarrou-a e tirou um conjunto de rodas para um dos modelos dos carros.
     Denise aclarou a garganta:
     - Kyle? Por que  que tu no vais l para dentro? A mame precisa  conversar com o Taylor.
     Segurou o guarda-vento, mantendo-o aberto e o menino fez, obedientemente, o que a me lhe pedira. Colocou a caixa em cima da mesinha baixa e ficou, imediatamente, 
absorvido com as peas.
     Taylor, de p, no fez qualquer movimento na direo dela.
     - Lamento, afirmou ele. De fato, no tenho desculpa. Esqueci-me completamente do jogo. Ele ficou aborrecido?
     - Bem podes diz-lo.
     A expresso de Taylor revelava pesar.
     - Talvez o possa compensar. H outro jogo na semana que vem.
     - Penso que no, retorquiu ela calmamente.
     Ela apontou para as cadeiras do alpendre. Taylor hesitou antes de se movimentar e de se sentar. Denise sentou-se tambm, mas sem o olhar. Em vez disso, ela 
observava um par de esquilos saltitando pelo ptio, apanhando bolotas.
     - Lixei tudo, no foi? Comentou Taylor com sinceridade.
     Denise sorriu de esguelha.
     - Sim.
     - Tens todo o direito de estar zangada comigo.
     Denise virou-se, por fim, para o olhar de frente. - Estava. Ontem  noite, se tivesses ido ao restaurante, ter-te-ia atirado com uma frigideira.
     Os cantos dos lbios de Taylor elevaram-se ligeiramente, em seguida retomaram a posio inicial. Sabia que ela ainda no tinha acabado.
     - Mas j ultrapassei isso. Agora estou mais resignada do que zangada.
     Taylor olhou-a com curiosidade enquanto Denise expirava, devagar, o ar dos pulmes. Quando ela voltou a falar, a sua voz era baixa e suave.
     - Durante os ltimos quatro anos, vivi com o Kyle, comeou ela. Nem sempre  fcil, mas  previsvel, o que  uma vantagem. Sei como vai ser amanh e depois 
de amanh e isso me transmite alguma sensao de controle. Kyle precisa que eu aja assim e eu preciso agir desta forma por causa dele, pois eu sou tudo quanto ele 
tem nesta vida. Mas depois, apareceste tu.
     Ela sorriu, no entanto este sorriso no conseguia disfarar a tristeza patente nos seus olhos. Taylor continuou em silncio.
     - Foste to bondoso para com ele, logo desde o incio. Trataste Kyle de maneira diferente, como jamais algum havia feito e isso significou o mundo para mim. 
Porm, foi mais do que isso, foste bom para mim tambm.
     Denise fez uma pausa, puxando um nozinho do brao da cadeira de balano em madeira, os seus olhos exprimindo uma certa reflexo.
     - Quando nos conhecemos, no me queria envolver com ningum. No tinha nem tempo nem energia e, mesmo depois da feira, no tinha a certeza de estar pronta para 
isso. Mas tu foste to bom para o Kyle. Fazias, com ele, coisas que nunca ningum perdeu tempo em fazer e eu fiquei deslumbrada com isso. Aos poucos, dei comigo 
a apaixonar-me por ti.
     Taylor colocou ambas as mos no colo, olhando fixamente para o cho. Denise abanou a cabea pensativamente.
     - No sei... Cresci a ler contos de fadas e isso talvez tivesse tido alguma influncia.
     Denise recostou-se na cadeira de balano olhando-o sob as pestanas baixas.
     - Lembras-te da noite em que nos conhecemos? Quando salvaste o meu filho? Depois disso, vieste trazer as minhas compras, em seguida ensinaste-o a apanhar as 
bolas. Era como se fosses o prncipe encantado das fantasias da minha juventude e, quanto melhor te conhecia, mais acreditava nisso. Uma parte de mim ainda acredita. 
s tudo quanto eu sempre quis num homem. Todavia, por muito que goste de ti, acho que no ests preparado para mim ou para o meu filho.
     Taylor esfregou, cansado, a face antes de olh-la com os olhos escurecidos pela mgoa.
     - No sou cega ao que se tem estado a passar conosco nestas ltimas semanas. Ests a afastar-te de mim, de ns dois, por mais que tentes neg-lo.  evidente, 
Taylor. O que eu no entendo  o motivo por que ests a faz-lo.
     - Tenho estado muito ocupado com o meu trabalho, comeou ele desanimado.
     Denise respirou fundo, esforando-se por no perder a voz.
     - Sei que existe alguma coisa que me ests a esconder e, se no podes ou no queres falar dela, no posso fazer nada. Todavia, seja o que for, est a afastar-te. 
Ela calou-se, os olhos marejados de lgrimas. Ontem magoaste-me. Mas, mais grave ainda, magoaste Kyle. Ele esteve  tua espera, Taylor. Durante duas horas. Pulava 
cada vez que um carro passava, pensando que eras tu. Porm, no eras tu, at que, por fim, at ele percebeu que tudo tinha mudado. No disse uma nica palavra o 
resto da noite. Nem uma s.
     Taylor, plido e abatido, parecia incapaz de falar. Denise dirigiu o olhar para a linha do horizonte, uma lgrima correndo-lhe pela face.
     - Posso suportar muitas coisas, Deus sabe o que j passei. A forma como tu me tens atrado, me tens afastado e atrado de novo. Contudo, sou adulta, j tenho 
idade para optar se quero deixar que isso continue a acontecer. Mas se a mesma coisa comear a suceder com Kyle... A sua voz sumiu-se e limpou a face. Tu s uma 
excelente pessoa, Taylor. Tens muito para dar a algum e eu espero que um dia encontres, finalmente, a pessoa que consiga compreender toda a dor que pesa sobre ti. 
Mereces isso. Sinto, no meu corao, que no tinhas inteno de magoar o Kyle. Mas no posso correr o risco que isso volte a acontecer, principalmente quando os 
teus projetos em relao ao nosso futuro em conjunto no so srios.
     - Lamento, afirmou ele numa voz abafada.
     - Tambm eu.
     Ele procurou a mo dela.
     - No te quero perder, declarou ele numa voz que era quase um murmrio.
     Vendo a sua expresso melanclica, ela pegou-lhe na mo e apertou-a, depois, com relutncia, deixou-a cair. Sentia as lgrimas inundarem-lhe os olhos e repeliu-as.
     - Mas tambm no queres ficar comigo, pois no?
     Taylor no respondeu.
     Quando ele se foi embora, Denise vagueou pela casa como um zumbi, mantendo o autocontrole por um fio. Tinha chorado a maior parte da noite sabendo, de antemo, 
o que estava para vir. Sempre tinha sido forte, recordou a si mesma enquanto se sentava no sof; tinha feito o que estava certo. No podia permitir que magoasse 
Kyle outra vez. No ia chorar.
     Raios, nunca mais.
     No entanto, ao ver Kyle a brincar com os Legos e sabendo que Taylor no voltaria a ir l a casa, sentiu um n de desgosto na garganta.
     No vou chorar, repetiu em voz alta, as palavras saindo-lhe como um mantra. No vou chorar.
     Neste momento, sucumbiu e desatou num pranto que demorou s duas horas seguintes.
     - Com que ento foste em frente e acabaste com tudo, hein? perguntou Mitch, manifestamente desgostoso.
     Encontravam-se num barzinho, um local encardido que abria as portas ao pequeno-almoo para uns trs ou quatro clientes habituais. Naquela altura, no entanto, 
era muito tarde. Taylor s lhe telefonara depois das oito; Mitch aparecera cerca de uma hora depois. Taylor havia comeado a beber sem ele.
     - No fui eu, Mitch emendou ele na defensiva. Foi ela que deu tudo por terminado. Desta vez no podes responsabilizar a mim.
     - E suponho que isso aconteceu inesperadamente, certo? No tiveste nada a ver com isso.
     - Acabou-se, Mitch. O que  que queres que diga?
     Mitch sacudiu a cabea.
     - Taylor, tu sabes que no s boa pea. Ficas para aqui sentado a pensar que percebes tudo, mas no percebes coisa nenhuma.
     - Obrigado pelo teu apoio, Mitch.
     Mitch olhou-o de modo penetrante. 
     - No me venhas com lrias! No precisas do meu apoio. Do que precisas  de algum que te diga que mexas esse rabo e que vs l reparar as asneiras que fizeste.
     - Tu no compreendes...
     - Uma ova  que eu no compreendo! Exclamou Mitch atirando com o copo de cerveja e entornando-a por cima da mesa.
     - Quem  que tu pensas que s? Pensas que eu no sei? Que diabo, Taylor, conheo-te melhor do que tu te conheces a ti prprio! Julgas que s o nico com um 
passado merdoso? Julgas que s o nico tentando remediar isso? Pois bem, tenho novidades para ti. Toda a gente tem merda no passado, toda a gente fez coisas que 
desejava poder desfazer. No entanto, a maioria das pessoas no anda para ai a esforar-se por lixar as vidas que tem no presente por causa disso.
     - Eu no lixei nada! Exclamou Taylor zangado. No ouviste o que eu disse? Foi ela que acabou com tudo. No fui eu! Pelo menos desta vez no fui eu!
     - E digo-te mais, Taylor. Podes ir para a maldita sepultura a pensar isso, mas ambos sabemos que essa no  a verdade. Portanto, vai l e tenta salvar a situao. 
Ela foi a melhor coisa que alguma vez te aconteceu!
     - No te pedi para aqui vires para me dares conselhos...
     - Pois bem, ests a receber o melhor conselho que j alguma vez te dei. Faz-me um favor e escuta-o, est bem? No o ignores desta vez. O teu pai assim teria 
desejado.
     Taylor semicerrou os olhos na direo de Mitch, de repente tudo ficou tenso.
O meu pai no  para aqui chamado. No entres por ai!
     Por que, Taylor? Tens medo de alguma coisa? Tens medo que o fantasma dele comece a assombrar-nos ou a fazer saltar as nossas cervejas em cima da mesa?
     - Basta! Rosnou Taylor.
     - No te esqueas que eu tambm conheci o teu pai. Sabia o tipo bestial que ele era. Era um tipo que adorava a famlia, adorava a mulher, adorava o filho. Ficaria 
desapontado com o que tu andas a fazer agora, disso tenho eu a certeza.
     O sangue desapareceu do rosto de Taylor, que agarrou o copo com fora.
     - Vai-te lixar, Mitch!
     - No, Taylor. Tu mesmo j o fizeste a ti prprio. Se eu tambm o fizesse, isso j seria um exagero.
     - No tenho necessidade de estar a ouvir est porcaria retrucou Taylor azedo, levantando-se da mesa e dirigindo-se para a porta. Tu nem sequer sabes quem eu 
sou!
     Mitch empurrou a mesa, afastando-a do corpo e tornando a espalhar as cervejas, o que levou a que algumas cabeas se voltassem. O empregado do bar desviou a 
ateno da conversa enquanto Mitch se levantava e surgia por detrs de Taylor, agarrando-o, com brusquido, pela camisa e fazendo-o rodar nos calcanhares.
     - No te conheo? Raios, como te conheo! No passas dum maldito covarde,  o que tu s! Tens medo de viver porque pensas que isso significa deixares de carregar 
uma cruz que tens carregado ao longo da tua vida inteira! Mas desta vez ultrapassaste todos os limites. Julgas que s o nico, no mundo, com sentimentos? Achas que 
largas a Denise e que, ento, tudo volta ao normal? Pensas que vais ser mais feliz? No vais, Taylor. Tu no te vais permitir fazeres isso. E, desta vez, no ests 
a magoar apenas uma pessoa, j pensaste nisso? No se trata s de Denise, ests a magoar um garotinho!
     - Deus Todo-Poderoso, ser que isso no significa nada para ti? Que diabo diria o teu pai a isso? "Bom trabalho, meu filho?" "Estou orgulhoso de ti, filho?" 
Nem pensar! O teu pai ficaria enojado, exatamente como eu me sinto neste momento!
     Taylor, com o rosto branco, agarrou Mitch e ergueu-o no ar atirando-o de encontro  jukebox. Dois homens saltaram dos seus bancos altos, fugindo para longe 
da confuso, enquanto o empregado do bar corria para o extremo oposto. Depois de sacar um basto de basebol, retrocedeu na direo dos outros.
     Taylor levantou um punho.
     - O que  que vais fazer-me? Bater-me? Escarneceu Mitch.
     - Acabem com isso! Gritou o empregado do bar. Vo tratar disso l para fora, j!
     - Vai em frente, desafiou Mitch. Estou-me nas tintas!
     Mordendo o lbio com tanta fora que comeou a sangrar, Taylor puxou o brao para trs, pronto para desferir um murro, a mo tremendo.
     - Sempre te perdoarei Taylor, continuou Mitch quase calmo. Mas tambm tens de te perdoar a ti prprio!
     Hesitando e debatendo-se, Taylor acabou por libertar Mitch e voltou-se para os rostos que o fitavam. O empregado do bar estava a seu lado, com o basto na mo, 
para ver o que Taylor ia fazer.
     Reprimindo as imprecaes, transps, com passadas vigorosas, a porta de sada.
CAPTULO 23
     Pouco antes da meia-noite, Taylor regressou a casa. Na sua secretria eletrnica vibrava uma mensagem. Desde que havia deixado Mitch, ficara sozinho, fazendo 
o possvel por aclarar as idias, e sentara-se na ponte de onde mergulhara para o rio apenas alguns meses antes. Esta foi a primeira noite em que percebeu a falta 
que Denise lhe fazia. Parecia que tinha sido h uma eternidade.
     Suspeitando que Mitch pudesse ter-lhe deixado algum recado, Taylor dirigiu-se a secretria eletrnica, lamentando o acesso de raiva para com o amigo, e carregou 
no boto. Para sua grande surpresa, no era Mitch.
     Era Joe, do Quartel dos Bombeiros, cuja voz se esforava por se manter calma.
     "H um incndio no armazm, nos arredores da cidade. No armazm de Arvil Henderson.  um fogo enorme; todos os de Edenton foram chamados e foram pedidos reforos 
de caminhes e de bombeiros aos distritos vizinhos. H vidas em perigo. Se receberes a mensagem a tempo, precisamos da tua ajuda..."
     A mensagem havia sido deixada vinte e quatro minutos antes.
     Sem a escutar at ao fim, Taylor desligou o telefone e correu para o caminho, censurando-se por ter desligado o seu telemvel  sada do bar. O armazm de 
Henderson fazia negcio por atacado na venda de tintas de exteriores e era uma das maiores empresas do distrito de Chowan. Os caminhes eram carregados dia e noite; 
a todas as horas do dia se via, pelo menos, uma dzia de pessoas a trabalhar no armazm.
     Levaria cerca de dez minutos a chegar ao local.
     Provavelmente, todos os outros j l estariam e ele iria aparecer com meia hora de atraso. Aqueles trinta minutos podiam significar a diferena entre a vida 
e a morte para uma grande quantidade de pessoas presas l dentro.
     Os outros estavam a lutar pelas prprias vidas enquanto ele se ausentara sentindo pena de si mesmo.
     A gravilha saltava dos pneus  medida que curvava para a estrada principal, praticamente sem abrandar ao alcan-la. Os pneus guinchavam e o motor rugia enquanto 
Taylor acelerava, sem nunca deixar de praguejar. O caminho resvalava ao longo das inmeras curvas existentes na estrada que conduzia ao armazm, e ele tomava todos 
os atalhos que conhecia. Quando apanhava um bocado de estrada a direita, acelerava at quase alcanar os cento e trinta e cinco quilmetros horrios. As ferramentas 
chocalhavam na caixa aberta; ouviu uma pancada de algo pesado que deslizara pelo cho enquanto fazia mais uma curva.
     Os minutos, lentos, iam decorrendo, longos minutos, minutos eternos. A certa altura j conseguia vislumbrar,  distncia, o cu alaranjado, uma cor medonha 
na escurido. Deu um murro no volante quando se apercebeu da extenso do incndio. Por sobre o roncar do motor, conseguia escutar o grito longnquo das sirenes.
     Pisou fundo, os pneus quase recusando-se a obedecer quando o caminho deu de rabo ao entrar na estrada de acesso ao armazm. O ar j  estava espesso com o fumo 
preto e oleoso, alimentado pelo petrleo das tintas. Sem correr uma brisa, o fumo espalhava-se indolente  sua volta; podia avistar as labaredas que se erguiam do 
armazm. Este ardia violentamente no momento em que Taylor fez uma ltima curva e parou com os pneus chiando.
     Era um pandemnio por todo o lado.
     J tinham chegado trs caminhes-cisterna... As mangueiras, ligadas s bocas de incndio, derramavam gua sobre um dos alados do edifcio... O outro alado 
ainda no havia sido atingido, mas parecia que no seria por muito tempo que assim se manteria... Duas ambulncias com as suas luzes intermitentes... Cinco pessoas 
jaziam no cho assistidas por outras... Mais duas eram auxiliadas a sair do armazm, apoiadas, de cada lado, por homens que pareciam to fracos quanto elas...
     Enquanto observava aquela cena dantesca, identificou o carro de Mitch a um dos lados, se bem que fosse impossvel descortinar o amigo por entre o caos de gente 
e de veculos.
     Taylor saltou do caminho e dirigiu-se a Joe que vociferava ordens, tentando, mas falhando, conseguir o controle da situao. Mais um carro dos bombeiros chegava, 
este era de Elizabeth City; mais seis homens pularam para o cho e comearam a desenrolar a mangueira enquanto um outro corria para uma boca de incndio.
     Joe virou-se e viu Taylor apressando-se na sua direo. O primeiro tinha o rosto coberto de fuligem e apontava para o guincho e para a escada.
     - Vai buscar o teu equipamento! Gritou ele.
     Taylor seguiu as instrues, trepando para o caminho e tirando um fato, em seguida descalando as botas. Dois minutos depois, completamente equipado, Taylor 
correu para Joe outra vez.
      medida que se deslocava, a noite foi subitamente abalada por uma srie de exploses, dezenas de exploses, umas atrs das outras. Uma nuvem negra elevava-se 
do centro do edifcio, o fumo formando espirais como se uma bomba tivesse rebentado. As pessoas mais prximas do armazm afastavam-se, velozes,  medida que pedaos, 
em chamas, de telhado e das paredes eram projetados de encontro a elas, atingindo-as mortalmente.
     Taylor baixou-se e tapou a cabea.
     Viam-se labaredas por todo o lado, o edifcio devorado a partir do seu interior. Outras exploses irromperam, arremessando os escombros, enquanto os bombeiros 
recuavam face  intensidade do calor. Daquele inferno surgiram dois homens com os membros em chamas; as mangueiras foram apontadas para eles, que caram no cho, 
contorcendo-se.
     Taylor levantou-se e correu em direo ao calor, em direo s chamas, em direo aos homens estendidos no cho... Sessenta e trs metros, uma correria selvagem, 
o mundo assemelhando-se a uma zona de guerra... Mais exploses  medida que as latas de tinta, umas a seguir s outras, iam rebentando l dentro, o fogo assumindo 
propores incontrolveis... A respirao difcil devido aos vapores txicos... Uma parede exterior ruiu, caindo para fora, no apanhando os homens por um triz.
     Taylor semicerrou os olhos, que choravam e ardiam, quando, por fim, alcanou os dois homens.  Estavam ambos inconscientes, as chamas a poucos centmetros deles. 
Agarrou-os pelos pulsos e comeou a pux-los para trs, para longe das chamas. O calor do incndio derretera parte do seu equipamento e Taylor conseguia v-los quase 
em combusto enquanto os arrastava para um local seguro. Um outro bombeiro acorreu algum que Taylor no conhecia, e tomou conta de um dos homens. Aceleraram o ritmo, 
puxando-os em direo s ambulncias  medida que um paramdico se aproximava rapidamente.
     Apenas uma parte do edifcio ainda no tinha sido atingida at ao momento, se bem que, a avaliar pelo fumo que emanava pelas pequenas janelas retangulares que 
haviam rebentado, aquele setor estivesse  beira de explodir tambm.
     Joe gesticulava freneticamente a todos para que recuassem, para que se afastassem at uma distncia segura. Ningum o conseguia ouvir por sobre aquele troar.
     O paramdico chegou e ajoelhou-se, imediatamente, junto dos feridos. Os seus rostos estavam chamuscados e as roupas ainda ardiam sem chama, as chamas provocadas 
pelo leo vencendo os fatos antifogo. O paramdico tirou da caixa uma tesoura bem afiada e comeou a cortar o fato de um dos homens despindo-o. Um outro paramdico 
apareceu do nada e deu incio ao mesmo procedimento no outro homem.
     Ambos gemiam, agora, com dores, de novo conscientes.  medida que os fatos iam sendo cortados, Taylor ajudava a afast-los da pele dos homens. Primeiro uma 
perna, depois a outra, seguidas dos braos e do tronco. Ajudaram-nos a sentar-se e os fatos foram retirados dos seus corpos. Um dos homens trazia, por baixo, umas 
jeans muito gastas e duas camisas;  exceo dos braos no apresentava muitas queimaduras. O segundo, todavia, apenas tinha vestida, sob o fato, uma T-shirt, que 
tambm tinha de ser retirada da sua pele. As costas estavam cobertas de queimaduras de segundo grau.
     Desviando o olhar dos feridos, Taylor avistou Joe a acenar de novo freneticamente; havia trs homens  sua volta e outros trs aproximavam-se. Foi ento que 
Taylor se voltou na direo do edifcio e se apercebeu de que algo muito grave se passava.
     Levantou-se e comeou a correr para Joe, uma onda de nusea invadindo-o. Acercando-se, ouviu as palavras adormecidas na alma.
     - Ainda esto l dentro! Dois homens! Alm!
     Taylor pestanejou, uma recordao erguendo-se das cinzas.
     Um menino, com nove anos, no sto, a gritar da janela...
     Ficou gelado. Taylor olhou para os escombros em chamas do armazm, agora parcialmente de p; depois, como num sonho, comeou a correr em direo ao nico setor 
do edifcio ainda intacto, o que continha os escritrios. Ganhando velocidade, passou pelos homens que seguravam as mangueiras, ignorando os seus apelos para que 
parasse.
     As labaredas do armazm engoliam quase tudo; as chamas tinham-se propagado s rvores mais prximas que agora ardiam. Mesmo em frente havia uma porta que tinha 
sido aberta pelos bombeiros e o fumo negro escapava-se por essa passagem.
     J estava junto  porta quando Joe o avistou e lhe comeou a gritar que parasse.
     Incapaz de ouvi-lo devido ao fragor, Taylor entrou, a correr, pela porta, impelido como uma bala de canho, a mo com a luva protegendo-lhe o rosto, as chamas 
lanando-se sobre ele. Praticamente cego, virou para a esquerda, esperando que nada impedisse o seu percurso. Os olhos ardiam-lhe de cada vez que inspirava o ar 
acre e o sustinha.
     O fogo espalhara-se por todo o lado, as vigas estatelavam-se no cho, o prprio ar tornava-se venenoso.
     Sabia que podia conter a respirao cerca de um minuto, no mais.
     Investiu  esquerda, o fumo praticamente impenetrvel, as chamas fornecendo a nica iluminao.
     Ardia tudo com uma fria sobrenatural. As paredes, o teto... Por cima dele, o estrpito de uma viga a partir-se.
     Taylor saltou, instintivamente para o lado,  medida que o teto desabava a seu lado.
     Com os pulmes submetidos a um violento esforo, ele deslocou-se rapidamente para o extremo sul do edifcio, a nica  rea ainda em p. Podia sentir o seu corpo 
cada vez mais fraco; os pulmes pareciam dobrar-se enquanto cambaleava para frente.  sua esquerda vislumbrou uma janela, cujo vidro ainda no se tinha estilhaado, 
e caminhou vacilante na sua direo. Do cinto tirou o machado e partiu o vidro num movimento nico e rpido, deitando, de imediato, a cabea para fora, inspirando 
o ar outra vez.
      semelhana dos seres vivos, tambm o fogo parecia sentir o novo afluxo de oxignio, e, uns segundos depois, a sala explodia atrs de si com uma fria renovada.
     O calor abrasador das novas chamas impeliu-no para longe da janela, de novo em direo a sul.
     Aps aquele sbito reacendimento, o fogo recuou momentaneamente, uns segundos no mximo. Mas foi o suficiente para Taylor se situar... E ver a figura de um 
homem estendido no cho. Pelo aspecto do seu equipamento, Taylor percebeu que se tratava de um bombeiro.
     Taylor ziguezagueou na sua direo, evitando, por um triz, a queda de mais uma viga. Encurralado no ltimo canto do armazm que ainda se mantinha intacto, viu 
uma parede de chamas fechar-se  sua volta.
     Quase sem flego, de novo, Taylor alcanou o homem. Curvou-se para a frente, agarrou-o pelo pulso e depois ergueu-o sobre o ombro, debatendo-se para retroceder 
at  nica janela que conseguia ver.
     Movido apenas pelo instinto, correu para a janela, a cabea comeando a ficar leve, fechando os olhos para evitar que o fumo e o calor os lesassem ainda mais. 
Conseguiu chegar  janela e com um movimento rpido atirou o homem pelo vidro partido fazendo-o aterrar como um fardo. A visibilidade imperfeita dos seus olhos, 
no entanto, impediu-o de ver que outro bombeiro corria para o corpo.
     Tudo quanto Taylor podia fazer era ter esperana.
     Inspirou profundamente duas vezes e tossiu com violncia.
Em seguida, inspirou de novo, virou-se e voltou para dentro mais uma vez.
     Tudo rugia como um inferno de lnguas de fogo cidas e de fumo sufocante.
     Taylor atravessou a parede de calor e de fumo, movendo-se como que guiado por uma mo secreta.
     Ainda havia um homem l dentro.
     Um rapaz, com nove anos, no sto, a gritar pela janela pela qual tinha medo de saltar...
     Taylor fechou um olho quando este lhe comeou a doer.  medida que avanava, a parede do escritrio ruiu, desabando sobre si mesma como um baralho de cartas. 
O telhado, por cima dele, cedeu  medida que as chamas procuravam novos pontos de fragilidade e comeavam a avolumar-se em direo  fenda aberta no teto.
     Ainda havia um homem l dentro.
     Taylor sentia-se como se morresse a pouco e pouco ali dentro. Os seus pulmes gritavam por uma golfada do ar abrasador e venenoso que o rodeava. Todavia, ignorou 
este imperativo, ficando cada vez mais tonto.
     O fumo serpenteava  sua volta e Taylor caiu de joelhos, o outro olho comeava a doer-lhe tambm. As labaredas cercavam-no em trs frentes, contudo Taylor continuava 
o seu trajeto, no sentido da nica zona onde algum ainda podia estar vivo.
     Rastejava, agora, o calor parecia uma bigorna crepitante...
     Foi ento que Taylor percebeu que ia morrer.
     Quase inconsciente, continuava a rastejar.
     Em seu redor, tudo escureceu. Podia sentir que o mundo comeava a desaparecer.
     Respira! Gritava-lhe o seu corpo.
     Rastejando, avanando centmetro a centmetro, espontaneamente comeando a rezar.  sua frente, mais chamas, uma cortina interminvel de calor que se agitava.
     Foi ento que se deparou com o corpo.
     Completamente cercado pelo fumo, no conseguia identific-lo. Mas as pernas do homem estavam presas por debaixo dos escombros de uma parede que rura.
     Sentindo-se cada vez mais fraco e a viso a escurecer, Taylor tateou o corpo como um cego, vendo-o apenas com a sua imaginao.
     O homem estava de bruos com os braos abertos. Ainda tinha o capacete bem apertado em volta da cabea. Sessenta centmetros de entulho cobriam-lhe as pernas 
das coxas para baixo.
     Taylor deslocou-se para a cabea, agarrou os dois braos e puxou. O corpo no se mexeu.
     Com os ltimos vestgios das suas foras, Taylor levantou-se e, angustiante, comeou a remover os escombros de cima do homem. Tbuas, tijolos, pedaos de contraplacado, 
bocados de entulho carbonizado.
     Os seus pulmes estavam a pontos de explodir.
     As chamas aproximavam-se, agora, tocando de leve o corpo.
     Um a um, afastou os escombros, felizmente nenhum deles era excessivamente pesado. No entanto, o esforo tinha-lhe consumido as foras quase todas. Voltou para 
a cabea do corpo e puxou com fora.
     Desta vez o corpo mexeu-se. Taylor aplicou o peso do seu corpo e puxou de novo, mas sem ar absolutamente nenhum o seu corpo reagiu instintivamente. Taylor expirou 
e inalou fundo, quase sufocando.
     O seu corpo enganara-se.
     Taylor ficou, de sbito, completamente tonto e tossiu violentamente. Largou o homem e levantou-se cambaleando de pnico, sem ar na sala exaurida de oxignio; 
todo o treino, todos os pensamentos conscientes pareciam ter-se evaporado numa investida do puro instinto de sobrevivncia.
     Regressava, aos tropees, pelo caminho por onde tinha vindo, as pernas movendo-se por sua exclusiva vontade. Aps alguns metros, contudo, parou como se forado 
a acordar de um entorpecimento. Virando-se para trs, deu um passo na direo do corpo. Ao segundo passo, o mundo explodiu, de repente, em chamas. Taylor quase caiu.
     As labaredas apanharam-no, pegando fogo ao seu fato  medida que se precipitava para a janela. Atirou-se, s cegas, pela abertura. A ltima coisa que sentiu 
foi o seu corpo a bater no cho com um baque surdo e um grito de desespero morrendo-lhe nos lbios.
CAPTULO 24
     Apenas uma pessoa morrera naquela madrugada de segunda-feira.
     Seis homens haviam ficado feridos, entre os quais se encontrava Taylor, e foram levados para o hospital onde receberam tratamento. Trs dos homens tiveram alta 
nessa noite. Dois dos que ficaram, foram os que Taylor tinha ajudado a salvar; iam ser transferidos para a unidade de queimados da Universidade Duke em Durham, mal 
o helicptero chegasse.
     Taylor jazia sozinho na escurido do quarto do hospital, os seus pensamentos centrados no homem que deixara para trs e que morrera. Um dos olhos tinha uma 
ligadura e ele estava deitado de costas, fixando o teto com o outro olho quando a me chegou.
     Ela ficou sentada com ele no quarto do hospital durante uma hora, depois foi-se embora deixando-o entregue aos seus pensamentos.
     Taylor McAden no proferira uma s palavra.
     Denise foi visit-lo na tera-feira de manh,  hora de comearem as visitas. Mal entrou, Judy olhou-a da sua cadeira, tinha os olhos vermelhos e exaustos. 
Quando Judy lhe telefonou, Denise tinha ido de imediato com Kyle a reboque.
Judy pegou, em silncio, na mo de Kyle e conduziu-o pelas escadas abaixo.
     Denise entrou no quarto de Taylor e sentou-se onde Judy estivera sentada antes. Taylor voltou a cabea para o lado oposto.
     - Lamento o que aconteceu ao Mitch, afirmou ela suavemente.
CAPTULO 25
     O funeral devia ter lugar trs dias depois, na sexta-feira.
     Taylor tivera alta do hospital na quinta-feira e foi diretamente para casa de Mitch.
     A famlia de Melissa chegara de Rocky Mount e a casa  estava cheia de pessoas que Taylor apenas encontrara algumas vezes no passado: no casamento, nos batizados 
e em vrios feriados. Os pais e os parentes de Mitch, que viviam em Edenton, tambm passavam o dia l em casa, embora se fossem embora  noite.
     A porta estava aberta quando Taylor entrou  procura de Melissa. Mal a viu, do outro lado da sala de estar, os seus olhos comearam a arder e dirigiu-se para 
ela. Ela estava a conversar com a irm e com o cunhado, junto  fotografia de famlia emoldurada, pendurada na parede, quando o avistou.
     Interrompeu a conversa, de imediato, e encaminhou-se para ele. Quando se aproximaram um do outro, ele abraou-a e pousou a cabea no seu ombro enquanto chorava 
sobre os seus cabelos.
     - Lamento, articulou ele.  Lamento tanto, tanto.
     Tudo o que conseguia fazer era repetir-se. Melissa comeou a chorar tambm. Os outros membros da famlia deixaram-nos a ss com a sua dor.
     - Eu tentei Melissa... Eu tentei. No sabia que era ele.
     Melissa no era capaz de falar, tendo j conhecimento do que acontecera atravs de Joe.
     - Eu no consegui... Murmurou ele, por fim, sufocado, antes de sucumbir por completo.
     Ficaram abraados muito, muito tempo.
     Uma hora mais tarde, ele foi-se embora sem falar com mais ningum.
     O enterro, que teve lugar no Cemitrio de Cypress Park, foi acompanhado por muita gente. Todos os bombeiros dos trs distritos vizinhos, bem como todos os oficiais 
de justia marcaram presena, tal como os amigos e parentes. Era um dos maiores ajuntamentos de pessoas num funeral em Edenton; uma vez que Mitch ali crescera e 
geria o armazm de ferramentas, quase toda a gente da cidade veio apresentar as suas condolncias.
     Melissa e os quatro filhos sentaram-se, chorando, nas cadeiras da frente.
     O padre fez uma breve alocuo antes de recitar o Salmo 23. Quando chegou o momento dos elogios fnebres, o padre afastou-se para o lado, permitindo que os 
amigos mais ntimos e a famlia se chegassem  frente.
     Joe, o comandante dos bombeiros, foi o primeiro e falou da dedicao de Mitch, da sua coragem e do respeito que ele sempre guardaria no seu corao. A irm 
mais velha de Mitch tambm disse algumas palavras, partilhando algumas recordaes da infncia deles. Quando ela acabou, Taylor deu um passo em frente.
     - O Mitch era para mim como um irmo, comeou ele com a voz embargada e os olhos postos no cho. Crescemos juntos e em todas as boas recordaes que tenho, 
ele est presente. Lembro-me de uma vez, tnhamos doze anos, em que Mitch e eu estvamos a pescar e eu me levantei de repente no bote. Escorreguei, bati com a cabea 
e cai  gua. Mitch mergulhou e puxou-me para a superfcie. Nesse dia salvou-me a vida, mas quando, finalmente, recobrei os sentidos, ele s se riu. "Fizeste-me 
perder o peixe, seu desastrado!" foi a nica coisa que disse.
     Apesar da solenidade da ocasio, ouviu-se um murmrio de risos que logo se apagou.
     - Mitch... O que  que eu posso dizer? Era o tipo de homem que acrescentava algo a tudo em que tocava e a todos quantos contatavam com ele. Tinha inveja da 
sua viso da vida. Via-a como um grande jogo, no qual a nica forma de ganhar era ser generoso para com as outras pessoas, ser capaz de se olhar no espelho e gostar 
do que via. Mitch...
     Fechou os olhos com fora, reprimindo as lgrimas.
     - Mitch era tudo o que eu gostava de ser...
     Taylor afastou-se do microfone, curvou a cabea e voltou para o seu lugar, no meio da multido. O padre acabou o servio fnebre e as pessoas desfilaram pela 
urna onde fora colocada uma fotografia de Mitch. Na fotografia sorria abertamente, em p,  frente da churrasqueira no ptio das traseiras.  semelhana da fotografia 
do pai de Taylor, tinha captado a essncia daquilo que ele era. Depois, Taylor regressou sozinho a casa de Melissa.
     A casa estava cheia, pois muita gente viera apresentar as suas condolncias a Melissa. Contrariamente ao dia anterior uma reunio de amigos ntimos e da famlia, 
todas as pessoas que tinham ido ao funeral a se encontravam, incluindo algumas que Melissa mal conhecia.
     Judy e a me de Melissa tinham a seu cargo a tarefa de servir a comida quela massa humana; porque no interior da casa estavam todos muito apertados, Denise 
dirigiu-se para o jardim das traseiras e ficou a tomar conta de Kyle e das outras crianas que tambm tinham assistido ao funeral. Principalmente sobrinhos e sobrinhas, 
eram muito novinhos e, tal como Kyle, incapazes de compreender o que verdadeiramente se  estava a passar. Vestidos com roupa formal, corriam pelo ptio, brincando 
uns com os outros como se a situao no fosse mais do que uma reunio de famlia.
     Denise precisara sair de casa. A mgoa podia, por vezes, ser asfixiante, at mesmo para ela. Depois de abraar Melissa e de trocar com ela algumas palavras 
de conforto, tinha-a deixado ao cuidado da sua e da famlia de Mitch. Sabia que ela teria o apoio que precisava naquele dia; os pais tinham inteno de ficar por 
mais uma semana. Enquanto a me estaria a seu lado para escut-la e encorajar, o pai podia comear a tratar da enorme quantidade de documentos, tarefa que sempre 
se segue a acontecimentos semelhantes.
     Denise levantou-se da cadeira e dirigia-se para a beira da piscina, com os braos cruzados, quando Judy a avistou da janela da cozinha. Fez deslizar a porta 
de vidro e dirigiu-se a ela. Denise ouviu-a aproximar-se e relanceou o olhar por cima do ombro, sorrindo abatida.
     Judy ps-lhe, suavemente, uma mo nas costas.
     - Como  que se est a agentar? Perguntou.
     Denise sacudiu a cabea.
     - Devia ser eu a perguntar-lhe isso. Conhecia Mitch h muito mais tempo que eu.
     - Bem sei. Mas d a sensao de que precisa de uma amiga neste momento exato.
     Denise descruzou os braos e olhou de relance para a casa. Podiam ver-se pessoas em todas as salas.
     - Eu estou bem. S estou a pensar no Mitch. E na Melissa. E em Taylor?
     Apesar do fato de ter acabado o que havia entre os dois, ela no podia mentir.
Nele tambm.
     Duas horas mais tarde, o nmero de pessoas estava, por fim, a diminuir. A grande maioria dos amigos menos chegados tinha vindo e j tinha sado; alguns familiares 
que deviam apanhar os avies de regresso j se tinham tambm ido embora.
     Melissa estava sentada, na sala de estar, com a famlia mais chegada; os filhos tinham mudado de roupa e ido para o ptio da frente. Taylor estava sentado no 
gabinete de Mitch, sozinho, quando Denise se acercou dele.
     Taylor viu-a e desviou a sua ateno para as paredes do estdio. As prateleiras estavam repletas de livros, de trofus que os meninos haviam ganho no futebol 
e na Pequena Liga de basebol, de fotografias da famlia de Mitch. A um canto via-se uma secretria de tampo corredio, com o tampo fechado.
     - As tuas palavras no funeral foram lindas, comentou Denise. Sei que a Melissa ficou profundamente tocada com o que disseste.
     Taylor assentiu simplesmente, sem nada acrescentar.
     Denise passou as mos pelos cabelos.
     - Tenho, na verdade, muita pena, Taylor. S queria que soubesses que se precisares desabafar, podes contar comigo.
     - No preciso de ningum, sussurrou ele com a voz desfeita.
     Afastou-se dela e foi-se embora.
     O que nenhum deles sabia era que Judy testemunhara toda a cena.
CAPTULO 26
     Taylor atirou-se para cima da cama com o corao esmagado e a boca seca. Por um momento encontrou-se de novo dentro do armazm em chamas, a adrenalina correndo 
por todo o corpo. No conseguia respirar e os olhos piscavam com as dores. As chamas rodeavam-no por todos os lados e, se bem que tentasse gritar, nenhum som lhe 
saia da garganta.  Estava a sufocar com o fumo imaginrio.
     Ento, logo de seguida, compreendeu que era a sua imaginao. Olhou em redor do quarto e pestanejou com fora  medida que a  realidade se impunha  sua volta, 
magoando-o sob vrios aspectos e pesando-lhe no peito e nos membros. Mitch Johnson  estava morto.
     Era tera-feira. Desde o funeral que no saia de casa nem atendia ao telefone.       
     Prometeu a si mesmo mudar as coisas nesse mesmo dia. Tinha de tratar de alguns assuntos: um trabalho que tinha de continuar, alguns problemas no local que precisavam 
da sua ateno. Olhando para o relgio, verificou que j passava das nove. J l devia estar  uma hora.
     No entanto, em vez de se levantar, ficou simplesmente deitado de costas, incapaz de arranjar coragem para saltar da cama.
     No meio da manh de quarta-feira, Taylor sentou-se na cozinha, vestindo apenas um par de jeans. Tinha feito ovos mexidos e bacon e tinha ficado a olhar para 
o prato antes de, finalmente, atirar com a comida, em que nem tocara pelo cano triturador de lixo. J h dois dias que no comia nada. No conseguia dormir, nem 
queria. Recusava-se a falar fosse com quem fosse deixando que a secretria eletrnica recebesse as mensagens. Ele no merecia aquelas coisas. Essas coisas podiam 
dar prazer, podiam fornecer um escape; eram para pessoas que as mereciam, no para ele.  Estava esgotado. Tanto a mente como o corpo estavam a ser privados, gradualmente, 
das coisas de que precisavam para sobreviver; se ele quisesse, sabia que podia continuar este processo eternamente. Seria fcil, era uma espcie de fuga diferente. 
Taylor abanou a cabea. No, no podia ir to longe. Nem to-pouco era disso merecedor.
     Ao contrrio, obrigou-se a ingerir um naco de torrada. O estmago ainda resmungava, mas ele recusou-se a comer mais do que o estritamente necessrio.
     Era a sua forma de reconhecer a verdade sob o seu ponto de vista. Cada dor provocada pela fome lembr-lo-ia da sua culpa, do desprezo por si mesmo. Por sua 
causa, o amigo tinha morrido.
     Exatamente como o pai.
     Na noite anterior, sentado no alpendre, tinha tentado ressuscitar Mitch, no entanto, estranhamente, o rosto dele j  estava congelado no tempo. Podia recordar-se 
da fotografia, conseguia ver o rosto de Mitch, todavia, por nada da sua vida conseguia lembrar-se do aspecto de Mitch a rir ou a dizer piadas ou a bater-lhe nas 
costas. O seu amigo j o deixara. Em breve a sua imagem desapareceria para sempre.
     Exatamente como com o pai.
     Dentro de casa, Taylor no acendeu nenhuma luz.  Estava muito escuro no alpendre e ele sentou-se na escurido, sentindo as suas entranhas transformarem-se em 
pedra.
     Na quinta-feira conseguiu ir ao trabalho; falou com os proprietrios da casa que estava a restaurar e tomou uma dzia de decises. Felizmente os seus operrios 
estavam presentes quando falou com os donos e sabiam o suficiente para continuarem o trabalho por si s. Uma hora depois, Taylor no se recordava de uma nica palavra 
da conversa.
     Bem cedo, na manh de sbado, acordado, mais uma vez, por pesadelos, Taylor obrigou-se a levantar-se. Enganchou o atrelado ao caminho, em seguida carregou 
o cortador de relva no atrelado, em conjunto com o exterminador das ervas daninhas, o aparador e a tesoura. Dez minutos depois estacionava em frente  casa de Melissa. 
Ela veio c fora justamente quando ele acabava de descarregar.
     Passei por aqui e vi que a relva estava muito crescida afirmou ele sem a olhar nos olhos. Aps um momento de um silncio constrangedor perguntou-lhe:
     - Como  que tu ests a agentar?
     - Bem, respondeu ela sem manifestar emoo. Tinha os olhos raiados de vermelho. E tu?
     Taylor encolheu os ombros, tentando engolir o n que se formara na garganta.
     s oito horas seguintes passou-as l fora, a trabalhar com perseverana, esforando-se para que o jardim dela parecesse ter sido tratado por um profissional 
paisagista. Ao principio da tarde, foi entregue um carregamento de agulhas de pinheiro que ele colocou cuidadosamente em redor das  rvores, nos canteiros de flores 
e a todo o comprimento da casa.
     Enquanto trabalhava, elaborava mentalmente uma lista de outras coisas que precisavam ser feitas e, depois de carregar o equipamento no atrelado, ps o cinto 
das ferramentas. Consertou algumas tbuas partidas da vedao, calafetou trs janelas, arranjou um vidro que  estava partido, mudou as lmpadas fundidas dos globos 
dos candeeiros exteriores. Concentrando-se a seguir, na piscina, limpou o lixo da gua e lavou o filtro.
     No entrou em casa para visitar Melissa seno quando j  estava pronto para se ir embora, e, mesmo nessa altura, s ficou por breves instantes.
     - Ainda h mais algumas coisas a fazer, informou ele  sada. Passo por c amanh para tratar delas.
     No dia seguinte trabalhou, sem descanso, at ao anoitecer.
     Os pais de Melissa foram-se embora na semana seguinte e Taylor preencheu o vazio da sua ausncia. Tal como havia feito com Denise ao longo dos meses de Vero, 
comeou a passar por casa de Melissa quase todos os dias. Por duas vezes trouxera o jantar (da primeira vez, pizza, e da segunda, frango frito) e, se bem que ainda 
se sentisse vagamente desconfortvel na presena de Melissa, experimentava uma sensao de responsabilidade em relao aos meninos.
     Precisavam da figura de um pai.
     Havia tomado  deciso no principio da semana, aps mais uma noite de insnias. A idia, contudo, tinha-lhe surgido, inicialmente, quando ainda se encontrava 
no hospital. Sabia que no podia ocupar o lugar de Mitch, nem era essa a sua inteno. Nem to-pouco seria um empecilho na vida de Melissa, sob qualquer aspecto. 
Com o passar do tempo, se ela encontrasse algum, ele podia retirar-se, tranquilamente, da cena familiar. Entretanto, estaria presente para todos eles, fazendo o 
que Mitch sempre fizera. Tratar do relvado. Jogar  bola e fazer viagens para pescar com os meninos. Reparaes insignificantes pela casa ou l o que fosse.
     Ele sabia o que era crescer sem um pai. Lembrava-se de desejar ter algum, para alm da me, com quem conversar. Lembrava-se de ficar deitado na cama, a ouvir 
os sons surdos dos soluos da me no quarto contguo e de como tinha sido difcil falar com ela no ano subseqente  morte do pai. Fazendo uma retrospectiva, apercebia-se 
com toda a clareza de como a sua juventude fora sombria e apagada.
     Em considerao a Mitch, ele no ia deixar que isso acontecesse com os meninos.
     Tinha a certeza que era o que Mitch teria querido que ele fizesse. Eram como irmos, e os irmos cuidavam uns dos outros. Para alm de tudo o mais, era o padrinho. 
Era a sua obrigao.
     Melissa parecia no se importar que ele tivesse comeado a ir l a casa com regularidade. Nem sequer lhe perguntara o motivo, o que significava que tambm ela 
entendia a importncia da sua atitude. Os meninos sempre tinham estado na primeira linha das suas preocupaes, e, agora que Mitch desaparecera, Taylor tinha a certeza 
de que esses sentimentos haviam aumentado.
     Os meninos. Agora precisavam dele, disso no havia dvidas.
     Sob o seu ponto de vista, ele no tinha alternativa.
     Tomada a deciso, recomeou a comer e, subitamente, os pesadelos acabaram. Sabia o que devia fazer.
     No fim-de-semana seguinte, quando Taylor chegou para tratar do relvado, inspirou profundamente enquanto subia o caminho de acesso a casa de Mitch e de Melissa. 
Pestanejou fortemente para se certificar que os seus olhos no lhe  estavam a pregar uma partida, mas quando voltou a olhar, verificou que a tabuleta ainda l  estava.
     Uma tabuleta de uma imobiliria.
     "Para Venda."
     A casa estava para venda.
     Ficou sentado no seu caminho, com o motor a trabalhar preguiosamente, enquanto Melissa surgia de dentro de casa. Quando lhe acenou, Taylor desligou, por fim, 
a ignio e o motor parou. Ao dirigir-se a ela, podia ouvir os meninos no ptio das traseiras, embora no os visse.
     Melissa abraou-o.
     - Como vais, Taylor? Perguntou ela, procurando o seu rosto.
     Taylor recuou um passo, evitando o olhar dela.
      Acho que vou bem, retorquiu ele, distrado. Apontou com a cabea na direo da estrada.
     - Para que  a placa?
     - No  evidente?
     - Vais vender a casa?
     - Espero bem que sim.
     - Por qu?
     Todo o corpo de Melissa pareceu fraquejar enquanto se voltava para encarar a casa. - J no consigo viver aqui... Acabou por responder num sussurro. Demasiadas 
recordaes.
     Reprimiu as lgrimas e, sem nada dizer, contemplou a casa. Ficou, subitamente, com um ar to cansado, to derrotado, como se o fardo de continuar sem Mitch 
estivesse a exaurir-lhe a fora para viver. Uma onda de medo insinuou-se dentro dele.
     - No te vais embora, pois no? Inquiriu ele sem acreditar.
     - Vais continuar a viver em Edenton, no  verdade? Aps um longo momento, Melissa abanou a cabea.
     - Para onde  que vocs vo?
     - Para Rocky Mount, respondeu ela.
     - Mas porqu? Quis ele saber, a voz tensa. Vives aqui h doze anos... Tens c amigos... Eu estou aqui...  a casa? Perguntou rapidamente, perscrutando. No 
esperou pela resposta. Se no consegues viver nesta casa, h de haver qualquer coisa que eu possa fazer. Posso construir-te outra pelo preo de custo, onde quiseres.
     Melissa virou-se, finalmente, e encarou-o.
     - No  a casa, isso no tem nada a ver com o assunto. A minha famlia vive em Rocky Mount e, neste momento, eu preciso dela. E os meninos tambm. Todos os 
primos l esto e o ano letivo mal comeou. No vai ser difcil para eles adaptarem-se.
     - Vais mudar-te j? Perguntou ele, debatendo-se ainda para perceber o significado desta noticia.
     Melissa assentiu.
     - Na prxima semana, informou ela. Os meus pais tm uma antiga casa de aluguel que disseram que eu podia utilizar at vender est.  mesmo ao cimo da rua onde 
eles moram. E se eu tiver de arranjar um emprego, eles podem tomar conta dos meus filhos.
     - Eu podia fazer isso, sugeriu Taylor rapidamente. Podia dar-te um emprego no escritrio, a tratares das faturas e das encomendas se precisares ganhar dinheiro, 
e podias faz-lo aqui mesmo em casa: Podias tratar disso quando tivesses tempo.
     Ela sorriu-lhe com tristeza.
     Por qu? Tambm me queres salvar Taylor?
     Ests palavras fizeram-no sobressaltar. Melissa olhou para ele atentamente antes de continuar.
     -  isso que ests tentando fazer, no ? Ao vires c durante a semana passada para cuidares do jardim, ao passares o tempo com os meninos, a oferta da casa 
e do emprego... Agradeo o que ests tentando fazer, mas no  isso que eu preciso neste momento. Preciso tratar disto  minha maneira.
     - No estava tentando salvar-te, protestou ele, esforando-se por esconder a dor que sentia. Sei o quo difcil  perder algum e no queria que passasses por 
tudo sozinha.
     Ela sacudiu a cabea devagar.
     - Oh, Taylor, o tom de voz quase maternal, vem a dar no mesmo. Hesitou, a sua expresso simultaneamente sabedora e triste.  o que tens vindo fazer ao longo 
de toda a tua vida. Pensas que algum precisa de ajuda, e se puderes, ds exatamente o que esse algum precisa. E agora, ests a orientar a tua mira sobre ns.
     - No estou nada! Negou ele.
     Melissa no desistiu. Ao invs, pegou-lhe na mo.
     - Ests sim, repetiu ela com calma. Foi o que fizeste com Valerie quando o namorado a deixou, foi o que fizeste com Lori porque se sentia sozinha. Foi o que 
fizeste com Denise quando te apercebeste de quo dura a vida dela . Pensa em todas as coisas que fizeste por ela, logo desde o principio. Fez uma pausa para Taylor 
interiorizar o que havia dito. Sente necessidade de tornar as coisas melhores, Taylor. Sempre  foste assim. Podes no acreditar, mas tudo na tua vida vem provar 
o que eu disse, vezes sem conta... At mesmo o teu tipo de trabalho. Como empreiteiro, consertas o que est partido. Como bombeiro, salva pessoas. O Mitch nunca 
entendeu est tua faceta, todavia, para mim ela era evidente.  assim que tu s.
     Taylor ficou sem resposta. Ao invs, virou-se, meditando nas palavras dela. Melissa apertou-lhe a mo.
     - Isso no  mau, Taylor. Mas no  o que eu preciso. E a prazo, tambm no vai ser o que precisas. Com o tempo, quando pensasses que eu estava salva, afastar-te-ias, 
em busca de outra pessoa a quem salvares. E eu, provavelmente, ficar-te-ia grata por tudo, exceto pelo fato de saber a verdade sobre o motivo que te levou a faz-lo.
     Calou-se, esperando que Taylor dissesse alguma coisa.
     - Que verdade  essa? Perguntou ele irritado, por fim. 
     - Que mesmo embora me tivesses salvado, tu estavas tentando salvar-te a ti mesmo pelo que aconteceu com o teu pai. E por muito que me esforce, nunca serei capaz 
de fazer isso por ti.  um conflito que tens de ser tu a resolver por ti prprio.
     As palavras atingiram-no quase como uma violncia fsica. Sentiu-se sufocar enquanto olhava para os ps, incapaz de sentir o corpo, a mente num turbilho de 
pensamentos.
     Recordaes ao acaso passaram-lhe pela cabea numa sucesso estonteante: o rosto zangado de Mitch no bar; os olhos de Denise rasos de lgrimas; as labaredas 
no armazm, lambendo-lhe os braos e as pernas; o pai a virar-se  luz do Sol enquanto a me lhe tirava o retrato...
     Melissa observou a enorme quantidade de emoes que perpassaram pelo rosto de Taylor e puxou-o para si. Ps-lhe os braos em volta do pescoo e deu-lhe um abrao 
forte.
    - Tens sido como um irmo para mim, e aprecio o teu gesto de quereres apoiar os meus filhos. E, se tambm gostas de mim, sabes que no te disse ests coisas 
para te magoar. Sei que me queres ajudar, mas no preciso que o faas. Do que eu preciso  que encontres um meio de te salvares a ti prprio, exatamente do mesmo 
modo que tentaste salvar o Mitch.
     Ele sentia-se demasiado entorpecido para responder. Sob a luz do Sol daquela manh, ficaram ao p um do outro, abraados.
     - Como? rezingou ele por fim.
     - Tu sabes, murmurou ela com as mos nas costas dele. Tu j sabes.
     Deixou a casa de Melissa completamente atordoado. Era tudo quanto podia fazer para se manter atento  estrada, sem saber para onde queria ir, os pensamentos 
desconexos. Tinha a sensao que a energia que lhe restava para seguir em frente lhe tinha sido retirada, deixando-o nu e perdido.
     A sua vida, tal como ele a concebera, tinha acabado e no fazia a mnima idia do que fazer. Por muito que desejasse negar aquilo que Melissa lhe dissera, no 
podia. Por outro lado, e simultaneamente, tambm no acreditava nisso. Pelo menos, no na totalidade ou acreditava?
     Raciocinar com todas estas nuances esgotava-o. Tentara, ao longo da vida, olhar para as coisas de uma forma concreta e clara, no de uma forma ambgua e cheia 
de significados misteriosos. Ele no procurava motivaes secretas, nem nele nem nos outros, pois nunca acreditara que fossem importantes.
     A morte do pai fora algo concreto, uma coisa horrvel, mas, no entanto real. No conseguia entender por que razo o pai morrera, e durante algum tempo falara 
com Deus sobre as coisas por que estava a passar, querendo uma explicao para elas. Contudo, com o tempo, desistiu. Falar sobre o assunto, compreend-lo... Mesmo 
que as respostas acabassem por surgir, no faziam diferena. No trariam o seu pai de volta.
     Mas agora, nestes tempos difceis, as palavras de Melissa faziam-no questionar o significado de tudo o que ele pensava ser claro e simples.
     Teria, de fato, a morte do pai influenciado toda a sua vida? Estariam Melissa e Denise certas na sua avaliao sobre a sua pessoa?
     No, decidiu ele. No tinham razo. Nenhuma delas sabia o que acontecera na noite em que o pai morrera. Ningum, para alm da me, sabia a verdade.
     Taylor conduzindo automaticamente, no prestava ateno ao rumo que seguia. Curvava aqui e ali, abrandava nos cruzamentos, parava quando devia parar, obedecia 
a todas as regras sem conscincia de que o fazia. Os seus pensamentos saltitavam para frente e para trs ao ritmo das mudanas de velocidade do seu caminho. As 
ltimas palavras de Melissa assombravam-no.
     "Tu j sabes..."
     Sabia o qu? Queria perguntar. Neste momento no sei nada. No sei do que ests a falar: S quero ajudar os garotos, como quando eu era criana. Sei do que 
eles precisam. Posso ajud-los. Tambm te posso ajudar a ti, Melisa. Tenho tudo planejado...
     "Tambm ests tentando salvar-me?"
     No, s estou. S quero ajudar:
     "Vem a dar no mesmo".
     Srio?
     Taylor recusou-se a seguir a linha de pensamento at  sua soluo final. Ao invs, e vendo a estrada pela primeira vez, apercebeu-se do local onde se encontrava. 
Parou o caminho e iniciou o curto percurso que o levava ao seu destino.
     Judy estava  espera dele junto  campa do pai.
     - O que  que est aqui a fazer, me? Inquiriu ele.
     Judy no se voltou ao ouvir a voz dele. Ao contrrio, de joelhos no cho, arrancava as ervas daninhas em redor da pedra, tal como Taylor fazia sempre que ali 
ia.
     - A Melissa telefonou-me e avisou-me de que tu virias retorquiu ela calmamente, escutando os passos dele mesmo atrs dela. Pela voz, ele reconheceu que ela 
tinha estado a chorar.
     - Disse-me que eu deveria estar c.
     Taylor acocorou-se ao seu lado.
     - O que  que se passa me?
     O rosto dela estava vermelho. Tocou com a mo na face, ficando nela uma folha de erva partida.
     - Desculpa, comeou ela. No fui uma boa me...
     Ento, a sua voz pareceu morrer na garganta, deixando Taylor demasiado surpreendido para conseguir responder. Com um gesto sensvel, ele retirou a folha de 
erva da face dela quando, por fim, ela se virou para o olhar.
     - A me foi uma grande me, afirmou ele convicto.
     - No, sussurrou ela, no fui. Se tivesse sido, no virias aqui tantas vezes quantas vens.
     - Me, de que  que est a falar?
     - Tu sabes, Ripostou ela, inspirando fundo antes de continuar. Quando tens problemas e te acontecem azares na vida, no recorres a mim, no recorres aos teus 
amigos. Vens aqui. Qualquer que seja a circunstncia ou o problema, Acabas por decidir que os resolves melhor sozinho, tal como ests a fazer agora. 
     Ela fixou-o quase como se olhasse para um estranho.
     - No consegues perceber por que razo isso me magoa tanto? No posso deixar de pensar o quo triste deve ser para ti viveres a vida sem pessoas; pessoas que 
te podiam ajudar ou, pura e simplesmente, ouvir-te quando precisas. E tudo isso por minha causa.
     - No...
     Ela no o deixou terminar a frase, recusando-se a ouvir os seus protestos. Dirigindo o olhar para a linha do horizonte, parecia perdida no passado.
     - Quando o teu pai morreu, fiquei to enquistada na minha tristeza que ignorei como devia ser difcil para ti. Tentei ser tudo para ti, mas por isso mesmo, 
no tive tempo para mim. No te ensinei o quo maravilhoso  amar algum e receber o seu amor.
     - Claro que sim, afirmou ele.
     Ela olhou-o com um olhar de profunda mgoa.
     - Ento por que  que ests sozinho?
     - No tem que se preocupar comigo, est bem? Murmurou quase para si prprio.
     - Claro que tenho. A sua voz era fraca. Sou a tua me.
Judy mudou de posio, deixou de estar de joelhos e sentou-se no cho. Taylor fez o mesmo e pegou-lhe na mo. Ela aceitou a dele de boa vontade e ficaram em silncio, 
uma brisa ligeira agitava as copas das  rvores  sua volta.
     - O teu pai e eu tnhamos uma relao maravilhosa sussurrou ela finalmente.
     - Eu sei...
     - No, deixa-me acabar,est bem? Posso no ter sido a me que precisavas na altura, mas vou esforar-me a partir de agora. Ela apertou-lhe a mo. O teu pai 
fez-me feliz, Taylor. Era a melhor pessoa que eu conheci. Lembro-me da primeira vez que falou comigo. Ia a caminho de casa e parei para comprar um gelado. Ele entrou 
na loja logo atrs de mim. Naturalmente, sabia quem ele era; Edenton era ainda menor do que hoje em dia. Eu andava no terceiro ano, e depois de comprar o gelado, 
fui de encontro a uma pessoa e o gelado caiu no cho. Era a minha ltima moeda de cinco centavos, e fiquei to transtornada que o teu pai me comprou outro. Acho 
que me apaixonei por ele nesse momento. Bom...  medida que o tempo ia passando, nunca o tirei do meu pensamento. Quando freqentei o liceu, namorvamos os dois 
e, depois de casarmos, nem uma nica vez lamentei o fato de ter casado com ele.
     Ela fez uma pausa e Taylor largou-lhe a mo e ps-lhe o brao em redor dos ombros.
     - Eu sei que amava o pai, declarou ele com dificuldade.
     - No  essa a questo. A questo  que ainda hoje no o lamento.
     Ele olhou para ela sem compreender. Judy apanhou-lhe o olhar e os seus olhos ficaram subitamente ameaadores.
     - Mesmo que soubesse o que acabaria por acontecer ao teu pai, teria casado com ele. Mesmo que soubesse que ficaramos juntos apenas onze anos, eu no os trocaria 
por nada. Consegues entender isso? Sim, teria sido maravilhoso envelhecermos juntos, mas isso no quer dizer que eu lamente o tempo que vivemos juntos. Amar algum 
e receber em troca o seu amor  a coisa mais preciosa do mundo. Foi o que tornou possvel que eu seguisse em frente, todavia parece que tu no compreendes isso. 
Mesmo quando o amor est ali,  tua frente, tu preferes abrir mo dele. Ests sozinho porque queres.
     Taylor esfregou os dedos uns nos outros, a sua mente ficando entorpecida de novo.
     - Sei, continuou Judy,  a voz cansada que te sentes responsvel pela morte do teu pai. Toda a minha vida me esforcei para que percebesses que no devias, que 
foi um acidente horrvel. No passavas de uma criana. No sabias o que ia acontecer, tal como eu no sabia tambm; no entanto, independentemente das variadssimas 
formas com que tentei transmitir-te isso, continuaste a acreditar que a culpa era tua. E por causa disso, fechaste-te para o mundo. No sei por que motivo... Talvez 
penses que no mereces ser feliz, talvez tenhas medo de que, finalmente, se te permitires gostar de algum, estejas a admitir que no tiveste qualquer responsabilidade... 
Talvez tenhas medo de abandonar a tua famlia. No sei o que , mas tudo isso  errado. No consigo pensar noutra forma de te dizer isto.
     Taylor no respondeu e Judy suspirou quando percebeu que ele no o ia fazer.
     - Este Vero, quando te vi com o Kyle, sabes o que pensei? Pensei no quanto te parecias com o teu pai. Ele sempre teve jeito para as crianas, tal como tu. 
Lembro-me de como costumavas andar atrs dele, para onde quer que ele fosse. S a maneira como tu costumavas olhar para ele me fazia sorrir. Era uma expresso de 
admirao e de adorao a um heri. Tinha-me esquecido dela at ver a expresso do Kyle quando  estavas com ele. Ele olhava para ti exatamente da mesma maneira. 
Aposto que tens saudades dele.
     Taylor assentiu relutante.
     -  porque tentavas dar-lhe o que pensavas teres perdido enquanto cresceste, ou porque gostas dele?
     Taylor ponderou a questo antes de responder.
     - Eu gosto dele.  um menino fantstico.
     Judy olhou-o nos olhos. - Tambm sentes saudades da Denise?
     - Sim, sinto...
     Taylor mexeu-se, desconfortvel. - Isso j acabou me, declarou ele.
     Ela hesitou.
     - Tens a certeza?
     Taylor anuiu e Judy inclinou-se para ele e pousou a cabea no seu ombro.
     -  uma pena, Taylor, murmurou ela. Ela era perfeita para ti.
     Nos minutos seguintes ficaram em silncio, sentados um ao lado do outro, at um aguaceiro de outono comear a cair, obrigando-os a irem para o parque de estacionamento. 
Taylor abriu a porta  me e Judy sentou-se ao volante. Depois de fechar a porta, ele espalmou as mos de encontro ao vidro, sentindo as gotas frias nas pontas dos 
dedos. Judy sorriu, com tristeza, para o filho e depois arrancou deixando-o em p  chuva.
     Havia perdido tudo.
     Soube no momento em que sara do Cemitrio e iniciou a curta viagem de regresso a casa. Passou por uma srie de casas vitorianas que tinham um aspecto sombrio 
 luz suave e nebulosa do sol, atravessou as poas de gua no meio da estrada, os limpadores de  pra-brisa varrendo o vidro de um lado para o outro com uma regularidade 
rtmica. Continuou atravs da baixa e deixou para trs os marcos divisrios comerciais que conhecia desde a infncia, os seus pensamentos teimosamente dirigidos 
para Denise.
     "Ela era perfeita para ti".
     Por fim, admitiu para si mesmo que, apesar da morte de Mitch, apesar de tudo, no tinha conseguido deixar de pensar nela. Como uma apario, a sua imagem tinha-lhe 
vindo  mente vezes sem conta, mas ele afugentava-a com uma determinao obstinada. Agora, contudo, era impossvel. Com uma lucidez alarmante, visualizava a sua 
expresso quando lhe havia consertado as portas dos armrios, ouvia o eco do seu riso pelo alpendre, podia cheirar o aroma do champ do seu cabelo.
     Ela estava ali com ele... E, no entanto, no estava. Nem nunca mais estaria. Esta percepo o fez sentir-se mais vazio do que alguma vez se sentira.
     Denise...
      medida que conduzia, as explicaes que concebera para si, e para ela, pareceram-lhe, subitamente, vs. O que  que se passava com ele? Sim, ele tinha-se 
afastado. Apesar dos desmentidos, Denise estava certa acerca disso. Por que motivo, perguntava-se ele, o fizera? Teria sido pelas razes que a sua me apresentara?
     "No te ensinei o quo maravilhoso  amar algum e receber em troca o seu amor..."
     Taylor abanou a cabea, de repente sem certezas sobre as decises que tinha tomado pela vida fora. A me teria razo?
     Se o pai no tivesse morrido, teria ele agido da mesma maneira ao longo dos anos? Pensando em Valerie e em Lori... Ter-se-ia casado com elas? Talvez, pensou 
ele inseguro, mas provavelmente no. Havia outras coisas que no estavam bem naquelas relaes e ele no era capaz de afirmar, com toda a honestidade, que alguma 
vez tivesse amado alguma delas.
     Mas Denise?
     Sentiu um n na garganta quando recordou a primeira noite em que fizeram amor. Por muito que tentasse neg-lo, sabia agora que se tinha apaixonado por ela, 
por tudo nela. Por que motivo, ento, no lhe dissera? E mais importante, por que motivo ignorara, energicamente, os seus prprios sentimentos e a afastara de si?
    "Ests sozinho porque queres..."
     Seria assim? Desejava ele enfrentar o futuro sozinho? Sem Mitch, e em breve sem Melissa, quem mais tinha ele? A me e... E... A lista extinguia-se. Depois dela 
no havia mais ningum.
     Era isso o que ele queria de verdade? Uma casa vazia, um mundo sem amigos, um mundo sem ningum que se interessasse por ele? Um mundo onde evitava o amor a 
todo o custo?
     No caminho, a chuva espirrava contra o pra-brisa como se arrastasse estes pensamentos para casa e, pela primeira vez na vida, percebeu que estava, e tinha 
estado, a mentir a si mesmo.
     Neste seu aturdimento, fragmentos de outras conversas comearam a repetir-se na sua cabea.
     Mitch a avis-lo: "No lixes tudo desta vez..."
     Melissa a provoc-lo: "Vais casar com est garota maravilhosa ou qu?"
     Denise, em toda a sua beleza luminosa: "Todos ns precisamos de companhia..."
     Qual fora a sua resposta: "No preciso de ningum..."
     Era mentira. Toda a sua vida tinha sido uma mentira, e as suas mentiras tinham-no conduzido a uma realidade que era, de repente, impossvel sondar. Mitch desaparecera, 
Melissa desaparecera, Denise desaparecera, Kyle desaparecera... Tinha-os perdido a todos. As suas mentiras tinham-se tornado a sua realidade.
     Todos desapareceram.
     Este reconhecimento fez Taylor segurar o volante com mais fora, debatendo-se para se controlar. Encostou o caminho  berma e ps o manipulo das mudanas em 
ponto morto, o sentido da viso toldando-se.
     Estou sozinho...
     Agarrou-se ao volante, enquanto a chuva caia  sua volta, perguntando-se, como diabo, tinha deixado que tudo isto acontecesse.
CAPTULO 27
     Denise entrou pelo caminho de acesso a casa, cansada do trabalho. A chuva que cara continuamente tinha feito abrandar o movimento do restaurante durante toda 
a noite. Houvera apenas o nmero de clientes suficiente para mant-la ocupada, todavia, no fizera muito dinheiro em gorjetas. Uma noite mais ou menos perdida, no 
entanto, havia um lado bom, tinha tido a possibilidade de sair um bocadinho mais cedo e Kyle nem se mexera quando ela o transportou para o carro. Nos ltimos meses 
tinha-se habituado a enroscar-se no seu regao na viagem de regresso a casa, contudo, agora que adquirira o seu prprio automvel (viva!), sentava-o no banco de 
trs com o cinto apertado. Na noite anterior ele tinha-se exasperado tanto que no conseguira adormecer de novo nas duas horas seguintes.
     Denise abafou um bocejo quando curvou para o acesso de gravilha, aliviada pela certeza de que em breve estaria deitada. A gravilha estava molhada das chuvas 
que antes haviam cado e ela conseguia ouvir os seus pequenos zunidos  medida que as rodas a levantavam no ar e a atiravam para longe. Mais uns minutos, uma boa 
chvena de cacau e estaria debaixo dos cobertores. Este pensamento era quase embriagador.
     A noite estava escura e sem luar, as nuvens negras no permitiam que se visse a luz das estrelas. Havia-se instalado um nevoeiro leve e Denise subiu o caminho 
devagar, utilizando o candeeiro do alpendre como ponto de referncia.  medida que se aproximava de casa e as coisas iam tomando forma, quase travou a fundo ao avistar 
o caminho de Taylor estacionado  sua frente.
     Relanceando o olhar para a porta da frente, viu-o sentado nos degraus  sua espera.
     Apesar da fadiga, a mente aguou-lhe a ateno. Uma dezena de hipteses atravessou-lhe a cabea enquanto estacionava e desligava o motor.
     Taylor acercou-se do carro quando ela saiu, tendo o cuidado de no bater com a porta. Ia perguntar-lhe o que pretendia ele, mas as palavras morreram-lhe nos 
lbios.
     Ele tinha um aspecto horrvel.
     Tinha os olhos raiados de vermelho, o rosto plido e abatido. Enfiou as mos nos bolsos e parecia no ser capaz de encar-la. Gelada, ela tentava encontrar 
algo para dizer.
     - Vejo que j tens carro, comentou Taylor.
     O som da sua voz despoletou nela uma torrente de emoes: Amor e alegria, mgoa e raiva, a solido e o desespero silenciosos das ltimas semanas.
     Ela no se sentia capaz de passar pelo mesmo outra vez.
     - O que  que ests aqui a fazer, Taylor?
     A voz dela apresentava um tom mais amargo do que ele esperara. Taylor respirou fundo.
     Vim para te dizer que estou muito arrependido, comeou ele hesitante. Nunca quis magoar-te.
     Tempos atrs, ela teria gostado de ouvir aquelas palavras, todavia, estranhamente, agora eram ocas de sentido.
     Olhou por cima do ombro para o carro, observando o filho adormecido no banco traseiro.
     - J  muito tarde para isso, afirmou ela.
     Ele ergueu um pouco a cabea.  luz do candeeiro do alpendre, ele parecia muito mais velho do que ela se lembrava, quase como se tivessem passado alguns anos 
desde a ltima vez que o vira. Ele esboou um sorriso desmaiado, depois baixou os olhos mais uma vez, antes de tirar as mos dos bolsos. Deu um passo inseguro na 
direo do caminho.
     Tivesse isto acontecido num outro dia, com outra pessoa, ele teria seguido em frente, dizendo para si mesmo que havia tentado. Ao invs, foi compelido a parar.
     - A Melissa vai-se embora para Rocky Mount, declarou ele na escurido da noite, de costas voltadas para ela.
     Denise, com ar ausente, passou a mo pelos cabelos.
     - Bem sei, ela disse-me h uns dias.  por isso que ests aqui?
     Taylor abanou a cabea.
     - No. Estou aqui porque queria falar do Mitch, murmurou ele por cima do ombro; Denise mal o conseguia ouvir. Tinha esperana que me quisesses escutar, pois 
no tenho mais ningum com quem desabafar.
     A vulnerabilidade dele emocionou-a e surpreendeu-a, e por um instante fugidio, ela quase se colocou a seu lado. No entanto, ela no podia esquecer o que ele 
fizera a Kyle... Ou a ela, advertiu-se a si mesma.
     No posso passar por isto outra vez.
     Mas tambm lhe disse que estaria  sua disposio se quisesse desabafar.
     - Taylor...  to tarde... Talvez amanh? Sugeriu ela suavemente.
     Taylor assentiu, como se estivesse  espera de ouvir o que ela acabara de dizer. Ela pensou que ele iria embora, contudo no se mexeu do lugar de onde  estava.
      distncia, Denise escutou o vago rudo surdo e prolongado de um trovo. A temperatura ia descendo, mas a umidade do ar fazia parecer a noite ainda mais fria 
do que  realmente  estava. Um halo indistinto formou-se em redor da luz do alpendre, brilhando como pequenos diamantes, enquanto Taylor se voltava para ela de novo.
     - Tambm te queria falar do meu pai, acrescentou ele lentamente. Chegou a altura de tu saberes, finalmente, a verdade.
     Pela expresso tensa que apresentava, ela tomou conscincia do quo difcil tinha sido para ele pronunciar semelhantes palavras. Parecia  beira das lgrimas, 
em frente dela; desta feita era a sua vez de afastar o olhar.
     Veio-lhe  memria o dia da feira em que ele se oferecera para lev-la a casa. Tinha ido contra os seus instintos e acabara por receber uma dolorosa lio.
     Mas, mais uma vez se encontrava numa encruzilhada, e mais uma vez hesitava. Ela suspirou.
     "No  a altura certa, Taylor:  tarde e o Kyle j est a dormir: Estou estafada e acho que ainda no estou preparada para isso."
     Era isto que ela se imaginava a responder.
     As palavras que pronunciou, contudo, foram diferentes.
     - Est bem, concordou ela.
     Do lugar do sof onde estava sentado, ele no olhava para ela. Com a sala iluminada por um nico candeeiro, o seu rosto permanecia escondido por sombras escuras.
     - Eu tinha nove anos, comeou ele, e durante duas semanas estivemos praticamente enterrados em calor. A temperatura tinha subido quase aos quarenta graus centgrados, 
se bem que fosse apenas o principio do Vero. Tinha sido uma das primaveras mais secas de que havia noticia; nem uma s gota de chuva em dois meses e estava tudo 
invulgarmente seco.
     - Lembro-me de ouvir os meus pais falarem sobre a estiagem e de como os agricultores comeavam a preocupar com as colheitas, dado que o Vero apenas chegara. 
Estava tanto calor que as horas pareciam no avanar. Eu ficava o dia todo,  espera que o Sol se pusesse para que o ar refrescasse, mas nem isso ajudava. A nossa 
casa era antiga, no tinha ar condicionado nem estava muito bem isolada, e s de estar deitado me fazia transpirar. Recordo-me de que os lenis ficavam ensopados; 
era impossvel conseguir dormir. Mexia-me de um lado para o outro tentando ficar mais confortvel, mas no conseguia. Remexia-me na cama e suava como um doido.
     Enquanto falava, fixava  mesa de caf, os olhos distrados, a voz abafada. Denise observava como uma das suas mos se fechava e abria constantemente. Abrindo-se 
e fechando-se, como uma porta, s suas recordaes, imagens a esmo esgueirando-se pelas fendas.
     - Naquela poca havia uma coleo de soldadinhos de plstico que eu vira no catlogo da Sears. Trazia tanques, jipes, tendas e barricadas; tudo o que um menino 
precisava para fazer a sua guerrazinha, e no me lembro de querer tanto uma coisa, em toda a minha vida, como aquilo. Costumava deixar o catlogo aberto naquela 
pgina para a minha me no se esquecer e, quando, por fim, recebi a coleo no dia do meu aniversrio, acho que nunca fiquei to entusiasmado com uma prenda. No 
entanto, o meu quarto era muito pequeno (tinha sido um quarto de costura antes de eu nascer) e no tinha o espao suficiente para montar as peas todas conforme 
desejava, assim, levei a coleo toda para o sto. Quando no conseguia dormir, era para onde eu ia.
     Ergueu, finalmente, os olhos, deixando escapar um suspiro desolado, algo amargo e h muito reprimido. Abanou a cabea como se ainda no acreditasse no que acontecera. 
Denise conhecia-o o suficiente para no o interromper.
     - J era tarde. Era mais de meia-noite quando passei sorrateiramente pela porta do quarto dos meus pais em direo  escada ao fundo do vestbulo. Eu no fazia 
barulho nenhum; sabia onde podia encontrar cada rangido do soalho e evitava-os deliberadamente para os meus pais no saberem que  estava a p. E nunca souberam.
     Levou as mos ao rosto e dobrou-se para frente, escondendo-o, depois as baixou de novo. A sua voz ganhou flego.
     - No sei h quanto tempo l estava em cima, nessa noite. Conseguia brincar com aqueles soldadinhos horas a fio at perder a noo do tempo. Punha-os em posio 
e fazia guerras imaginrias. Eu era sempre o Sargento Mason (os soldados tinham os nomes gravados por baixo da base) e quando via aquele que tinha o nome do meu 
pai, j sabia que tinha de ser ele o heri. Ele ganhava sempre, quaisquer que fossem as vantagens dos adversrios. Lanava-o contra dez homens e um tanque e ele 
fazia sempre as manobras certas. No meu pensamento, ele era indestrutvel; perdia-me no mundo do Sargento Mason, independentemente do que se estivesse a passar. 
Deixava passar a hora do jantar ou esquecia-me das minhas tarefas... Era superior a mim. Mesmo nessa noite, quente como estava, no pensava noutra coisa a no ser 
nos malditos soldadinhos. Acho que foi por isso que no senti o cheiro do fumo.
     Fez uma pausa, fechando, por fim, o punho. Denise sentiu os msculos de a nuca retesar-se  medida que ele continuava.
     - No fui capaz de sentir o cheiro. Ainda hoje, no consigo explicar por que, parece-me impossvel que o tenha deixado escapar, mas deixei. No me apercebi 
de que algo se estivesse a passar, exceto quando ouvi os meus pais sarem do quarto em polvorosa, fazendo uma tremenda balbrdia. Gritavam e chamavam por mim e lembro-me 
de ter pensado que tinham descoberto que eu no estava onde devia. Continuava a ouvi-los, chamaram-me vezes sem conta, mas eu temia responder.
     Os seus olhos pediam compreenso.
     - No queria que me encontrassem l em cima; tinham-me avisado mais de cem vezes que depois de estar na cama era l que eu devia ficar. Se me encontrassem, 
calculei que me metesse em sarilhos. Tinha um jogo de basebol nesse fim-de-semana, e de certeza que eles me castigariam e no me deixariam ir. Assim, em vez de sair 
quando eles me chamaram, arquitetei um plano: esperar at terem descido as escadas e, depois, esgueirar-me para o banheiro e fingir que ali tinha estado o tempo 
todo. Parece uma idiotice, bem sei, mas na altura fazia sentido. Apaguei a luz e escondi-me atrs de umas caixas at poder sair. Ouvi o meu pai abrir a porta do 
sto gritando por mim, mas continuei quietinho at ele se ir embora.
     - O barulho dos movimentos rpidos deles l fora acabou por se extinguir e foi ento que me dirigi para a porta. Ainda no fazia a mnima idia do que estava 
a acontecer e, quando abri a porta, fiquei atordoado com um sopro de calor e fumo. As paredes e o teto estavam em chamas, mas tudo parecia to irreal; a principio 
no me apercebi da gravidade da situao. Se tivesse desatado a correr naquele momento, provavelmente teria conseguido sair, mas no o fiz. Fiquei a olhar para o 
fogo, pensando quo estranho quilo era. Nem sequer tive medo.
     Taylor retesou-se, curvando-se sobre a mesa quase numa posio de defesa, a sua voz agudizou-se.
     - Todavia, tudo se transformou de repente. Antes que desse por isso, tudo havia sido, de imediato, apanhado pelo fogo e a sada ficara obstruda. Foi ento 
que percebi que algo horrvel  estava a acontecer. O tempo tinha estado to seco que a casa ardia como palha. Recordo-me de pensar que o fogo parecia to... Vivo. 
As chamas pareciam saber exatamente onde eu me encontrava e uma rajada de labaredas lanou-se sobre mim, atirando-me ao cho. Comecei a gritar pelo meu pai. Mas 
ele j se tinha ido embora e eu sabia. Em pnico arrastei-me at  janela. Quando a abri, vi os meus pais no relvado da frente. A minha me trazia uma camisa de 
noite comprida e o meu pai estava de cales e corriam, ambos, de um lado para o outro, completamente aterrorizados, a gritar e a chamar por mim. Por uns instantes 
no consegui abrir a boca, Porm a minha me parecia ter um sexto sentido que lhe dizia onde eu me encontrava e olhou para cima, para mim. Ainda consigo ver os olhos 
dela quando se apercebeu de que eu ainda  estava dentro de casa. Ficaram absolutamente desvairados e ela levou uma mo  boca e ps-se a olhar ao mesmo tempo em 
que gritava. O meu pai deixou o que estava a fazer (encontrava-se perto da vedao) e viu-me tambm. Foi ento que comecei a chorar.
     Sentado no sof, uma lgrima escorregou-lhe pelo canto dos olhos imveis, se bem que parecia no reparar nisso. Denise sentiu um n no estmago.
     - O meu pai... O meu pai, forte e enorme, correu atravs do relvado num pice. Nessa altura grande parte da casa estava a arder e eu ouvia as coisas estalarem 
e explodirem l em baixo.  O fogo estendia-se em direo ao sto e o fumo comeou a ficar deveras espesso. A minha me gritava pedindo ao meu pai que fizesse alguma 
coisa e ele correu mesmo para debaixo da janela. Lembro-me de ele gritar: "Salta Taylor! Eu agarro-te! Eu agarro-te, juro!"
     - Contudo, em vez de saltar, comecei a chorar ainda mais. A janela  estava a pelo menos seis metros de altura e parecia-me to alta que eu tinha a certeza de 
que morreria se tentasse saltar. "Salta, Taylor! Eu apanho-te!" - Ele no parava de repetir: "Salta! V l!" A minha me gritava cada vez mais alto e eu continuava 
a chorar at, finalmente, berrar que no era capaz, que tinha medo.
     Taylor engoliu em seco.
     - Quanto mais o meu pai me mandava saltar, tanto mais paralisado eu ficava. Podia sentir o pnico na voz dele e a minha me estava a ir-se abaixo e eu continuava 
a gritar que no era capaz de saltar, que tinha medo. E tinha, mesmo sabendo, agora, que ele teria conseguido agarrar-me.
     Um msculo no queixo contorcia-se repetidamente, os olhos baos, opacos. Bateu com o punho na perna.
     - Ainda consigo ver o rosto do meu pai quando percebeu que eu no ia saltar; ambos chegamos a essa concluso no mesmo instante. Tinha o horror estampado na 
cara, mas no por ele. Parou de gritar e baixou os braos e recordo-me de que os seus olhos nunca desfitaram os meus. Foi como se o tempo parasse nesse preciso momento; 
ramos s ns dois. J no ouvia a minha me, j no sentia o calor, j no sentia o cheiro. Tudo o que eu conseguia era pensar no meu pai. Ento ele assentiu de 
forma quase despercebida e ambos soubemos o que ele ia fazer. Por fim, voltou-se e correu para a porta da frente.
     Fez com tanta rapidez que a minha me no teve qualquer hiptese de impedi-lo. Nessa altura j a casa toda estava a arder. O fogo encurralava-me e eu deixei-me 
ficar em p  janela, demasiado em choque at para continuar a gritar.
     Taylor tapou os olhos com as palmas das mos e fez fora. Quando as baixou para o colo, recostou-se no canto mais afastado do sof, como que sem vontade de 
acabar a histria. Com um grande esforo, prosseguiu.
     - Deve ter sido em menos de um minuto que chegou ao p de mim, mas pareceu uma eternidade. Mesmo com a cabea fora da janela, eu j mal conseguia respirar. 
Havia fumo por todo o lado. O incndio era ensurdecedor. As pessoas pensam que eles so silenciosos, mas no so. Parecem diabos agonizantes a gritar quando tudo 
est a ser consumido pelas chamas. Apesar disso, consegui ouvir a voz do meu pai dentro de casa, gritando-me que estava quase a chegar.
     Neste instante a voz de Taylor extinguiu-se e virou a cabea para esconder as lgrimas que lhe comearam a correr pelo rosto.
     - Recordo-me de me voltar e de o ver correr para mim. Todo ele ardia. A pele, os braos, o rosto, o cabelo... Tudo. Apenas uma bola de fogo humana correndo 
para mim, a ser devorada, irrompendo pelas chamas. No entanto, ele no gritava. Encurralou-me, empurrando-me para a janela e disse: "Vai, filho." - Obrigou-me a 
sair pela janela, segurando-me por um pulso. Quando todo o peso do meu corpo balanava, ele finalmente largou-me. Aterrei com tanta fora que parti um tornozelo; 
ouvi o estalido ao cair de costas, olhando para cima. Foi como se Deus quisesse que eu visse o que tinha feito. Vi o meu pai retirar o brao em chamas para dentro...
     Nesta altura Taylor calou-se, sem conseguir continuar. Denise, gelada,  estava sentada na cadeira, com lgrimas nos olhos e uma sensao de aperto na garganta. 
No momento em que ele voltou a falar, a sua voz era praticamente inaudvel e tremia como se o esforo dos soluos do choque do passado estivesse a despedaar-lhe 
o corpo.
     - Ele nunca mais saiu. Lembro-me da minha me a arrastar-me para longe da casa, ainda aos gritos e, nessa altura, tambm eu comecei a gritar.
     Fechou os olhos com fora, ergueu o queixo para o teto.
     - Pai... No... Bradou ele rouco.
     O som da sua voz ecoou pela sala.
     - Foge pai!
     No momento em que Taylor parecia soobrar, Denise correu, instintivamente, para o seu lado e rodeou-o com os braos enquanto ele se balanava para frente e 
para trs com exclamaes de desalento quase incoerentes.
     - Oh, Deus, por favor... Deixa-me voltar ao principio... por favor... Eu salto... Por favor, Deus... Desta vez, salto... Por favor, deixa-o sair...
     Denise abraou-o com toda a sua fora, as suas prprias lgrimas rolando inopinadas pelo pescoo dele abaixo, enquanto comprimia o seu rosto no dele. Uns instantes 
depois, ouvia apenas o bater do corao dele, o ranger do sof  medida que ele se balanava numa cadncia ritmada e as palavras que ia repetindo vezes sem conta...
     - No queria mat-lo...
CAPTULO 28
     Denise ficou abraada a Taylor at ele, por fim, se calar, esgotado e exausto. Em seguida libertou-o do abrao e foi  cozinha, regressando uns breves instantes 
depois com uma lata de cerveja, uma coisa que ela havia feito questo de adquirir quando comprou o carro.
     No sabia o que fazer, nem fazia a mnima idia do que dizer. Tinha ouvido contar coisas horrveis ao longo da vida, mas nada que se comparasse a isto. Taylor 
olhou-a quando ela lhe entregou a cerveja; com uma expresso quase aptica, ele abriu a lata e sorveu um gole, em seguida p-la no colo com ambas as mos em seu 
redor.
     Ela acercou-se, pousando-lhe uma mo na perna e ele notou o gesto. 
     - Ests bem? Perguntou ela.
     - No, retorquiu ele com sinceridade. Mas talvez nunca tenha estado.
     Ela apertou-lhe a mo.
     - Talvez no, concordou ela.
     Ele esboou um sorriso plido. Ficaram sentados em silncio durante uns momentos antes de ela voltar a falar.
     - Por que est noite, Taylor?
     Ela podia ter tentado falar-lhe do sentimento de culpa que ele sentia, sabia porm, intuitivamente, que no era a altura oportuna. Nenhum deles estava preparado 
para enfrentar tais fantasmas demonacos.
     Com um ar ausente, ele fazia rodar a lata nas mos.
     - No deixei de pensar em Mitch desde que ele morreu e com a Melissa em mar de mudana... No sei... Comecei a sentir que isto me estava a comer vivo.
     - E  estava, Taylor.
     - Ento, porqu eu? Por que no outra pessoa qualquer?
     Ele no respondeu de imediato, mas olhou-a de relance, os seus olhos azuis no manifestando mais que pesar.
     - Porque, afirmou ele com uma sinceridade inequvoca, gosto de ti como jamais gostei de algum.
     Ao escutar estas palavras, ficou com a respirao presa na garganta. Quando ela no disse nada, Taylor retirou a mo, como j antes havia feito na feira.
     - Tens todo o direito de no acreditar em mim, admitiu ele, Provavelmente eu tambm faria o mesmo, dada a forma como agi. Peo-te desculpa por isso, por tudo. 
Fez uma pausa. Com a unha do polegar, removeu a orelha da lata que tinha nas mos.
     - Quem me dera poder explicar por que fiz as coisas que fiz, mas, para dizer a verdade, no sei. Tenho andado a mentir a mim mesmo h tanto tempo, que nem sequer 
tenho a certeza de reconhecer a verdade se a visse  minha frente. A nica coisa que sei, com toda a certeza,  que lixei a melhor coisa que alguma vez tive na vida.
     - Sim, l isso  verdade concordou ela, fazendo Taylor dar uma risada nervosa.
     - Acho que est fora de questo uma segunda oportunidade, hein? Denise ficou em silncio, tomando, subitamente, conscincia de que em algum momento ao longo 
daquela noite, toda a sua raiva contra Taylor se tinha dissipado. No entanto, a mgoa ainda permanecia no seu corao, tal como o medo do que pudesse vir a acontecer 
no futuro. Sentia, de algum modo, a mesma ansiedade que experimentara quando, ao principio, se tinha comeado a aperceber da personalidade dele. E, de certa forma, 
sabia que agora  que, de fato, comeava a conhec-lo.
     - Tiveste essa oportunidade h um ms atrs, afirmou ela calmamente. Est j deve ser, agora, a vigsima.
     Ele pressentiu, na voz dela, um inesperado vislumbre de encorajamento e olhou-a no rosto, mal disfarando a sua esperana.
     - Assim tantas?
     - E mais ainda, confirmou ela, sorrindo. Se eu fosse uma rainha, o mais certo era ter-te mandado decapitar.
     - No h esperana, hein?
     Haveria? Era a isso que tudo se resumia, no era?
     Denise hesitou. Era quase palpvel o desmoronamento da sua firme deciso enquanto o olhar dele se prendia no dela, falando mais eloquentemente que quaisquer 
palavras. De repente sentiu-se invadida pelas lembranas de todas as coisas boas que ele tinha feito por ela e por Kyle, revivendo todos os sentimentos que tanto 
se esforara por reprimir ao longo das ltimas semanas.
     - No foi isso, propriamente, o que eu disse respondeu ela, por fim. Mas no podemos partir de onde ficamos. H muita coisa que tem de ser esclarecida primeiro, 
e no vai ser fcil.
     Demorou alguns instantes at interiorizar estas palavras e, quando percebeu que a possibilidade ainda permanecia, por mais leve que fosse, Taylor foi invadido 
por uma onda repentina de alivio. Esboou um breve sorriso antes de colocar a lata em cima da mesa.
     - Lamento Denise, repetiu ele, com veemncia. Desculpa pelo que fiz ao Kyle, tambm.
     Ela assentiu simplesmente e pegou-lhe na mo.
     Nas horas seguintes conversaram com uma franqueza renovada. Taylor contou-lhe tudo o que acontecera nas ltimas semanas: as suas conversas com Melissa e o que 
a me lhe dissera; a discusso que tinha tido com Mitch na noite em que morrera. Falou da maneira como a morte de Mitch tinha ressuscitado as suas prprias memrias 
da morte do pai e, apesar de tudo, o seu sentimento de culpa latente em relao s duas mortes.
     Falava firme e calmamente enquanto Denise escutava, dando-lhe apoio sempre que ele precisava e, ocasionalmente, fazendo-lhe perguntas. Eram quase quatro da 
madrugada quando ele se levantou para se ir embora; Denise acompanhou-o  porta e ficou a v-lo desaparecer na estrada.
     Enquanto vestia o pijama, ela ia pensando no rumo que a relao deles poderia tomar a partir daquele momento; falar das coisas no era necessariamente sinnimo 
de decises corretas, aconselhou-se a si mesma com prudncia. Podia no significar nada, podia significar tudo. Todavia, sabia que a possibilidade de lhe dar outra 
oportunidade no cabia exclusivamente a ela. Tal como havia sido desde o incio, tinha tambm, ponderava ela enquanto as pestanas se iam fechando, a ver com Taylor.
     Na tarde do dia seguinte telefonou a perguntar se ela concordava que ele passasse l por casa.
     - Gostaria de pedir desculpa ao Kyle, tambm, explicou ele.
     - Para alm de que tenho uma coisa para lhe mostrar.
     Ainda exausta da noite anterior, ela sentia que precisava de mais tempo para refletir nos ltimos acontecimentos. Era uma necessidade imperiosa. E ele tambm. 
No entanto, concordou relutante, mais por Kyle do que por ela. Sabia que Kyle rejubilaria ao v-lo.
     Ao desligar, contudo, perguntou-se se teria agido bem. L fora, o dia estava desagradvel; o tempo frio do outono havia chegado com todo o rigor. As folhas 
das rvores encantavam com as suas cores: vermelhos, cor de laranja, e amarelos espalhavam-se pelos ramos, preparando-se para a sua queda final na relva coberta 
de orvalho. Em breve o jardim estaria cheio de vestgios descorados do Vero que terminara.
     Uma hora depois, Taylor chegou. Embora Kyle estivesse no ptio da frente, ela conseguiu ouvir os seus gritos excitados por sobre o rudo da torneira.
     - M! O Tayer t qui!
     Pondo de lado a lavagem da loua (tinha acabado de lavar a loua do almoo), ela dirigiu-se  porta da frente, sentindo, contudo, algum desconforto. Ao abri-la, 
deparou-se com Kyle a correr na direo do caminho de Taylor; mal este saltou c para fora, Kyle pulou-lhe para os braos como se Taylor nunca se tivesse afastado, 
o rostinho brilhando de alegria. Taylor abraou-o por muito tempo e p-lo no cho no momento em que Denise se encaminhou para eles.
     - Ol! Saudou ele tranqilo.
     Ela cruzou os braos.
     - Ol, Taylor.
     - O Tayer t qui! insistia Kyle jubilante, agarrado  perna de Taylor. o Tayer t qui!
     Denise esboou um sorriso. Claro que est meu amor.
     Taylor aclarou a garganta, pressentindo o constrangimento dela e apontou por cima do ombro.
     -Fui buscar umas coisas ao armazm quando vinha para c.   No te importa que eu fique por um bocado?
     Kyle riu alto, completamente encantado com a presena de Taylor.
     - o Tayer t qui, repetiu ele.
     - Parece que no tenho alternativa, declarou ela com naturalidade.
     Taylor tirou o saco das compras da cabine do caminho e levou-o para dentro. O saco continha os ingredientes para um guisado: carne de vaca, batatas, cenouras, 
aipo e cebolas. Falaram uns minutos, porm ele pareceu sentir a ambivalncia dela em relao  sua presena e acabou por ir l para fora com Kyle que se recusava 
a abandon-lo. Denise comeou a preparar a refeio, agradecida por a terem deixado sozinha. Alourou a carne e descascou as batatas, partiu as cenouras, o aipo e 
as cebolas e deitou-os para dentro de um grande tacho com gua e especiarias. A monotonia da tarefa era calmante, apaziguando as suas emoes alteradas.
     No entanto, enquanto se mantinha de p junto ao lava-loua, ela perscrutava, ocasionalmente, o jardim e observava Taylor e Kyle a brincarem no cascalho areento 
do cho onde ambos empurravam para a frente e para trs caminhes Tonka, construindo estradas imaginrias. Contudo, apesar de quo bem pareciam estar a dar-se, ela 
foi, mais uma vez, confrontada com uma paralisante sensao de insegurana em relao a Taylor; as lembranas da mgoa que ele lhes causara, a ela e a Kyle, vinham 
 tona com uma nova lucidez. Poderia ela confiar nele? Conseguiria ele mudar? Poderia mudar?
      medida que atentava neles, Kyle trepava para a silhueta acocorada de Taylor, cobrindo-o de poeira. Podia escutar o riso de Kyle; podia escutar, tambm, as 
gargalhadas de Taylor.
     Era to bom ouvir aqueles sons outra vez...
     Porm...
     Denise abanou a cabea. Mesmo que Kyle lhe tenha perdoado, eu no consigo esquecer: Ele feriu os nossos sentimentos uma vez, pode faz-lo de novo. No podia 
dar-se ao luxo de se envolver to profundamente desta vez. No se deixaria levar na onda.
     Todavia, eles tm um ar to divertido os dois...
     No te deixes levar pelas aparncias, aconselhava-a uma voz interior.
     Suspirou, recusando permitir que a sua introspeco dominasse os seus pensamentos. Com o guisado a cozinhar em lume brando, ela ps a mesa, arrumou a sala de 
estar e foi ver o que mais era preciso fazer.
     Decidindo ir l fora, saiu para o ar revigorante e fresco e sentou-se nos degraus do alpendre. Podia observar Taylor e Kyle ainda imersos nas suas brincadeiras.
     Apesar da grossa camisola de gola alta, o ar frio a fez cruzar os braos. No cu voava um bando de gansos em formao triangular, a caminho do sul onde passariam 
o Inverno. Eram seguidos por um segundo grupo que parecia competir para apanhar o primeiro. Enquanto os observava, apercebeu-se de que os seus movimentos respiratrios 
se transformavam em pequenos flegos. A temperatura descera bastante desde a manh; uma frente fria, soprando do midwest, tinha atingido a regio baixa da Carolina 
do Norte.
     Passados alguns momentos, Taylor olhou para a casa e viu-a dando-lhe a perceber com um sorriso. Com um movimento rpido da mo, acenou-lhe e voltou a colocar 
a mo dentro da manga quentinha. Taylor inclinou-se para Kyle e apontou com o queixo, levando Kyle a virar-se rapidamente na direo dela. Kyle acenou feliz da vida 
e ambos se levantaram. Taylor sacudia as jeans  medida que se encaminhavam para casa.
     - Parece que vocs os dois se esto a divertir, comentou ela.
     Taylor sorriu parando a alguns passos dela.
     - Acho que vou deixar de ser empreiteiro e vou passar a construir apenas cidades na poeira.  muito mais divertido e  mais fcil negociar com as pessoas.
     Ela debruou-se para Kyle.
     - Divertiste-te, meu amor?
     - Sim, afirmou ele assentindo entusiasticamente, foi divertido. (Foi divetido.)
     Denise ergueu de novo o olhar para Taylor.
     - O guisado ainda demora um bocadinho, portanto ainda tm muito tempo se quiserem ficar c fora.
     - Foi o que calculei, mas preciso de um copo de gua para engolir alguma desta poeira.
     Denise sorriu.
     - Tambm queres beber alguma coisa, Kyle?
     Em vez de responder, Kyle acercou-se dela com os braos estendidos. Quase fundindo-se com ela, ele colocou os braos em volta do pescoo de Denise.
     - O que  que foi, querido? Perguntou ela, subitamente preocupada.
     Com os olhos fechados, ele apertou-a ainda mais e, instintivamente, ela ps-lhe os braos em redor do corpo.
     - Obrigado, mame. Obrigado... (Bidado, m, Bidado.)
     - Por qu?
     - Meu amor, o que  que se passa? voltou a perguntar.
     - Bidado, repetiu Kyle, Bidado, m.
     E continuou a repetir uma terceira e uma quarta vezes, os olhos ainda fechados. O sorriso de Taylor desapareceu-lhe do rosto.
     - Querido... Denise tentou de novo, agora um pouco mais desesperada, um sentimento de terror percorrendo-a sobre o que se estaria a passar.
     Kyle, mergulhado no seu mundo, continuava a apert-la com fora. Denise fuzilou Taylor com um olhar que parecia dizer "Vs o que fizeste agora?", quando subitamente, 
Kyle voltou a falar, um tom agradecido na voz.
     - Ad-u-te, m.
     Levou algum tempo para entender o que ele tentava dizer, e, de repente, ela sentiu os plos da nuca arrepiar-se.
     - Adoro-te, mame.
     Denise fechou os olhos em estado de choque. Como se sentisse que ela ainda no acreditava, Kyle reforou o abrao, apertando-a com uma intensidade feroz e repetiu:
     - Ad-u-te, m.
     - Oh, meu Deus...
     Lgrimas inesperadas saltaram-lhe, subitamente, dos olhos.
     Durante cinco anos esperara ouvir aquelas palavras. Durante cinco longos anos ela tinha sido privada de algo que os outros pais tinham como certo, uma simples 
declarao de amor.
     - Tambm te adoro, meu amor... Amo-te tanto.
     Levada pela emoo do momento, abraou Kyle to firmemente quanto ele a abraava a ela.
     Jamais esquecerei isto, pensava ela, retendo na memria a sensao do corpo de Kyle, o cheiro do seu filhinho, as suas palavras coxas e miraculosas. Jamais.
     Ao v-los assim, Taylor afastou-se para o lado como que hipnotizado por aquela emoo, tanto quanto ela. Tambm Kyle parecia perceber que tinha feito alguma 
coisa certa, e, quando ela por fim o libertou, ele voltou-se para Taylor com um sorriso no rosto. Denise, com as faces coradas, riu-se da sua expresso. Virou-se 
para olhar Taylor com um ar de profundo espanto.
     - Ensinaste-o a dizer aquilo?
     Taylor abanou a cabea.
     - Eu no. S estvamos a brincar.
     Kyle olhava de Taylor para a me, a mesma expresso de alegria no rosto.
     - Bidado, m, disse simplesmente. O Tayer t casa.
     - O Taylor est em casa...
     Mal a criana acabou de proferir ests palavras, Denise limpou as lgrimas das faces, a mo tremia-lhe ligeiramente e, por uns instantes, fez-se silncio. Nem 
Denise nem Taylor sabiam o que dizer. Embora o choque de Denise fosse evidente, ela parecia a Taylor absolutamente maravilhosa, bela como nunca antes vira algum. 
Taylor baixou os olhos e agarrou um galho do cho, torcendo-o entre os dedos com ar ausente.
     Erguia os olhos para ela, em seguida baixava-os para o ramo, depois para Kyle at fixar o seu olhar no dela com uma firme determinao.
     - Espero que ele tenha razo, afirmou Taylor, a sua voz ligeiramente enrouquecida. Porque eu tambm te amo.
     Era a primeira vez que ele lhe dizia estas palavras, a ela ou a qualquer outra pessoa. Apesar de pensar que eram difceis de proferir, a verdade  que no eram. 
Nunca antes tinha estado to certo de alguma coisa.
     Denise quase podia sentir a emoo de Taylor quando ele lhe estendeu a mo. Aturdida, segurou-a, permitindo que ele a puxasse para se pr de p e a atrasse 
para si. Ele inclinou a cabea, aproximando-a da dela lentamente, e, sem se aperceber, sentiu os lbios dele colados aos seus, unindo-se ao calor do corpo dele. 
A ternura do beijo pareceu durar uma eternidade at que ele enterrou o rosto no pescoo dela.
     - Amo-te, Denise, murmurou ele de novo, amo-te tanto. Fao o que for preciso para ter uma nova oportunidade e, se ma deres, juro que jamais te deixarei outra 
vez.
     Denise fechou os olhos, deixando que ele a abraasse antes de relutante, se afastar. Com um pequeno espao entre os dois, ela voltou-se um pouco e, por uns 
momentos, Taylor no sabia o que pensar. Ele apertou-lhe a mo tentando ouvi-la enquanto ela respirava fundo. Todavia, ela no falou.
     Sobre as suas cabeas, o Sol de outono ia-se pondo. Cmulos, brancos e cinzentos, espalhavam-se uniformes, levados pelo vento. Na linha do horizonte, nuvens 
escuras agigantavam-se negras e espessas. A chuva, grossa e pesada, chegaria em cerca de uma hora. Todavia, nessa altura, estariam na cozinha a ouvir as gotas martelarem 
o telhado de folha-de-flandres, sentados  mesa olhando os pratos fumegantes cujo vapor ondularia em direo ao teto.
     Denise suspirou e virou-se para Taylor de novo. Ele amava-a. Era to simples quanto isto. E ela tambm o amava.
     Ela lanou-se nos braos dele, certa de que a tempestade que se avizinhava nada tinha a ver com eles.
EPLOGO
     Naquela manh, bem cedo, Taylor levou Kyle  pesca. Denise preferiu ficar em casa; tinha umas quantas coisas para fazer antes de Judy chegar para o almoo, 
e, para alm do mais, precisava de um pouco de sossego. Kyle freqentava, ento, o jardim infantil e, se bem que tivesse progredido bastante ao longo do ltimo ano, 
ainda apresentava alguns problemas de adaptao  escola, uma vez que era o seu primeiro ano. Ela continuava a trabalhar com ele, todos os dias, no que se referia 
 fala, mas esforava-se tambm por ajud-lo no desenvolvimento das outras capacidades para que ele se pudesse manter a par dos colegas. Afortunadamente, a recente 
mudana para a sua nova casa no pareceu trazer-lhe qualquer tipo de inconvenientes. O garotinho adorava o seu novo quarto, muito maior do que aquele que tivera 
na primeira casa em Edenton, e estava deliciado pelo fato de se situar sobranceiro ao rio. Ela tinha de admitir que tambm adorava a casa. Do local onde se encontrava 
sentada, no alpendre, conseguia avistar Taylor e Kyle encarrapitados na muralha com as canas de pesca na mo. Sorriu pensativamente, refletindo no ar to natural 
dos dois juntos. Como um pai e um filho, o que, naturalmente, no deixavam de ser.
     Aps o casamento, Taylor adotara legalmente Kyle: Este tinha levado as alianas numa pequena cerimnia ntima que tivera lugar na Igreja Episcopal. Alguns amigos 
de Atlanta estiveram presentes, bem como alguns amigos da cidade que Taylor convidara. Melissa fora a dama de honra e Judy vertera umas lgrimas, no seu lugar da 
primeira fila, quando trocaram as alianas. A seguir  cerimnia, Taylor e Denise partiram em viagem de lua-de-mel para o cracoke onde ficaram alojados num hotel, 
em regime de dormida e pequeno-almoo, com vista sobre o oceano. Na primeira manh de casados levantaram-se antes do Sol nascer e deram um passeio pela praia. Enquanto 
as toninhas furavam as ondas nadando para o largo, eles assistiam ao nascer do Sol. Taylor postara-se atrs de Denise, com as mos em volta da cintura dela, e ela 
recostara, simplesmente, a cabea sobre o ombro dele, sentindo-se aquecida e segura,  medida que um novo dia despontava.
     Quando regressaram da lua-de-mel, Taylor surpreendeu Denise com uma srie de plantas que ele prprio executara.
     Era o projeto de uma bonita casa de campo de um s piso sobranceira ao rio, com amplos alpendres, complementados com bancos sob as janelas, uma cozinha moderna 
e o soalho em madeira. Adquiriram um lote de terreno nos arredores da cidade e a construo da moradia comeou um ms depois; a mudana foi levada a cabo imediatamente 
antes do incio do ano letivo.
     Denise tambm deixara de trabalhar no Eights; ela e Taylor iam l de vez em quando jantar, mais para fazerem uma visita a Ray. Este continuava o mesmo de sempre; 
parecia que no envelhecia e, de cada vez que se iam embora, Ray brincava com ela dizendo-lhe que teria de volta o emprego mal ela quisesse. Apesar do bom humor 
de Ray, ela no tinha saudades do trabalho no restaurante.
     Embora Taylor ainda tivesse, ocasionalmente, alguns pesadelos, havia-a surpreendido com a sua dedicao durante o ltimo ano. No obstante a responsabilidade 
da construo da casa, vinha almoar todos os dias e recusava-se a trabalhar para alm das seis horas da tarde. Na Primavera anterior tinha sido o treinador da equipe 
de T-ball de Kyle (Kyle no era o melhor jogador, mas no era, tambm, o pior) e passavam os fins-de-semana em famlia. Durante o Vero haviam  realizado uma viagem 
ao Disney World; pelo Natal compraram um jipe Cherokee de segunda mo.
     A nica coisa que faltava era a vedao branca de estacas e essa iria ser montada na semana seguinte.
     Denise ouviu o relgio da cozinha e levantou-se da cadeira. Havia uma torta de ma no forno e ela retirou-a de l e colocou-a na bancada para arrefecer. No 
fogo, estava um frango a guisar e o aroma condimentado do caldo espalhava-se pela casa.
     A casa diles. Os MacAden. Se bem que estivesse casada h pouco mais de um ano, ainda sentia prazer no som do nome. Denise e Taylor MacAden. Soava bem, dizia 
de si para si.
     Mexeu o guisado, j estava ao lume h cerca de uma hora e a carne comeava a desprender-se dos ossos. Embora Kyle continuasse tentando escapar-se a comer carne 
a maior parte das vezes, alguns meses antes ela tinha-lhe pedido que experimentasse frango. Ele recalcitrara durante uma hora, mas acabara por ingerir um pedacinho; 
ao longo das semanas seguintes comeara a comer um pouco mais. Presentemente, em dias como aquele, comiam como uma famlia, partilhando todos da mesma alimentao. 
Tal como uma famlia devia fazer.
     Uma famlia. Ela tambm gostava deste som.
     Relanceando os olhos atravs da janela, viu Taylor e Kyle  subirem o relvado em direo  arrecadao onde guardavam as canas de pesca. Observou o modo como 
Taylor pendurou a sua e depois a de Kyle. Este ps a caixa dos apetrechos no cho, l dentro, e Taylor afastou-a do caminho com a ponta da bota. Breves instantes 
depois, avanavam pelos degraus do alpendre.
     - Ol, mame, cumprimentou Kyle alegremente.
     - Pescaram alguma coisa? Quis ela saber.
     - No. Nenhum peixe.
     Como tudo na vida dela, a capacidade de discurso de Kyle progredira incrivelmente. No era, de modo nenhum, perfeita, Porm ia colmatando progressivamente a 
lacuna existente entre si e os colegas da escola. Mais importante ainda, era o fato de ela no se preocupar tanto com isso. Taylor beijou Denise enquanto Kyle desaparecia 
da cozinha.
     - Ento, onde est o pequenote? perguntou Taylor.
     Ela apontou com a cabea em direo a um canto do alpendre.
     - Ainda est a dormir.
     - No devia estar j acordado?
     - Mais uns minutinhos. Daqui a pouco h de ficar com fome.
     Aproximaram-se ambos do bero e Taylor curvou-se, examinando-o atentamente, uma coisa que ele fazia com freqncia, como se no acreditasse ter sido responsvel 
por ajudar a gerar uma nova vida. Estendeu a mo e, suavemente, passou-a pelos cabelos do filho. Com sete semanas quase ainda no os tinha.
     - Tem um ar to tranqilo, murmurou ele com um olhar de admirao.
     Denise ps a mo no ombro dele, esperando que um dia mais tarde o filho se parecesse com o pai.
     -  lindo!  Exclamou ela.
     Taylor olhou por cima do ombro para a mulher que amava, em seguida voltou-se para o beb. Inclinou-se ainda mais e pousou-lhe um beijo na testa.
- Ouviste isto, Mitch? A tua me acha que s lindo! Fim
